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Primeiro de Janeiro

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Poesia Por Suzana Siniscalco Assinar feed do autor
silvanasiniscalco@algosobre.com.br

Na gaveta, amontoavam-se caixinhas com brincos, fivelas, sombras, batons. A mão com dedos longos e unhas vermelhas tateava rapidamente os objetos, na busca de um ornamento. Na pressa, tirou da gaveta uma escova e pôs-se a alisar os longos cabelos escuros que lhe caíam sobre os ombros. Em cima da pia, acumulavam-se rolinhos de algodão embebidos de maquiagem. No chão, um cílio postiço, alguns sapatos virados de ponta cabeça. Olhou-os. E vieram à lembrança palavras de sua avó: "Sapatos virados são sinais de mau presságio". Um olho no chão, outro no relógio. Vinte e três e trinta. "Nossa, vou me atrasar!"

Voltou-se ao espelho, fez uma careta e pegou outro maço de algodão, embebeu-o com o creme e tirou a maquiagem. Foi novamente à gaveta em busca do pó de arroz, blush e sombras. Pintou-se e mais uma vez apagou seu rosto, jogando novos rolinhos de algodão sobre a pia. E concluiu: " Ano novo, cara limpa".

Correu para o quarto. Em cima da cama, uma pilha de vestidos. Onde está o branco? No ano anterior não usara branco e deu no que deu. Não poderia arriscar. O branco? Onde está o branco? E vestidos de todas as cores saíram voando da cama para o chão. "Santíssima! Beijo seus pés mil vezes, mas me ajude a achar o branco". Fitou a moça a imagem da santa que a espiava do corredor. Encontrou-o finalmente, esmagado entre os outros vestidos. Convinha passá-lo, mas não havia tempo. Só tinha tempo de vestir a calcinha cor de rosa e sair. Voltou-se ä imagem: "Obrigada santinha, pro ano lhe beijo os pés". E saiu.

A praia estava lotada. As velas, na areia, enalteciam a noite escura espessa pôr algumas nuvens. A brancura das ondas luzia qual vaga-lume na escuridão, junto com as pequeninas tochas que se estendiam por toda a praia. Ressaltava-se também o branco da maioria das pessoas que iam chegando e se amontoando.

Uma voz se impôs na multidão:

- Faltam dez!

E fogos de artifícios transpassavam o céu prometendo esperança a milhares de olhos que os vislumbravam.

- Faltam nove!

A multidão aclamou junta... naquele momento todos eram apenas um.

- Faltam oito!

E não existiam mais negros ou brancos, ricos ou pobres, prostitutas ou cafetões.

- Faltam sete!

Não tinha mais importância se o santo evocado naquele momento era Iemanjá, Buda ou Jesus Cristo. A divindade presente olhava por todos e não tinha nome.

- Seis!

Acabaram-se as desavenças familiares, a implicância dos patrões, o lamento dos enfermos, as disputas de classe.

- Cinco!

Delinqüentes e policiais lado a lado sem serem inimigos.

- Quatro!

Estrelas simuladas. Cachoeiras encantadas jorravam fartas sua água na cabeça de milhares. Abraço aos companheiros, amigos do peito ou não.

- Três!

Um adeus enorme, maior do que cabia na praia de Copacabana.

- Dois!

Quando a multidão canta a mesma música, nas entrelinhas da melodia se ouve um grito sufocado: "paz, paz, paz" - de todos os homens que convivem diariamente na guerra do dia-a-dia.

- Um!

E uma única voz ecoava pelo Brasil inteiro: " Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer..."

Estourados os rojões, o homem tornou a ser policial na busca do outro que voltou a ser bandido. Os deuses, inúmeros, ganharam nome e status social. O pobre voltou a ser mais pobre, enquanto o rico ficou mais rico. O patrão voltou a ser ordinário e o presidente é novamente corrupto.

E cabe ao lixeiro, no dia seguinte, recolher as velas, latinhas de cerveja e os sonhos enterrados nas praias brasileiras.

Em casa, havia uma gaveta cheia de quinquilharias. Em cima da pia, a desordem dos rolinhos de algodão embebidos com maquiagem. No quarto, vestidos esparramados pelo chão esperavam ser guardados. E a imagem da santa, paciente, aguardando os mil beijinhos em seus pés.

A folhinha marcava mais um primeiro de janeiro.

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