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O Caminhão de Gás e o Cão

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Contos Por afonso jose santana Assinar feed do autor
afonsojsantana@ig.com.br

O CAMINHÃO DE GÁS E O CÃO

Cada vez que o caminhão, carregado com botijões de gás, passava perto de casa, tocando uma melodia [ballade pour adeline, uma melodia muito agradável de se ouvir] eu percebia que os cães da rua começavam a ladrar, pois, como é óbvio, o som lhes chamava a atenção. Eram latidos graves, outros agudos, e um sempre me chamava a atenção: parecia o uivo de um lobo [AUUuuuuu....AUUuuuuuu!...] A princípio me achei atormentado por aquele barulho, diferente, estranho. Mas, acho que por isso mesmo, me chamou a atenção com o passar do tempo... e eu fui me acostumando com o seu uivar. Parecia que eu me identificava com ele, mesmo sem conhecê-lo, apesar de morar a poucos metros de casa.
Cada vez que aquele caminhão estava chegando, mesmo longe, já se percebia a melodia [uma melodia agradável, que não agride os ouvidos] eu imaginava que dalí a pouco aquele cão começaria a uivar, um uivo manso, sereno, não era como o latido barulhento dos outros cães, parecia um uivo solitário, melancólico e triste [acho que por isso me identifiquei com ele]. Mas eu nunca ví esse cão. Ele ficava numa casa que era totalmente fechada por muros e por um portão de madeira, de forma que não dava pra ver nem como era a fachada da casa. Parecia uma fortaleza.

Certo dia, porém, o caminhão de gás passou e como sempre os cães ladravam. Lembrei-me logo dele, por ser diferente o seu latido. Mas eu não o ouví uivar. Um outro dia o caminhão passou novamente e de novo, em meio ao barulhento ganido dos cães, não o ouvi uivar. Por curiosidade, outro dia fui bater àquela casa [que é isso que estou fazendo? Estou maluco? O que irei perguntar... sobre o cão? Que tolice!]

- Ah, o meu cão! Sabe, moço ele já estava velho, muito velho. Nos últimos tempos ele já nem levantava mais, só uivava... ah, e sempre quando passava o caminhão de gás! Ele... ele morreu! - minha garganta engasgou

- Meu querido e velho amigo Bob – disse, pesarosamente, com o olhar vago como a procurá-lo em algum lugar. Eles pareciam se identificar.

Sem palavras, sem conseguir pronunciar qualquer coisa, simplesmente batí carinhosa e solidariamente nos ombros daquele senhor, que mal conhecia como a compartilhar a dor com ele. Foi como se chorássemos juntos por dentro. Sem conseguir balbuciar palavra alguma, saí, e ele entendeu por que não consegui dizer-lhe nada. Sentiu que eu também estava triste. Por que não fui conhecer aquele cão antes, que era diferente dos demais, talvez nos tornássemos amigos... não, não, se o tivesse conhecido talvez estivesse sofrendo mais ainda por termos sido amigos. Ficariam lembranças que me marcariam ainda mais. Não sei que cor era o cão, sua raça, o tamanho, enfim...
Só guardei o seu uivo, que melancólico e triste ecoava pela rua e vinha até meus ouvidos, como que querendo dizer algo ou apenas acompanhar o ladrar dos outros cães. Mas um ladrar que se destacava dos demais.

Às vezes quando o caminhão de gás passa pela minha rua, logo me vem a lembrança, então tapo os ouvidos, talvez por que eu queira que seu uivo ainda continue vivo nos meus ouvidos, na minha mente.

Nota: este cão ainda existe, mora quase em frente à minha casa... Mas ele está vivo... bem vivo! Essa história é só uma ficção
:]

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