Ao longo da vida nos deparamos com pessoas que tornam nossa existência muito difícil. E dependo da intensidade e grau desse incômodo, teremos essas pessoas na cota de inimigos. As vezes é um parente, um vizinho ou um chefe com o qual trabalhamos e nos inferniza a vida. Na grande maioria das vezes não nos vingamos, não por sermos bons, longe disso, mas por não termos poder para tanto.

Mas, se não podemos nos vingar na vida real, podemos fazê-lo na ficção. Seja na literatura, como é o caso da belíssima obra de Victor Hugo, Les Misérables (Os Miseráveis), na contenda entre Jean Valjean e o inspetor Javert. Ou no cinema, farto de exemplos do jogo maniqueísta entre mocinhos e bandidos como Super Man e Lex Lutor ou na luta intergaláctica entre Luck Skywalker e Darth Vader da série Star Wars (Guerra nas Estrelas). Mas, as nossas novelas se superam no quesito inimigo da vez a ser combatido.

Quem não se lembra de Leôncio, com aquele bigode de Adolf Hitler, perseguidor da pobre escrava Isaura, e que vendo as repetidas cenas de humilhação pelas quais ela passava, não pensou em trucida-lo com as próprias mãos. Quem não comemorou quando finalmente alguém deu fim a insuportável e intragável Odete Roitman na novela Vale Tudo ou em sua companheira de maldade, Bia Falcão na novela Belíssima, ou em Flora depois de ter passado toda a novela, A Favorita, perseguindo e tentando destruir a pobre Donatela, a quem invejava profundamente. Agora nos vemos as voltas com as arque inimigas do momento, Nina e Carminha em Avenida Brasil.

Através desses personagens de ficção nos vingamos coletivamente de nossos desafetos, a ponto de esperamos no último capítulo não apenas o final feliz da mocinha ou do mocinho, mas, sobretudo, queremos nos regozijar com a tragédia daqueles personagens maus que finalmente pagam tudo de ruim que fizeram. Trata-se de uma catarse coletiva, uma vez que projetamos naqueles personagens, inconscientemente, todo o ódio que sentimos dos muitos desafetos do cotidiano, e dos quais nos vingamos nos personagens, esquecendo que a novela da vida continua a nos exigir soluções que a desforra não proporciona.

Acontece que muitos de nós ainda enxerga na vingança a única alternativa para lidar com a mágoa gerada por alguém, presos ainda a lei de Talião. Além do que encontramo-nos numa sociedade que valoriza e estimula a cultura do revide, e explora a desgraça em programas de televisão nos quais desfilam todos as tragédias humanas.

No entanto, sob qualquer ponto de vista que se analise a vingança ela sempre culmina na triste história de dois derrotados: aquele de quem se vingamos, que cometeu um equívoco e semeou o ódio e agora se vê obrigado a colher o que plantou, e aquele que comete a vingança. Este último perde muito mais, uma vez que não consegue com a desforra reparar o mal do qual foi vítima, se igualando a quem o fez mal, perdendo o álibi da virtude de ser melhor. Além disso, ele demonstra que até aquela data estava preso numa destrutiva teia de ressentimento, que não é aplacado com a vingança, exatamente por perceber que ela nada repara. Quando o ditado popular diz que: “a vingança é um prato que se come frio”, esquece-se de acrescentar que é um prato que também se como só, além de revelar quanto tempo foi perdido no projeto de revide cujo gosto final é insípido.

Poucas vezes o final de uma novela revelou tantos matizes da complexa teia das relações humanas com traumas, quedas e superação. E apesar das já esperadas cenas cômicas e românticas, enredos previsíveis de casamento e happy end (final feliz), foram as magistrais cenas de perdão que substituíram os risos pelo silêncio dos telespectadores, muitos dos quais com os olhos marejados ao constatar a força incomparável desse sentimento, pois o amai os vossos inimigos não é uma proposta para os tolos e fracos, mas para os fortes e lúcidos que superam a visão infantil de um mundo maniqueísta divido de forma simplista entre o bem o mal, para enxergar no perdão um reencontro com a própria paz interior.