“Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela”(Walter Benjamin).

Para Lacan, a depressão é uma covardia moral (2003), essa afirmativa, a priori, parece muito forte, na verdade é uma dificuldade do indivíduo em lidar com as expectativas internas e do entorno que termina ocasionando, “não se baseia em motivações inconscientes, ou em fatores estritamente biológicos, mas sim na forma como se estrutura a experiência” (Beck apud Afonso, 2015, p. 99). A depressão é considerada a doença do nosso tempo, a sociedade se constitui como depressiva (Roudinesco, 2000, Dahlke, 2009). A depressão é um quadro mais próximo das neuroses do que das psicoses (Kehl, 2009), ocupará nos países industrializados, até 2020, a segunda causa de morbidade, perdendo apenas para doenças cardíacas. A depressão, sem dúvida, é um estado emocional oportunista para várias doenças, porém, mais do que doença a depressão sugere ser um sintoma. O contexto social favorece a depressão, mas não pode ser responsabilizado totalmente, é perigoso, como mais se ver nos dias de hoje, psicólogo isentar o sujeito da responsabilidade pela sua depressão, jogando toda culpa no sistema.

Para Dahlke (2009), é um absurdo estabelecer distinção entre depressão endógena, originada por fatores internos, e depressão reativa, originada por fatores externos. Atribuir 50% dos casos de depressão a um vírus, como insiste um grupo de cientistas alemães (Dahlke, 2009), é uma insanidade. Na condição de epidemia a depressão pode, indiscriminadamente, afetar todo mundo, assim, como psicólogo é gente, não seria questionável ser uma das suas vítimas. Porém, a depressão tem base e estrutura emocional, psicólogo com depressão, equivale à nutricionista obeso, suscita uma escancarada contradição. O psicólogo deve compreender os mecanismos que fomentam a depressão para não ser absorvido por ela, tem que se autoconhecer, do contrário, para que lhe serve o curso de psicologia, e como se atreve a terapeutizar!? Por trás da depressão há uma grave recusa de viver a própria vida, a pessoa fica surda diante do chamando e do desafio, a depressão acontece a partir dessa recusa. A sensação de vazio interior mostra que se perdeu de vista o conteúdo de suas vivências, deixou de fluir, seu fluxo vital estagnou. A depressão é um recurso usado para escapar do monopólio social da globalização, no qual todos desejam ter dinheiro, poder, beleza e sucesso (Dahlke, 2009).

Na ótica de Alexander Lowen o depressivo perdeu a fé, não acredita mais de que seja capaz. Enfim, seu fracasso pode até não ser total, mas generaliza, e descamba na depressão. Certamente, “as pessoas que tem um coração receptivo e aberto para o amor quase nunca são afetadas por surtos depressivos [...]. Aquele que ama entra em ressonância consigo mesmo e com a vida” (Dahlke, 2009, p.337). A depressão é uma falta de habilidade para negociar as exigências externas com as exigências internalizadas como próprias. O sujeito depressivo foi eclipsado pela demanda do social, não consegue identificar seus reais desejos e necessidades. Talvez aí esteja a covardia a que se refere Lacan, ou seja, de não se opor, de não conseguir dizer não para demandas que não são necessariamente suas. O depressivo é o sujeito altamente seduzido pelo canto social que, em vista disso, perdeu o rumo do seu barco. Muitos insistem em ceder o lugar do amor para o Ecstasy e Prozac (Dahlke, 2009). A depressão tentar tamponar a falta de amor, e se consome, entra num processo de ostracismo ou de busca inconsciente de voltar ao útero onde, sem esforço algum, todas as suas necessidades eram atendidas. Lacan diz que na paixão se tenta resgatar o paraíso perdido (útero), diria que na depressão o indivíduo busca no “útero” a hibernação dos lutos mal resolvidos das perdas reais e/ou imaginárias. Paracelso (apud Dahlke, 2009, p.338), tinha razão:

“o melhor remédio para o ser humano é o próprio ser humano. E o amor é o remédio de potência mais alta”.

Referências

Afonso, P. Quando a mente adoece: uma introdução à psiquiatria e á saúde mental. Cascais-PT: Princípia, 2015.
Dahlke, R. Depressão: caminhos de superação da noite escura da alma. São Paulo: Cultrix, 2009.
Lacan, J. “Televisão”. In: Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
Lowen, A. O corpo em depressão: as bases biológicas da fé e da realidade. São Paulo: Summus, 1983.
Kehl, M, R. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.
Roudinesco, E. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.