Desde que abandonou o nomadismo, o homem procurou estabelecer-se em habitações com a finalidade de se protegerem das adversidades do meio, como a presença de um predador ou uma intempérie natural.  Embora a mídia e a literatura, por vezes, associem o homem às cavernas, na verdade não existem evidências de que elas realmente tenham servido como ambiente de moradia para o homem, que nessa época não se estabelecia num único lugar.

Após o “invento” da agricultura e da criação de animais domésticos, correspondendo à época que o homem abandonou a postura de caçador-coletor, houve a necessidade de se estabelecer e colonizar determinada área geográfica. Esta colonização, motivada a partir da fixação do homem induzida pela atividade produtiva gerou a necessidade de edificar abrigos permanentes ou semipermanentes, servindo como meio de proteção, como já se propalou anteriormente. Mas qual seria a forma ideal de abrigos para o homem? A natureza certamente pode ter servido de inspiração.

Muitos animais constroem os mais formidáveis abrigos, alguns com extremo toque de criatividade, utilizando para isso mecanismos laborais ainda desconhecidos. As construções de locais de proteção e abrigo não são particularidade deste ou daquele grupo de animais. Entretanto, alguns grupos apresentam maior propensão à edificação de abrigos do que outros, seja para garantir proteção à sua passagem pela vida, seja para proteção da prole, uma característica muito particular de muitos insetos e das aves.

Alguns insetos sociais como formigas e cupins constroem abrigos fantasticamente bem estruturados. Em artigo anterior enfocamos a criatividade e porque não dizer a inteligência dos cupins. O termiteiro apresenta uma estrutura invejavelmente bem planejada, com um local disposto para o recolhimento de cupins mortos situado nas proximidades da câmara onde a Rainha, uma fêmea que pode alcançar até 15 cm de comprimento, deposita alguns milhões de ovos. Consiste numa estratégia com a finalidade de permitir que as larvas, famintas, utilizem-se de cupins mortos para alimentação, contaminando-se com o Triconympha sp., protozoário mutualista do grupo, responsável pelo trabalho de degradação da celulose.

As formigas saúvas (gênero Atta) apresentam uma invejável organização. Seu formigueiro pode ter quilômetros de canais por onde circulam milhares de formigas num trabalho praticamente infinito. Apresentam câmaras onde realizam a maceração de folhas e cultivo de fungos utilizados na alimentação.

As aves apresentam construções que revelam sua intensiva dedicação à prole. Destaca-se, por exemplo, a espécie Furnarius rufus, o joão-de-barro. Este pássaro é um exímio e paciente construtor. Com seu bico transporta barro durante dias e dias, edificando cuidadosamente um ninho com dois compartimentos e entrada sempre contrária a posição dos ventos. Alguns destes pássaros edificam um verdadeiro “condomínio” de ninhos, ano após ano: um novo ninho é construído sobre o anterior, formando um enfileiramento de ninhos.

Além dos “joãos”, outras aves apresentam ninhos exóticos ou que pecam pela desorganização. O pardal (Passer domesticus) tem um ninho bastante esquisito. Começa pela escolha do material: eles usam tudo o que encontram pela frente na elaboração de um ninho nem sempre eficiente. Restos de fios, capim seco, tiras de tecido, fitas, pedaços de algodão e de papel, além muitas outras coisas formam a estrutura de um ninho que às vezes é suscetível, não sendo suficientemente seguro para proteger os ovos que, geralmente, desabam.

Estes e numerosos outros exemplos certamente devem ter servido de referência para o homem. Nenhum, talvez, tão eficiente, mas certamente, todos, construídos com muita habilidade e criatividade.