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Uma 'Viagem' ao Universo da Drogadição

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Valéria Maria Ramos Lopes
Psicóloga
Valdeci Gonçalves da Silva
Psicólogo e professor de Psicologia da UEPB.

“O vício é aquilo sobre o que precisamos mentir”(Giddens).

O crescente consumo de drogas lícitas e ilícitas, nas últimas décadas, é motivo de preocupação, não somente isolada dos pais de família aflitos com a drogadição dos filhos, mas, também dos governantes de muitos países. Ou seja, hoje essa temática consiste numa questão social séria, mesmo no continente europeu, onde países como a Holanda e a Suíça, as drogas ilícitas são descriminadas. Nunca, na história da humanidade se consumiu tanta droga como nos últimos tempos.

O tráfico já era global bem antes da proposta de globalização da economia mundial. A droga deixou de fazer parte apenas de grupos específicos, para transitar no meio de gente de todas as idades e níveis sociais. Segundo a reportagem “Geração Perigo” da revista Veja (09/09/89), “seis de cada dez jovens já usaram ou usam algum tipo de droga”.  Seja a adolescência inata ou “inventada” na segunda metade do século, na realidade o adolescer é uma fase transitória, caracterizada pela rebeldia e busca ou diferenciação de sua identidade. É notório que o jovem de hoje tem bem mais acesso às informações e as maravilhas da tecnologia, mas, em contra partida, está mais exposto à instabilidade de um momento histórico marcado pelas mudanças de paradigmas: reformulação de conceitos, de valores sociais e de meios de vida.

Assim, além da ameaça do espectro da AIDS, o adolescente vive na incerteza de sua inserção no mercado de trabalho. Este, bastante concorrido, lhe exige um elevado nível de qualificação profissional. Assim sendo, o vício certamente envolve outros aspectos mais sutis, porém, não menos relevantes da compreensão deste contexto atual que predispõe, mais ainda, o jovem ao consumo das drogas legais e, principalmente, as ilícitas.

É com esse olhar voltado para a drogadição e a dinâmica do adicto, que entrevistei Valéria Lopes, uma profissional com larga experiência em atendimento a adictos, em importantes clínicas do Sudeste do país. No momento, Valéria encontra-se engajada num projeto Federal do Ministério da Justiça, voltado para a questão da violência.

1) Professor Valdeci Silva – Em sua opinião quais os motivos mais frequentes que levam os jovens a consumir drogas?

Valéria Lopes – Esta não é uma questão que pode ser generalizada nem encerrada dentro desta ou aquela escola da psicologia. As causas da procura abrangem fatores internos do indivíduo e externos a ele, entendidos, os últimos, como estímulos passíveis de elaboração interna próprias do processo perceptivo-cognitivo. Também aqui cabe ressaltar que não estamos falando de pessoas usuárias ou dependentes, cujos motivos de uso já caberiam outra abordagem do assunto. Em se tratando de jovens inexperientes com relação às drogas, a procura desta, incide sobre a busca de prazer, o alívio de tensão, ansiedades, medos, sentimentos de solidão, de inadequação, falta de confiança, baixa auto-estima, sensações físicas desagradáveis e até mesmo pela curiosidade de saber sobre o desconhecido. Como causas externas, acrescento o mito social e individual sobre a droga; e a falta de informação necessária e adequada no processo de educação familiar e da escola. Como causas mais abrangentes observa-se_em nossa sociedade que um dos objetivos maiores a ser alcançado a “qualquer custo” é a felicidade. O problema é que desde cedo, as crianças têm um modelo de felicidade diretamente ligado ao consumismo: o que podemos comprar poderá nos trazer satisfação e felicidade. As drogas lícitas veiculam esse modelo através da propaganda. A crença de que “podemos comprar a felicidade” e de que “tristeza e solidão devem ser evitadas a qualquer preço” constituem o mesmo padrão de relação que os dependentes (consumidores) estabelecem com as drogas (produtos). Desta forma, o “prazer momentâneo” obtido com a droga e a imaturidade não favorecem maiores preocupações com os riscos.

