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Vestido de Noiva (resenha)

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Teatro – século XX

Nélson Falcão Rodrigues nasceu em agosto de 1912, em Recife. Filho de jornalista, acaba se mudando para o Rio de Janeiro em 1917. Iniciou sua vida fora de casa aos 13 anos, no jornal “A Manhã”, dirigido pelo pai. Ainda jovem, sofre com as mortes de Roberto, seu irmão, e o pai, Mário, em menos de dois anos.

Em folhetins, Rodrigues assina crônicas sob pseudônimo de Suzana Flag. Seu primeiro trabalho é “Mulher sem Pecado”, de 1939. Depois, seguiram-se “Álbum de Família”, “Vestido de Noiva”, “Anjo Negro”, “Valsa no. 6”, “Os Sete Gatinhos”, “Toda Nudez Será Castigada”, dentre outras.

Em 1943 estréia, em dezembro, “Vestido de Noiva”, causando forte impacto de crítica e causando polêmica. Chamada de “tragédia carioca”, a peça é, na verdade, uma das obras mais modernistas (vanguardistas) do século XX, pelo caráter psicológico e expressionista.

Encenada primeiramente pelo grupo amador “Os Comediantes” e dirigida por Ziembinski, Vestido de Noiva traz três planos básicos : realidade; memória e alucinação.

Tragédia carioca em que se cruzam planos de memória, alucinação e realidade. Triângulo amoroso que se desenrola de forma fragmentada baseada nos delírios da personagem Alaíde que está à morte, num hospital. Desde o início, tem-se a ideia de que Lucia e Pedro podem ter tramado o acidente de automóvel para, num futuro, poderem se unir.

Logo no começo do primeiro ato revela-se o cenário de um prostíbulo, com Alaíde procurando por madame Clessi, sendo então este o plano da alucinação. Alaíde se assusta com a notícia de que esta mulher libertina morrera e a enterraram vestida de noiva. Sabe-se, então, que Mme. Clessi, figura-ícone na mente de Alaíde — culpa de seu diário corajoso — busca ajudar a mulher a recompor memória e fatos. Do mesmo modo que Alaíde, tempos atrás, buscara saber sobre vida e morte de Clessi, esta, agora um “fantasma”, procura restaurar e organizar imagens na consciência de Alaíde.

No segundo ato, plano da memória, entre trevas e focos de luz, Alaíde conversa com mulher de véu que, pelos discursos, sabe-se que vem a ser Lúcia. No plano da realidade, médico conversam friamente a respeito da necessidade de amputação. Um dos médicos pede um serrote. Lúcia, paralelamente, mostra-se revoltada com o fato de que seu namorado, Pedro, fora roubado.

O sonho e a morte são elementos que formam um canal por onde a narrativa se desenvolve e se resolve. Mais da metade da peça se passa no subconsciente de Alaíde e em sua memória, revelando uma pessoa que teve seu desenvolvimento conturbado, abafado pelo falso moralismo dos pais. Casada, continuou sufocada por uma realidade nada atraente perto das fantasias que poderia criar a partir de seus desejos e do diário de Clessi. Num dos momentos do sonho, Alaíde diz a Pedro que gosta de outro, chegando, em seguida, a matar o marido a pancada, o que denuncia sua vida entediante e a necessidade de aventura.

A morte de ambas (Clessi / Alaíde) é brutal e se dá em circunstâncias semelhantes: por amor. Uma, devassa e libertina, famosa; a outra, conservadora, sonhadora e submissa às circunstâncias da sociedade de seu tempo, nos anos 40, séc XX.

A linguagem é simples, deixando para o cenário a novidade aos espectadores. Cortes abruptos de luzes, cenas que se intercalam, revelam o grau de sofrimento e degeneração de Alaíde, mais ainda quando está perto de Pedro e Lúcia, nas lembranças que, vez por outra, resvalam na alucinação e no delírio. Alaíde acaba assumindo que ficara mesmo com o namorado da irmã, talvez por capricho, pois seu amor por Pedro nunca se mostrou intenso.

A cena final — ressurgimento de Alaíde — foi considerada extravagante demais para Ziembinski, o diretor, mas que revela caráter fantástico própria que a peça construiu, simbolizando tanto presença perene da morte como uma possível conciliação futura entre as moças.

As cenas se desenrolam e vão mostrando a mesquinhez do relacionamento entre Alaíde, Lúcia, os pais, ao mesmo tempo em que mostram a frieza do trabalho médico e seu profissionalismo pedante. Destaque para o modo passivo como a família de Lúcia aceita o casamento, pois seria, com certeza, sinônimo de manutenção de benefícios materiais, já que Pedro é conhecido industrial carioca. A presença dos repórteres confirma a ideia de que morte por atropelamento era uma novidade, ainda mais nas circunstâncias em que o fato se deu.

Enfim, três mulheres : Lúcia, Alaíde e Clessi. Memória, realidade e alucinação compõem, nesta ordem, uma trama violenta marcada pelo símbolo do título : um vestido branco, supostamente denotando uma pureza que, em nenhuma delas, reinava.

Personagens principais

  • Alaíde Moreira – casada com Pedro, mora em Copacabana
  • Pedro Moreira – marido de Alaíde, mantém caso com Lúcia
  • Lúcia – irmã de Alaíde
  • Mme. Clessi – prostituta morta em 1905, assassinada
  • Mulher de véu – figura enigmática, na verdade Lúcia
  • Laura – mãe de Pedro
  • Pimenta – repórter de “O Diário”
  • Gastão e Lígia – pais de Alaíde e Lúcia
  • Carioca-repórter – repórter de “A Noite”
  • Homem de capa – (rosto de Pedro)
  • Médicos
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