“É difícil resistir à tentação quando a manipulação chega de modo relativamente fácil a todos que estejam ávidos por experimentá-la em busca do lucro” (BAUMAN, 2008a, p.72).

Um colunista protagoniza o comercial de um prédio residencial e, para dá mais credibilidade ao empreendimento, lançou mão da própria família no sonhado consumo burguês, cuja concepção de morar bem ou com qualidade de vida está perfeitamente integrada com essa instituição. Baumam (2011, p.51) afirma “que nada é realmente novo e sem precedentes, e nada desaparece sem deixar vestígios”. Assim, a família, que Beck (apud BAUMAN, 2001) chama de instituição zumbi, porque está morta e ainda viva, entra em cena.

Porém, a família em foco não estava completa, assim, dizer que ali estava toda família, não faria sentido, soaria falso. Resolveram por bem e para imprimir mais veracidade ao quadro, justificar a falta de um dos membros, no caso, a filha Luíza. Desse modo, foi incluída na fala do coroa propaganda de que ele reunira toda família, “menos a Luíza que está no Canadá”. Isso que, a priori, parecia meio esnobe (por se imaginar que a adolescente, ao invés de estudando, estivesse se divertindo, passeando), caiu na graça ou na futilidade do povo, e o país terminou contemplando a teoria de mundo globalizado ao adotar a frase: “Menos a Luíza que está no Canadá”, como a grande piada Nacional do momento.

Resultado: Luíza passou a ser uma ilustre desconhecida. Alguns artistas fazem sucesso e seus nomes, depois de determinado tempo, tendem a cair no ostracismo, no esquecimento, porque a sociedade de consumo anseia pelo novo.  Nesse sentido, Bauman (2008b, p.45) diz que “a instabilidade dos desejos e a insaciabilidade das necessidades, assim como a resultante tendência ao consumo instantâneo e à remoção, também instantânea, de seus objetos, harmonizam-se bem com a nova liquidez do ambiente em que as atividades [...] tendem a ser conduzidas no futuro previsível”.

Nesse episódio, veio primeiro o nome seguido da curiosidade de se saber quem era sua dona. Até porque esse nome já está neste imaginário havia tempo, por conta da música de Tom Jobim, Luíza, tema de abertura da novela Brilhante, em 1981, da Rede Globo de Televisão. Poderíamos dizer que quase todo brasileiro tem “uma Luíza na cabeça” simbolizada por um amor vivido ou platônico. Porém, não demorou muito para que a tão comentada figura se apresentasse. De repente, a Luíza dá baixa no seu intercâmbio no Canadá e chega envolta numa área de celebridade. Ao invés da bela João Pessoa-PB, sua cidade natal e produtora da vinheta, decola em São Paulo-SP onde é recebida pelo Jornal Hoje da Globo e outros.

Nos seus verdes dezessete anos de idade, a jovem ainda sem saber bem ao certo que profissão quer seguir, mas já parece bem animada com vislumbre do meio artístico, embora diga que não presta para nada, será? Seu nome surgiu no cenário Nacional e os oportunistas de plantão não perderam a chance de faturar, assim sendo, mesmo se dizendo tímida, a meio caipira Luíza já está estrelando um comercial local. Tudo isso denuncia uma carência de criatividade e de novidade que levam as pessoas pegarem ou se apegarem a qualquer coisa que possa fazê-las fugir da monotonia, do dia a dia massacrante, bombardeado de escândalos impunes de políticos que embolsam o dinheiro público. E eis que surge mais uma celebridade instantânea, como diz Boorstin (apud BAUMAN, 2007, p.68), “celebridade é alguém conhecido por sua característica de ser bem conhecido”. O que torna fenomenal nesta história é o fato de que não era conhecida a pessoa, mas apenas seu nome. Segundo Albert Einstein (apud LÉVY, 2005), três grandes bombas haviam explodido no século XX: a bomba demográfica, a bomba atômica e a bomba das telecomunicações. Essa última, de certo, nas recentes décadas tem disparado mais coisas fúteis ou ruins, do que utilidades.

Essa folia toda também demonstra o espírito superficial e gozador do brasileiro de não enfrentar a realidade com mais sentimento de pertença e cidadania (aqui ser cidadão é ter uma carteira de identidade), da supervalorização da exposição em detrimento do talento. Para Debord (1997, p.13), “é sem dúvida o nosso tempo... prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser...”. Esse pensamento, de alguma forma, é corroborado por Bourdieu (apud BAUMAN, 2008c) quando ele ressalta que a precariedade hoje está por todos os lados e assombra, em especial, os conscientes. Diria que, por isso mesmo, não é à toa que as pessoas atualmente se exibem tanto e, devido à facilidade que se tem de filmar por meio de câmera ou celular, gravam suas ações vulgares ou ridículas e lançam na Internet, na esperança de ficarem famosas. Afinal, “ser é ser visto na TV” (BERKELEY apud BAUMAN, 2000, p.110). Por conseguinte, a preparação e o investimento se tornaram irrelevantes, o que vale mais é a ocasião e a promoção da vitrine.

Num golpe de forte, meio as avessas, Luíza estende a máxima da sincronicidade de que, “estar no lugar certo e na hora certa”, as coisas boas acontecem. A garota não estava presente, mas seu pai a fez onipresente quando citou seu nome e, sem querer, “cavou” essa oportunidade. Talvez, além da noção do Canadá como um país decente e grandioso, a palavra oxítona de sonoridade fácil de rimar, com a sua sílaba tônica “dá”, tenha ajudado. Enfim, deu tudo de bom para Luíza, para a produtora do vídeo e para a construtora. Agora Luíza faz parte do cardápio Nacional, dizem que já se tornou até letra de música de carnaval e a teremos, certamente, em mil outras inclusões e versões. Entretanto, a frase: “Luíza voltou do Canadá”, não tem o mesmo apelo quando se diz: “Menos Luíza que está no Canadá”. Assim, a bonitinha vai ter que se virar para manter seu espaço na mídia.

Finalmente, no entender de Bauman (20011, p.118), “um indivíduo é uma criatura cuja sorte é a conclusão, consequência ou recompensa de uma vida de trabalho. Os indivíduos são o que se tornaram, cada qual resultante de seus próprios esforços e escolhas”. Mas Luíza caiu de Paraquedas, portanto, apesar do seu nome meio cabalístico, terá que batalhar para que sua exposição não se reduza ao que profetizou o americano Andy Warhol de que todos, num futuro próximo, devido à tecnologia e à necessidade de exibição, teriam seus quinze minutos de fama.

Referências

BAUMAN, Z. Em busca da política. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
______. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
______. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
______. Medo líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008a.
______. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008b.
______. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008c.
______. Bauman sobre Bauman: diálogos com Keith Tester. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2011.
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
LÉVY, P. Cibercultura. 5. reimpressão. São Paulo: Ed. 34, 2005.