A questão do relacionamento amoroso possui aspectos delicados que, se quisermos lidar com seriedade, devemos tratá-lo com muita consciência para não cairmos em posições unilaterais ou preconceituosas. Esta é uma matéria que envolve qualquer idade e se estender a todos os setores da vida passando por uma postura ética, psicológica, filosófica, estética e fisiológica.

Uma das grandes dificuldades de se lidar com o amor é que ele sempre se transforma em um problema individual, descaracterizando todos os critérios e regras gerais. Não se pode emitir conceitos generalizados sobre o assunto, sendo esta a razão de polêmicas e controvérsias. Quando acontece com a gente é sempre diferente. Damos as desculpas mais contraditórias para explicarmos a nós mesmos, a fim de ajustar a nova realidade a todos os nossos conceitos, preconceitos e visão de mundo. E não existe limites para isto. Cada um de nós vai se explicar e tentar entender todas as discrepâncias de um relacionamento amoroso a fim de justificar o assumir ou não o compromisso da vida em comum.

A questão do relacionamento não se limita à idade. Ao longo de minha prática clínica, pessoas de 20, 40 e 60 anos criam um grande bloco , de uma uniformidade incrível, em relação aos problemas e condições de uma procura, início e manutenção de um relacionamento estável e duradouro.

Entre as causas mais prováveis, independente da idade, que podemos apontar como indicadores do problemas de uma estabilidade amorosa, as raízes sociais de uma falta de condições financeiras e a não definição social ou profissional devido à não conclusão dos estudos, ou de uma instabilidade profissional. De causas mais psicológicas podemos citar a imaturidade psíquica, o apego infantil à própria família, a necessidade de liberdade para se deslocar para qualquer lugar, a capacidade pouco desenvolvida de amar e ser responsável, a uma falta de experiência em relação à vida e ao mundo lá fora; que é uma selva, a dificuldades de diálogo, ouvir e se expressar; para compreender e ser compreendido. Além de todas as ilusões típicas da juventude ou de uma personalidade despreparada e predominantemente ingênua.

O casamento instituído acaba se tornando uma solução comum para aliviar esta ambivalência sentida nas entranhas, numa tentativa de estruturação ou reorganização de valores que combinem perfeita e simplesmente com nossas atitudes racionais. Tipo ‘agora eu me caso e vou ser feliz. Vou me tornar maduro, adulto, responsável e seguro’.

Mas esta experiência não se mostra muito verdadeira para um grande número de pessoas cujas condições se caracterizam por uma ou algumas das causas descritas acima. E assim, como resposta começam a surgir novos padrões que antes simplesmente se achavam sob forte proteção de algum juízo moral. E uma destas formas, cada vez mais difundida e constante entre as pessoas é o ‘ficar’. Que vem se fazendo presente talvez como uma marca de modernidade comportamental.

Nós estamos tão sobrecarregados de dogmas e preconceitos que o nosso pensamento alcança limites irracionais. Já vi homens chegarem à conclusão de que o certo era manter a esposa e a amante, pois ele amava as duas. A própria condição psíquica deste momento cria ilusões que vão impossibilitar o alcance de uma estabilidade, e a maturidade de julgamento em relação aos interesses e planos de vida. Estes mudam com tanta frequência que se torna impossível definir e avaliar o que realmente se quer. Quantos já não se apaixonaram por alguém para duas semanas mais tarde não entender como aquilo pôde acontecer.

Esta maturidade de julgamento em relação aos interesses e planos de vida só se desenvolve através de tentativas e erros. E as ilusões e desilusões acabam por comprometer este caminho, pois as pessoas se fixam na condição do ‘ficar’, bloqueando o processo, correndo o risco de se estabelecerem em um infantilismo. A questão não é ficar ou não ficar, e sim ficar no ficar. Pessoas se iludem achando ser esta a solução. Impedindo o desenrolar do processo de alcance de uma maturidade e consequente conquista de um relacionamento estável.

Estas pessoas são ou serão eternas crianças. Elas simplesmente ‘ficam’ como se tudo na vida fosse provisório. Uma autora as descrever como homens que tem dificuldades de se estabelecer, de correr o risco de um desligamento das origens ou laços familiares. Se relacionam nesta forma descompromissada por medo de perder. São impacientes, não-relacionados, idealistas. Sempre começando de novo, aparentemente intocados pela idade, parecendo serem sem malícia, e dados a largos vôos de imaginação.

Mas como toda condição humana, isto possui vantagens e desvantagens. Por um lado, a atitude experimental possibilita conhecer-se sem grandes consequências. A partir do momento que o outro nos espelha nossas contradições e afinidades, quanto mais pessoas se conhece, mais se estaria aprendendo. Exercitando a visão de mundo, aprimorando o modo de se expressar, adaptando-se e aprendendo a se defender do outro, seja ele que for. Desta forma as pessoas estariam acumulando inúmeras experiências de valor inestimável para a conquista de sua inteireza de ser. Mas o outro lado da moeda despotencializa esta grande aventura. O caráter de descompromisso pode facilmente transformar o ‘ficar’ em algo corriqueiro, sem graça, superficial e sem sentimentos.

Portanto temos o namoro e o ‘ficar’. O falso aprisionamento e a pretensa liberdade como dois elementos deste complexo mágico que definem a condição humana nos relacionamentos, e incompreensivelmente alheios a uma explicação racional e totalmente fora de nosso controle.

Referências Bibliograficas


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