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O Poder Fálico da Mulher e a Feminilidade no Homem

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Sou o grande homem de minha vida
(MARÍLIA GABRIELA, 2006, p.23).

A aquisição de poder da mulher, neste momento histórico, não se dá somente em termos profissionais de sua inserção no mercado de trabalho. Esta conquista neonata se expande por todos os outros campos da sua existência, inclusive da sexualidade. E desenha contornos outrora jamais pensados para o que se configurou como feminino. Assim, a condição de gênero, praticamente, se nivela, e dar passagem aos desejos, prazeres e gozos plenos, deixando na irrelevância às marcas tradicionais e ostensivas as quais balizava. Agora, os papéis próprios de cada gênero se fundem no que não mais parece inscrever o masculino somente no público e ativo que incorpora o macho, e o feminino na exclusiva passividade, do privado familiarizado à fêmea, que eram pressionados a desempenhar ou a se conter.

De modo indubitável, “as sociedades humanas acrescentam infinitos detalhes para definir socialmente o que significa o homem e o que significa a mulher, as qualidades e o status respectivos que enraízam suas relações com o mundo e suas relações entre si” (Le BRETON, 2006, p.56). Agora, esses papéis se alternam, sem que isso, necessariamente, os descaracterizem dos convencionais territórios díspares em que foram forjados. Independente de ter na sua fisiologia pênis ou vagina se encarna a preposição de ser humano, e, assim, parcela significativa dos atores sociais prioriza como mais relevante à satisfação seja ela ou não sexual.

A mulher do século XIX, basicamente, se enquadrava em dois perfis, quando no melhor do sentido era tida como um enigma - frágil, sensível, dependente, assexuada e passiva - e, no pior a tinha como um diabo - representação de uma organização física e moral facilmente degenerável, dotada de excesso sexual que devia ser controlado (NUNES, 2000). Segundo a autora, para alguns pensadores, inclusive Freud, a visão da sexualidade feminina normal é aquela herdada do Iluminismo, isto é, passiva e doce, dotada de menor agressividade e debilidade sexual, com tendência masoquista. E isso, aos poucos, acabou por vincular essa dualidade, presente na economia libidinal da histérica, às mulheres de modo geral, e transformou a sexualidade feminina num enigma, e a mulher numa ameaça. Enfim, para Nunes (2000), o enigma a que se refere Freud, na verdade, se deve ao fato do homem imaginar a coexistência da feminilidade na mesma mulher como boa, passiva, amorosa, castrada, masoquista, de um lado; e seus componentes destruidor, potente, fálico, castrador, sádica, de outro.

É com base neste enfoque fálico da conduta feminina que o presente texto tenta dissertar até chegar ao feminino do homem. De acordo com Laplanche e Pontalis (2004), o falo na antiguidade greco-romana, é a representação do órgão sexual masculino. Na psicanálise este termo sublinha a função simbólica desempenhada pelo pênis na dialética intra e intersubjetiva. Ou seja, “pênis” órgão masculino na sua realidade anatômica, e “falo”, sublinhando o seu valor simbólico. Ou ainda, o desejo de fluir do pênis real no momento do coito e o desejo de ter falo, como símbolo de virilidade. Para os autores, a expressão mulher fálica ou, para alguns outros, alfa designa a mulher que tem um falo, e não a imagem da mulher ou da menininha identificada com o falo. Uma linguagem aproximativa para qualificar uma mulher com traços de caráter pretensamente masculinos, autoritária, mas, sem saber quais são exatamente as suas fantasias subjacentes. Para Nasio (2007), o falo não é o pênis enquanto órgão, mas a sua fantasia, idealização, símbolo da onipotência e de seu avesso, a vulnerabilidade.

Em outras palavras, não há uma relação direta da mulher fálica com a masculinização, não se trata apenas das características físicas, fisionômicas, mais também das atitudes ou posturas corporais. Para Desprats-Péquignot (apud FRIEDRICH, 1996), a simbolização do sexo - ou seus impasses -, as identificações - e suas transformações - com base nas qual cada um reivindica “ser um homem” ou “ser uma mulher” organizam-se em torno da identificação com o falo - significante (p.62). Portanto, o falo não é nem o órgão, peniano ou clitoriano, nem um objeto, nem um fantasma, mas um significante particular que marca a parte da conjugação da sexualidade, em suas manifestações orgânicas para os dois sexos, com a linguagem (PORGE, 2006). No texto, “Eu sou uma Bridget: Fálica”, de Tatiane Bernardi (2007),sua personagem

Clarice, uma publicitária de 31 anos, é uma mulher fálica que acaba de descobrir na sua terapia que tem pinto. Não real, mas comportamental. Em alguns casos ela se comporta como um homem. Entra num restaurante pisando firme, exige uma mesa para dois não fumantes, bem como pega a mão do cara respeitoso e enfiava no meio dos próprios peitos. Na sua cabeça, esse negócio de discutir relacionamento num cantinho reservado, é uma situação mais propícia para alguns gemidos.

Para Nasio (1997), o pênis imaginário é chamado falo, e que o desejo da mãe, bem como de toda mulher, é ter o falo. A partir de Lacan este autor conclui que o falo é um padrão simbólico, significante do desejo. O bebê é o falo imaginário do desejo da mãe. Freud se opõe, tendo como referencial o dado biológico, a possibilidade de inscrever a diferença dos sexos em nível do inconsciente, uma vez que considerada o primado do falo. Mas, culturalmente, os gêneros adquiriram a conotação de ativo para homem e passivo para a mulher. Logo, a mulher fálica se insere no contexto de descoberta da anatomia feminina e na incongruência entre a falta efetiva do falo e o possível poder representado pela figura materna, que concretiza o seu poder sem a falta (FRIEDRICH, 1996). No entender de Quinet (2005), o falicismo do poder do capital pode ser ilustrado na ostentação de riqueza do nouveau riche (novo rico), e na atitude da mulher rica - não necessariamente (grifo nosso) - que trata os homens como objetos de troca (p.82). O desejo fálico da mulher, ou da posse desse poder, parece residir numa ambiguidade. Nesta perspectiva,

o que mais Clarice queria, era, na verdade, encontrar um homem com pinto maior do que o dela. Era tão difícil assim? Um homem que a fizesse sentir tão mulher que a deixasse descansar dessa sua autodefesa masculina.

Para esta personagem, “maior” assume a aura de mais poder, contrariando o consenso, de que “Tamanho não é documento”1. E também sugere de que ser fálica para mulher o tempo todo cansa (sem dúvida para o homem idem). Essa postura lhe provoca o desencontro amoroso, mas não para o homem cuja conduta fálica é desejável. No entrevero da sexualidade a mulher, pelos menos a maioria delas, na maior parte da sua convivência, não vai querer um homem “mole”, desvirilizado. A não ser que a mesma tenha outros interesses além do afetivo-sexual, ou não encare a sexualidade como um item indispensável para a sobrevivência do relacionamento do casal.

Sigmund FreudPara Freud (apud ANDRÉ, 1987), um grande número de meninas jamais se tornam, no plano psíquico, mulheres. Assim, a mulher deve ser fabricada (o tornar-se mulher de Beauvoir) mediante longo processo psíquico. “O que não quer dizer, certamente, que a existência material da vagina seja ignorada, mas que ela não é conhecida como outra coisa que não um falo furado” (ANDRÉ, 1987, p.191). Mas, os postulados freudianos, e mais ainda os aforismos lacanianos, em especial, no que diz respeito à sexualidade, não são fáceis de serem “digeridos”. Muitos autores fazem críticas à teoria freudiana de que a mesma é falocrática, portanto, machista. Na visão de Nunes (2000), Freud constrói um modelo monista da sexualidade, da primazia do órgão sexual masculino sobre o feminino. Sua tese é de que as crianças só reconhecem o pênis, negando por completo a existência da vagina. Enfim, “o pênis freudiano foi psicanalisado, mas nunca politizado” (FRIEDMAN, 2002, p.173).