2) Professor Valdeci Silva – Segundo a reportagem “As perversas pedras do pó”, de Elio Gaspari et al. (Veja, 04/05/94), nos usuários do crack sob o efeito da nóia (paranóia), têm alucinações dos tipos: policiais entrando pela janela do10o andar, baratas debaixo da pele, etc. Como você explica a necessidade de uma pessoa buscar tais efeitos?

Valéria Lopes – A pessoa não busca o desagradável da droga, mas sim o prazer que ela pode proporcionar. Porém, após instalada a dependência e face à tolerância, a pessoa passa a níveis de consumo cada vez mais elevados em busca das primeiras sensações e não mais as encontra. Já está dependente, escrava da droga, não mais suporta a abstinência e a droga passa a ser tão somente fuga dos sentimentos inerentes à condição humana.

3)Professor Valdeci Silva – É possível que muita gente use os termos adicto e usuário como sinônimo. Dá para você explicar melhor essa diferenciação?

Valéria Lopes – Sim. Na verdade o que os diferencia é tanto a quantidade utilizada como a frequência e a apresentação de determinados sintomas ou sinais.  Consideramos que o “Experimentador” é aquela pessoa que levada pela curiosidade prova a droga uma ou algumas vezes e em seguida perde o interesse em repetir a experiência. O “Usuário ocasional” é aquela pessoa que utiliza um ou vários tipos de drogas “quando disponível ou em ambiente favorável”, sem rupturas (distúrbios) afetivas, sociais ou profissionais. O “Usuário habitual” o que faz uso frequente, também sem ruptura nem perda de controle. E o adicto, propriamente dito, é o que faz uso de forma frequente e exagerada, apresentando rupturas em seus vínculos e que não consegue parar quando quer.

4) Professor Valdeci Silva – Você acredita que um jovem possa fazer uso de droga somente por influência de amigos sem que haja uma necessidade interna além da curiosidade?

Valéria Lopes – A curiosidade já pode passar a ser uma atraente para o jovem. Se o uso de drogas puder ser discutido de forma adequada à idade da criança ou do adolescente, vai deixar de ser algo secreto e misterioso, perdendo muito de seus atrativos. Além do mais o uso de drogas está intrinsecamente ligado ao estado emocional do usuário, suas expectativas em relação à droga, e o meio ambiente.

5) Professor Valdeci Silva – A droga ocupa que lugar na existência do adicto?

Valéria Lopes – Cada abordagem em psicologia tem com certeza uma visão própria do que seria o “produto” (sensação, sentimentos, figura simbólica, condicionamento, comportamento aprendido, etc.). Em minha opinião, a droga proporciona a ilusão de atender as necessidades individuais que concretamente o adicto não dispõe de meios ou não os percebe para satisfazê-los de outra forma.

6)Professor Valdeci Silva – Na sua etimologia, a palavra Droga significa, “mentira”, “embuste”, etc. Assim sendo, o psiquiatra e psicanalista argentino Eduardo Kalina (Drogas: terapia familiar e outros temas. Rio de Janeiro: F. Alves, 1991), diz que o drogadicto é um manipulador por excelência, e que uma das suas característica é a não aceitação de limites. Como é trabalhada esta questão?

Valéria Lopes – É verdade. O drogadicto possui acentuadas características de manipulação, imediatismo e não aceitação de limites ou grande dificuldade em aceitá-los, etc. Se em processo de internação a característica de não aceitação dos limites já é observada na própria filosofia de trabalho, que deve ser estruturada (atividades, posturas), visando trabalhar todas as dificuldades do adicto. As atividades sejam individuais ou coletivas, a psicoterapia, o vínculo necessário e apropriado com a equipe de profissionais, aliados ao fator da abstinência, facilitará e proporcionará a aceitação das próprias dificuldades e consequente mudança de atitude. Se em consultório, os meios se tornam mais precários para o “adicto” e para o psicoterapêuta. 

