Narrativa |
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Se narrar é contar algo, é preciso levar em consideração que o homem sempre quis contar histórias.
Tanto nas novelas televisivas quanto numa parede de pedra em Altarnira existem fatos que o narrador quis legar para a futuridade. Num quadro, nas histórias em quadrinhos, numa fotografia familiar antiga, na letra de uma música, em urna simples piada, nas páginas policiais, lá está o legado humano: a história, uma história; a recriação de toda a realidade.
O ensaísta inglês Edmund Forster, teórico da literatura, em seu "Aspectos do Romance", garante que narrar é uma atividade atávica, que todo homem é um guardador de histórias, um criador de narrativas.
Quem nunca ouviu falar em Sherazade que conseguiu safar-se da morte por degolamento porque sabia contar lindas histórias e, assim, fez com que o sultão a livrasse da sentença que aplicava às outras mulheres do harém e, admirando-a, fez dela sua esposa? Quem nunca ouviu falar do Decameron, de Bocaccio, histórias contadas entre si por um grupo de jovens que se protegiam da peste, isolados num castelo, esperando que a praga passasse e pudessem voltar para seus pais?
Narrar é reinventar o mundo, é recriar a vida, é tentar ser uma espécie de Deus criador de destinos. Toda narrativa pressupõe quatro elementos básicos: personagem, tempo, ação e espaço. Não existe narrativa sem esses quatro componentes. Observe agora de que se compõe a estrutura narrativa.
Se tomarmos em consideração o romance, a novela ou o conto, o enredo terá de desenvolver-se da seguinte forma:
Dá-se quando são apresentados ao leitor personagens, cenários, tempo.
É quando há uma multiplicidade de situações ainda não delineadas, criaturas que são vistas individualmente, ambientes que formam apenas um pano de fundo. Geralmente, as narrativas iniciam-se por um conflito (lance inicial), um problema, uma dúvida. Tome como exemplo Memórias Póstumas de Brás Cubas: um narrador defunto contará a sua história; ou como em D. Casmurro: o narrador quer "atar as duas pontas da vida"; ou como em Senhora: o relato de Aurélia Camargo que "compra" um marido de pouco estofo moral por cem contos de réis.
Decorre do encadeamento de feitos, ações. Os "destinos" das personagens se entrelaçam, aproximando-as, distanciando-as: as complicações narrativas encadeiam- se lentamente, o leitor é levado a conhecer o que propõe o texto. Histórias de personagens secundários e protagonistas se misturam seqüencialmente até que, finalmente, atinjam o clímax, ponto mais alto da narrativa, ocasião em que tudo se esclarece: vilões são punidos, amores são refeitos, criaturas se aproximam, tragédias ocorrem. Tomemos o exemplo da descoberta, por parte de Riobaldo, no livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, de que Diadorim é uma mulher.
É a conclusão, o "arremate" do texto.
Suponha uma novela de TV. Mocinho e mocinha felizes e casados, vilão preso, tudo em paz. Você já pode até adivinhar o que vai acontecer no "arremate", acabamento: as personagens menores se acomodam em seus destinos, nasce uma criança, um casamento se faz. Todos serão felizes ou prosseguirão de qualquer modo suas vidas. É o fim da narrativa.
É preciso entender que a tripartição acima pode ser alterada de acordo com a disposição que o narrador dá à temporalidade. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, a narrativa começa no ponto mais alto: o enterro do narrador, ponto de partida para que ele, "do outro lado da existência", inicie a narração, voltando à seqüência inicial através de flashbacks.
Observe o texto abaixo, e tente, em cada um deles, demarcar seqüência inicial, desenvolvimento narrativo, clímax e desfecho:
O cajueiro já devia ser velho quando nasci. Ele vive nas mais antigas recordações de minha infância: belo, imenso, no alto do morro, atrás da casa. Agora, vem uma carta dizendo que ele caiu.
Eu me lembro do outro cajueiro que era menor; e morreu há muito mais tempo. Eu me lembro dos pés de pinha, do cajá-manga, da grande touceira de espadas-de-são-jorge (que nós chamávamos simplesmente "tala") e da alta saboneteira que era nossa alegria e cobiça de toda a meninada do bairro porque fornecia centenas de bolas pretas para o jogo de gude. Lembro-me da tamareira, e de tantos arbustos e folhagens coloridas, lembro-me da parreira que cobria o caramanchão, e dos canteiros de flores humildes, "beijos", violetas. Tudo sumira; mas o grande pé de fruta-pão ao lado de casa e o imenso cajueiro lá no alto eram como árvores sagradas protegendo a família. Cada menino que ia crescendo ia aprendendo o jeito de seu tronco, a cica* de seu fruto, o lugar melhor para apoiar o pé e subir pelo cajueiro acima, ver de lá o telhado das casas do outro lado e os morros além, sentir o leve balanceio na brisa da tarde.