A falta de ponto de apoio para a identificação especificamente feminina, ou seja, da mulher não fálica, faz com que a imagem corporal não possa revestir e erotizar completamente o real do seu corpo. A não ser que ela se faça “toda fálica” ou “se faça de homem” (ANDRÉ, 1987 - grifos do autor), o que não significa que assuma uma aparência masculina, mas que aborde a sexualidade à maneira do homem, na sua ostentação fálica. É mais frequente encontrar a mulher fálica em atividade profissional que exige tomada de posições ou de decisões mais contundentes, a exemplo de empresárias, políticas, etc. A título de ilustração descrevo, a priori, duas figuras do cenário artístico internacional que parecem caracterizar com nitidez tipos diferentes de mulheres fálicas. A cantora americana de origem italiana, e dublê de atriz, Madonna, e a atriz, também americana, Angelina Jolie.

A Madonna (2007) afirma: “Prefiro homens de visual efeminado e os novinhos [...] garotos de 15-16 anos são os melhores, eu gosto dos garotos delicados que não têm medo de mostrar os sentimentos e chorar. Eu quero um corpo macio e gostoso não um Hulk?”(p.3). E Jolie (2007) confessa: Não sou fã de abraços. Se me abraçam, prendo a respiração. Carinhos, abraços e choro são coisas que me incomodam (p.46). Estas falas parecem retirar a suposta essência feminina deixando transparecer a objetividade e aridez masculina. A musa pop, um biótipo comum, nem tão refinada, explicita uma agressividade fálica descomunal. Tem o absoluto controle da sua carreira, e vida pessoal, e sabe como esgotar todas às vantagens das situações que provoca para se promover e se manter em evidência. Assim, somente uma mulher com um “pênis na cabeça” (como se auto-referiu algum tempo atrás), conseguiria.

Madonna encantou multidões, como ícone de intensa sexualidade, pela irreverência e rebeldia de seu ímpeto modernista e libertino, do que pelo ideário romântico. Hoje, tenta se acomodar a “vidinha” de uma típica e pacata mãe de família inglesa. Mas, para que não a esqueçam, sem nunca deixar de provocar ou de se insinuar para a mídia. O mundo é o palco das suas invenções, caprichos e necessidade de aparecer. A Jolie, embora feminina, meiga, sensual, é igualmente fálica, porém não tão agressiva nas atitudes. Ainda que tenha revelado que transa com mulheres, e que sabe satisfazê-las (JOLIE, 2004), esta anunciada bissexualidade, não afetou a sua imagem. Uma vez que é objeto dos devaneios eróticos dos fãs de todos os gêneros. Apesar das suas declarações bombásticas, ela se impõe como agente solidária de países pobres contra a miséria, e luta pela paz junto à formalidade de órgão internacional voltado para esse fim.

Enfim, estas mulheres têm o poder, o controle do sucesso de suas carreiras e homens, etc., e se dão ao direito do gozo das extravagâncias sejam ou não sexuais. Parecem estar acima do bem e do mal. E o público, seu súdito espontâneo ou não (muitos são obrigados a consumi-las pela imposição da mídia), as reverenciam ou as acatam. Outros exemplos de mulheres fálicas: Angela Merkel, Chanceler alemã, e Michelle Bachelet, presidente do Chile, tipos masculinizadas (mas isto não quer dizer que as mesmas sejam lésbicas); e Ségolène Royal, candidata a presidência da França deste ano, que está mais para a fálica feminina.

No entender de Freud (apud ASSOUN, 1993), a vida sexual da mulher adulta é um dark continent (um continente negro) para a psicologia. Até hoje, somente Jabor (2006), um aficionado pela psicanálise, foi capaz de contestar tal afirmativa: “É um preconceito essa mania de dizer que as mulheres são “incompreensíveis” (mesmo Freud)” (p.20 - grifos do autor). Esta dificuldade de entender a mulher não estaria ligada à questão fálica? A mulher, em geral, se faz indefesa, e leva a acreditarem nisto. Por conseguinte, estimula e fortalece o imaginário masculino, uma vez que, assim, não se constitui para ele uma ameaça. As fálicas têm o poder de sedução mesmo a partir do aparente frágil, ao passo que se mantém afiadas para castrar qualquer ação que vá de encontro as suas intenções.

As mulheres fálicas agem centradas no direito do seu próprio gozo, não abre mão do poder que usa sem pudor e culpa. Suas vontades são indiscutivelmente priorizadas. Atraem e seduzem pela aura de independência que não demanda do parceiro nenhum esforço ou compromisso para protegê-las. Bem como não se mostram, abertamente, contra os homens, a exemplo das feministas. Assim, como não se deixam castrar, não vêem os homens como inimigos. Até zombam da fragilidade dos mesmos. Para Baudrillard (2001), o feminino é o único gênero, que o masculino só existe por um esforço sobre-humano para se livrar dele, é a fortaleza fálica do homem apresenta todos os signos da fortaleza, ou seja, da fraqueza.

As mulheres fálicas, decerto, têm uma forte expressão de autenticidade. Mas, o poder fálico assumido exige muito da mulher. E essa condição, notadamente se dá pela aceitação de uma sexualidade mais livre de pré-conceito e tabu (o que não significa necessariamente promiscuidade). As fálicas, conectadas com a sua feminilidade, aceitam seu desejo sexual, e deixam transparecer um tipo mais tenaz de sensualidade. As mulheres reprimidas não conseguem externar, convencer desse potencial. Uma vez que, a sensualidade não se sustenta apenas na macaquice de “caras” e “bocas”, pois logo termina revelando a falseta ou descambando para o apelo explícito da vulgaridade.

Contudo, tem mulheres e homens de sensualidade primitiva (o que não quer dizer bruta), que não fazem o menor esforço para que assim pareça, sua sensualidade está à “flor” da pele, e muitos, às vezes, nem se dão conta disto. Eles têm um sex appeal natural.A profissional do sexo com ou sem sensualidade, por exemplo, é o tipo de mulher que sabe lidar com o seu poder fálico, e por isto mesmo não assusta e nem constrange o homem. Ela é, em termo simbólico, a “grande mãe” que aconchega, e eleva a auto-estima do cliente. Portanto, não compete, não tem sentimento de inferioridade (mas isto não a impede de sentir-se socialmente marginalizada). Ela não precisa da figura masculina, sabe da sua superioridade de gênero, mas apenas do seu dinheiro, e por isso faz qualquer um se imaginar o mais poderoso dos homens. Bataille (2004) diz que não existe uma prostituta em potencial em cada mulher, mas a prostituição é a consequência da atitude feminina (p.204). Uma vez que, segundo o autor, na medida de seus atrativos, está sempre exposta ao desejo do homem.

Nietzsche (2000) entende que a mulher perfeita é um tipo de ser humano mais elevado que o homem perfeito; e também algo muito mais raro (p.219). A parte este exagero, afinal de contas não existe ser humano perfeito. Entretanto, é possível reconhecer um potencial humano na mulher, não necessariamente mais intenso, porém mais explícito. O homem, por uma questão cultural é mais contido, reservado ou tímido, tem medo ou lhe falta permissividade aos afetos. Por vezes, ingenuamente, isto o faz se pensar mais forte do que a mulher. Esta pode chorar, gritar, xingar, ficar histérica que é aceita. Ou seja, extravasa as emoções, e, assim, suporta melhor as tensões na medida em que se “enche”, e se “esvazia” com relativa facilidade. Ao passo que o homem as retém, e somente lhe é permitido externar as emoções agressivas (físicas), mas não as suas demais modalidades.

