Primeiro de Janeiro |
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Voltou-se ao espelho, fez uma careta e pegou outro maço de algodão, embebeu-o com o creme e tirou a maquiagem. Foi novamente à gaveta em busca do pó de arroz, blush e sombras. Pintou-se e mais uma vez apagou seu rosto, jogando novos rolinhos de algodão sobre a pia. E concluiu: " Ano novo, cara limpa".
Correu para o quarto. Em cima da cama, uma pilha de vestidos. Onde está o branco? No ano anterior não usara branco e deu no que deu. Não poderia arriscar. O branco? Onde está o branco? E vestidos de todas as cores saíram voando da cama para o chão. "Santíssima! Beijo seus pés mil vezes, mas me ajude a achar o branco". Fitou a moça a imagem da santa que a espiava do corredor. Encontrou-o finalmente, esmagado entre os outros vestidos. Convinha passá-lo, mas não havia tempo. Só tinha tempo de vestir a calcinha cor de rosa e sair. Voltou-se ä imagem: "Obrigada santinha, pro ano lhe beijo os pés". E saiu.
A praia estava lotada. As velas, na areia, enalteciam a noite escura espessa pôr algumas nuvens. A brancura das ondas luzia qual vaga-lume na escuridão, junto com as pequeninas tochas que se estendiam por toda a praia. Ressaltava-se também o branco da maioria das pessoas que iam chegando e se amontoando.
Uma voz se impôs na multidão:
- Faltam dez!
E fogos de artifícios transpassavam o céu prometendo esperança a milhares de olhos que os vislumbravam.
- Faltam nove!
A multidão aclamou junta... naquele momento todos eram apenas um.
- Faltam oito!
E não existiam mais negros ou brancos, ricos ou pobres, prostitutas ou cafetões.
- Faltam sete!
Não tinha mais importância se o santo evocado naquele momento era Iemanjá, Buda ou Jesus Cristo. A divindade presente olhava por todos e não tinha nome.
- Seis!
Acabaram-se as desavenças familiares, a implicância dos patrões, o lamento dos enfermos, as disputas de classe.
- Cinco!
Delinqüentes e policiais lado a lado sem serem inimigos.
- Quatro!
Estrelas simuladas. Cachoeiras encantadas jorravam fartas sua água na cabeça de milhares. Abraço aos companheiros, amigos do peito ou não.
- Três!
Um adeus enorme, maior do que cabia na praia de Copacabana.
- Dois!
Quando a multidão canta a mesma música, nas entrelinhas da melodia se ouve um grito sufocado: "paz, paz, paz" - de todos os homens que convivem diariamente na guerra do dia-a-dia.
- Um!
E uma única voz ecoava pelo Brasil inteiro: " Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer..."
Estourados os rojões, o homem tornou a ser policial na busca do outro que voltou a ser bandido. Os deuses, inúmeros, ganharam nome e status social. O pobre voltou a ser mais pobre, enquanto o rico ficou mais rico. O patrão voltou a ser ordinário e o presidente é novamente corrupto.
E cabe ao lixeiro, no dia seguinte, recolher as velas, latinhas de cerveja e os sonhos enterrados nas praias brasileiras.
Em casa, havia uma gaveta cheia de quinquilharias. Em cima da pia, a desordem dos rolinhos de algodão embebidos com maquiagem. No quarto, vestidos esparramados pelo chão esperavam ser guardados. E a imagem da santa, paciente, aguardando os mil beijinhos em seus pés.
A folhinha marcava mais um primeiro de janeiro.

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