Os estudiosos da educação, especialmente no que se refere ao processo de concentração e cognição, defendem que na medida em que a pessoa vai crescendo sua capacidade de percepção/reflexão tende a expandir. Então, espera-se que a capacidade de concentração de uma criança de quatro anos seja mui diferente da de um adulto de 25 anos. Espera-se que uma criança de dois anos não tenha, ainda, condições de se interessar por assuntos complexos/conceituais, diferentemente de um adulto de 35 anos de idade. Espera-se que haja um amadurecimento gradual na medida em que a idade vai passando, e na medida em que vai se progredindo nas fases escolares. Espera-se que a capacidade de produção de texto, e a então capacidade critica, seja desenvolvida ao longo do processo educacional. Espera-se que o aluno universitário seja mais interessado em aprender que um adolescente. Espera-se... e tão somente espera-se, pois a realidade tem desnudado um outro contexto (triste, vergonhoso e ascendente).

Nesta última década tenho trabalhado exclusivamente com a educação superior, e por puro (e conclusivo) empirismo afirmo que o nível dos alunos regrediu. O que tenho visto são verdadeiros “Benjamin Button” da educação – quanto mais envelhecem, mais se tornam crianças. Acredito que não estou sozinho nesta percepção. O professor Pierluigi Piazzi e o professor Sergio Cortella endossam está perspectiva (assista vídeos destes professores no YouTube). Os alunos estão chegando às universidades com menor capacidade crítica, com ausência de criatividade, com preguiça de pensar, com desdenho com a leitura, com morbidez na produção de texto, com déficit de respeito ao professor, com desprezo ao conhecimento e com carência emotiva. Estecoquetel do mal tem tornado a sala de aula um lugar totalmente infantilizado.

“Criamos a época da velocidade, mas senti-mo-nos enclausurados dentro dela. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos”.Charles Chaplin (1889-1977)

O nível dos alunos piorou. Atualmente os alunos universitários não conseguem prestar atenção na aula (ou em estudos extraclasse) mais do que 15 minutos - equivalente à capacidade de concentração de uma criança no jardim de infância. Após este breve período os professores tem que valer-se de dinâmicas (nome pomposo para tornar lúdico o processo, comprovando a infantilização da educação superior). Os alunos são muito impacientes e tem muita dificuldade de completar uma tarefa - características de crianças de aproximadamente quatro anos de idade. Por isto, muitas atividades em classe ficam para casa (não é que não tenha tempo para fazer uma atividade, a verdade é que os alunos não estão tendo capacidade de fazer a atividade). Os alunos universitários não sabem lidar com conceitos abstratos (teorias/saberes), tudo têm que ser pragmático, visível, útil, imediato e concreto – atitudes estas que se assemelham a uma criança de seis anos de idade que ao se inserir no contexto escolar tem que começar a aprender a lidar com o abstrato (questões metafísicas, noções de tempo, espaço, pensamentos).

 

O nível dos alunos piorou. Atualmente os alunos da educação superior são facilmente irritáveis e terrivelmente emotivos – como crianças que não aceitam ser contrariadas. Assim ficam emburradas, fazem biquinhos e franzem a testa. Os alunos exigem respeito sem se darem ao respeito – irritam todos (especialmente ao professor), mas quando o irritam fica enraivecido e acha que é bullying, coisa de criança mimada que não tem noção de seus atos. Os alunos fazem da sala de aula uma sala de bate papo, onde silêncio é adjetivo raro – é tipo crianças que não conseguem ficar quietas, a não ser quando estão assistindo desenho da Peppa Pig. Os alunos estão indo para as faculdades para medir força bruta, se possível com o professor, com fins a desmoralizar estes educadores – são como adolescentes que por qualquer besteira querem brigar para se mostrar para os da sua gangue, a sala se tornou um octógono de MMA. Os alunos estão se desenvolvendo na técnica da fofoca conceitual, insistindo em falar mal de um professor para o outro professor, ou entre aluno-aluno – atitudes de características teen que denunciam a imaturidade destes noveis acadêmicos.

 

A educação superior no Brasil está sofrendo de um retrocesso intelectual e emocional, estamos presenciando uma infantilização da universidade. E a semelhança da técnica (senso-comum) para se matar sapos lentamente (coloque-o na água fresa e vai se esquentando gradativamente até o sapo morrer), estamos num caldeirão fervente, mas com sensação de água morna. De um lado os alunos se iludindo que estão aprendendo e não percebendo o quão infantis estão sendo. Do outro lado os professores que se renderam a esta nova condição de infantilização. O resultado é previsível: diplomas que não vale nada, conhecimentos desconexos, faculdade desmoralizada, saberes perdidos, professores cansados e donos de faculdades enriquecendo.

Originalmente publicado em: <http://seabraprofessor.blogspot.com.br/2014/10/a-infantilizacao-do-raciocinio-nas.html>