Todavia, entre seus pares os homens são tão curtidores uns com os outros quanto afetivos. Simulam lutas como desculpas para, na verdade, se tocarem, nessas brincadeiras que tem muito do seu carinho manifesto. Na realidade, os homens são menos bloqueados do que se propaga. Diria que seus afetos parecem mais restritos, específicos e ocasionais. Basta observar os jogadores e torcedores em comemoração de gol. O quanto eles se permitem à proximidade. Embora as pesquisas atuais apontem que “os homens são tão fofoqueiros quanto as mulheres - ou até mais que elas”2 (ZAKABI, 2007, p.104). Porém, se não compartilham seus amores ou pendências amorosas, diferente das transas que as suas predileções, no entanto estabelecem condutas respeitosas de exemplar fidelidade canina, no sentido literal da expressão, os homens são mais verdadeiramente amigos.

Esta estrutura de amizade, em geral, é rara entre mulheres e homens homossexuais, porque estão, em virtude de sua vulnerabilidade, sempre invejando e competindo entre si. São conhecidos como classes desunidas, nas quais quase não existe corporativismo. E, às vezes, muitos não têm escrúpulos de tirar de modo politicamente incorreto ou desonesto, vantagem sobre um (a) colega. Um segmento da Teoria de Campo de Kurt Lewin (apud MINICUCCI, 1987) denominado Atmosfera Social, diz que um conjunto de personalidades fortes forma grupo de gestalt fraca, e vice-versa. Aplicada a este contexto, poderia se dizer que os homens heterossexuais formam grupos fortes em razão da sua constituição de personalidades possivelmente fracas ou socialmente privilegiadas. Logo, os grupos de mulheres e homens homossexuais, apesar da sensibilidade que lhe são permitidos, formam gestalts fracas em decorrência de um provável potencial de personalidades fortes ou conflituosas. Talvez porque, recaem sobre estes últimos sujeitos uma carga maior de exigências, e menos ou quase nenhuma regalia e benefícios sociais.

Para Nietzsche (1995), a luta por direitos iguais é um sintoma de doença, a mulher quanto mais é mulher, mais se defende com unhas e dentes contra os direitos em geral, e que mulher se cura ou se redime, tendo um filho. Esta fala lembra Freud com história da castração, sem dúvida uma visão machista, mas compreensível por ser a tônica da sua época. Na realidade, as questões do masculino e do feminino são instituídas por meio de leis proibitivas que produzem gêneros culturalmente inteligíveis mediante a produção de uma sexualidade inconsciente, que ressurge no domínio desse imaginário (BUTLER, 2003).

Segundo Guattari (2000), não se pode esperar uma melhoria das condições de vida da espécie humana sem um esforço considerável de promoção da condição feminina (p.33). Entretanto, o festejado 8 de março dá a impressão de que ao invés de reforçar a auto-estima da mulher, fortalece a sua condição de vítima. Assim, é preciso combater as injustiças e discriminações sem usar o sexo como pretexto, e sim porque são os direitos do ser humano (MEDEIROS, 2007). Na realidade, todos esses dias comemorativos, não só denunciam a vulnerabilidade e a negligência dos direitos sociais dos segmentos homenageados. Mas, de alguma forma, termina por legitimar sua posição de desfavorecidos. Os direitos dos seres vivos, e humanos devem ser garantidos, independente do grupo ao qual pertençam ou representem.

A sexualidade não revolucionou as relações de gênero nem modificou radicalmente os lugares de cada um (BOZON, 2004, p.93). Embora, se esperasse a partir do movimento feminista uma reação mais simétrica na relação de gênero (HEILBORN, 2004). Esta autora conclui que, de fato, a sexualidade se alterou no que diz respeito à família, mas não produziu um panorama de liberdade. Embora ainda haja repressão, porém, no ensejo da contemporaneidade a mulher tem disputado quinhões de liberdade sexual muito próximo ao do homem. Se ainda não chegou a uma horizontalidade irrestrita, entretanto não desmerece o fato de que, a sua atual posição, em termos comparativos com um passado, até recente, é razoavelmente confortável.

As mulheres fálicas ao assumirem seu poder, com isso afirmam seu direito de igualdade, ao passo que as outras se debatem na armação ou engodo de que são frágeis. Ameno (2001) diz que a maioria das fêmeas é farsante, interpreta um papel para o qual não tem a menor vocação, apenas por interesse financeiro ou para “segurar” o companheiro. Os homens que não são tolos, não abrem mão do seu prazer. Para a autora, “o homem é um ser biologicamente livre e a sociedade transferiu para o mundo social a mesma liberdade de que ele goza” (AMENO, 2000, p.63). Porém, os únicos pontos de vulnerabilidade que, de fato, deixa a mulher numa certa desvantagem em relação ao homem, são a sua dependência hormonal que resulta na oscilação de humor na TPM (Tensão pré-menstrual), um apego acentuado aos detalhes, e o medo, segundo Nasio (2007), de ser abandonada pelo homem amado.

Se os homens têm a iniciativa, as mulheres têm o poder de provocar o desejo dos homens. Seria injustificado dizer que as mulheres são mais bonitas ou mesmo mais desejáveis que os homens [...] Elas não são mais desejáveis, mas elas se propõem ao desejo (BATAILLE, 2004, p.203). Antes da revolução feminista, a mulher era pressionada a fingir prazer sexual e esconder seus desejos eróticos, o máximo que o social lhe permitia era provocar, se colocar na posição do desejável, do proibido que instigava o homem a conquistá-la e a desvendá-la. Ainda existe muito do ranço dessa repressão, e não é à toa que, facilmente, procura-se destratar as mulheres usando como recurso a sexualidade devassa, o oposto para o qual a mulher foi educada ou castrada. Prostituta e vadia estão entre os adjetivos mais soletrados para ofender a sua moral.

Mas, ainda existe dubiedade no comportamento de liberdade sexual da mulher, por questões que, de algum modo, são inerentes à sua biologia, e que são reforçadas pelo social. Para o homem, por exemplo, é bem mais fácil “ficar” por conta da sua divisão sexo/amor, e a mulher nem sempre consegue se dividir com a mesma imparcialidade. De modo que, mesmo os jovens que “ficam”, em particular o gênero feminino, mantêm subjacente o sonho do amor romântico (MELO, 2006). Contudo, para as moças, a situação é um pouco mais delicada, se por um lado tem a liberdade sexual; por outro lado tem a concorrência na conquista de um parceiro. Uma disputa acirrada, que a deixa bem mais vulnerável. Como afirma Duarte (2006), a menina tem medo de não agradar até o abusador (p.43), pelo simples fato de que “ela fica feliz só porque é aceita”(p.46).

Somente a profusão e difusão de uma economia erótica não falocêntrica é que irá banir as ilusões do sexo, do gênero e da identidade (WITTIG apud BUTLER, 2003). Neste sentido, uma mesma orientação sexual não define uma identidade psíquica comum a um certo número de mortais desejantes, pois orientação sexual, isto é, o desejo, é uma questão clínica, ou seja, particular, que se resolve na cama ou no divã, conforme o gosto do freguês (PASSARELLI, 1996a, p.72). Apesar de mais liberdade de expressão e de direitos conquistados pela mulher, alguns homens machistas ou inseguros ainda não admitem que ela tome a iniciativa da sedução e, em especial, da sexualidade propriamente dita. Afinal, as mulheres não são todas submissas à função fálica (PORGE, 2006). Mas, ainda chocam, quando são sedutoramente fálicas ou ousadas.

