Parece uma obviedade, mas quando todas as coisas vão bem os elogios se sucedem e todos querem estar ao seu lado, para compartilhar uma posição na fotografia do sucesso. Nesse momento dizem que sempre apostaram em você, sempre souberam do seu potencial, afinal, eles afirmam, era só uma questão de tempo para tudo acontecer. É assim hoje que os BRICs (Brasíl, Rússia, Índia e China) são vistos pelos mercados globais, os novos ricos. Homens influentes da economia mundial, como o presidente do JPMorgan Chase, Jamie Dimon reage dizendo: “Emergente? Não. O Brasil já emergiu”, enquanto a revista The Economist afirma em matéria de capa que o Brasil decola (leia artigo anterior deste colunista: Brazil Takes Off).

Ironicamente, no mesmo momento em que o Brasil saboreia o reconhecimento global, nosso colonizador, Portugal, experimenta a ridicularizarão ao fazer parte dos PIGS (porcos em inglês), um novo acrônimo criado pelos mercados, que faz referência a Portugal, Itália, Irlanda (recém incluída no hall), Grécia e Espanha (Spain na língua anglo-saxónica), que são países periféricos da Europa, tendo em comum elevados déficits das suas contas públicas.

Claro que é exagerado e pouco educado se referir assim a Portugal, Itália e as demais nações que estão em crise na Europa. O próprio Jim O’Neill, o economista chefe do Goldman Sachs, que inventou o termo BRIC em 2001, afirmou, durante conferência em Hong Kong, que era “muito rude” a utilização do acrónimo PIGS para se referir a estas nações. Além disso, não se pode apagar as conquistas sociais e história desses países por causa de uma crise financeira, que será certamente equacionada.

O que quero ressaltar é o efeito montanha russa da vida. Quando estamos por cima, céu de brigadeiro, quando estamos por baixo, inferno astral. O Brasil passou quase toda a sua história no inferno astral e agora que começa a experimentar o céu de brigadeiro, parece estar esquecendo que existe o “logo abaixo”, o lugar para onde podemos voltar com força. Basta um deslize: a continuidade da leniência com a corrupção pública, o não investimento na educação para garantir a continuidade de nosso crescimento, a pouca seriedade com que a violência urbana vem sendo tratada, enfim são muitos os perigos no caminho.

Se hoje estamos bem na foto nada garante que continuaremos assim. Grécia e Itália, berços da civilização ocidental, hoje são tratadas com piadas pelo mundo e nós que sempre fomos motivos de piada poderemos voltar a ocupar esse lugar, sobretudo levando-se em consideração que nos falta ainda a mesma solidez social de uma Itália.

Num ano eleitoral como este devemos ficar atentos para qual piloto irá substituir Lula na aeronave Brasil, afinal nosso país ainda não é um robusto Boeing, que é quase todo operado automaticamente, no qual o piloto apenas comanda uma aeronave azeitada e potente. Somos um bimotor com aspirações a jatinho, onde um erro do piloto pode nos arrojar, novamente, ao chão da história e ao escárnio mundial.