7) Professor Valdeci Silva – Segundo Kalina (idem), o drogadito para poder Ser têm que não Ser: e assim, o toxicômano faz um “pacto criminoso”, ou seja, ele satisfaz o desejo de sentir a morte como uma maneira de poder viver. Porém, quando já não pode sentir a morte ele se mata. Então a drogadição não seria ao invés de “um pedido de socorro”, um desejo suicida em potencial?

Valéria Lopes – O drogadito exibe sua incoerência no ditame vida-morte. A droga lhe confere um suporte propulsor que chama de “descarte de consciência”: “não pense; não reflita; não questione; apenas sinta prazer”. Instala-se a dependência. Acabou o prazer. O indivíduo não suporta a síndrome de abstinência. Busca de alívio da abstinência. Desejo potencial suicida? Acredito que não. Vítima? Sim. Não dá para subestimar as propriedades potenciais da droga. Negar isto é perigoso e contraditório, pois se corre o risco de minimizar a problemática do adicto e encerrá-lo num estereotipo. Com isto não se nega a existência de uma possível tendência suicida, mas é importante não antecipar um diagnóstico apenas porque alguém usa droga.

8) Professor Valdeci Silva –Em geral, como é a reação da família diante da descoberta da drogadição do filho?

Valéria Lopes – Em geral é preconceituosa e sofrida. Inicialmente, tende a se considerar falida e/ou a negar a existência do fato. Ambas as alternativas são pouco propícias à resolução do problema. Se já não é mais o momento da educação preventiva para com o adicto, que o seja de ajuda. A família exerce um papel preponderante na recuperação tanto de usuários como de adictos propriamente ditos. Não excluindo o apoio técnico-psicoterápico que a família precisa e deve receber.

9) Professor Valdeci Silva – A drogadição fere o narcisismo da família, no sentido de que, esse fato pode ser traduzido como um sintoma de incompetência ou negligência da mesma?

Valéria Lopes – Em algumas famílias sim, mas, na maioria não. Para isso a psicoterapia familiar em paralelo à recuperação do membro adicto é de suma importância. É difícil para a família tomar consciência da sua própria dinâmica e, ao tomar, se dispor à mudança.

10) Professor Valdeci Silva – No entender de Kalina (1991), na família do adicto de drogas se encontra com frequência a ausência de um pai firme. Gostaria que você comentasse o efeito da ausência paterna, em relação à drogadição?

Valéria Lopes – Em verdade nunca houve um aprofundamento maior desta questão, até mesmo pelos limites que a pesquisa científica impõe em termos de dados subjetivos. Mas, também é verdade que a maior parte dos adictos seja proveniente de famílias matriarcais, ou que suas mães tenham acentuadas características de domínio, manipulação e autoritarismo. O que não significa dizer que mães que tenham essas tendências comportamentais possuam filhos adictos.

11) Professor Valdeci Silva – Podemos afirmar que o uso da droga pelo jovem apresenta dois aspectos: uma predisposição advinda dos conflitos familiares e, um outro, da estimulação do meio social. Ou, ainda como diz Kalina (idem), a drogadição faz parte da predisposição de uma personalidade patológica?

Valéria Lopes – O professor Eduardo Kalina é um defensor do método psicanalítico e pessoa por quem tenho admiração e respeito. Porém, é no mínimo prudente não encerrar a questão da drogadição em qualquer escola psicológica. Acredito por experiência própria que um conhecimento diversificado em psicologia clínica venha a suprir melhor à “ótica” das necessidades adictas. Não existe reconhecimento de trabalhos isolados com sucesso. As melhores clínicas da América Latina se utilizam de conhecimentos variados e diferenciados na formação acadêmica de seus técnicos. Não há que se refutar esta ou aquela escola de psicologia, mas observar e aplicar os meios mais adequados à determinada fase da recuperação ou determinado aspecto da pessoa do adicto. Porém, quanto à personalidade patológica, é adequado lembrar que uma vez instalada a dependência, observar-se-á, inegavelmente, a contribuição do poder da droga mesmo para o usuário não patológico, porém curioso.

