“De fato, o olhar do outro só me transforma em um
objeto e o meu a ele, se cada um de nós sente que as
suas ações não são acolhidas e compreendidas, e sim
observadas como se fossem as de um inseto”

(MERLEAU-PONTY).

O mundo tem que parar com essa hipocrisia, de fazer de conta que é inocente, surpreendido ou chocado como o quê? Se não era esse o destino de Amy, mas era quase certo esse desfecho para quem “toma” esse caminho. Nós não temos do que nos lamentarmos, isto faz sentido quando todas as oportunidades de retorno ao eixo foram enveredadas, temos, sim, é que nos culparmos por nossa ganância de consumir. Todos foram irresponsáveis, empresário, gravadora, família, público e mídia. Os empresários, máquinas de ganhar dinheiro, não cuidaram, simplesmente deixaram para ver até aonde ainda podiam lucrar, exploraram sua peça sem o cuidado de manutenção, no caso, frágil, vulnerável e delicada como costumam ser os grandes artistas.

Aprisionaram sua peça, cativa, na bigorna dos excessivos compromissos e na filosofia do vamos faturar. Amy (droga ilegal) lembra Michael Jackson (droga legal), que lembra Cássia Eller (droga ilegal), todos gigantescos talentos que se forram sozinhos, no completo abando depois de esvaziados na sua seiva de força e vitalidade. A máquina suga e não faz sua manutenção para que tenham vida longa na esteira de produção, enquanto deixam milionários cada vez mais milionários.

Mas, não há essa preocupação, uma vez que, se fatura em vida, há uma tendência que se fature ainda mais, a suas custa, in memoriam. Amy pedia socorro: “E ainda assim estamos tentando ser puros / Mas não é uma coisa muito fácil, não é? / De se fazer, de se fazer, de se fazer / Não é, não é, não é, não é, não é?”. A descontinuidade nos seus shows deixava isso evidente. Tombos, quedas no palco, esquecimento da letra da música, abandono do palco, sem contar os escândalos, hematomas, machucões, etc., fora dele, mas todos preferiram enxergar nisso o capricho de um talento mimado que faz questão de escandalizar armando barracos, expondo o seio, ou se exibindo alcoolizada ou drogada.

A família parece se fingir de cega porque o dinheiro entra de roldão, então para que se preocupar com uma peça que está rendendo! A família não dá um basta nem que seja temporariamente para a peça seja revisada. Mas não, eles querem que funcione mais, que vá além do limite que não sebe qual, porque também o vício de ganhar dinheiro é saco sem fundo que nunca se completa, nunca está plenamente satisfeito. Pouco importa a saúde, a qualidade de vida, mas o momento do sucesso é para tirar todo lucro que for possível arrebanhar. De novo, pensam que suas peças não são gente. Nas mãos dos empresários os artistas parecem cães sem dono.

As finas e cambaleantes pernas de Amy parecia não poder sustentar uma alma atormentada e seu vozeirão. Winehouse não foi nem sua própria casa para si mesma, mas para a multidão que a colocou avessa até a casa cair. Síndrome da destruição. Os paparazzi fizeram folia de sua degradação. O público poderia, sim, de modo indireto, estacar esse fluxo de exploração e destruição simultâneas, não indo aos seus shows, como se dissesse: nós não queremos uma Amy, para o seu próprio bem, nesse estado deplorável, ela é muito importante para nós, por isso queremos preservá-la. Mas o público goza da dor do seu astro, do lado vulnerável que exorcizar seu próprio fracasso.

O fã antropofágico não consegue conviver com seu ídolo vivo, parece um tanto desconfortável, somente quando ele parte, como diz Falabella, para o “andar de cima”, e se sente livre e seguro para dedicar-lhe o amor pleno, ele não mais “incomoda” com a sua produção. Rapidinho o fã lança mão da sua herança cultural, trancafia essa memória como se fosse seu dono. A vida é uma inquietação, “as flores de plástico não morrem” (TITÃS). De alguma forma lhe é tranquilizadora a certeza desse final. Agora pode escancarar livremente a sua idolatria. No caso de Cássia, Michael e Amy, o público os viu, praticamente, sua arrancada e declínio no mesmo palco que confundia profissão/arte, ficção e a depauperação pessoal implodindo na solidão, no abando indigente. Cada vez mais se tem prova do desejo de histórias breves, o culto à juventude parece interditar o processo natural do nascer, crescer, envelhecer e morrer. Há uma exigência implícita de que etapas sejam queimadas. Só assim, suportamos reverenciá-los.

Deixemos de ser hipócritas, nos precipitamos esses artistas a se arrebentarem na queda, no goza maior de um estilhaçamento sem conserto, sem volta, não tivemos a compaixão de perceber o humano que havia dentro deles, não reconhecemos que seu brilho era exatamente por conta da sua condição insustentável, “humana, demasiadamente humana” (NIETZSCHE). “Ó, quem poderia resgatar deste calabouço um alma de tantas formas escravizada? / Com ferrolhos de ossos o prisioneiro se mantém em pé, com as mãos algemadas. / Num momento cego de um olho, e no outro surdo pelo barulho dentro do ouvido”(MARVELL). Parafraseando Reich sobre o assassinato de Jesus Cristo, diria que todo dia também matamos grandes talentosos e artistas. Enfim, não temos do que lamentarmos, mas de nos culparmos. Certamente, os nãos com os quais Amy tentou interditar as drogas ficarão por muito tempo zumbido ou cristalizados, eternamente, nos nossos ouvidos.