Quando analisamos o cristianismo, abstraindo todos os dogmas e mitos a partir dele construídos, nos deparamos com uma proposta revolucionária de vida, tanto no plano individual como coletivo. Embora para alguns seja apenas uma mensagem de salvação pessoal, o cristianismo se propõe a uma redenção coletiva, visto que provocou uma ruptura radical com os status quo da época e ainda hoje guarda elementos revolucionários, pois rompe com preconceitos, com o modo mesquinho de ver a vida e o outro. É uma proposta que nos direciona ao encontro com a diferença, não para impor-se a ela, mas para respeitá-la, elevando o outro a categoria de irmão, ao inimigo como alguém que devesse ser perdoado e até mesmo amado. Imagine um mundo assim! John Lennon imaginou...

Apesar das distorções que foram e que são feitas na escrita e interpretação dos textos evangélicos ao longo dos últimos dois mil anos, o caráter revolucionário da mensagem de Jesus continua ativo. Basta superarmos a superfície dos discursos distorcidos e irmos ao encontro da mensagem simples, mas poderosa deixada por Ele.

Numa analogia com o mundo de hoje podemos observar que, de acordo com o tipo de interação ente os seres humanos, a influência social pode tomar duas formas: a conformidade, que se baseia na influência da maioria exercida sobre a minoria ou a inovação, que seria o oposto, ou seja, a influência da minoria sobre a maioria. A conformidade nos prende às ideologias, aos preconceitos e mitos de cada época. Deixamo-nos levar por ela com medo de sermos diferentes dos outros e para não nos sentirmos sós. Também agimos como a maioria por termos introjetado esses padrões e para nos sentirmos pertencentes ao grupo, evitando assim o risco de pensarmos a agirmos diferentes e sermos excluídos. Como se pode perceber, as forças que nos impelem à conformidade são muito fortes, por isso poucos ousam a mudança. Mas, ao analisarmos a mensagem de Jesus sob qualquer ângulo, veremos que ela nos solicita uma constante e radical mudança, que é denominada de conversão.

Hoje mal compreendida, a conversão tornou-se uma mera adesão a formas, ritos ou propaganda, onde cada um diz ser o único detentor da verdade, desrespeitando os demais no grito e na força, misturando a mensagem transcendente e eterna do Cristo à politicagem mesquinha, venal e transitória dos homens, misturando enfim César e Deus.

Todos os encontros de Jesus aconteceram com os diferentes, com aqueles que a maioria de nós repugnaria. Podemos destacar um desses encontros: o Dele com uma mulher samaritana no poço de Jacó. Cheio de simbolismos, esse encontro nos remete ao chamamento para sairmos das tradições e princípios aparentemente inquestionáveis, para a renovação íntima. Por vários motivos, jamais um judeu homem poderia conversar com uma mulher samaritana. Ela era mulher, o que na época representava, num mundo machista, ser uma cidadã de segunda classe. Era uma samaritana, o que para os judeus, guardadas as devidas proporções, correspondia aos dalitis para os indianos. Era pobre, pois foi ela mesma, e não uma serva sua, quem foi ao poço pegar água. E finalmente, era uma pecadora aos olhos dos outros, e mesmo que nem todos soubessem de seus cinco maridos, o fato dela estar num poço em pleno meio dia sem o acompanhamento de um pai, de um irmão ou do marido revelaria, aos olhos de muitos, segundas intenções por parte dela. Acontece que naquele dia seu encontro seria com um homem completamente diferente de todos os que ela conheceu.

Percebe-se, nitidamente, o quanto ela estranha a abordagem de Jesus quando diz: “Você um judeu... eu, uma samaritana”. Vê-se o quanto ela está presa às tradições e ao mesmo tempo revela sua insegurança por Jesus estar indo contra as normas. “Como sendo judeu, tu me pedes de beber, a mim que sou samaritana?”. Como ela se vê pequena diante daquele que mostra o caminho da grandeza...

Ao se dirigir aquela mulher, Ele rompe com tradições, com seu papel de judeu e faz com que a mulher questione sua própria condição de samaritana, para que ela se enxergue não apenas como tal, mas com uma criatura filha do mesmo pai, como Jesus a via.

O encontro não acontece casualmente junto ao poço de Jacó. Para aquela mulher o poço representava o conjunto de valores que a norteava até aquele momento. Todavia, para que ela pudesse mudar sua visão de mundo, tinha que se despojar tanto dos preconceitos sociais que a cercava, quanto das atitudes pessoais equivocadas que denegriam a sua própria vida.

Depois de ter quebrado os tabus sociais, Jesus vai em busca de revelar as sombras pessoais daquela mulher, por isso diz: “Vai, chama teu marido”, tocando num ponto cego de sua alma, para que ela se revelasse por inteira, e não parcialmente. Ela responde: “Não tenho marido”. Mas com o objetivo de chegar ao fundo do poço daquele coração Ele assevera: “disseste bem: Não tenho marido. Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido”. E então arremata: “isto disseste com verdade”, ou seja, naquele momento a mulher se revelou inteira, sem máscaras.

Ao questioná-la dessa forma Ele não quis humilhá-la. É bom lembrar que o diálogo só aconteceu na ausência de seus discípulos, que tinham ido à cidade comprar comida. Eram só eles dois e o poço histórico e simbólico como testemunha.

Aquele encontro mudou-a, pois pela primeira vez alguém que a conhecia mais do que ela mesma, mesmo assim não a evitou por ser samaritana, não a julgou por estar equivocada diante da própria vida, mas ofereceu-lhe amor, do tipo que a preencheria para sempre. Não daquele amor fugaz que ela imaginou ter tido dos seus cinco maridos, e que por ser superficial, a obrigava buscá-lo incessantemente, qual água que tirava do poço todos os dias.

Ao final daquele encontro ela sai transformada e corre para anunciar aos demais o que acabara de vivenciar. Naquele momento ela não aderiu a nenhuma religião, não se tornou seguidora de nenhum culto em especial, não se comprometeu com nenhuma prática ritualística ou uma convenção humana qualquer que fosse. Ela apenas se transformou, converteu-se, no sentido mais transcendente do termo.

Se quisermos também podemos nos transformar, mas para isso é necessário nos desnudarmos de todas as convenções, de todos os preconceitos e todas as máscaras sociais que nos acostumamos a usar.

O natal representa o nascimento do Cristo a nos propor o nosso renascimento, por isso cabe-nos a pergunta: quando Ele nascerá em nós?

Para a samaritana foi naquele dia, no posso de Jacó, quando finalmente ela mergulhou nas profundezas do seu ser para encontrar a água viva. Para Zaqueu foi quando ele subiu em cima de um sicômoro (tipo de árvore) em Jericó para se elevar a um novo patamar. Para a multidão foi no dia do inesquecível sermão que de tão poético e consolador renovou a esperança em todos que o escutaram e que ainda hoje escutam. Para Paulo foi às portas de Damasco, onde ele cegou para finalmente enxergar a luz. E pra você?