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De gramáticas e dicionários

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Cultura Por Philio Terzakis Assinar feed do autor
pterzakis@yahoo.com

Pelo menos uma vez por semestre, aparece um aluno todo lampeiro para me mostrar sua mais nova aquisição: um dicionário ou uma gramática da língua francesa. Ansiosos, eles sempre me perguntam:

- É bom? É boa?

Tento responder da melhor forma possível, porque é verdade que existem gramáticas e dicionários melhores que outros. Mas o que chama a minha atenção é que, até hoje, pouquíssimos alunos vieram me mostrar o livro ou o filme em língua francesa que eles acabaram de comprar, ler ou assistir.

Culpa dos alunos? Um pouco, talvez. Mas acho que a culpa maior é da escola, que insiste em mostrar que a gramática e o dicionário são as peças-chaves para o aprendizado de uma língua (materna ou estrangeira). Sem falar nos famosos “métodos” de idiomas, que muitos professores seguem como se fosse uma bíblia, e não apenas um roteiro a ser discutido.

É inacreditável a docilidade dos alunos na hora de fazer listas e mais listas de exercícios gramaticais (muitas vezes, sem o menor sentido) e a avidez para descobrir o significado de uma palavra (para nunca mais pensar nela).

É igualmente inacreditável a resistência deles na hora de elaborar a própria fala ou de ler e interpretar um texto um pouco mais longo.

- Ah, não, professora!!!... – é o que escuto com freqüência.

Ainda me lembro do aborrecimento de uns alunos no dia em que levei para a sala um poema em francês e sugeri sua discussão. Por sua vez, os filmes e outros documentos visuais provocam mais ansiedade e preocupação do que prazer e desafio.

Até parece que todos estão ali para dar respostas (gramaticais) corretas e elaborar uma lista das palavras mais difíceis da língua francesa. No entanto, parece óbvio que a gente procura um curso de língua estrangeira para aprender a falar, entender, ler e escrever no bendito idioma. Ou não?

No entanto, a escola (ela mais uma vez) nos ensina que estudo sério mesmo é o da gramática e o do dicionário. O resto é perda de tempo. Ou, como diriam os franceses, uma “prise de tête à deux francs” (preocupação por nada). Importante é ficar ali, caladinho, escutando o professor falar durante no mínimo uma hora e meia (até três, para os cursos intensivos) e tentando dar respostas corretas – SE, por acaso, for consultado pelo mestre.

Ao final de um ou dois anos de estudo, o que se vê são alunos decepcionados porque dominam pouquíssimo a língua que começaram a estudar há tanto tempo. Ah, e tem o tão famoso tempo!...

- Em quanto tempo a senhora acha que a pessoa aprende a falar?

Como se aprender uma língua fosse apenas uma questão de tempo. E gramática. E dicionário. E não de amor, de prazer, de vontade, de reflexão, de esforço e, obviamente, de muita leitura, de muita escrita e de muita conversa.

Culpa dos alunos? Mais uma vez não. Melhor até nem pensar em culpa, mas em certas práticas de ensino que podem e devem ser repensadas e transformadas. O pontapé inicial cabe a nós, professores. Ah, oui!

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