Quando discutimos sobre o inconsciente, sua relevância e influências sobre nossa vida diária, e falamos de nosso interesse em confrontá-lo para obtermos um maior alargamento de nossa consciência; com certeza não estamos lidando com um assunto exclusivo da psicologia profunda, que tem o inconsciente como objeto de investigação.

Ironicamente tudo começou no início do sec. XVIII , a Era da Razão, com o renascimento de técnicas antigas e esotéricas de cura, indução de transe e alteração da consciência, reintroduzidas por Franz Anton Mesmer (1734-1813), um médico vienense com crenças em astrologia. Iniciando assim uma nova era de exploração da consciência.

Mesmer sentiu que os planetas afetavam os seres humanos através de uma influência que se assemelhava ao magnetismo, e começou a tratar seus pacientes aplicando magnetos em seus corpos. Mais tarde ele parou com os magnetos e defendeu a influência curativa emanada das mãos e do sistema nervoso do curador; no caso, ele. Este procedimento se difundiu por toda a Europa como uma crença fetichista – animação de um objeto inanimado –elevando um conceito primitivo a partir do que mais tarde viria a ser denominado de inconsciente. A esta influência sobre as pessoas e objetos ele nominou Magnetismo Animal, que ele acreditava poder ser transmitido para objetos que se segurasse e tocasse.

Só para fins históricos, em 1784, o governo francês apontou uma comissão oficial para investigar Mesmer. Entre seus membros estavam Antoin Lavoisier –fundador da química moderna –e Benjamim Franklin. A comissão reportou que o fluído magnético era um mito, apesar da técnica resultar em algumas curas, todos concordaram que Mesmer jogava com a imaginação de seus pacientes. Apesar deste dado ter sido usado para destruir a reputação de Mesmer, acabou sendo um fator importante para a construção da psicologia moderna.

O habito de fazer objetos inanimados se movimentarem acabou se libertando de um entendimento primitivo induzido por Mesmer e alcançou o nível da crença nos espíritos. Que por sua vez já surgia como uma recuperação das religiões Xamânicas de nossos antepassados. O elo de ligação entre Mesmerismo e Espiritismo foi evidenciado pelas pesquisas do Barão Karl von Reichenbach, um químico e industrial alemão, descobridor da parafina e vários outros compostos orgânicos. Em 1840 ele começou uma série de experimentos com magnetismo animal e descobriu que certas pessoas, a quem ele chamou de sensitivas, eram capazes de ver um brilho luminoso em torno de magnetos e cristais, o qual ele chamou de força ódica. Este desenvolvimento na observação dos fenômenos reativados do inconsciente, nos levou no início do século a uma expansão de níveis subsequentes de evolução, i.e., de sistemas gnósticos ecléticos, à teosofia e antroposofia, como também aos primórdios da Psicologia Analítica na figura de Jung que procurava averiguar cientificamente tais fenômenos do inconsciente. Os mesmos fenômenos que acabaram criando também outras vertentes ao se tornarem acessíveis à natureza ingênua das seitas teosófico-gnosticas, sob a força de mistérios.

Graças a este interesse e especulações da Psicologia Analítica em tradições étnicas que promovem as diferenças em padrões de condutas culturais, que nos foi possível focalizar a atenção em procedimentos xamânicos de se lidar com um simbolismo direcionado na busca da cura, ou melhor, na resolução dos conflitos internos através de rituais simbólicos, nos ofertando uma perspectiva importante para lidarmos com o nosso jeito analítico de perceber o material inconsciente de nossos pacientes.

Existe uma similaridade entre análise profunda e a cura xamânicas, que simplesmente não podemos deixar de valorizar ao lidarmos com um material, em nosso trabalho de investigação de certos tipos de produção simbólica. A diferença é que o Xamã toma parte ativa em uma cerimônia de cura. Na análise Junguiana é o paciente que produz o material ao entrar em processo analítico, como uma experiência ativa de auto-cura, auxiliado pelo analista.

