Outro dia coloquei na prova de meus alunos da sexta série a intrigante máxima, que soa como uma brincadeira: quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? Alguns alunos sorriram, outros passaram a respondê-la com seriedade, e aqueles mais desatentos ou que haviam faltado as últimas aulas passaram a perturbar aos professores - aplicadores, inquirindo-os sobre o assunto. Ainda espero que nenhum pai de aluno venha queixar-se sobre a questão. Mas o que depõe como brincadeira é uma das mais importantes questões a respeito dos animais superiores no que se refere à conquista do ambiente terrestre.

A vida, indubitavelmente, começou no ambiente aquático. Aliás, dentre as teorias a respeito do surgimento das primeiras formas de vida surgidas no planeta Terra, é a Teoria dos Coacervados proposta principalmente pelo bioquímico Alexander Ivanovith Oparin, que é aceita pela maioria, até porque foi reiterada em laboratório por Stanley Miller, em 1953. De acordo com Oparin, a composição da atmosfera primitiva associada às características do ambiente na época foram os responsáveis diretos pela formação de diversos compostos que levaram a formação das formas de vida mais simplificadas, responsáveis pelo início da aventura viva no planeta. Miller, baseando-se nas informações idealizadas por Oparin, reuniu em laboratório a receita para a vida. Num conjunto de balões e tubos de vidro, Miller misturou os ingredientes da atmosfera primitiva: a amônia (NH3), o Metano (CH4), o hidrogênio (H2) e a água (H2O). Com estes materiais, Miller submeteu o sistema à eletricidade, e obteve aminoácidos, as moléculas responsáveis pela composição das proteínas, material orgânico de maior abundância nos seres vivos (nos seres humanos estima-se que mais de 15% seja de pura proteína, perdendo em quantitativamente apenas para água, com seus 65%). Para Oparin estes materiais que abundavam a superfície da Terra, uma bola de fogo em processo de resfriamento, era constantemente lavado pela água resultante de chuvas frequentes, e submetido às descargas elétricas e a radiação ultravioleta, que forneciam a energia necessária para a combinação das moléculas abundantes. Com o surgimento das formas mais simples da vida, entrou em cena o processo de evolução.

A vida avançou partindo das formas simplificadas para formas cada vez mais complexas que redundaram na formação dos seres celulados, inicialmente os procarióticos com toda a sua simplicidade, até chegarem os eucarióticos, providos de estruturas bastante complexas e com atributos tecnológicos vinculados à utilização dos recursos energéticos, produção de proteínas e consequentemente, reprodução. Posterior ao desenvolvimento das células, foi oportuna a ocorrência dos seres multicelulares, que expandiram-se vertiginosamente nas águas. Animais cada vez mais complexos foram surgindo e desaparecendo, até chegarmos aos peixes. A conquista do ambiente terrestre veio alguns milhões de anos depois, decorrentes da adaptação parcial de alguns peixes ao ambiente terrestre.

Para ter o privilégio de conquistar o ambiente terrestre, inúmeras adaptações foram necessárias. A ordem de evolução e surgimento dos animais superiores foi a seguinte:

 

Temos então o primeiro animal terrestre surgido a partir de uma adaptação de peixes. Os anfíbios (do grego anfi= duplo; bios = vida. Vida dupla, parte na água, parte na terra) por si são animais que representam uma transição, uma vez que são capazes de ter vida nos ambientes terrestre e aquático. Algumas adaptações permitem a vida na terra, como o alimento, a captação do oxigênio, a existência de abrigos, etc. Entretanto alguns fatores estão naturalmente vinculados a água. Os anfíbios dependem da água essencialmente para a reprodução. Os machos realizam um ritual que inclui uma pressão sobre o abdome das fêmeas facilitando a liberação dos óvulos na água. Os machos também liberam seus gametas na água, aonde ocorre a fecundação. Eles apresentam desenvolvimento indireto, período em que voltam a depender da água, pois as formas larvais respiram por brânquias, atributo exclusivo de animais que realizam trocas gasosas na água. Os anfíbios são, portanto, animais que levam uma vida muito dependente da água. Seria necessário que os animais superiores desenvolvessem um sistema reprodutivo que independesse da água.

O nosso questionamento inicial foi centrado exatamente neste “detalhe” resultante da seleção natural: a resistência às mazelas do ambiente não-aquático. Quando questionei meus alunos sobre quem havia surgido primeiro (o ovo ou a galinha) muitos prontamente responderam que sem o ovo jamais teríamos a galinha, mas que, entretanto, uma galinha mutante teria que ter posto o 1. Meus jovens rebentos não atentaram para o esquema proposto que eu acabara de colocar no quadro (figura 01), e muito menos lembraram que os répteis são animais ovíparos ou ovovivíparos pela própria natureza. “Quem veio primeiro foi o ovo, mas não o de galinha, e sim o de réptil !”, respondi com presteza. O ovo dentro do nosso conceito empírico de “ovo”, é constituído por uma casca calcária porosa (por onde ocorrem as trocas gasosas e que funciona como principal elemento de proteção do embrião), a gema (futuro embrião, saco vitelínico e outras estruturas embrionárias) e a clara (com função de proteção do embrião, especialmente contra choques mecânicos e perdas de água). Todas estas características já existiam nos ovos de répteis muito tempo antes das próprias aves existirem.

O mais interessante dessa história é que alguns alunos além de responderem o que foi pedido, levantaram hipóteses sobre um novo questionamento: quem veio primeiro: o ovo de galinha ou a galinha ? Resultado das prodigiosas mentes humanas jovens.