12) Professor Valdeci Silva – Em sua opinião quais os mitos que existem em relação às drogas e/ou sobre a pessoa do adicto?

Valéria Lopes – Os mitos sobre as drogas tanto atingem aspectos positivos quanto negativos. Enquanto que os mitos sobre o adicto são geralmente negativos. Quanto á droga, alguns lhe atribuem toda beleza, esperança, felicidade, sensação de potência, e principalmente poder. Outros lhe conferem o repúdio, a alienação, o medo, e o mal. E quanto aos mitos sobre a pessoa do adicto, geralmente tendem a conceituar de marginalidade e se filiar aos atos de criminalidade e algumas doenças. Por exemplo, todo drogado é capaz de cometer homicídio; todo aidético foi um drogado, etc.

13) Professor Valdeci Silva – No livro “Pensando a família no Brasil: da colônia à modernidade”, Tocqueville, citado por Sérvulo A. Figueira (1987), diz que, a sociedade de consumo e produção de massas não é hedonista, e sim, uma sociedade angustiada. O uso de droga pelos adolescentes, não seria uma forma de protesto desse modelo de sociedade que está posto, a denúncia de um sistema que não atende aos seus anseios?

Valéria Lopes – Como forma de protesto seria incoerente, já que se utiliza do mesmo modelo. Acredito que se evidencia a ineficácia do sistema, a incoerência de sua forma de apregoar a felicidade como um bem de consumo.

14) Professor Valdeci Silva – Quais os tipos de drogas mais consumidas atualmente no Brasil e no mundo?

Valéria Lopes – No Brasil o álcool etílico alcança níveis elevados de consumo, embora este fato e a licitude desta substância não venham excluir os sérios danos biológicos, sociais e psicológicos decorrentes do seu uso e inclusive abuso. Outras substâncias como tabaco (lícita), maconha, cocaína e derivados (ilícitas), inalantes ou solventes e drogas terapêuticas (medicamentos cujo uso é feito de forma indiscriminada) aparecem também no cenário nacional com índices de consumo perigoso. Em nível mundial, observada a diversidade cultural existente e as peculiaridades próprias de tendência de cada país incentivada pela licitude ou ilicitude de substâncias nocivas à vida; verifica-se, além do álcool, uma forte tendência ao consumo de cocaína (e derivados, geralmente nos países de 3o mundo), e uma crescente busca de drogas químicas (produzidas em laboratório) a exemplo do que corre na Europa e EUA.

15) Professor Valdeci Silva – O barateamento do crack através da transformação da pasta da cocaína, e seus efeitos imediatos (enquanto que a cocaína é absorvida apenas pela mucosa do nariz, o crack é absorvido por toda esponja pulmonar), tem contribuído para o consumo quase generalizado do crack, nos centros urbanos?

Valéria Lopes – Tanto o barateamento quanto à dependência rapidamente se instalam. Só gostaria de salientar que a forma aspirada não é a única maneira de se consumir cocaína; a injetada também é uma forma e os casos clínicos são mais difíceis de serem tratados do que a forma aspirada.

16) Professor Valdeci Silva – É possível identificar em qual camada social a droga deixa as marcas mais acentuadas do seu rastro de destruição?

Valéria Lopes – A droga tem seu poder de destruição independente de qualquer classe social. A diferença de percepção sobre as consequências de uso nas diferentes camadas sociais é que os mais abastados financeiramente se internam em clínicas ou fazem uso dentro da própria família, com o consentimento e manutenção desta. Movida desta forma, provavelmente pelo preconceito desse conhecimento vir a se tornar público, ao passo que as camadas menos favorecidas explicitam publicamente sua destruição: como a prostituição infantil, os meninos de rua, etc.

17)Professor Valdeci Silva – Existe uma relação entre os tipos de drogas e os diversos níveis de classe social?

