“Ser é ser visto na TV”(Berkeley

As pessoas censuram o Big Brother Brasil como exclusivamente escandaloso em sexo e maldoso na convivência, e tudo que acontece dentro da casa não tem nada a ver com elas. O Big é tido uma ficção escrota totalmente estranha à realidade brasileira, como se país fosse uma “mar de rosas”, isento de qualquer sacanagem, onde ninguém “bota o pé” para outro tropeçar ou “puxa seu tapete”. Na academia, mesmo no curso de psicologia, falar do Big Brother suscita asco. Que acadêmico ousaria tecer algo de positivo sobre esse reality show? De tão degradante que é considerado, certamente, nem se daria ao trabalho de criticá-lo para não explicitar que o assiste.

Essa rejeição incisiva seria um prenúncio para o fim precoce do BBB, entretanto, o programa sobreviveu não apenas a sua infância, mas também atravessou a adolescência e chegou à idade de adulto jovem: BBB 19. Há momentos de extrema futilidade que só uma mente vazia e tempo ocioso dão conta da paciência de se debruçar no pay-per-view. Mas se o BBB não representa o brasileiro, como é possível bater recordes de votações? As grandes marcas patrocinam programa sem audiência? Parece que muita gente se sente remetida ao patamar de suposta elite intelectual quando, publicamente, menospreza o Big Brother. Isso sugere um olhar de despeito e preconceito de quem, simplesmente, o critica. Afinal, brother sempre ganha, se não, a priori, bens materiais, mas popularidade, fãs etc. Sem dúvida, mesmo os que se revelam violões, ou exatamente por isso, arrebanham simpatizantes e fazem sucesso. A telinha tem o poder “mágico” de elevar simples mortal ao status de semideus do Olimpo no imaginário popular.

Em 2008 publiquei, de acordo com a tônica interna da casa cujo “elenco” - na época - era meio pueril, o ensaio O Big Brother Brasil e o Sexo dos Anjos, pelos motivos acima comentados foi uma surpresa ver o texto citado na Internet etc. Apesar das prováveis manipulações por trás das câmeras, sempre considerei o Big Brother um excelente laboratório humano, devia ter nas faculdades de psicologia, ambiente legítimo para o estudo do comportamento humano. Mas na verdade, nesse universo acadêmico, há uma carência enorme de atividades voltadas para esse fim. Por vezes, se restringe à Dinâmica de Grupo, é não raro o professor se depara com certa resistência dos alunos e das instituições formadoras. O curso acaba por se reduz ao domínio cerebrotônico, até os experimentos de condicionamentos, por meio da famosa Caixa de Skinner, agora são feitos com ratinhos virtuais.

O Big Brother, obviamente, vai além da casa, diz muito não só dos confinados, mas, em especial, dos telespectadores cujas reações revelam seu caráter porque disparam o gatilho a favor ou contra quem está no paredão. Este BBB 19 teve uma peculiaridade inquietante que precisa de discussão e análise. O elemento complicante desta edição foi a própria vencedora Paula von Sperling, 28 anos, de Lagoa Santa-MG, bacharel em Direito. Moça loura, bonita, de voz esganiçada - semelhante a que é alterada em entrevista para o depoente não seja identifico -, e infantilizada, mas com um olhar nada inocente para traçar os perfis e avaliar as intenções de voto das tribos rivais. Dizia-se temerosa de ser prejudicada por falar tudo que lhe vem à cabeça, mas, na verdade, demonstrava satisfação, particularmente, ao expressar seus preconceitos.

Von Sperling deixou claro que é racista, tem preconceito sexual (homofobia) e intolerância religiosa. Sem nenhuma consideração e respeito pela opinião alheia, disse não ter amigo e confessou apego à Pipa, sua porquinha de estimação, atribuindo-lhe aspectos humanos: “é muito inteligente, é mesmo que gente”, enquanto matava a saudade acariciando um exemplar de pelúcia. No seu lugar privilegiado de branca com descendência europeia, sem pudor e empatia, se dava ao direito de reproduzir os estereótipos associados aos segmentos discriminados.

As minorias brasileiras, ao longo dos anos, têm lutado por visibilidade, respeito e oportunidade de igualdade. De repente ver todo esse esforço desmoronar diante do território Nacional e quiçá do mundo sob os holofotes da maior televisão do país, a Rede Globo, e uma das mais importantes do planeta. Os preconceitos dessa sister a tornaria alvo de altíssima rejeição, mas não foi eliminada no seu primeiro paredão, vieram outros para fortalecê-la de tal forma que, independente dos seus discursos de ódio, foi contemplada com o prêmio máximo de um milhão e meio. Como uma pessoa racista, preconceituosa (homofóbica) e intolerante religiosa consegue ser premiada?

O Brasil não encara seus preconceitos institucionais, pela negligência, parece que faz questão de mantê-los atuantes. Os movimentos negro e homossexual apenas baixaram um pouco, depois de muitos protestos e denúncias, a fervura da intolerância. Assim sendo, no bojo desta sociedade permanece a pressão dos preconceitos que podem emergir a qualquer momento, pois não estão superados, mas abafados ou silenciados pelo politicamente correto. A atual crise econômica do país potencializa insegurança, a população fica entregue ao Deus dará e ao salve-se quem puder, e isso implica na degradação ou inversão dos valores morais. Essa incerteza e falta de garantia exige válvulas de escape ou tábua de salvação que, traspassada pela ignorância, ausência de autoconhecimento, egoísmo e uma perspectiva imediatista e limitada do todo, volta-se contra aos grupos minoritários. Logo, elegem Cristos, bodes expiatórios ou sacos de pancada para exorcizar o mal estar conseguinte de uma política corrupta que usurpa, por todos os ângulos, sua dignidade e potência.

