Ser humano em condição de análise, condição de análise, homem psicanalítico.

Ressoam estas expressões. Vamos recapturá-la, pois algo já começa a tomar forma no correr casual do teclado (infelizmente já não podemos dizer no correr da pena!). Nem ao correr da pena, nem ao correr do teclado, pois, já em 1979, Herrmann cunha as expressões e as publica no livro “Andaimes do Real: Uma Revisão Crítica do Método da Psicanálise.” E, em 1983, no artigo “O Homem Psicanalítico” onde trata do despregamento das representações assim como Lacan, bem antes disto, já abordara o tema ao tratar do deslizamento da cadeia significante.

Ser humano em condição de análise.

Penso que podemos dizer, sim, que o método psicanalítico é interpretativo e capaz de gerar o objeto psicanalítico quando aplicado ao ser humano em condição de análise.

Esta definição é adequada  à psicanálise analogamente ao que sucede às demais ciências. Se aplicarmos o método da física ao espírito humano, jamais criaremos um objeto da física; portanto, há algo também em relação ao objeto (ao referente3) que delimita a abrangência de uma ciência ou seu campo veritativo. Assim, como não é qualquer referente que se prestará a ser criado objeto da física se lhe aplicarmos o método da física, não é, também, qualquer referente que será criado objeto da psicanálise pela simples aplicação de seu método. Há uma relação direta, imediata e biunívoca entre a ciência e seu método; entre o referente que será criado objeto da ciência pela aplicação de seu método e este próprio método. À especificidade do método corresponde uma especificidade do objeto. E, assim, se justifica o corolário: o objeto da psicanálise é o objeto criado pela aplicação do método psicanalítico ao homem em condição de análise delimitando-se, ao mesmo tempo, o campo veritativo da psicanálise.

Falta ainda investigarmos as características do ser humano em condição de análise afim de que se constituam em definitivo as condições do objeto psicanalítico. Exatidão no conceito de método e exatidão do conceito de homem em condição de análise são pré-requisitos necessários, mas não suficientes. Tentarei, agora, investigar que características tornam exato o conceito de homem em condição de análise. Iniciarei pela questão da temporalidade e da história. Servir-nos-á, para este estudo, a analogia que pode ser estabelecida entre a psicanálise e as grandes transformações ocorridas no âmbito do conhecimento da psicologia com o surgimento da linguística moderna.

Quando Ferdinand de Saussure, entre 1906 e 1911 (Saussurre, 1906/1907-1909/1911), estabeleceu as bases da moderna ciência da linguagem — a linguística estrutural —, mostrou a necessidade de estudar a linguagem no seu aspecto puramente sincrônico: a produção de sentido a partir da análise da constituição da frase. Promoveu, assim, o fechamento da linguagem dentro de si mesma pondo de lado, para tal fim, considerações de caráter  diacrônico. Foi assim que criou as condições necessárias para que a aplicação do método desta nova ciência, a linguística estrutural, criasse este novo objeto, a linguagem.

Durante séculos a linguística histórica descrevia a palavra como a união do signo linguístico com o referente (o objeto). Toda criança sabia que isto estava errado, pois é comum que as crianças brinquem com o nome das coisas, ou com as palavras e as coisas, perguntando, por exemplo: “Se a árvore se chamasse cadeira, ela seria uma árvore ou uma cadeira?” Pelo menos, com perguntas como esta eu azucrinava os ouvidos pacientes de meu pai à moda de muitas crianças. Essas, como os artistas, são sempre mais argutas que os cientistas.

Este foi o problema que Saussurre solucionou mostrando que o signo linguístico não une uma coisa ao seu nome, mas une um conceito — o significado — a uma imagem acústica — o significante —, deixando de fora o referente —  o objeto. A árvore propriamente dita, o referente, será um objeto diferente se olhada de cada um dos mundos da biologia, da arquitetura ambiental, da física, da estética, mas, se olhada do mundo da língua, será um significado. Bem próximo do que Freud já propusera desde o início de suas indagações psicológicas, em 1891, mas que viria a deixar completamente claro, poucos anos mais tarde, quando perguntou: “O que torna algo consciente?” E respondeu: “A união do impulso às imagens acústicas.” (Freud, 1915 e 1932).

Aplicação do método psicanalítico ao homem em condição de análise!

Proponho considerar a psicanálise, assim como a linguística estrutural, uma ciência cujo método interpretativo somente deva ser aplicado segundo considerações exclusivamente sincrônicas. Talvez escape à psicanálise, enquanto busca seu objeto, “sensu strictu”, a interpretação diacrônica e, assim, sob este ponto de vista, não diga respeito à psicanálise interpretar a história, individual ou da humanidade. Ou seja, à história individual ou da humanidade, podemos aplicar os conhecimentos psicanalíticos, mas não podemos aplicar o método psicanalítico, pois o homem, enquanto ser da sua história ou ser da história da humanidade, não se encontra em condição de análise e, nestes casos, será objeto de sua história ou da história da humanidade.

É evidente que não nego a importância da história individual para ajudar-nos a compreender as nuanças emocionais do paciente em tratamento psicanalítico e suas estruturas emocionais. Isto seria a negação do óbvio. É indiscutível que a história individual orienta-nos, a todo tempo, na busca da melhor interpretação do homem em condição de análise, mas como bússola orientadora. Bússola importantíssima, é verdade, mas que não é senão instrumento de orientação ao timoneiro, não é o timão nem o timoneiro. É, pois, evidente que a compreensão da história individual é muito útil para instrumentar-nos na interpretação sincrônica. Sob este aspecto, seria um absurdo qualquer psicanalista negar as consequências estruturantes do complexo de Édipo e seus reflexos na vida adulta.