Valéria Lopes – Já houve, hoje, estudos mostram que 45% dos meninos de rua da cidade de São Paulo são viciados em cocaína. Além disto, já tive pacientes de classe alta com dependência em inalantes (solventes), que são relativamente baratos. O que percebo aqui na Paraíba é uma relação estreita dos meninos de rua com a cola, provavelmente em virtude das suas condições financeiras ou da falta delas.

18) Professor Valdeci Silva – O consumo de droga é diferenciado quanto ao gênero?

Valéria Lopes – O que se vê no Brasil é que tratar o dependente masculino é mais aceitável pelo social, do que aceitar-se, o fato de que as mulheres também se drogam. Culturalmente se verifica uma maior tolerância em relação à dependência masculina do que feminina. Em processos de internação é claramente verificável uma maior procura para o sexo masculino. Os dados da predominância do gênero masculino podem ser infiéis, se o preconceito funcionar como inibidor da procura de ajuda pelas mulheres. Há de se observar que não são computados os medicamentos ingeridos pelas mulheres, mesmo a critério médico, em socorro às camufladas angústias e depressões, a título de exemplo, bem como, o modismo social em seguir um modelo de beleza padrão, que alcança índices recordes de venda de anfetaminas.

19) Professor Valdeci Silva – Na reportagem “Dos males, o menor”, de Carla Gullo et al. (Istoé, 25/02/98), ela diz que a Organização Mundial da Saúde (OMS) solicitou a uma equipe de 50 especialistas multidisciplinares do mundo todo um estudo sobre a planta Cannabis Sativa (maconha). Estes chegaram à conclusão de que a maconha é menos prejudicial à saúde do que o álcool. Como se explica o fato de que uma droga ilícita, menos prejudicial, possa ser discriminada em relação a uma outra, legal, que lhe supera em efeitos maléficos?

Valéria Lopes – A importância aqui deveria centrar-se no aspecto cultural da história do álcool e também contraditória da maconha somo substância “menos maléfica”. Sob que ponto de vista se considera uma “droga maléfica”? A maconha é uma droga que altera a percepção. É alucinógena e provoca distúrbios no funcionamento do cérebro, fazendo com que ele passe a trabalhar de forma desordenada, numa espécie de delírio. A maconha prejudica a atenção e a memória para fatos recentes, há a diminuição dos reflexos, aumentando os riscos de acidentes. Em altas doses, pode haver ansiedade intensa, pânico, quadro psicológico graves como a paranóia e seu uso contínuo podem levar a um desânimo generalizado. Acaso estes sintomas ficam superados pela cirrose e atrofia cerebral? Por quê? Por que são “palpáveis”? Não é uma ótica justa para quem se tornou dependente de qualquer uma delas, nem para suas famílias, nem para o psicólogo que trabalha a dependência do seu cliente e não a droga que ele usa (observado o necessário à compreensão de determinados aspectos). Há alguns anos o álcool e o cigarro comum (tabaco) não eram considerados como drogas. Hoje já não mais se aceita a ligação do seu consumo como percepções visuais inverídicas. Como também se educa e se previne seu uso. Atualmente a população mundial não fuma como se fumava, em termos quantitativos, há dez anos atrás. O que eu quero dizer com isso? Que já não é mais tempo para se discutir a legalidade do álcool, de nada ou pouco serviria para seus dependentes. Também não serviria como inibidor de consumo, quanto ao aspecto da sua repressão. É próprio no momento falarmos de coerência, mas não vamos nos perder na incoerência do “menos nocivo para a saúde”.

20) Professor Valdeci Silva – Os chineses, no ano 2730 a. C. usavam a maconha contra reumatismo, como cicatrizante e para infecções na pele. Atualmente se sabe que a maconha ameniza náuseas e crises de vômitos nos pacientes de câncer; diminui sintomas e melhora o apetite dos pacientes com AIDS. Como você analisa o fato da maconha não ser usada com fins terapêuticos?