O preconceito não é um estado de espírito individual, mas um fenômeno ideológico que atua consciente e inconscientemente no coletivo. Em razão disso, nenhum preconceito será extirpado do seio da sociedade enquanto não deixar de ser institucionalizado, ou seja, de ser nutrido pelo sistema de modo direto (ativo, explícito, frontal) e indireto (sutil, disfarçado, camuflado). É impossível fazer valer a Constituição de que todos são iguais perante a lei etc., se as instituições não se responsabilizam, não punem, fazem “vistas grossas” ou, simplesmente, ignoram as ações preconceituosas e racistas.

O Jair Bolsonaro foi eleito presidente, no vácuo desse abismo social, fazendo apologia aos preconceitos: Racismo - crítica depreciativa aos quilombolas; Preconceito Sexual (homofobia) - confronto com homossexuais, orgulho de ser homofóbico, bem como constantes insultos e ataques com palavras de baixo calão ao seu colega deputado, homossexual assumido, Jean Wyllys; Misoginia - agressões dirigidas à colega deputada Maria do Rosário, entre outras, esta bem emblemática: “só não te estupro porque você não merece”. É como se a maioria do povo preconceituoso estivesse à espreita da autorização explícita de midiáticos para que, sem empatia, medo e culpa, manifeste seus preconceitos. Bolsonaro fez isso e foi eleito, Paulo seguiu essa mesma cartilha e também se saiu vitoriosa. O complexo de vira-lata ou a submissão colonial tolera que essas figuras, que representam o burguês europeu louro de olhos claros, reafirmem, sem filtros, seus preconceitos.

A identificação com os valores da hegemonia branca heterossexual e o poder midiático, de tão sedutores, garimpam até mesmo os discriminados - a exemplo de negros e gays com preconceito introjetado -, que apoiam seus próprios algozes. Enfim, o país vive um retrocesso moral, os valores estão sendo colocados de ponta cabeça ou violados, diria que a insanidade no Brasil está a céu aberto, a ética e a decência estão em baixa, o que vale é aparecer, mesmo que ridiculamente e a todo custo, para ganhar fama. Como diz Boorstin (apud BAUMAN, 2007, p.68), “celebridade é alguém conhecido por sua característica de ser bem conhecido”.

A Paula sempre focada na objetividade do jogo, sem freio na língua para vomitar seus preconceitos, era a mesma que tinha determinação, resistência e recorria à manobra psicológica para lidar com as intempéries das provas. Na sua pseudo despretensão, por vezes, se comportava espontaneamente perversa, zombou dos estigmas - quando os brothers enquadravam, na categoria negro, os diversos tons de pele -, tipo: “tenho cabelo ruim”, “eu sou negra então, porque a minha avó é negra de origem africana”.

A sister Paula disse que sabia irritar, com certeza, e faz isso com muita propriedade até se tornar o ponto nevrálgico que culminou com a expulsão de Hariany Almeida, 21 anos, Designer de modo, sua melhor amiga. Possuída pelo efeito do álcool irritou a goiana, também chapada, que tentava lhe dizer exatamente isto: que a mineira não se importava de machucar ninguém, algo que parecia simples para ela, mas podia ferir o outro. Parecia falar de si mesma, e a Paula às gargalhadas, desviando do assunto, tenta abraçar Hariany que, estressada de não ser ouvido, a empurra.

Com este discurso cinicamente deturpado: “Teve a audácia de ser imperfeita e teve a ousadia de ser real”, o apresentador Tiago Leifert anuncia a vencedora do BBB 19 Paula von Sperling. “Teve a audácia de ser imperfeita”, essa frase pode ser traduzida por: 1) Teve a cara de pau, a desumanidade de discriminar minorias sem o menor respeito pelo politicamente incorreto; 2) Praticou o crime em rede Nacional etc.; 3) Passou por cima da dor das minorias que clamam por direitos básicos. A “ousadia de ser real” pode significar a liberdade que a Paula se deu, no seu lugar privilegiado de branca, de ser cruel, assumindo uma suposta superioridade que autoriza humilhar a todos que não se encaixam nas suas referências, preferências e vínculos.

É irrelevante classificar essa edição como a pior ou uma das piores, mas de perceber sua relação com este momento histórico que, em razão disso, inverte valores, caça bodes expiatórios para dar evasão à angústia de um país instável na sua suposta busca de rumo. Aí, os heróis serão aqueles que, a exemplo de Bolsonaro e Paula, levantam a bandeira do ódio que traz à praça pública minorias marginalizadas para serem execradas e crucificadas.

Depois de abrir seu leque de preconceitos e abanar na cara dos brasileiros, é estranho que Paula tenha sido Indiciada apenas por intolerância religiosa, então cegaram para os demais grupos discriminados? Essa mulher não é inocente, sabia o que estava fazendo, conhece, em tese, as Leis. Finalmente, essa vitória confirma uma inversão perigosa, num país cuja moral é oscilante, no qual prevalece um peso e duas medidas e o famoso “jeitinho” brasileiro. Em suma, fica implícita a mensagem: faça errado, seja ridículo, politicamente e eticamente incorreto que tudo dar certo e você pode ser catapultado para o sucesso. As minorias que se explodam!

Referências

Berkeley apud BAUMAN, Z. In: Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar. 2000, p.110.
BAUMAN, Z. (2007). Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar. 2007, p.68.

 

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