O polêmico caso da ex-modelo Daniela Cicarelli e seu namorado, filmados3 por paparazzi, praticando sexo numa praia da Espanha, explícita essa atitude. Fora alguns detalhes - que serão a seguir comentados -, seriam cenas comuns repetida por inúmeros mortais anônimos, nas mais diversas orlas marítimas do planeta. Mais do que causar constrangimento aos fãs e ao público em geral, talvez à participação o tempo todo ativa da Cicarelli tenha sido um dos aspectos mais marcantes neste episódio. Sempre tomando as iniciativas num sedento afã sexual que, sugerindo ausência de qualquer aura romântica, o casal evidenciava estar ali para este fim: o desfrute do sexo pelo sexo. Até porque o local, pelo menos num primeiro plano, parecia uma praiazinha cinzenta e sem graça.

Numa das cenas, meio que imersa na inversão de papéis, a Cicarelli veste uma blusa, e, meio masculinizada, dá uma ajeitada e sai para pegar um picolé (símbolo fálico), e o parceiro a espera. Depois, ele retoma o poder, e oferece uma bebida, com certeza para deixá-la ainda mais solta. No resto da sequência a maioria das cenas está sob direção da bela. Abrindo aqui um parêntese, o pornô filme deixa bem claro que esta moça pode ser acusada por tudo: Apresentadora sem talento e desengonçada, desastrada a exemplo do seu casamento bufo em Chantilly (França), etc., mas, jamais de que não seja bastante habilidosa no manejo das coisas do sexo. Enfim, Cicarelli mais do que pelo sexo explícito, parece ter chocado pelo seu comportamento fálico.

Pelo fato de ser celebridade e mulher, recaiu sobre si todo ônus das mais impiedosas críticas, como se a mesma tivesse protagonizado tudo sozinha. Seu parceiro passou incólume. E ainda com possíveis vantagens pelo seu desempenho de macho, com direito a posar pelado. É estranho esse interesse pela sua nudez, como se desejassem ter uma noção ainda mais exata do que Cicarelli teve na sua ilusória privacidade. Depois de “expor” a sua sexualidade, e fecundar com seu gozo o imaginário de um universo de voyeuristas. É no mínimo ridículo querer interditar a posse dessas imagens e notícias. Deviam ter o bom senso de assumir as inconsequências dos seus atos que, feitos adolescentes em busca de aventura, praticaram sexo em via pública. Ameno (2000) diz que a maioria das mulheres no mundo moderno, entretanto, não parece feliz (p.95). Então as fálicas madonnas, jolies e cicarellis da vida, sendo, fazendo e acontecendo não estariam felizes?

Ane, amiga de Clarice, que vive de pensão do ex-marido, e passa o dia inteiro lendo revistas idiotas, acabara por ficar mais metida a Freud do que interessada por homens: Se você quer um homem de verdade, seja uma mulher de verdade. Mas você fica aí querendo competir com eles, não é?

As mulheres estão mais acessíveis como parceiras sexuais, mas ao mesmo tempo, mais intimidantes, mais ameaçadoras para os homens. Muitos homens não compreendem mais o que as mulheres esperam deles (LIPOVETSKY, 2000, p.58). Com a mudança dos paradigmas a mulher saiu da submissão, para conquistar seu lugar no trabalho, na sexualidade, na vida. E essa postura, por vezes, desequilibra o poder garantido do dominador com o qual foi contemplado o macho. De fato um sujeito frágil, no sentido de que tem dificuldade para lidar com as emoções em virtude da falta desse exercício (SILVA, 1999). Ele não aprendeu a interagir com o sexo aposto que não seja exercendo sua atribuída superioridade para subjugá-lo. Na realidade muitas mulheres, ainda hoje, sobretudo nesta cultura vivem sob este imperativo. Mas, estilizadas pela modernidade, disfarçam de que não são Amélias.

Clarice questiona: Mas o que era então uma mulher de verdade? Ou pelo menos uma que atrairia um homem de verdade? Seria a meiga falsa que já deu pra meia cidade, mas continua com o semblante de virgem fingindo um medinho? Ou seria aquela mulher que espera o príncipe encantado que vai lhe ensinar, bem como pagar suas contas. E, em troca, tudo o que ela precisa fazer é um boquetinho com a tática de cobrir os dentes com os lábios voltados para dentro da boca? Uma mulher de verdade é feminina, só isso.

Morim (2007) destaca que ninguém nos ensina a compreensão humana, e que há muita incompreensão no mundo de hoje, e que esta nos acua seja na família, no trabalho, ou entre culturas e comunidades diferentes. Este autor alerta que “é necessário ensinar quais as armadilhas e ilusões que fazem parte do conhecimento”(p.13). Às vezes, a independência e a autonomia de algumas mulheres podem esconder também o esforço para agradar por assim suporem que esse seja o ideal para o homem. Neste sentido, Nietzsche (2000) diz que, por amor, as mulheres se transformam naquilo que são na mente dos homens por quem são amadas (p.223). Amadas? Não obstante, o desejo do homem é um dos mais complexos e delicados, e há uma lacuna de estudos a respeito do indivíduo masculino na condição de objeto da psicologia.

Toda literatura psicológica, mesmo que de modo machista, é voltada para a mulher, criança, etc. O masculino fica implícito como Modelo, indiscutível, inquestionável. Se Freud diz que a mulher é um “continente negro”, diria que o homem é uma “península soterrada”. Em virtude disto, é difícil de se auto-reconhecer na sua essência, pelos excessos de domínio, abuso e poder. A igualdade dos gêneros depende da ação de que esses “entulhos” sejam removidos, para o nascimento de um homem mais leve, menos encouraçado ou máquina, mais gente e ser humano, e não tão acentuadamente preso à estereotipia de ter que ser macho. Seja o machismo a causa da ignorância, ou vice-versa, mas sem dúvida ele é um dos grandes fatores de atraso tanto no que diz respeito à evolução da relação dos gêneros quanto da civilização.

A psicologia do homem não estará aberta para receber o verdadeiro amor, purificado de todos os seus aspectos sóbrios, até que passe pela escola da amizade amorosa (KOLONTAI, 2005, p.42). Nesta ótica, Duarte (2006) diz que hoje, dão (os homens) muito pouco tempo à intimidade para a pessoa (a mulher) conseguir ter o orgasmo (p.62). Isto prova que se desnudar para o sexo não quer dizer, necessariamente, intimidade. Esta somente ocorre com base no respeito e no vínculo afetivo. O sexo do “fica” e suas derivações podem até ser prazeroso, mas tem de se admitir sua condição promíscua. Por ignorância, uma vez que o indivíduo chega fácil e rápido ao orgasmo, julga que a mulher devido a sua disponibilidade também esteja pronta com a mesma urgência.

Além do que não se tem uma cartografia erótica e emocional do outro. Numa prática sexual norteada pela impessoalidade e vulgaridade por que o homem teria de se preocupar com o orgasmo de uma aventureira casual e/ou desconhecida? Este egoísmo é coerente com a forma por meio da qual essa sexualidade está sendo negociada. No imediatismo da fragmentação a que se presta, esse sexo cumpre a sua função que é apenas de desafogo. Daí, não se pode cobrar nada mais do que isso. Nesse playground de sensações solitárias e de prazeres masturbatórios a dois, cada um que aproveite ao máximo, do contrário que esteja atenta (o) para não perder o gozo nas próximas “rodadas”.

Na opinião de Duarte (2006), para fazer a mulher sentir orgasmos múltiplos, o homem precisa estar muito bem preparado (p.59). Claro que não, esta afirmativa é furada: primeiro, porque se a mulher tiver algum tipo de transtorno sexual, a exemplo da frigidez, assim, travada, não tem “garanhão” ou Don Juan que dê jeito; segundo, embora o sentimento de segurança e de envolvimento emocional do parceiro seja, de fato, importantes, não são determinantes para que a mulher tenha orgasmos múltiplos; por último, atribuir esse feito ao homem, é colocar a mulher mais uma vez, sob a sua dependência, é negar toda uma luta para ser dona do próprio corpo, enfim, é regredir. O orgasmo feminino não depende da potência viril do parceiro, uma mulher sem trauma, tabu e culpa, ou seja, resolvida, o camarada é apenas o estímulo que a levará aos seus orgasmos múltiplos. De modo meio rasteiro, a própria Duarte (2006) confirma “que se a mulher tomar um banho-de-língua, ou de afeto, ela vai sentir tanto êxtase, que a introdução passa a ser a última etapa” (p.59).

