Chega-se ao fim do filme com a convicção do Capitão Nascimento: missão cumprida. Onde será que há Biologia nisso tudo para eu, um biólogo disposto a achar minha disciplina em tudo, estar tratando do filme aqui?

Evolução. Aí está a relação. Seleção natural. Sobrevivência do mais apto. Quem disse que a espécie humana estava isenta disso?

A tropa de elite é um destacamento de bons policiais, incorruptíveis segundo a ótica do filme. Devem ganhar melhor que os 800 reais que o policial comum ganha na cidade do Rio de Janeiro. Não estou sendo irônico. No filme de José Padilha, os policiais comuns são humilhados pelo Capitão Nascimento (na pele do muito bom ator Wagner Moura) quando eles chegam para salvar uma viatura cercada no alto do morro. Ele grita para os de farda azul "Ninguém sobe! Todo mundo quietinho aí!" Humilhante. Estão ali, os guerreiros do BOPE – de farda preta - para garantir a segurança a qualquer custo, truculentos e torturadores, fazem bem o seu papel: o de proteger alguns e matar outros. Não se trata de deriva genética. Os que são mortos, não são aleatoriamente qualquer um. São favelados, são pobres, são marginais com toda a ambiguidade da palavra. Mortos em nome de quem?

Os soldados do BOPE defendem a elite, sim. A parcela dos excluídos não tem defesa. Estão acuados dentro de barracos, lado a lado com os alvos da artilharia bem treinada da Tropa de Elite. Mas e os bandidos? Eles não existem? A obra é tão ficciosa assim? Professor, você está fazendo apologia ao crime? Nada disso. Entendam, tudo é darwinismo puro. Sem água, sem aditivos, sem conservantes. Cristalinamente, para quem quiser ver. Não há condições de convivência entre os grupos, vítimas de tantas causas que não cabem aqui discuti-las por conta de minha tórrida incompetência sociológica e antropológica.

Não quero discutir essa questão. Parto da premissa pronta: há dois grupos e o BOPE existe apenas para um dos lados. Um grupo ameaça a existência de todos. Ele deve deixar de existir. É a lei de Sir Charles, sentenciosa, implacável. Essa guerra só terminará quando não houver oponentes, essa guerra só acaba quando a favela acabar. Alguém tem dúvida disso? Pergunte ao morador da cidade do Rio de Janeiro. Eles temem a favela, indistintamente. Mas é a alegoria da insensatez: quem vive fora dela financia a polícia, ao mesmo tempo que financiam o tráfico.

No filme, uma fala é marcante. O capitão Nascimento no alto do conhecimento do problema diz: "Você que compra a droga é que financia o tráfico no morro" para um garoto "zona sul", viciado e destemido, subindo o morro para comprar seu alucinógeno ou seu estimulante. Quem disse que não estamos sob fogo cerrado dos canos silenciosos de Darwin? Não há espaço (diria, renda) para todos. Sobrevivência do mais apto (ou daquele que tem mais oportunidades?). E eu pergunto (e não ouso responder): tem outro caminho?

Originalmente publicado no blog http://lasneaux.blogspot.com