No último verão ainda o vi; estava como sempre carregado de frutos amarelos, trêmulo de sanhaços. Chovera; mas assim mesmo fiz questão de que Carybé subisse o morro para vê-lo de perto, como quem apresenta a um amigo de outras terras um parente muito querido.
A carta de minha irmã mais moça diz que ele caiu numa tarde de ventania, num fragol; tremendo pela ribanceira; e caiu meio de lado, como se não quisesse quebrar o telhado de nossa velha casa. Diz que passou o dia abatida, pensando em nossa mãe, em nosso pai, em nossos irmãos que já morreram.
Diz que seus filhos pequenos se assustaram, mas: depois foram brincar nos galhos tombados.
Foi agora, em setembro. Estava carregado de Flores.
(Rubem Braga, Os melhores contos, Global Editora: pp 137 a 138)
O filho já tinha nome, enxoval, brinquedo e destino traçado. Era João, como o pai, e como aconselhavam a devoção e a pobreza. Enxoval e brinquedo de pobre, comprados com a antecedência que caracteriza não os previdentes, mas os sonhadores. E destino, para não dizer profissão, era o de pedreiro, curial ambição do pai, que, embora na casa dos 30, trabalhava ainda de servente.
Tudo isso o menino tinha, mas não havia nascido. Eles nascem antes, nascem no momento em que se anunciam, quando há realmente desejo de que venham ao mundo. O parto apenas dá forma a uma realidade que já funcionava. Para João mais velho, João mais moço era uma companhia tão patente quanto os colegas da obra, e muito mais ainda, pois quando se separavam ao toque da sineta, os colegas deixavam por assim dizer de existi1; cada um se afundava na sua insignificância, ao passo que o menino ia escondido naquele trem do Realengo, e eram longas conversas entre João e João, e João miúdo adquiria ainda maior consistência ao chegarem em casa, quando a mãe, trazendo-o no ventre, contudo o esperava e recebia das mãos do pai, que de madrugada o levara para a obra.
Estas imaginações, ditas assim, parecem sutis; não havia sutileza alguma em João e sua mulher: Nem o casal percebia bem que o garoto rodava entre os dois como um ser vivo; pensavam simplesmente nele, muito, e confiados, e de tanto ser pensado João existiu, sorriu, brincou na simplicidade de ambos. Como alguém que, na certeza de um grande negócio, vai pedindo emprestado e gastando tranqüilamente, João e a mulher sacavam alegrias futuras. João sentia-se forte, responsável. Escolhera o sexo e a profissão do filho; a mulher escolhera a CD 1; um moreno claro, cabelo bem liso, olhos sinceros. Não havia nada de extraordinário no menino, era apenas a soma dos dois passada a limpo, com capricho.
Esperar tantos meses foi fácil. O menino já tomava muita parte na vida deles, nascer era mais uma formalidade. Chegou março, com um tempo feio à noite, que ameaçava carregar o barraco. A mulher de João acordou assustada, sentindo dores. Pela madrugada, correram à estação; a chuva passara, mas o trem de Campo Grande não chegava, e João sem poder mexer-se. As dores continuavam, João levou tempo para pegar uma carona de caminhão.
Na maternidade não havia médico nem enfermeira que o temporal tinha retido longe. João perdera o dia de serviço e esperou, determinado. Afinal, levaram a mulher para uma sala onde cinco outras gemiam e faziam força. João não viu mais nada, ficou banzando no corredor. Entardecia, quando a porta se abriu e a enfermeira lhe disse que o parto fora complicado mas agora tudo estava em ordem, a criança na incubadora. "Posso ver?" "Depois o senhor vê. Amanhã." Amanhã era dia de pagamento, não podia faltar à obra. Voltaria domingo. Mas no dia seguinte, à hora do almoço, telefonou, uma complicação, não se ouvia nada, alguém da secretaria foi indaga!; respondeu que tudo ia bem, ficasse descansado.
Domingo pela manhã, João se preparava para sai!; quando a ambulância silvou à porta, e dela desceu, amparada, a mulher de João. "O menino?" "Diz que morreu na incubadora, João." "E era mesmo como a gente pensava, moreninho, engraçado?" Ela baixou a cabeça. "Não sei, João. Não vi. Eu estava passando mal, eles não me mostraram".
E o menino, que tinha sido tanto tempo, deixou de repente de ser.
(Carlos Drummond de Androde, Seleto em Proso e Verso, Liv. José Olímpio, J 978, pp 65 o 66)
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