O que interessa ao Xamã, a nível arcaico, é a magia existente em nosso processo de individuação. E, nas experiências de doença, morte e cura xamânicos podemos observar a ideia do sacrifício, desenvolvimento e reconstituição da totalidade. E consequente elevação do homem à uma condição digna de vida.

O que acontece é que muitas de nossas doenças somáticas são agravadas através de uma atuação inquestionável de nosso material psíquico. O Xamã valoriza isto, uma vez que ele dá ao paciente a oportunidade de fixar a sua fé em sua misteriosa personalidade mágica através de gestos ritualísticos e toda uma parafernália instrumental que o acompanha.. Deste modo, o curandeiro consegue ativar a psique do enfermo, e esta vai ajudá-lo a trazer a saúde para aquele corpo fragilizado. Além disto, o Xamã também tem que acreditar em suas fórmulas caso contrário ele perderá todo o seu tom convincente e seguro. E seu trabalho não obterá um resultado satisfatório.

Meier entende que existe uma conexão entre a cura de doenças somáticas por meios de processos psicológicos e o fenômeno da sincronicidade. Isto significa que existe uma relação entre psique e soma, mas que não é uma relação de causa e efeito. Soma e Psique formam um par de opostos, cuja reconciliação em caso de distúrbio, parece depender da emergência de um símbolo, e este símbolo é o tertium, um terceiro componente, uma força maior que nos forja os sintomas corporais.

Quando Paracelsus nos fala de sintomas, devemos também nos recordar de sua história etimológica que significa "a coincidência em um" ou "a convergência de pelo menos duas magnitudes". A palavra grega symptoma tem como sinônimo latino a palavra coincidentia.

Parece então que a cura só pode acontecer através da constelação de um tertium - um símbolo ou arquétipo que surge como um evento sincronístico, uma coincidência significativa, e não como uma cadeia de causa e efeito.

Os distúrbios entre soma e psique são melhores vistos como manifestações equivalentes de um poder o qual está obstruindo o fluxo livre da energia vital. Eles expressam as obstruções e os ferimentos da alma. E o homem só pode descobrir o que é preciso para a restauração do equilíbrio, escutando e refletindo sobre os movimentos sutis da alma à medida que ela se expressa em sensações corporais, sentimentos, emoções, imagens, ideias e sonhos.

Num estágio superior, este procedimento implicaria em uma experiência de contatar esta força curadora dentro de si mesmo. Jung em uma palestra para os estudantes do C.G. Jung Institute de Zurique, em 1958, (3 anos antes de sua morte) ressaltou a necessidade de conhecermos uma orientação infinitamente inteligente que existe dentro de nós, a qual se referia como o "o velho de dois milhões de anos" ou às vezes como o "grande homem" . Ele sempre aconselhava seus alunos a trabalharem seus pacientes em análise para que eles estabelecessem uma conecção com esta entidade curadora interior.

Barbara Hannah em seu livro Active Imagination comenta que Jung deve ter experienciado este "grande homem" bem cedo em sua infância a quem ele dava o nome de Personalidade No. 2, apesar dele, naquela época, achar que este homem vinha do séc. XVIII. Ele diz em suas memórias: "então para minha confusão, me ocorreu que eu era na realidade duas pessoas . Uma delas era um garoto que não conseguia entender álgebra, e inseguro de si mesmo; o outro era importante, uma grande autoridade, um homem que não se podia brincar....Este ‘outro’ era um velho que viveu no século XVIII, usava sapatos com fivelas, peruca branca e dirigia uma carruagem com rodas traseiras grandes com a cabine suspensa por molas e tiras de couro". E, parece que foi somente aos poucos que ele foi tomando consciência da dimensão da idade deste personagem, que mais tarde veio a chamar de o "velho de dois milhões de anos", quando ele próprio já passava dos 80.

A partir do momento que o homem descobriu a existência do desconhecido dentro de si mesmo, tornou-se de vital importância descobrir algo a respeito deste lado obscuro do qual não temos a menor consciência.

