Sempre com um objetivo de maior equilíbrio psíquico e melhor desenvolvimento psicológico, nos aventuramos a procura de caminhos tortuosos, procurando padrões de desenvolvimento e possibilidades restauradoras .

Esta procura é um empenho para sanar a falta de significado que existe em todos nós. Quando nos encontramos em uma encruzilhada, pode nos faltar discernimento para sabermos que caminho tomar. Quando nos deparamos com um abismo, pode nos faltar coragem para um salto no grande vazio. Quando despertos, podemos ter a sensação de estarmos sonhando. E quando sonhamos , podemos criar a realidade de estarmos acordados, através da transferência da consciência para o mundo onírico.

Transferir a nossa consciência para o mundo onírico requer um cuidado especial para fazê-lo de maneira consciente e segura. Antes de qualquer empreendimento, devemos primeiro nos ocupar com a consciência. É como se tivéssemos de sentir a firmeza do solo onde pisamos, para podermos cravar a nossa ancora de segurança antes de nos lançarmos em um abismo sem fim. Pois é assim que o inconsciente vai sempre nos parecer.

O mundo dos sonhos é muito sutil, efêmero, abstrato e irreal. Por quantas vezes escutamos nossas mães nos acalmando, na calada da noite, diante de nós crianças, com os olhos estatelados, o coração na garganta e um choro aterrador? "Não liga não! Foi só um sonho! Volta a dormir" Às vezes eu achava que o sonho era minha mãe dizendo aquilo, e que a realidade era o monstro querendo me pegar, ou aquele buraco onde eu caia, e não acabava nunca; ou uma manada de bois bravos que estourava e eu não encontrava um lugarzinho para me proteger. No fundo, eu não sei qual era pior. Se isto, ou se quando eu tinha sonhos restauradores com paisagens paradisíacas, sensações de leveza, experiências de voar. Pois... eu acordava. Mas ainda eu trazia comigo toda uma sensação de paz, de equilíbrio, de bem estar. Mas como? Se era um sonho? Quando era bom, eu podia ficar feliz e acreditar que tudo aquilo era verdadeiro e ficava feliz; e quando era ruim, era mentira? Apenas uma produção involuntária de nosso inconsciente sem o menor sentido?

Por toda esta falta de referência, ou por uma má orientação, não reconhecemos os nossos sonhos como algo real e digno de atenção. Os Tibetanos nos dizem que, para tomarmos um passo decisivo em direção à liberação dos infindáveis ciclos de morte e renascimento, devemos compreender melhor as ilusões do estado acordado antes de nos aventurarmos nas ilusões mais sutis do estado de sonhos.

A nossa dificuldade na compreensão da natureza ilusória dos sonhos, se deve ao fato de igualarmos sua imaterialidade com irrealidade, em vez de reconhecermos esta imaterialidade como uma ilusão a ser penetrada. O desenvolvimento de uma maior consciência tanto na vida acordada quanto na de sonhos é um passo essencial na compreensão da relação entre estes dois mundos. Devemos buscar a consciência, completude ou inteireza, não só nos sonhos, como também em nossas vidas diárias.

Seria extremamente penoso e desastroso tentarmos desenvolver um só lado, seja ele qual for. Se nos empenhamos na evolução de uma consciência onírica sem darmos a devida atenção à nossa vida acordada, poderemos estar gerando um grande conflito. Sob uma perspectiva de crescimento, é sempre muito bom podermos ir em direção à novas fronteiras, mas sem abandonarmos o território já conquistado.

Devemos procurar o desenvolvimento de uma consciência integradora, não causal, para entendermos e integrarmos os eventos e visões, diurnas e noturnas. Se o objetivo maior é o equilíbrio psíquico, ou seja, maior integração entre consciência e inconsciente; lucidez nos sonhos requer também lucidez na vida acordada, onde ambas seriam um instrumento valioso para se alcançar este fim.