Segundo Lipovetsky (2000), o falo é uma arma e toda penetração de uma mulher por um homem é aparentada a um estupro. A mulher é consenciente? O crime de “invasão” guerreira permanece inteiro (p.73 - grifo do autor). Se tiver como padrão os filmes de Hollywood, esta observação do autor tem fundamento. Considerado que, o ritmo frenético das ações que assina a maioria das superproduções idiota da Meca do cinema, é comum apresentarem protagonistas com um apetite sexual voraz. A mocinha de semblante puro, mas que de ingênua não tem nada, de repente se escancha no parceiro e este, por sua vez, a arremessa na parede, na cama, etc., executando um alucinado ritual de “canibalismo” sexual. Assim, vende-se a ideia de que o sexo prazeroso e excitante somente é possível com tais aspectos de violência performática e dramaticidade cênica. A mulher adulta tem o total controle de se deixar ou não violentar por um parceiro. Todavia, a violência maior vem da própria condição de “coisificação” a que todos estão submetidos.

Como diz Simmel (2001), o que se exclui, na realidade, é amor e sensualidade isolada colocando-se o prazer sensual como fim, diga de passagem, trágico, em si (p.134 - grifo do autor). O sexo, mais do que nunca, está vulgarizado. Homens imaturos ou com algum tipo de distúrbio sexual acabam sendo estimulados pela exposição e provação de corpos jovens cada vez mais desnudos e promíscuos. Vive-se a compulsão da sexualidade libertina, e por isto, em meio à solidão afetiva. Há um desequilíbrio social que tenta serenar uma série de angústias, faltas, medos e desencontros no sexo ordinário. Mas, por vezes, se transforma em violências simbólicas ou reais, isto porque o sexo sem o respaldo afetivo não consegue canalizar toda essa descarga deplorável de insatisfações.

O homem moderno parece atraído pelas “flores de plástico”, talvez porque, como diz a música dos Titãs, “não morrem”, ou seja, são mais fáceis de enfrentá-las por estarem mortas. Quando há sentimento, este emoldura de brilho, cor e encanto o vínculo do legítimo relacionamento. Por isso, se goza com o todo: olhar, voz, toque, no pensar e sonhar com outro, etc. O que é saudável, porém extremamente assustador para os sujeitos de pouca saúde ou doentes. Quando não, o prazer se reduz aos genitais, a penetrações de boca, anus e vagina. Na relação com tesão e vínculo não precisa de lugares picantes, modernos, para fazer emergir o desejo. É o sentimento que sofistica os momentos e os lugares mais simples, porque trás em si a potência do desejo, e se tem algo próximo do êxtase quando em comunhão com a natureza. O sexo e o amor são instintivos (o que não quer dizer perversos ou agressivos), o ambiente requintado é como desodorante que, retira o cheiro natural do corpo, e deixa um aroma excepcional, porém fabricado. Então, haja filmes pornográficos e outras peripécias para suscitar e/ou assegurar alguma excitação, ereção, etc.

Mas, independente da modalidade sexual, se o indivíduo quer dá em troca o prazer que a mulher lhe proporciona, precisa considerar seu tempo mais estendido para ser tomada pela excitação. Quanto mais jovem é o parceiro, em geral é mais afobado, não exatamente por egoísmo, mas porque está mais preocupado consigo, com sua auto-imagem. Antes de qualquer outra intenção, ele está tomado pela obrigação de atender a cruel “voz” social que exige dele uma vigorosa e espetacular performance sexual. Para que, assim, possa obter os louros que reforçam e o mantém no ideário do ser macho. Em vista disso, a parceira, muitas vezes, não passa de mero objeto para as suas auto-afirmação e experimentações. Na perspectiva de atender a essa ordem, no arrojo da sexualidade, o jovem esquece que, antes da mulher com os anseios de Afrodite, tem a pessoa, o ser humano ao seu lado. Somente homens seguros (o que não dizer, apenas, os maduros em termos de mais idade) relaxam, e conseguem ver a parceira, seus desejos e necessidades.

E hoje a mulher está buscando a sua emancipação em termos masculinos (MATOS, 2007, p.13). É possível um revanchismo inconsciente por ter sido reprimida e privada desse poder por muito tempo. O universo fálico masculino foi construído com base na agressão, por isto é que carece de uma sintonia receptiva, acolhedora, solidária, “uterina”. Para Branden (2002), se, no passado, as mulheres foram cortejadas, manipuladas, seduzidas e usadas como brinquedos e não levadas a sério, nos tempos modernos há uma mulher para cada finalidade, para se admirar; para apenas transar e para casar. Embora com descrição, as mulheres também usam desse expediente, mas sem a necessidade infantil de se engrandecerem com suas peraltices. Como, entre amigos, fazem os machos. Algumas exacerbam e passam a se comportar com desprezo pelo homem, e a supervalorizar o prazer sensorial, orgástico, equivalente às práticas masculina do machismo.

No início de oitenta, uma paciente de descendência estrangeira, a cada semestre na universidade, antecipadamente, fazia uma tabela na qual marcava como um x os nomes de todos os colegas da sua sala de aula que, segundo dizia por ela seriam “comidos”. Ela fazia questão de compartilhar essa sua investida, sentia prazer em chocar as pessoas. Considerando que, em razão dos problemas e revolta com a figura paterna, isto, de alguma forma, consistia na vingança do seu poder fálico. Esta paciente que não era nenhuma beldade ou se destacava por qualquer item de beleza, entretanto, batia o seu jogo. Ou seja, completava a cartela transando, de fato, com todos os sujeitos que havia computado. Talvez hoje, sua atitude malograsse por conta da liberalidade, o sexo agora já não tem mais o mesmo impacto para subverter, agredir ou desafiar.

Nos últimos tempos, uma outra paciente, esta bem jovem, inteligente, virgem e também fálica, se questionava da própria contradição de ter ideias independentes, mas que havia se deixado dominar pelo namorado. Só sabia lidar com o masculino por meio de embate, e tinha prazer de, com base nos próprios argumentos bem articulados, contradizer e deixar o seu pai acuado. Este, no seu desespero, para não surrá-la batia na mesa ou quebrava algum objeto. Nestes momentos ela parava, e sorria por dentro, pois seu objetivo havia sido alcançado. Ela começou a namorar outro rapaz, este bem intencionado parecia gostar muito dela, mas era fechado e não dava margem para brigas. Isto lhe desconsertava, além do que seu carinho a incomodava. Ela queria acabar o namoro, mas a sua mãe orientou que com o sexo esta situação mudava, ela ficaria mais ligada. Ironizando, ela se perguntava: Cadê a tal liga! Melhor que não tivesse tido nada, concluíra. Agora, ele estava mais envolvido, o que para ela se tornara quase insuportável. Ela percebeu que não gostava do namorado porque, de acordo com as suas palavras, ele a tratava como gente. E chegou a compreensão de que o homem para ela era masculino quando a colocava no lugar de “boneca”, mesmo que isso implicasse em não ter vontade própria.

