Usuário    Senha 
|     

O Pensamento

Imprimir E-mail
Poesia Por Suzana Siniscalco Assinar feed do autor
silvanasiniscalco@algosobre.com.br

Deitei-me. E o pensamento se lançou sob minha cabeça. Tolo, inócuo. Cheguei até a rir, não dei ouvidos e prossegui minha rotina noturna, apanhando um livro. Ele persistiu, rondando-me, desconcentrando-me. Fechei o livro, imaginando que deveria ser algum sintoma de estress, e talvez uma boa noite de sono o apaguizaria.

Engano.

A calada da madrugada deu-lhe força, autonomia. Não era mais um pensamento, mas alguém que me beliscava e puxava os lençóis, perturbando-me com frases sem sentido: "você também é responsável pela miséria humana. O que significaria isto? Como posso ser responsável por coisa de tal proporção? Se me dissesse que talvez eu fosse responsável pela falta de dinheiro de minha família. Não, de fato nunca tive vocação para socialista. Isto estava com cara de um novo slogan da mídia. Aonde li algo parecido? Não me recordo, mas decerto algum comunista provido das piores intenções invadira os bastidores da comunicação e introduzira microfilmes entre os intervalos comerciais de TV; desses que são invisíveis aos olhos mas atuam diretamente no cérebro. Como é que eu, um homem comum, de renda mediana, que suo a camisa para pagar a educação de meus filhos poderia ter responsabilidade em tal quadro social? Justo eu, que não possuo cargo público, não tenho imóvel, pago aluguel e não viajo ao exterior. Sou cidadão no qual o sociólogo enquadraria em sua definição não tão triste e tão pouco feliz de classe média. Sim, aquele que respira, pero no mucho, que come, mas não do melhor. Classe média, sim, porém achatada, espremida, encurralada, e que dizem em extinção. Se tal responsabilidade existe, são dos ricos, dos políticos.

Apesar de toda retórica de defesa, o pensamento não deu ouvidos e indiferente suscitava outras cadeias de pensamentos. Assim foi a madrugada e outras madrugadas se foram. Os dias eram comuns, o trabalho rotineiro, porém com alguma diferença. Um peso a mais sobre as sobrancelhas, novas e pequeninas rugas. Algumas horas lendo os jornais, outras dedicada a inflamados discursos em frente ao espelho. Discursos políticos? Não. Apenas deixava que Ele tomasse a palavra, o pensamento inicial com sua cadeia de seguidores. Falava para os ouvintes, que em vários ângulos, era a minha própria imagem.

Seu discurso insistia na necessidade de desacostumas os olhos tão acostumados a ver a miséria alheia como um fato normal, cotidiano. Como poderia ser natural e não causar nenhum espanto ver pessoas amontoadas qual bichos embaixo de viadutos? Como, num futuro tão avançado, na Era dos avanços tecnológicos ainda existam pessoas que morram de frio ou de fome? Disseram, os historiadores que a humanidade está na idade contemporânea. Mas o homem não se diferencia de um animal porque vive ainda no padrão de competição e ainda não aprendeu que é responsável por seu semelhante. E os meios de comunicação? Que teriam algum poder de fazer as pessoas refletirem estão mais preocupados com a audiência e a propaganda, divulgam, basicamente, valores consumista valorizando o ter, e pouco se importando com o ser. Os políticos então, nem se comenta. São e exemplo puro do egoísmo humano quando, chamados a um cargo público roubam o dinheiro da sociedade. Mas se desde que o mundo dos homens se organiza em sociedades existem dirigentes, lideres, reis e políticos contaminados pela a corrupção, não se pode, na atualidade culpar um ou outro homem pela miséria e má distribuição de renda. Um político que rouba, é certamente responsável por essas agruras humanas, mas o problema real consiste na semente de corrupção e egoísmo existente em cada homem. Porque, quase sempre os indivíduos que tem poder sobre uma nação geralmente o beneficia para si próprio. Serão eles maus? E o povo sofredor e trabalhador por sua vez é bonzinho? Este povo, na condição de governo seria menos egoísta? Pensaria mais nos outros do que em si? Certamente não. Por isso sou um Pensamento, isento de qualquer defeito ou qualidade, e me introduzo, qual vírus, na consciência das pessoas, lembrando o homem de sua responsabilidade por seu semelhante, e a primeira coisa que se pode fazer pelo próximo e fazer por si mesmo: olhar-se no espelho e ver quantas qualidades e defeitos possui. Perceber o quanto carrega dentro de si essa semente animal de egoísmo. De fato, só peço que cada um olhe dentro de si, e procure o melhor de si. Responsabilidade por um mundo mais digno, todo mundo tem. Uns tem mais possibilidade de agir do que outros, mas todos podem fazer por melhorar. Reformar o mundo é coisa muito grande para um só, reformar si mesmo não. E cada um se melhorando, há de se refletir num mundo melhor.

Minha vida? Alguma coisa mudou sim, após essas virose pensamental, como costumei chamar. Posso dizer até que melhorou. Mas o mundo, este não. Sempre com muita miséria, muita violência.

Comentários (0)add comment

Escreva seu comentário
menor | maior

busy

Salvar no:

Reddit!Del.icio.us!Google!Live!Technorati!Furl!Yahoo!


 
< Anterior   Próximo >