Temos feito o possível para suprimir os aspectos subjetivos de nossa experiências, tomando uma postura unilateral de enfatizar cada vez mais uma forma que poderia ser chamada de prática e racional, a fim de nos posicionarmos no mundo material e objetivo.

Mas por outro lado, como uma reação natural à esta unilateralidade, todo o material inconsciente reage numa investida feroz, na forma de compulsões irracionais, ou sonhos perturbadores em um nível muito mais profundo cujas representações fogem por completo de nosso cotidiano, tendo como origem algum lugar totalmente diferente.

Podemos ter certeza de que quanto mais nos afastarmos deste material inconsciente, mais estaremos criando um pesadelo da maior espécie. A nossa vida psíquica se inicia no estado inconsciente, e somente com muito esforço chegamos a um estado de ser consciente.

Talvez, o que hoje chamamos de nossa consciência normal seja apenas um fator obscurecido por estados emotivos e pensamentos condicionados por complexos absurdos imputados a nós ao longo da historia da humanidade. Um desfile sem fim de preconceitos, traumas e dogmas que acabou por separar o nosso mundo objetivo da forma física de nossa verdadeira essência interior que por frações infinitesimais de consciência, podemos vislumbrar.

Um instrumento precioso para este empreendimento seria o estudo, ou maior contato com os sonhos. Uma vez que estes são vistos como os mensageiros do inconsciente. Mas aí mesmo surge uma dificuldade para tal, pois eles usam uma linguagem simbólica que se torna muito difícil desvendar. Principalmente quando se trata de nossos próprios sonhos, pois eles nos dizem coisas que não sabemos e que não temos o menor desejo de saber, a respeito de nós mesmos.

No início quando Jung ainda procurava desenvolver um maior contato com o inconsciente e usava a técnica Freudiana de interpretação de sonhos, que tem como premissa o fato de que os sonhos são uma satisfação de desejos reprimidos; ele pensava que quando a análise estivesse terminada, os seus pacientes continuariam mantendo um contato adequado com o inconsciente através da compreensão de seus sonhos. Mas isto não acontecia. E foi somente depois dele próprio não compreender uma grande quantidade de seus sonhos que percebeu o quanto inadequado este método era. E assim se viu obrigado a pesquisar mais. O comprometimento que se deve ter para se confrontar o inconsciente com suas experiências externas, é uma coisa muito séria. Como também um grande risco, quando tentamos nos afastar das questões corriqueiras e familiares de nosso mundo consciente para encararmos algo inteiramente desconhecido do mundo inconsciente.

Apesar da maioria de nossos anseios, visões e fantasias muito se assemelharem àquelas vividas por pacientes psiquiátricos, podemos afirmar com toda certeza que o inconsciente em si não é perigoso. Seria inadmissível pensar que compondo nossa estrutura psíquica existisse um mecanismo destrutivo agindo por meios escusos. Usando de artifícios simbólicos para não entendermos o que está acontecendo.

Na verdade o perigo deste confronto com o inconsciente repousa no medo que se apodera de nós quando nos deparamos com algo inesperado, ou quando sentimos que estamos perdendo contato ou controle de nosso mundo consciente. Isto nos tira tanto do prumo que não é de se admirar porque somente poucas pessoas se aventuram nesta empreitada. Para nos lançarmos num abismo é preciso primeiro termos uma ancora bem firmada em terra sólida.

Jung nos relata em suas memórias que se não fosse por sua família, casa e profissão, ele não teria tido forças para suportar a sua própria tarefa árdua de confronto com o inconsciente. Do mesmo modo também que ele relata que quando Nietzche se submeteu à mesma jornada, ao escrever "Assim falou Zaratustra" se viu jogado como uma folha solta numa ventania porque ele não tinha raízes nem obrigações com o mundo externo. Seria extremamente penoso e de grandes consequências se tentássemos desenvolver um só lado. Estaríamos desenvolvendo um grande conflito de consequências imprevisíveis se nos aventurássemos em um salto no grande abismo sem nos assegurarmos um desenvolvimento de uma consciência integradora que nos garanta segurança e inteireza nas ações.

