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“O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, saiu, pela primeira vez em 1890, no Rio de Janeiro.
O enredo envolve uma questão problemática na vida dos cariocas, lá no século 19: habitação. A promiscuidade, falta de regras morais, a sedução que amolece caráter, falta de dinheiro, tudo isso acaba por engolfar quantos se acercam do “cortiço”, seja o português Jerônimo, ao chegar da terrinha, seja a ingênua Pombinha, levada à prostituição, tanto por Leònie, como pela própria omissão da mãe.
O livro é legal pelo impacto que causa ainda hoje. Gera debate e tem caráter documental. De uma crueza sem igual no século XIX, “O cortiço” foi por um caminho bem diferente do que trilhou Machado, na mesma época, ou seja, Azevedo viu o conjunto, viu mazelas, descreve diferenças sociais e morais, enquanto Machado fez da análise psicológica o seu trunfo. Na corrida pelo aplauso, Machado, é claro, vence. Contudo, é inevitável a comparação entre ambos, enfim, quem mandou Azevedo produzir literatura na mesma época que o autor de “Dom Casmurro”?
Dilemas morais e hipocrisia também permeiam a narrativa, dando conta de que o meio ambiente e falta de rigor religioso influenciariam comportamento. Vejam:
“Dona Estela era uma mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze anos e durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério; ficou furioso e o seu primeiro impulso foi de mandá-la para o diabo junto com o cúmplice; mas a sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera, uns oitenta contos em prédios e ações da divida publica, de que se utilizava o desgraçado tanto quanto lhe permitia o regime dotal. Além de que, um rompimento brusco seria obra para escândalo, e, segundo a sua opinião, qualquer escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem”.
No romance do maranhense Azevedo, vemos texto de valor naturalista, pelo apego ao determinismo. O dueto “crítica social” e cientificismo segue unido aqui. “O cortiço” não é o melhor que o país produziu, em termos literários... mas que é mais lido que Jorge Amado, lá isso é.
Aos estudiosos, valem os trabalhos sobre Romão, Jerônimo e Rita Baiana, caricaturas de explorador e explorado. A questão da influência da cultura brasileira sobre a portuguesa (determinismo) é fundamental. É por isso que o livro é chamado “romance de tese”.
Importante: dentro de um Rio de Janeiro cheio de figuras distintas, numa época em que reinava a moral cristã acima de tudo, tratar da homossexualidade feminina é tocar numa questão importante dentro da nossa cultura. Lá, em “O cortiço”, prevalece a questão da homossexualidade como um desvio, como doença típica de libertinas moradoras de periferia. Lamentável, claro, pensando nos dias em que vivemos, mas não deixa de ser bom tema para reflexão. Sempre é bom lembrar o paralelo temático da nativa explorada pelo estrangeiro, como em “Iracema”. No Rio, a negra Bertoleza é explorada e, indiretamente, morta pelo português Romão. Na praia do Ceará, o português era Martim Moreno. O destino da índia também foi o sofrimento. O debate sobre moradia, exploração humana e o desejo sexual devem permanecer naqueles que querem estudar mais o assunto.
Leia o desfecho do romance de tese:
“A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar. Os policiais, veno que ela se não despachava, desembainharam os sabres.
Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto, e entes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lodo. E depois emborcou para a frente, rungindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue. João Romão fugira até o canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos. Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito”.