A paciente sentia o namorado, não como mulher, porque com esta sabia lidar, isto é, manipular, mas, nas suas palavras, bem pior. Na verdade, este rapaz que era respeitoso, compreensivo, sexualmente ativo e carinhoso, representava uma mulher fálica, um tipo com “a qual” ela nunca se relacionara. Então, duas fálicas de sexo diferentes (ela e seu namorado). Em geral, seu combate era contra o masculino desqualificado, a exemplo da sua figura paterna seca, adúltera e ausente. Porém, diante do masculino afetivo, mas dominador, em relação ao qual se sentisse gostada, amada, se submetia, se colocava como “boneca”.

O sexo com o namorado não consistia apenas numa mudança do seu estado físico por consequência da perda da virgindade, mas, ia muito além, pois significava a transformação simbólica e radical de objeto (“boneca”) em gente (mulher). Em suma, ela chegou à conclusão que tinha medo de amadurecer, e de se deixar vulnerável porque assim, caso fosse deixada, na condição de gente, segundo a sua concepção, sofreria mais. Ao passo que, como “boneca”, ela já tinha a experiência de ter sido deixada duas vezes por motivos de mortes, de um parente (“pai”) queridíssimo que a amava, e do seu primeiro namorado que se suicidara.

Para Ameno (2000), o pênis traz em si o único poder que falta a mulher: o poder de decidir. Da mesma forma, numa relação sexual a mulher transfere ao homem o poder que lhe falta: o de conservar (p.97). A autora tenta atenuar o poder do macho pela compensação recíproca das faltas. Sua equação seria: o agraciamento social do homem com um poder de decisão x o poder natural da mulher de procriação. Porém, o que mais interessa e apaixona a mulher é o poder que ela atribui ao pênis e que a deixa com inveja (NASIO, 2007). Se antes, para a autora, a mulher dava ao homem um filho em troca da posse simbólica do seu pênis. Agora, na ótica deste autor a relação sexual é unilateral, a mulher não tem nada para oferecer ou trocar.
Nesta perspectiva, o intercurso sexual não se passa em nível de igualdade pelo cambio pênis x vagina, apenas. Isto é, a vagina não tem o mesmo valor do pênis, ela é o meio para se chegar a um fim que é a gratificação do homem e a preservação da espécie. E o pênis será para sempre o objeto da cobiça da mulher. Sem se dar conta, a autora também reforça a primazia do pênis, institucionalizada, e que se expandiu por todos os poros sociais. Realmente, parece muito difícil escapar da falocrácia, esta que fez a mulher penar ao longo dos séculos, e quase a eternizou na posição de “segundo sexo”.

Somente nessas últimas quatro décadas é que a mulher conseguiu submergir desse platô subalterno, embora ainda sofra algumas consequências da rebarba machista. Porém, esse seu poder de efetivar a conservação além de não ser de fato valorizado, a não ser no seu aspecto superficial de que todos acham linda a maternidade. Mas isto não é apenas mérito seu, gerar não é obra individual, mas em conjunto. A criação jamais se dá sem a fecundação do óvulo pelo esperma, seja pela “maratona” natural, ou pelo processo artificial in vitro. Enfim, queira quer não, depende da parceria direta ou indiretamente do homem. Portanto, sem nenhuma conotação de superioridade para o homem ou para a mulher, uma vez que ambos são literalmente co-dependentes, indispensáveis para formação de um outro ser.

Mesmo adotando o comportamento promiscuo do “fica”, a moça, mais do que rapaz, ainda que de modo subliminar, alimenta o sonho do amor romântico da Cinderela. No entender de Nasio (2003), em geral a mulher associa tão estritamente o sexo e a ternura que sente o ato sexual como um ato de amor (p.68). O parceiro idealizado pela mulher parece conjugar características de super-homem. Ele tem que ser inteligente, bem humorado, viril, cavalheiro, bem sucedido, compreensivo e fiel. No entanto, para o homem parece mais fácil, porque a mulher poderá ser possuidora de todas as possíveis qualidades. Porém, se lhe faltar um item em especial, que é a disposição dela para se submeter a ele, não lhe serve como parceira. Nesta sociedade, o macho se dá o direito de ter o domínio e, o que é mais surpreendente, um grande número de mulheres, pela necessidade de casar, ter um companheiro, etc., se coloca a mercê de um dono.

O feminino nunca foi dominado, sempre foi dominante, e seduz porque nunca está onde pensa estar, o poder do feminino é a sedução (BAUDRILLARD, 2001). Mas o poder da sedução é, quase sempre, simbólico, ao passo que o poder do masculino é real, concreto. Este sujeito que se estereotipou, mas só no aparente, como vencível a sedução feminina. Contudo, seduzir não é o mesmo que se entregar. Nasio (2003), diz que a mulher se oferece, mas não se entrega totalmente de medo de perder sua identidade mais íntima (p.76). Certamente não por medo, mas para se resguardar da totalidade de um domínio. Assim, ela sempre pode surpreender. Quando, por alguma razão, se sente ultrajada, ai, impiedosamente, ela se vinga. Quantas degolas masculinas ou execração pública não tiveram como pivôs as exs mulheres e amantes.

Diferente do homem, a mulher não teme a intimidade, mas precisa ter algum poder além da sedução, para que se permita à entrega. Se o sujeito não fizer por merecer não terá essa mulher, o intercurso sexual se reduz apenas a uma transa. A penetração é apenas do órgão genital, não consegue “passar” da vagina, ou seja, do segmento corporal. Simmel (2001) diz que recusar e conceder é o que as mulheres sabem fazer com perfeição, e só elas sabem (p.98). Mas estes parâmetros nem sempre são infalíveis, em particular se estiver envolta num clima que a faça se sentir especial, valorizada, diferenciada das outras. Para o homem basta nivelá-lo, ou seja, sua auto-afirmação consiste em se perceber nesse lugar comum de ser mais um macho. Assim, ao invés de ofensa a afirmativa de que “os homens são todos iguais” lhe cai como um elogio, o reconhecimento de pertencer a este gênero.

Uma paciente parecia se deliciar com todas as nuanças do ritual de sedução de um indivíduo com o qual havia tempo esperava “sair”. Ele ficou constrangido por não exibir um físico malhado, e, por sua vez, ela o apoiou elevando seu ego. Aquele detalhe para ela não tinha a menor importância, porque ela estava embevecida com o vinho, com a dança, com a recepção e acolhimento antes de chegar à cama. Embora insistisse em negar para si mesma que essa metodologia era dispensada a qualquer outra garota, mesmo assim não conseguiu deixar de se sentir única, diferenciada. Enfim, a mulher pode se equivocar em virtude da sua carência ou pela intensidade da sedução do outro, mas a sua entrega ocorre somente a quem ela julga, por algum mérito específico, que o sujeito faça jus a seu corpo, e algo além do corpo.

Para os especialistas, a mulher mesmo que tenha tido relações sexuais, ou mesmo filho, preserva traços da membrana virginal, apelidada de “renda do hímen” (NASIO, 2003). O autor salienta que muitas mulheres têm a convicção de que o sexo do homem nunca as penetra completamente, nunca atinge a parte mais protegida do seu corpo. Elas têm a fantasia da virgindade. Ou seja, “o núcleo da identidade feminina é construído em torno desse lugar silencioso e vazio. É como se ser mulher consistisse em conservar intacta essa virgindade virtual, com medo de perdê-la um dia” (p.76).

Penso essa fantasia, mas não de que a virgindade seja cristalizada, até porque o hímen, nos dias de hoje, deixou de ser tabu. A bem da verdade é uma estupidez atrelar o caráter e a dignidade da mulher a esse “selo da natureza”. A virgindade é unissex, e simbolicamente renovável. De modo que, tanto a mulher quanto o homem a perde todas às vezes que se apaixonar - tombée amoureuse (cair de amor) -, porque nesse estado, somente ocorre na total entrega. Portanto, a “virgindade” é uma película afetiva que se rompe com a paixão - não necessariamente no amor, este é mais racional, não altera o metabolismo hormonal, etc. -, porque vai além do genital, atinge a alma e o coração. Como em toda queda, mesmo que temporariamente, se perde os controles racionais e os autos apoios emocionais. Na brevidade em que dura a paixão, ela é temerosa e embriagadora no início; encantadora na sua onipotência quando se processa; e terrível quando finda: ao perceber-se que esta alteração da consciência já não mais nutre os delírios das emoções. Embora chamuscado, um coração pode se sentir forte pela coragem de tê-la vivenciado. Afinal, a vida é um eterno abrir e fechar de gestalts que somente cessa com a morte.

