A família Euphorbiaceae Juss. é uma das maiores das Angiospermae, com cerca de 300 gêneros e aproximadamente 7.500 espécies, distribuídas em todo o mundo (Cronquist, 1981).  Seus principais gêneros em número de espécies são: Euphorbia L. (1.500), Croton L. (700), Phyllanthus L. (400), Acalypha L. (400), Macaranga Du Petit Thouars (400), Antidesma Burman (150), Drypetes Vahl (150), Jatropha L. (150), Manihot Miller (150) e Tragia Plumier (150) (Webster, 1994a).  De acordo com Barroso et al. (1991), ocorrem 72 gêneros e cerca de 1.100 espécies no Brasil, difundidas em todos os tipos de vegetação e apresentando diversas formas de vida.

Apesar do elevado número de espécies, os seus representantes podem ser reconhecidos por um conjunto de caracteres como porte arbóreo, arbustivo, subarbustivo ou herbáceo com folhas alternas, simples ou compostas, estipuladas, flores unissexuadas, em geral monoperiantadas, em plantas monóicas ou dióicas, com ou sem vestígio do sexo atrofiado e dispostas em inflorescências racemosas ou cimosas, com flores masculinas apresentando número de estames variável e flores femininas tipicamente tricarpelares, triloculares.  Apresentam frutos secos deiscentes ou indeiscentes, comumente do tipo cápsula esquizocárpica (tricoca), ou ainda cápsulas septífragas, loculicidas e circundante, drupóides (filotrimídios, drupas e nuculânios) e bacóides (Barroso et al., 1999).

Euphorbiaceae tem se destacado como uma família de importância econômica, especialmente na alimentação humana, produção de látex e óleos, e ainda na medicina popular.  Algumas espécies são utilizadas na alimentação humana, principalmente na região Nordeste do Brasil, como Manihot esculenta Crantz, da qual extrai-se a farinha de mandioca (Braga, 1976).  Segundo o mesmo autor, as túberas de uma variedade dessa espécie, conhecida como macaxeira, são amplamente consumidas e delas pode ser produzida uma bebida alcoólica– a tiquira.

Alguns representantes da família já movimentaram grandes riquezas no Brasil, especialmente pela extração de látex para a produção de borracha natural, como as espécies dos gêneros Hevea Aublet (seringueira), que fortaleceram economicamente a região amazônica ou espécies de Manihot Miller, que foram responsáveis por manter, durante algum tempo, a economia da região da Caatinga nordestina (Allem & Irgang, 1975).

Além do uso industrial das borrachas naturais, as Euphorbiaceae destacam-se economicamente pela produção de óleos que apresentam diversos usos na indústria de tintas, plásticos, plastificantes, sabões duros, sabões têxteis, fibras sintéticas, pigmentos para tecidos, perfumes, batons, cosméticos, dentifrícios, papel, fertilizantes ou como lubrificante de motores de alta rotação e turbinas de aviões à jato, especialmente  os extraídos de espécies do gênero Ricinus L. (Braga, 1976).  Os óleos extraídos de espécies de Croton L. e Jatropha L., são usados em mistura de combustíveis (Moraes, 1981).  Craveiro et al. (1981a) publicaram extenso estudo sobre óleos essenciais de espécies de várias famílias, inclusive 23 espécies de Croton L., destacando C. eleuteria Bennet. que fornece óleo essencial em escala comercial para o preparo de substâncias aromáticas e bebidas amargas.

A medicina popular também é contemplada com diversas espécies da família Euphorbiaceae: pelo uso do chá de efeito antilítico, diurético, antihepatóxico e antiespasmódico, extraído de espécies do gênero Phyllantus L.(Calixto et al., 1984 apud Sampaio et al., 1996) ou o chá das raízes de efeito terápico cicatrizante, tônico e diurético de espécies do gênero Cnidoscolus Pohl ou de espécies do gênero Euphorbia L., utilizadas como antidiarréicas (Braga, 1976).  Fernandes (1975) aponta a espécie Ricinus communis L. como produtora da fitotoxina ricina, que apresenta propriedades purgativas, letais caso ocorra a ingestão de mais de oito sementes; Jatropha curcas L., produtora de curcina, com propriedades semelhantes à ricina; e, Manihot esculenta Crantz e M. glaziovii Mull. Arg. produtoras de linamarina, que pode causar envenenamento por determinados compostos associados, quando em certas condições, transformam-se quimicamente em cianeto (HCN), determinando morte imediata a quem ingeri-la.