Quando tememos o desconhecido, criamos perigo em nosso caminho culminando na deformação dos conteúdos inconscientes, transformando-os em figuras sombrias e monstruosas. E, a nós, seres tementes do julgo destes conteúdos, Jung escreve, em Psicologia e Alquimia , que a máscara do inconsciente não é rígida. Ela simplesmente reflete a nossa própria face quando nos voltamos para ele. Hostilidade lhe dá um aspecto ameaçador e benevolência suaviza os seus traços. Portanto é da maior importância percebermos que existe tanto componentes pessoais quanto impessoais neste cartel. Fato que não podemos alterar. Logo não há razão para rejeitá-lo.

Esta percepção já há muito foi observada pela sabedoria popular que afirma que se você não pode derrotar seus inimigos, junte-se à eles. Se nós pudéssemos aceitar com tranquilidade estes conteúdos inconscientes, com certeza descobriríamos que eles não são tão ruins assim. E esta aceitação não quer dizer que devamos inverter a polaridade das coisas e afirmar que estas experiências são boas. Apesar de existir uma verdade que afirma que não crescemos sem sofrimento, não precisamos nos forçar a gostar disto. É a nossa realidade judaico-cristã nos impõe uma visão que nos remete a um dualismo de bem e mal, punição e redenção. E todos nós sabemos, nas entranhas, de que não é exatamente assim. Ninguém poderá nos convencer de que, quando sofremos ou percebemos algum aspecto negativo de nós mesmos, é bom. Jung pelo menos conseguiu colocar isto de uma outra maneira. Barbara Hannah nos relata que após ter sonhado com um aspecto de sua sombra, do qual ela já havia previamente trabalhado, procurou Jung que lhe disse o seguinte: "Agora sua consciência tem menos brilho, mas é muito mais ampla. Você sabe que como uma mulher indiscutivelmente honesta, você também pode ser desonesta. Isto pode ser desagradável, mas é verdadeiramente um grande ganho".

Ter a mente estreita significa ser limitado em aceitar as próprias limitações, e não, que estas limitações sejam um obstáculo à sua personalidade. Na verdade deveríamos deixar as coisas acontecerem mais naturalmente. Confiar-se ao inconsciente sem qualquer constrangimento, resistência ou racionalização de qualquer tipo que por ventura pudessem obscurecer ou distorcer as imagens desta realidade interna, acaba sendo uma boa maneira para nos posicionarmos quando nos preparamos para este confronto.

Lá no início quando Mesmer foi acusado de jogar com a imaginação das pessoas resumia em uma prática que tornou-se quase que a diretriz para a confrontação com o inconsciente, com o objetivo de expandir nossa consciência e promover individuação e inteireza das ações. Lidar com nossas fantasias e figuras que emergem de nossos sonhos, produz um efeito envolvente para deixarmos a nossa imaginação solta para que possam surgir insights sobre o inconsciente e assim tirarmos nossas conclusões para nossa vida diária. Pelo fato de falharmos em compreender estas imagens ou nos isentarmos de nosso compromisso é que imputamos efeitos danosos a ponto de nos privarmos de nossa própria inteireza.


Referências Bibliograficas

HANNAH, B., Active Imagination. Boston.:Sigo Press. 1981.
JUNG,C.G., Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. O. C. vol. XI. Petropolis.:Vozes.1983.
_____, Psicologia e Alquimia. O. C. vol. XII. Petropolis.:Vozes.1991.
_____, Memories, Dreams and Reflections. New York.:Vintage Books. 1965.
MEIER,C. A ., Psychosomatic Medicine from the Jungian Point of View . The Journal of Analytical Psychology. London.:Tavistock Publications . 1963.
MISLOVE,J., The Roots of Consciousness. New York.:Random House Inc. 1975.