Valéria Lopes – Eu acredito que para a maconha se revestir dos seus fins terapêuticos com fidelidade e exclusividade a algumas afeções humanas, levará algum tempo não só com a questão legal, mas principalmente cultural.

21) Professor Valdeci Silva – Em que se diferencia o atendimento do adicto em comparação com o atendimento do cliente em consultório particular?

Valéria Lopes – Eu acredito que todo profissional de responsabilidade, com conhecimento sobre toxicomania e sobre a necessidade de uma intervenção multidisciplinar, saberá diferenciar a condição de adicto de outros tipos de clientes, no tocante a postura do terapeuta, no processo de intervenção individual e/ou familiar, quando esta for o cliente. O psicólogo atuante em Cs.Ts. (Comunidades Terapêuticas), por exemplo, não pode se “comportar” com a postura de consultório. O ambiente de tratamento nas Cs. Ts., também é terapêutico, porém não pode inferir postura psicoterápica de consultório durante o convívio diário com os comunitários. A postura adequada a estes ambientes exige do psicólogo uma flexibilidade atitudinal e uma maturidade emocional. O paciente adicto em consultório deve passar por uma “avaliação de tratamento” para que o psicólogo possa melhor observar, de acordo com o caso qual o tipo de intervenção mais apropriada: tratamento médico, terapias cognitivas e comportamentais; psicoterapias. Grupos de auto-ajuda (A. A., N. A), comunidades terapêuticas, processo ambulatorial, etc. É importante que o psicólogo seja conhecedor do assunto para melhor adequar ou encaminhar o tratamento do adicto. Há que se reconhecer que o adicto difere em larga escala do cliente sem dependência e por isso não há de ser “enquadrado” nas limitações do terapeuta, no sentido de lhe ser inferido determinado processo psicoterápico apenas pela condição de psicólogo atuante.

22) Professor Valdeci Silva – Nas clínicas que você trabalhou em São Paulo, as excelentes estruturas ambientais das mesmas correspondia ao nível de qualificação do corpo técnico?

Valéria Lopes – Você mesmo Valdeci teve a oportunidade de conhecer uma C.T (Comunidade Terapêutica) em .../SP onde fizestes teu estágio. Como você pode vivenciar, a estrutura física adequada tem sua importância, principalmente em propostas de internação. Quanto ao nível de qualificação do corpo técnico, gostaria de salientar que não tem muita correspondência com a estrutura física. Alguns profissionais necessitam de maior flexibilidade atitudinal e uma maior abrangência de seus conhecimentos que não sejam aprisionados na visão de uma única abordagem sobre o tema.

23) Professor Valdeci Silva – Você considera que as faculdades capacitam o profissional de psicologia para o atendimento a adictos?

Valéria Lopes – Acredito que exista boa vontade das faculdades como, também hoje, uma atuação maior do Brasil na área educacional neste aspecto, desde que assumiu, em junho de 1998, a adesão ao princípio da responsabilidade compartilhada entre os Estados – membros das Nações Unidas. Com isto, o campo educacional, atingirá profissionais, familiares e educadores na luta contra as drogas. Porém, hoje, a capacitação profissional nesta área, ainda é exclusiva das grandes instituições de internação, que realmente proporcionam e viabilizam um tratamento condizente a esta problemática.

24) Professor Valdeci Silva – Considerando que a droga se sustenta numa “ponte” mantida de um lado, pelo adicto e; do outro lado, pelo traficante, assim sendo, o investimento de recursos voltados mais para a repressão do tráfico é suficiente para quebrar a cadeia de circulação e manutenção das drogas?

Valéria Lopes – Não. Já foi crença que a repressão seria o meio mais eficaz. Hoje, há uma maior maturidade na abordagem deste problema. O próprio Governo Federal, já lança campanhas de tratamento e prevenção. Vários órgãos governamentais têm projetos em todo o país, de combate ao tráfico, tratamento de dependentes e prevenção nas escolas e bairros periféricos.

25) Professor Valdeci Silva – Como você analisa as campanhas do Governo Federal veiculadas na mídia?

