Com este artigo, pretendo iniciar uma série de reflexões que visam discutir o papel preponderante e decisivo da família na educação de crianças e jovens.

Pode parecer um tema já bastante discutido, e na verdade o é. Mas chama atenção o quanto este tema é, ao mesmo tempo ignorado, sobretudo pelos principais interessados em conhecê-lo: os pais.

Na verdade, essa discussão vem sendo realizada de forma mais contundente nas academias. Há alguns anos, as escolas têm realizado palestras feitas para os pais, com foco no papel da família na educação, o que já é uma importante contribuição para levar a discussão aos que de fato podem e devem fazer algo, mas não tem sido o suficiente.

Somos herdeiros de vários discursos pseudo-pedagógicos e pseudo-psicológicos que ao longo das últimas décadas têm contribuindo com a criação de inúmeras “novas soluções” para educação, as quais nos têm deixado sempre no mesmo lugar. Esses modismos, que precisam ser superados, vez por outra apresentam novos métodos como uma panacéia que tenta, sem sucesso, dar conta da lacuna deixada por um dos principais atores no processo ensino-aprendizagem: os pais.

Parte significativa da geração dos anos 60, 70 e 80 em nosso país, recebeu uma educação rígida em meio a uma ditadura política que marcou de tal forma o psiquismo dos jovens daquela época que gerou uma aversão, não sem razão, ao autoritarismo, deixando com legado negativo dessa experiência a falsa idéia de que autoridade parental e autoritarismo é a mesma coisa, o que não é verdade.

Ao abrir mão, indiscriminadamente, de seu papel de autoridade os pais descem à condição de “amiginhos” dos filhos, numa tentativa fracassada de jogo de iguais, numa relação que é, por natureza, assimétrica. Nela, os pais têm o dever e a experiência para conduzirem os filhos, e os que não cumprem essa função, com medo de serem autoritários, muito comumente não conseguem desenvolver eficazmente, na personalidade da criança, um sentimento fundamental para toda e qualquer relação que ela venha a ter no futuro, que é o respeito.

Não respeitando os pais já que são “apenas amiguinhos”, as crianças sentem dificuldade de respeitar outras figuras de autoridade, entre elas, o professor. A falha na construção desse ordenamento psíquico gera um efeito dominó sentido primeiramente pelos próprios pais, que por omissão e temendo o autoritarismo criam, ironicamente, pequenos ditadores. Em seguida, estas crianças moral e emocionalmente deseducadas chegam à sala de aula ignorando a autoridade do professor que tenta, muitas vezes inutilmente, restabelecer a ordem, o que muitas vezes lhe custa retaliação por parte de alguns pais.

Por fim, cabe a sociedade receber o resultado lamentável desse processo: uma massa de jovens deseducados e, por isso mesmo, vulneráveis a todo tipo de perigo que comumente cercam indivíduos sem limites, entre estes as drogas que, lamentavelmente, em muitos casos é quem põe um “ponto final” nessa triste história feita de omissão e abandono dos filhos por parte dos que deviam educá-los.

Os pais precisam entender que autoritarismo e autoridade, embora sejam palavras com grafia e significados parecidos, guardam particularidades que as distinguem. Enquanto a primeira se caracteriza pela imposição sem diálogo e contraposição, num jogo em que um submete o outro, a segunda, pelo contrário, se permite o contraditório, pois na verdade vem da convicção de que a autoridade é legítima, e de que ela não visa submeter as crianças aos pais, mas sim as regras as quais os próprios pais a elas estão submetidos. Até porque, já é senso comum, que somente o exemplo se constitui numa inequívoca forma de educar.