O Simbolismo representa, na Europa, a estética literária do final do século XIX, que se opõe às propostas do Realismo. De fato, nas duas últimas décadas do século XIX, já se percebe, em boa parte dos autores realistas, uma postura de desilusão, e mesmo de frustração, em consequência das infrutíferas tentativas de transformar a sociedade burguesa industrial. O crítico Alfredo Bosi sintetiza esse clima:

Do âmago da inteligência europeia surge uma oposição vigorosa ao triunfo da coisa e do fato sobre o sujeito – aquele sujeito a quem o otimismo do século prometera o paraíso mas não dera senão um purgatório de contrastes e frustrações.

Portugal nos oferece vários e significativos exemplos. Um deles nos é dado por Antero de Quental, que, em meio a profundas crises existenciais, acabou por se suicidar. Curiosa também foi a trajetória de Oliveira Martins, exato contemporâneo de Antero de Quental e militante socialista na década de 1870, que em uma de suas últimas páginas, pouco antes de sua morte (1894), escreveu:

Quem nos diz a nós que, apesar de toda a vaidade que pomos na descoberta de molas e mecanismos novos para agenciar a vida, não estejamos preparando o descalabro final de um mundo desquiciado e o prólogo da catástrofe inevitável que para além vemos lugubremente, quando o nosso planeta girar nu e frio na noite eterna do espaço?

Outro exemplo interessante é a sociedade Vencidos da Vida, formada por alguns “ex-realistas” (Eça, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro, Oliveira Martins) que se reuniam frequentemente em jantares. Esses intelectuais, antes defensores dos ideais realistas, defendem agora (1888-89) a família, a propriedade, a Monarquia e um nacionalista ufanista.

Na Europa, as origens do Simbolismo devem ser buscadas na França, com a publicação de As flores do Mal, de Baudelaire, em 1857. (...)

O marco inicial do Simbolismo português é a publicação, em 1890, de Oaristos, livro de poemas de Eugênio de Castro, cujo prefácio constitui um verdadeiro programa da estética simbolista. Entretanto, já em 1889 circulava em Coimbra duas revistas acadêmicas que seguiam as orientações do Simbolismo francês – Os insubmissos e Boêmia nova –, e que contavam, entre seus colaboradores, com Eugênio de Castro e Antonio Nobre.

O Simbolismo português prolonga-se até a proclamação da república, em 1910, quando a nova realidade política favorecerá o surgimento de várias revistas de forte coloração nacionalista. Mas a data considerada como o início do Modernismo português é o ano de 1915, quando, já em meio à I Guerra Mundial, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro lançam a revista Orpheu.

(...)

Em Portugal, o Simbolismo está diretamente ligado a um profundo estado depressivo, que dominava a sociedade lusitana em consequência de três fatos capitais que marcaram os últimos anos do século XIX:

  • A crise da Monarquia – A partir de 1870, surgiram em Portugal vários agrupamentos socialistas, responsáveis pelas primeiras greves operárias) e republicanos (organizados institucionalmente pelo Partido Republicano, que se tornava cada vez mais forte).
  • O ultimato inglês – A partir de 1870, a Inglaterra deu início a um ousado plano expansionista, que incluía, entre outras medidas, mo domínio total da África (seu lema era “um domínio inglês do Cabo ao Cairo”, ou seja, do extremo sul ao extremo norte). Na mesma época, Portugal tentava ampliar seus territórios africanos e dominar a longa faixa de terra que ia de Angola (costa atlântica) a Moçambique (costa índica), o que implicaria dividir a África ao meio. Diante disso, a Inglaterra mandou um ultimato a Portugal, exigindo a retirada das tropas portuguesas dos territórios situados entre Angola e Moçambique, e ameaçando recorrer à força, caso fosse preciso. Acuado, o governo português teve que ceder às pressões inglesas e abandonar os territórios. Esse acontecimento gerou um clima de profunda irritação popular contra o governo e contra os ingleses; alguns tumultos e uma revolta de caráter republicano foram registrados, mas, na prática, restou apenas uma frustração generalizada.
  • A crise econômica e fi nanceira – Essa crise afetou toda a Europa nos anos 1890-91. Em Portugal, houve a depreciação da moeda nacional, o fechamento de alguns bancos e o aumento da dívida pública.

O simbolismo começa por repudiar o Realismo e suas manifestações. De fato, a nova estética rejeita o cientificismo, o materialismo, o racionalismo, valorizando, em contrapartida, as manifestações metafísicas e espirituais, o que equivale a dizer que ela corresponde à negação do Realismo/Naturalismo.

A realidade objetiva não interessa mais; o homem volta-se para uma realidade subjetiva, retomando um aspecto abandonado desde o Romantismo. O “eu” passa a ser o universo, mas não o “eu” superficial, sentimentalóide e piegas do Romantismo: os simbolistas vão em busca da essência do ser humano, do que ele tem de mais profundo e universal – a alma. Daí a sublimação, tão procurada pelos simbolistas: o domínio do espírito sobre a matéria, a purificação, por meio da qual o espírito atinge as regiões etéreas, o espaço infinito. Nesse embate entre corpo e alma, a morte representa a máxima libertação da alma, quando se rompem as correntes que a aprisionavam ao corpo.

Em consequência desse subjetivismo, dessa valorização do inconsciente e do subconsciente, dos estados d’alma, do vago, do diáfano, do sonho e da loucura, o Simbolismo desenvolveu uma linguagem carregada de símbolos (o tropos, isto é, o “desvio”, a mudança de significado de uma palavra ou expressão), em clara oposição a uma linguagem literária mais seca e impessoal.

No Simbolismo, tudo é sugestão. “Sugerir, eis o sonho” – era a palavra- de-ordem de Stéphane Mallarmé (1842-1898), poeta simbolista francês. O Simbolismo usa a linguagem simbólica: as palavras transcendem seu significado mais comum, adquirindo outros sentidos. Ao mesmo tempo, essa linguagem é rica em sinestesias [figura de estilo que explora a relação entre duas ou mais sensações físicas: “Avista-se o grito das araras”] e aliterações [repetição de fonemas para sugerir um som], que são recursos estilísticos usados para atrair a totalidade da nossa percepção, ou seja, para envolver todos os nossos sentidos. A musicalidade é outra forte característica da estética simbolista. Paul Verlaine, um dos mestres do Simbolismo francês, em seu poema “Art Poétique” ensinava: “De la musique avant chose...” (“A música acima de tudo...”).