A mulher experiente diante de um provável poder fálico e abusivo do macho, cuida do seu estado emocional. O fato de ficar por cima, de penetrar seja na relação heterossexual ou homossexual, dá ao sujeito penetrador um extraordinário poder, em razão da forte valoração cultural de superioridade que é atribuída a essa posição. Logo, ser “possuída” é estar nesta condição implicitamente desqualificadora. Daí, muitas mulheres intuem dessa “grandiosidade”, e assim se preservam da sua própria vulnerabilidade. E, geralmente, se auto-afirmam na relação com quase sempre infalível maternagem. Portanto, só arriscam quando querem ou de alguma forma não se sentem ameaçadas. Nada desestabiliza mais o macho do que a mulher que escorrega desse enquadre machista, quando ela brinca ou subverte esse valor que tem, em potencial, o poder de subjugá-la.

Uma paciente desejava um “garanhão” da sua cidade interiorana de origem. Mas o temia porque ele, competidor de rodeios, tinha mulher e filhos em tudo que é praça. Em razão disto, tinha um enorme cartaz entre os parceiros, na mesma proporção em que era evitado e temido pelas famílias das moçoilas do lugar. Finalmente, ela resolve investir no seu desejo, mas sem criar expectativas. No final de noite de uma festa da padroeira, ela o convidou para dormirem juntos, ele não acreditou que, em virtude disto, ainda se tratasse de uma virgem, e ficou ainda mais desconcertado quando a mesma nem solicitou um telefonema no dia seguinte. Perplexo, apaixonado e cheio de planos para o futuro, ele viajava mais de dez horas para se encontrar com a amada. Mas, ela tinha como projeto se realizar profissionalmente, do qual não abria mão. Talvez pudesse subir ao altar, o que cogitava de poder ser com ele, mas no final dos próximos seis anos quando terminasse seu curso. Mas será que a paixão, que na verdade é data, conseguiria esperar tanto tempo?

A desvalorização das condutas machistas e a nova independência das mulheres não acarretaram de modo algum uma fragilidade extrema da identidade viril (LIPOVETSKY, 2000, p.58). Para o autor, são os homens em particular oriundos das classes sociais mais marginalizadas, que são mais “apegados” às demonstrações tradicionais do poder masculino, e por esse motivo, que vivenciam mal essa atual condição masculina. Diria que nos países pobres e emergentes isto independe de classe social ou nível cultural, é exatamente pelo medo de perder esse poder que o macho se angustia em lidar com essa suposta nova mulher. Ele não tem a prática da simetria dos gêneros, sua relação com o sexo aposto se dava unicamente na verticalidade, literalmente ele por cima em todos os sentidos, e ela em baixo, sem vez, nem voz, apenas na condição de objeto.

O machismo é um prestígio vivido há séculos pelo sexo masculino, de tão arraigado nesta cultura, é normalizado, sendo difícil para o macho não reter este poder de “superioridade” e domínio. Porém, para Rodrigues Jr. (1996), aquele que se considera “Macho” deveria compreender que é um homem insatisfeito sexualmente, e que tampouco chega ao que deseja a personalidade feminina, a qual é transformada em objeto sexual (p.90 - grifo do autor). No entanto, não deve se desconhecer o perfil de um tipo de mulher nessa cultura que, de algum modo, goza “de uma vontade de dominar, sujeitando-se” (PASSARELLI, 1996b, p.18).

Com a conquista da sexualidade feminina veio à inversão da própria funcionalidade da sua estimulação erótica, ou seja, a mulher que, até então, era despertada pelo toque passou agora a ter como sua principal via para esse fim, a visão e o tato. E começaram a desejar os corpos masculinos dentro dos mesmos moldes pelos quais os delas são desejados. A partir disto o homem começou a cultuar o próprio corpo, a se colocar nesse lugar de “passividade” como objeto de desejo. Assim, com a igualdade dos gêneros em andamento, território proibido e mantido como um código de honra da imagem do macho, também foi atingido por estas mudanças.

Aprofundando esta questão, diria que a região glútea do Homo sapiens, ao longo da história, sempre foi investida de grande repressão. A sua intactibilidade anal consistia na fidedigna tradução que atestava obediência aos princípios desta cultura, e confirmava a representação máxima da macheza. Sobre o sujeito com andar menos encouraçado que fizesse mexer, um pouco, o bumbum, sua reputação era colocada sob suspeita de desvio, atribuindo-lhe estigmas homoeróticos. A referida região que, até então, se reduzia às funções do trato higiênico - de forma superficial, para não despertar interesse erógeno -, e da atividade fisiológica, passou a ser um órgão de exposição, exploração e desejo (SILVA, 1999). Qual a mulher hoje em dia que perde a chance de apalpar um bumbum masculino!?
O traseiro masculino agora é objeto do desejo sexual feminino. Antes elas nem ousavam, nem eles se permitiam, porque era tido como coisa de homossexual.

A própria mulher não suportaria essa ideia de partilhar a cama com um indivíduo que explorasse essa parte do seu próprio corpo. Agora, as mulheres não mais se contentam em tocá-lo, e também já o inclui como fonte de prazer. A princípio como atração sensual, e por último, como órgão sexual propriamente dito. Se antes, qualquer insinuação de proximidade era tida, pelo companheiro, como uma terrível ofensa. Encorajados por psicólogo e sexólogo que, de algum modo, incentivam toda e qualquer prática sexual consentida, na medida em que acreditam que aumenta e/ou fortalece o vínculo e entrosamento do casal. Muitos homens até solicitam das parceiras a Estimulação Digito-anal. Modalidade esta, segundo informação, popularmente conhecida no Sul do país como “fio-terra”.
Nesta virada de século, se evidencia a quebra da rigidez da construção do masculino, de modo que, nos dias atuais, o homem quando dança exibe os glúteos diante do olhar público, e sem o menor constrangimento.

Por vezes, produz evoluções com mais desenvoltura nos requebros do que a própria parceira (SILVA, 1999). Muitos homens passaram a investir cuidados fisiculturista para um melhor delineamento estético das nádegas. Embora, as propagandas, a exemplo das de cerveja, ainda insistam em focalizar a atenção nos glúteos das suas modelos. Porém, esse tipo de associação mulher/bumbum/cerveja perdeu, um pouco, do seu efeito apelativo. Pois, com a volta da calça saint-tropez ou de cinta baixa, compete na rua com cós de calcinha ou cueca,deixado “displicentemente” à mostra, e que ameaça, a todo instante, colocar as partes pudendas para fora.

Hoje, praticamente, não existem roupas intimas. Uma vez que foi legitimado, sem nenhum senso de ridículo, cada vez mais as tais peças tomam o rumo de mais visibilidade como fonte de apelo sexual. Portanto, no ranking das preferências nacional, o glúteo feminino deixou de ser ostentado como líder absoluto. O bumbum masculino, democraticamente, se tornou um fetiche, mesmo que não ainda a tal ponto de associá-lo a algum produto.

