Odas Heterodaxas de chankecham
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Poesia
Por Francisco Barros Cascalhar  chankecham@teleline.es
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A um mirlo de bico dourado
Quando eu era um
menino,alà polos anos
da fame,moitos èramos os
que pilhando fruta achàvamos
o jeito de sobreviver.Lembro
que dumha feita no tempo das
cereijas trepei a umha cerdeira
dessas que dava inveja sô de olhar.
Preciado fruto que o Criador regala
a certos povos quiças sem o merecer!
Mas o bom Deus nâo repara nestas
cousas e o certo è que alì eu estava
a cavalo dumha ponla enchendo o
papo e saboreando o mais preciado
fruto dos verdes campos da minha
terra.Comì atè fartar e logo descì
para tumbar-me a sombra dum
castinheiro que alì perto
dava abrigo a quem dele precisara.
Estava jà adormecido quando ecoou
nos meus ouvidos o canto sublime
dum mirlo glutâo de bico dourado
que mentres peteirava-sibarita que
era-as melhores cereijas que a rica
cerdeira conservava-e nâo era por
telas eu indultado e sim por que
estavam altas demais para mim.
Foi entâo quando umha voz
misteriosa e distante,começou
a soar na minha oca cachola,
como se cousa de outro mundo
se tratara e dizia assim de
grave:Escuta e aprende. Viver
nâo è sô encher o buche.
Tambèm è cantar e
espalhar felicidade.Repara
no mirlo.Ele come e feliz canta
e tu eres ditoso ouvindo e teu
coraçâo enche-se de alegria e
de paz impossivel de mercar.
Imitao e seràs feliz como ele.
Canta sempre sem nada em
troques pedir glorificando
o amor e a justiça.Que teu
peito seja um cofre repleto
de boas obras e piadosos
sentimentos! Logo a voz
misteriosa emudeceu e o
mirlo glutôm jà farto de
comer e cantar perdeu-se
entre umha moita de silvas.
Hoje-tantos anos
jà passados-medito
no assunto e nâo
deixo de admirar-me
do tal sucesso.Nâo
tem dùvida que um espiritu
benigno amim ali acudiu e
trocou para todo o sempre
e para o bem aquela minha
esteril e inutil vida.
Desde entâo vivo para
cantar e loar a esse sopro
divino que me inspirou,musa
feiticeira ou fada bela que
meu peito transformou num
templo de amor e bondade
donde egoismo foi vedado
e vaidade desterrada.
A um pastor
Quisse um dia eu ser
pastor de nuvens e por falta
de pompa e boato
foi-me tal poder denegado.
Nâo me conformei com esta
decisâo e armando-me de
coragem e teimosia fez-me
com um pequeno rebanho
de tercas ilusâos que logo
como num conto de fadas
se multiplicou de tal jeito
que era impossivel de as contar,
e isso porque voraces pastabam
e a fartar nas infindas pradeiras
donde viçosas inçavam todas as
minhas esperanças dum mundo
feliz de paz justiça e amor.
E quando de beber se
tratava,a sua sede saciavam
livando as perfumadas àguas que
manam do suor morno das honradas
gentes que neste incerto munda hà.
Porende,um infeliz dia.Oh destino!
a minha boa estrela fugiu
para sempre e velo aquì
o que ficou de aquel empòrio
tâo grandioso como humana
mente jamais imaginou,
a nôm ser em sonhos.
Um bàculo do qual pendura
umha cabaça cheia dum elixir
tâo prodigioso que as minhas
coitas e servidumes de senectude,
graças a Deus, vai mitigando.
Odas Heterodoxas
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