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Baleia Não É Gente (Vidas Secas)

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Vidas Secas (Graciliano Ramos) é história nada rocambolesca tampouco repleta de nomes ou ações. Não. Trata-se da vida de uma família de retirantes, quatro pessoas e uma cadela, durante cerca de doze meses, indo de uma estiagem a outra. Estão no nordeste. E eis um romance regionalista moderno.

Narrativa linear onde prevalece a animalização dos personagens, principalmente Fabiano. Homem rude, embrutecido pelo meio. São treze capítulos formando um enredo, digamos, cíclico : “Mudança” é o nome do primeiro, e “Fuga”, o último.

A família parte, durante o verão, rumo a um lugar menos inóspito. Encontram uma casa de fazenda, acabam ficando. Na volta das chuvas, chega o Patrão que os deixa ficar. A vida da família melhora, e Fabiano se torna um vaqueiro.

Baleia é a figura sensível do romance. Sonha, irrita-se, lidera o gado para a fonte e é ponto de referência para os meninos, principalmente o mais velho, tratado no livro como “mais velho” mesmo.

Repare na postura de Fabiano, como é embrutecida pela circunstância da indústria da seca :

“Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrependeu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a mulher. Sinhá Vitória mandou os meninos para o banheiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de Sinhá Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros.

Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arranjar carta de alforria!

O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro fosse procurar serviço noutra fazenda.

Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era preciso barulho não. Se havia dito palavra à-toa pedia desculpa. Era bruto, não fora ensinado. (...)”

IlustraçãoVeja a importância do cenário, árido, amarelado como o Soldado, personificação clara da ditadura varguista. O ambiente é o outro personagem.

O capítulo “Inverno” retrata a complexidade que era o ato da comunicação. A família em volta do fogo, Fabiano contando vantagens, aventuras passadas, irritando a própria cachorra, assim como o filho mais velho.

As figuras da família, incluindo Baleia, a cachorra, têm sonhos que são quase impossíveis, como tornar-se vaqueiro, comer preás gigantes ou possuir terra própria... já Sinhá Vitória é aquela que apresenta o sonho mais próximo da realidade, uma cama de couro. Um sonho perto do chão...

Claro que ninguém consegue seu sonho, talvez Fabiano, ao final, tenha vislumbrado alguma esperança, indo para o sul. Antes disso, percebe-se a humildade subserviente à lei, no episódio do reencontro com o Soldado Amarelo. À lei ou à aparência dela. Fabiano deixa o Amarelo partir, frustrando o mais ingênuo dos leitores. Há quem afirme ser esta cena o nítido exemplo da necessidade de uma luta de classes... armada. A ideia até não era má, para a época.

Dois são os capítulos poéticos : “Baleia” e “O Mundo Coberto de Penas”. No primeiro descreve-se o delírio da cachorra, paradoxos, medos, enfim, sensações atribuídas sempre a pessoas, dando tom fabuloso à situação. No segundo, Fabiano praticamente transparece querer matar a seca a bala, atirando nas aves que, segundo ele mesmo, estariam consumindo muito a água do bebedouro.

Fabiano quer escola, quer se comunicar, mas é um produto do meio, como quer deixar claro o narrador.

Gosto muito do livro porque a linguagem é direta e sem “rocamboles”. A vida passada no livro com força de documentário. Trata-se de tiro certeiro no meio do coronelismo da época.

Discurso indireto livre, capítulos quase interdependentes, economia vocabular e precisão no trato com os pronomes. Modernismo em tom político-social. Melhor que isso só Rita Louceira e cachaça do Inácio. Sem água.

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