Essa variável erótica não é, obviamente, uma alternativa nova, no entanto, pela a abertura para a sua expansão e discussão. Esse assunto deixou de ser maldito, e, com frequência, entra nas conversas informais dos grupos. Mas, o fato desse comportamento ter sido incorporado não o isenta de ser refletido e, consequentemente, ser questionado. Ele instiga a fazer algumas observações: Primeiro, é sabido que a mulher, por força da sua natureza e incremento cultural, desperta sua libido mais pelo toque, ou melhor, em ser tocada; segundo, que o seu desejo de conjugação sexual aflora na confiança e segurança do parceiro, no se sentir desejada, amada, etc. Então, como se explica que a fêmea tenha adquirido aptidão sexual típica do macho, isto é, de se excitar por meio da visão e/ou manipulação do seu objeto sexual?

O que mudou para que a mulher adquirisse uma outra referência de estimulação erótica? Não cabe aqui discutir a questão no enfoque da normatização. De definir se essa é ou não, uma prática pervertida, etc. Dado que esta classificação tem a ver com a frequência, e uma vez que essa expressão da sexualidade começa a ter mais aceitação, e porque passou a ser encarada como normal. É pertinente compreender como essa conduta, um tanto radical, foi absorvida num curto espaço de tempo. É provável que o espaço conquistado pela mulher tenha reeditado o arcaico trauma freudiano da castração, incluído o glúteo masculino na sua perspectiva sexual, recuperando ou adquirindo assim um determinado poder de virilidade.

Assim sendo, a mulher se vê contemplada com o exercício literal do seu animus. De penetrar sexualmente o parceiro por esse ou outros métodos. Ela, finalmente, parece ter conquistado seu poder fálico. Foi alforriada da assimétrica posição “passiva”, submissa. O homem, por sua vez, também se libertou da ditadura de ser sempre o “ativo”, o que toma iniciativa. Abandonou, sensivelmente, o seu eterno papel de dominador, já se permite feminino sem transtorno para sua identidade. O ânus é uma zona erógena muito sensível, cuja mucosa que o reveste é similar a da boca. Desse modo, o cidadão moderno alargou o seu leque de gratificações nos jogos sexuais, cuja Estimulação Digito-anal não passa de mais uma possibilidade de vivenciar a sexualidade. Descentralizou o pênis da condição única de prazer. Assim, surge um sujeito de corpo mais inteiro, menos fissurado.

Para a mulher fálica conquistar independência e reivindicar direitos iguais lhe demandou esforço, não assegurar esse lugar pode sugerir uma traição a si mesma. Pois, nem sempre é fácil se colocar feminina, uma vez que pode por em risco aquilo que consegui a duras penas: o falo. Ela teme perder o poder, o espaço para o outro. Não se permite ao descompromisso nos jogos sexuais, seu falo é uma aquisição que pode se perdida, tomada, vilipendiada.

Clarice se irrita com Fernanda, a amiga com que quem competia na infância, e pensa em falar um milhão de palavrões. Mas falar palavrão não seria feminino de sua parte. Perfeito! Constatando isso ela solta todos eles, se libertando do assunto e da feminilidade. Os homens nas mesas em volta olham feio, e os olhares das amigas fuzilam Clarice, a fálica que sempre põe o pau na mesa, e afasta todos os testosteronas em volta. Clarice mal humorada, confusa, fica em silêncio durante exatos dez minutos. Depois abre o maior berreiro, chora, soluça, com o rosto entre as mãos. Ainda que vermelha e borrada de rímel, a frágil Clarice atrai mais interesse dos homens do que quando chegou ao restaurante em seu carro novo, feliz e bem sucedida.

Talvez, a personagem tenha atraído a atenção dos homens não pelo fato de ter se tornado frágil, mas por ter deixado transparecer a sua feminilidade. Alguns homens não toleram muito a mulher com poder seja real ou simbólico. O homem, embora por vezes abusivo, no entanto é mais habituado a exercer o poder a partir da sua condição de detentor do falo. O poder é uma novidade para a mulher, que só agora ela toma posse. Nesta estréia, por vezes, não está bem harmonizado, e por isto adquire conotação um tanto agressiva. Uma vez no poder, a fêmea parece compensar a reminiscência do que seria a falta do pênis. Portanto, é até compreensível que atualize essa necessidade na esfera do real ou no campo do engendramento simbólico. Enfim, assumir esse poder talvez signifique para ela a conquista do pênis, da potência viril que a faz atuar com o desejo másculo de ser penetrador, de ter o parceiro na condição subjugada que vivia a mulher. Pondo em ação a anima do outro, ou seja, a parte feminina no homem.

O mundo masculino é muito da contradição (MATOS, 2007, p.13), pensar esse homem emergente, no entanto, não deixa de suscitar a ideia de um homoerotismo latente. Seja por meio da penetração do membro viril, ou de outro qualquer instrumento, que adentrar seu ânus, com o objetivo de obter prazer, caracteriza-se penetração, sim. Em síntese seria: Sente-se o prazer, não com outro macho, a exemplo da relação homoerótica, mas com aquilo que o representa, o pênis, os símbolos fálicos. Nesse caso, aceitável somente porque a figura feminina é o sujeito da ação.

Dessa maneira, não se corre riscos, supõem-se a masculinidade preservada. Essa prática sexual parece reforçar a ideia de Freud (1989), de que o homem é, por constituição psíquica, bissexual, e que o interesse exclusivo pelo sexo oposto também é questionável. Uma das mais graves feridas narcísicas do ser humano é o fato de ter que decidir, quando criança, pelo pai ou pela mãe, no seu processo de identificação (McDOUGALL, 1997). Quando na verdade ela deseja a ambos. Alguns estudiosos apontam a bissexualidade como a sexualidade do futuro. Quando se confirmará esta perspicácia do velho Freud?

Para Weil (2003), a função da mulher é reintroduzir o amor na sociedade (p.84). Isto não seria creditar, somente a mulher a força que emana da compreensão, do amor e da delicadeza? Contudo, não é mais possível ter a ilusão de um mundo diferente, mais humanizado pelo fato da mulher está no poder. É mais sensato considerar que homens e mulheres se respeitem nas suas diferenças, e que suas vitórias possam abolir as posições estanques dos papéis dominador/dominado. E que no encargo de alguma representação social que o indivíduo, independente da herança genital, não neutralize seu lado yin. Parece mais providencial instigar o feminino de cada ser humano, mediante uma educação mais igualitária. Então, “o homem, tendo assim aceito sua feminilidade, e vindo um dia a se tornar pai, está na melhor posição subjetiva para conduzir seus filhos às portas da prova que dá acesso à idade adulta” (NASIO, 1991, p.131).

Finalmente, a única finalidade aceitável das atividades humanas é a produção de uma subjetividade que enriqueça de modo contínuo sua relação com o mundo. E que a poesia talvez tenha mais a nos ensinar do que as ciências humanas e a psicanálise (GUATTARI, 2000). Diria que precisamos de delírios compartilhados para “enlouquecermos” juntos em processos fecundos de criação e renovação. O mal não está na potência fálica do homem ou da mulher, mas no egoísmo, na prepotência de desejar, com base neste poder, ser o centro do universo.

NOTAS:

1. Pesquisa recente feita nos Estados Unidos mostrou que 85% das mulheres não estão nem aí para o fato de seus parceiros terem o equipamento menor (NATALIE, 2007, p. 43).
2. Segundo o Social Issues Research Centre, um centro de pesquisas independente de Londres, nos hábitos da intriga, 33% deles e 26% delas contam fofocas diariamente; para eles os confidentes favoritos são os colegas de trabalho, para elas as amigas e parentes; na presença de mulheres eles param de falar da vida alheia e conversam sobre política e  outros assuntos “elevados”, ao passo que em qualquer circunstância, o assunto predileto delas são os relacionamentos amorosos (ZAKABI, 2007).
3. Achei preferível omitir a fonte do filme, uma vez que o mesmo está disponível em todas as páginas da Internet.

Livro do Autor Valdeci Golançalves

REFERENCIAL

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