Valéria Lopes – Após anos propagando a falsa felicidade, a síndrome de Popeye e a liberdade ilusória, a mídia abre suas portas para o contraditório. Refiro-me a mudança do estilo da propaganda quando mostra, hoje, o efeito danoso do produto. Já é um começo.

26) Professor Valdeci Silva – Para Kalina em “Os deuses e as drogas”, entrevista concedida a Valéria Propato (Istoé, 11/12/96), assim como o álcool o vício da cocaína não tem cura. Isto seria então uma deficiência dos métodos de tratamento que não funcionam 100%?

Valéria Lopes – Eu particularmente não acredito que não tenha cura. Conheço vários membros do A. A. que estão abstinentes e socialmente adaptados há muitos anos. Conheço também outros, de nível econômico muito baixo que estão desempregados há alguns anos e mantêm-se abstinentes. Afirmar que a cocaína e álcool não têm cura é negar a história confirmada de muitos ex drogadictos. Se você me pergunta se o adicto será sempre um vigilante de si mesmo, lhe direi que sim, mas é como o hipertenso que necessita se auto-educar, saber o que pode e o que não, o que é favorável para seu quadro. Quando me referi ao adicto como diferenciado falava não só dele, mas também da postura do profissional e da própria psicologia. À construção de um projeto de vida pelo dependente não se exclui suas limitações e aceitação de uma mudança atitudinal; mas também não lhe cabem rótulos sociais ou estereótipos. 

27) Professor Valdeci Silva – Finalmente, como a sociedade pode atuar de maneira preventiva em relação ao uso de droga?

Valéria Lopes – Como sociedade vou incluir o papel dos pais, da escola e do governo na luta preventiva contra o uso de drogas. A prevenção começa em casa, com os pais superando o próprio preconceito ou mito sobre a temática e dialogando com seus filhos sempre que necessário se faça. O momento geralmente surge através das indagações das crianças ou jovens e deve ser assistido pelos pais de uma forma simples, direta e sempre verdadeira, respeitando o nível de compreensão deles. Devem evitar passar uma ideia unilateral sobre a droga e evitar também formas aterrorizadoras e sensacionalistas. Os pais devem observar, na interação com seus filhos, que eles necessitam, em seu processo de desenvolvimento, aprenderem a “dizer não”, a “colocar limites”, conviver com limites, a ter também disciplina, e que, as atitudes coerentes dos pais consistem numa forma mais eficaz de aprendizagem. À escola cabe o seguimento da educação familiar. Em muito vem ajudar à prevenção à medida que melhor esboça a questão disciplinar, que em muito virá ajudar o jovem de amanhã. Quanto ao governo, este vem atuando compromissadamente, através da Secretaria Nacional Anti-drogas. Esta tem realizado, no âmbito de prevenção, fórum, seminários, debates, treinamentos profissionalizantes em todo o país, com fundos geridos pelo confisco dos bens relacionados ao tráfico ilícito de entorpecentes, conforme a Lei. Pelo compromisso do Brasil, com os Estados membros das Nações Unidas, a temática em questão veio a ser favorecida com a criação de secretarias, Conselhos e Projetos em todos os Estados da Federação. Hoje, vemos a prevenção como um aspecto fundamental nos trabalhos sociais contra o uso de substâncias nocivas. Esta vem motivar e retratar um avanço cultural na abordagem da droga. A psicologia tem saído do consultório e inferido trabalhos sociais de alta relevância para o momento em que vivemos. Enfim, apesar de nos encontrarmos engatinhando no processo de domínio de assistência ao adicto, não podemos deixar de reconhecer alguns avanços, inclusive culturais que norteiam esta temática.

Entrevista concedida pela psicóloga Valéria Maria Ramos Lopes, 37 anos, sobre o universo dos adictos de drogas, ao também psicólogo e professor do Departamento de Psicologia da UEPB Valdeci Gonçalves da Silva, em Julho de 2000.
Livro do Autor Valdeci Golançalves

 

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