Foi o seu filho! |
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Sei não, viu? Às vezes, quando escuto certas coisas, acho que estou ficando louca. Que história é essa agora de dizer que a paz mundial depende de punições mais fortes para os menores infratores?
Sim, claro! Vamos enforcar todas essas crianças e adolescentes, e talvez assim a gente possa caminhar tranqüilamente nas ruas. Afinal, as leis resolvem tudo, não? É por isso que a gente não vê maiores de 18 anos cometendo crimes hediondos. Por isso que as cadeias estão vazias, e as cidades, seguras.
Já estou até ouvindo: “Ah, você fala isso porque ninguém da sua família foi assassinado barbaramente”. Realmente. Ninguém. E, com certeza, se meu filho tivesse sido arrastado por aquele carro, e não o João, eu sofreria e choraria muito mais do que já sofro e choro quando essa história me vem à cabeça.
Mas eu sou mãe. Posso até não saber o que aqueles pais estão sentindo, mas posso imaginar. E eu também tenho medo da violência urbana. Esta semana, pela primeira vez na vida, acordei durante a noite, amedrontada. Medo de estar aqui, no mundo. Medo de que aconteça algo comigo, com meu filho, com minha família.
No entanto, eu também sou cidadã. E não acredito que pequenos “ajustes” na sociedade vão resolver o problema. Gostaria muito de acreditar. Seria tão fácil. Acabar com a violência por decreto. Que maravilha! Quem não quer?
Só que isso é um delírio. Tenho náuseas só em ver histórias como a de João serem usadas para fins político-eleitoreiros ou para aumentar a audiência da televisão, como tem acontecido. Vocês não estão vendo? Pois vejam. E logo!
O problema não é falta de punição para menores infratores. O problema somos nós. Nós e a sociedade injusta e insana que nós criamos e mantemos todos os dias.
Uma sociedade baseada na ignorância, na ambição desenfreada, no dinheiro, na busca do poder, no medo, na vaidade, na baixa auto-estima, na injustiça, na violência como solução, na miséria, no sexo doentio e por aí vai.
Com tudo isso, o que a gente queria? Viver no paraíso? Vamos parar de nos fazer de doidos, por favor!
Uma lei, SE corretamente cumprida, pode até satisfazer o desejo de vingança – sentimento patológico, embora compreensível. Mas nunca vai resolver o problema.
Porque a culpa não é apenas dos menores infratores. A culpa é da falta de amor. Por si mesmo e pelos outros. Portanto, a culpa é nossa.
É até ridículo ver alguém dizendo: “Podia ter sido meu filho!”. Como assim? Mas foi o seu filho, meu caro! Foram nossos filhos. E as crianças e adolescentes criminosos também são nossos filhos. Todos estão sob nossa responsabilidade.
Não temos que mudar ou criar lei nenhuma. Temos que mudar é a nós mesmos. Só que é chato isso, né? Tão mais fácil alterar a legislação. Ô, chatura!
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