A família Euphorbiaceae ainda é pouco estudada considerando sua complexidade e número de representantes.  Os principais trabalhos envolvendo toda a taxonomia da família foram elaborados por: Jussieu (1824 apud Webster, 1994a, b), Baillon (1863), Pax (1890 apud Webster, 1994a, b), Bentham & Hooker (1880), Hutchinson (1969) e mais recentemente Webster (1975, 1994a, b).

No Brasil, o estudo mais completo foi o realizado por Muller (1874) na “Flora Brasiliensis”, onde além das coletas foram analisados materiais coletados na missão de Von Martius e de outros renomados botânicos como Gardner, Freire Allemão, Pohl e Riedel, que percorreram as mais diversas regiões do país chegando, inclusive, a outros países da América do Sul.  Após esta obra abrangente, apenas alguns trabalhos revisaram gêneros ou taxa infragenéricos relevantes para o Brasil, como Allem (1977c) sobre Sebastiania e Allem (1977d) sobre Sapium para o Brasil, incluindo a América do Sul; Oliveira (1983) para a seção Elachocroton do gênero Sebastiania Sprengel; Senna (1984) para o gênero Maprounea Aublet; Santiago (1988) enfocando o gênero Phyllanthus L. sect. Choretropsis; Cordeiro (1990) para o gênero Julocroton Mart.  Entretanto, grande parte dos estudos versaram sobre floras regionais como os de Smith et al. (1959) para o estado de Santa Catarina; Allem & Irgang (1975) da tribo Euphorbieae para o estado do Rio Grande do Sul; Allem (1977a) para as tribos Phyllantheae, Dalechampieae, Manihoteae e o gênero Euphorbia L. no Rio Grande do Sul; ou floras de áreas restritas como a de  Cordeiro (1985) para Serra do Cipó em Minas Gerais; Cordeiro (1995) para o Pico das Almas, Bahia e; Ulysséa & Amaral (1997) para espécies de Phyllanthus L. da Ilha de Santa Catarina.  Destacam-se ainda outros estudos como os de Secco (1992), para o gênero Croton L. e Mendonça (1992) para espécies laticíferas do gênero Manihot Miller.

Poucos trabalhos trataram da taxonomia de representantes dessa família no Nordeste brasileiro.  Os primeiros foram os de Bezerra & Fernandes (1981), que estudaram seis espécies do gênero Croton L. para os estados do Piauí e Ceará e Gallindo (1985), que estudou o gênero Jatropha L. no estado de Pernambuco.  Dentre os estudos taxonômicos de Euphorbiaceae mais recentes pode-se destacar o de Lucena (1996), que abordou a família nos Brejos de Altitude de Pernambuco e, em fase de publicação, os trabalhos de Lucena (2000) sobre o gênero Croton L. para a zona da mata do estado de Pernambuco, Melo (2000) e Santos (2000) sobre o gênero Cnidoscolus Pohl. e a tribo Hippomaneae A. Jussieu ex Spach., respectivamente, para o estado de Pernambuco.  Para a região Nordeste como um todo, Barbosa et al. (1996) dispuseram numa lista florística preliminar das angiospermas, 295 espécies de plantas da família Euphorbiaceae, para a região, compiladas a partir de diversos trabalhos publicados sobre a flora brasileira desde 1840 até 1996.

Para o estado do Piauí são muito escassas as informações sobre a família, resultando num pequeno número de espécies conhecidas, muito provavelmente pelas poucas coletas e um baixíssimo número de publicações de trabalhos restritos praticamente a listas florísticas (Luetzelburg, 1923; Barroso & Guimarães, 1980; Castro, 1994; Rodrigues, 1998; Bona-Nascimento et al., 1999; Lemos, 1999).