É evidente, também, que podemos aplicar à história da humanidade os conhecimentos psicanalíticos, mas não será desta forma que será criado o objeto psicanalítico. Assim, o objeto da psicanálise será o resultado da aplicação do método psicanalítico ao homem em condição de análise em uma visão sincrônica. Parece-me exato, mas, ainda incompleto. Ainda incompleto, mas caminhamos em direção à especificidade.

Continuamos com a pergunta: o que é o homem em condição de análise? O homem em condição de análise é o homem apreendido sob a influência da transferência criada pela aplicação do método psicanalítico, situação única na qual o despregamento das representações ou o deslizamento da cadeia significante presta-se à psicanálise. Não há também dúvida de que não é qualquer interpretação que cria o objeto psicanalítico. A conversa psicanalítica guarda características próprias e imprescindíveis para que ela se preste a criar o objeto psicanalítico.

Se o homem não se encontra em condição de análise, pode ocorrer despregamento das representações ou deslizamento da cadeia significante, mas isto não se prestará à aplicação do método psicanalítico. Pode prestar-se à aplicação dos conhecimentos psicanalítico sem que se crie o objeto psicanalítico.

Não se trata, nestes casos, de negar que a psicanálise esteja onde pareça não estar como sugere Fábio Herrmann (Herrmann, 1997), mas insisto, o que aí se produz não é o objeto psicanalítico sequer se trata de um homem em análise, mas trata-se de um estudo psicanalítico, um estudo de conceitos psicanalíticos.
Então, a disciplina psicanalítica — como a física, com seu método; a química, com seu método — quando pôs seu método em andamento gerou um objeto. Este objeto, descobriu-se lenta e progressivamente a partir de 1901 (Freud, 1905 [1901])1, é, para a psicanálise, a transferência, produto direto da aplicação do método psicanalítico. A transferência mostrou ser o resultado final da série instinto-feito-impulso-feito-desejo, matriz simbólica da emoção (Herrmann, 1979) que se objetiva no analista e, ao objetivar-se, pode ser interpretada.

Assim, segundo o que exponho agora, somente a emoção criada nas condições geradas pela aplicação do método psicanalítico e objetivada no analista pode ser interpretada psicanalíticamente. Está aí a caracterização das condições sincrônicas indispensáveis à aplicação do método psicanalítico. Mas o que é emoção objetivada no analista? É a criação de objetos imaginários, tendo por suporte expressivo o analista, para exprimir o puro presente das emoções vividas pelo paciente durante sua psicanálise. É nestes termos que defino o que denominei de condições sincrônicas para a aplicação do método. Penso ser este o conceito moderno de transferência.

A psicanálise é, assim, um método de pesquisa e um método de tratamento baseado na etiologia descoberta com a aplicação daquele método. “A psicanálise constitui uma combinação notável, pois abrange não apenas um método de pesquisa das neuroses, mas também um método de tratamento baseado na etiologia assim descoberta.” (Freud, 1913 [1911]).

Penso, portanto, que podemos reunir as considerações encontradas até aqui na definição seguinte: o objeto da psicanálise é a transferência considerada segundo dimensões puramente sincrônicas vivida pelo homem em condição de análise, transferência e condição de análise geradas pela aplicação do método intepretativo e o seu corolário: o método psicanalítico é o método interpretativo quando aplicado sincrônicamente à transferência do homem em condição de análise.

Penso que esta é a forma adequada de definirmos o objeto psicanalítico sendo, ao mesmo tempo, uma forma que poderá contribuir para a “unificação” da psicanálise, pois pode ajudar-nos a tornar a psicanálise independente de outras questões de máxima importância, as questões técnicas. Se temos claro o objeto da psicanálise, torna-se indiferente2 se interpretamos na transferência ou a transferência. Torna-se indiferente se a transferência é a projeção, no analista, de experiências arcaicas vividas com as figuras parentais durante o complexo de Édipo ou se são formas criativas e imediatas de a consciência apreender sua relação com outra consciência, a do analista. Se temos claro o objeto da psicanálise, deixará de importar se a interpretação é uma frase que o analista compõe para informar o paciente de como ele concebe o quadro emocional do paciente em relação ao analista naquele momento (Baptista, 1977 [1978]) ou se isto  é uma sentença interpretativa (Herrmann, 1979) e a verdadeira interpretação somente produzir-se-á pela condensação futura dos apontamentos, assinalamentos e sentenças interpretativas distendidos no tempo (Herrmann, 1991).

Estas serão questões técnicas. Não sem importância, uma vez que poderão levar a um melhor ou pior resultado psicanalítico, mas terá sido criado o objeto psicanalítico. Com isto, além de tudo, alguma escola psicanalítica poderá reivindicar melhores resultados com a aplicação de seu corpo teórico e sua técnica, mas nenhuma poderá reivindicar ser a única psicanálise verdadeira. Penso que somente assim poderemos escapar de “Tal redução violenta do todo a uma parte — à qual não cairia mal chamar ‘assassinato metonímico’, porque elimina qualquer visão de conjunto sobre a Psicanálise — decorre da incapacidade de organizar os achados particulares, de somá-los, de contrapô-los, como peripécias de um roteiro bem aceito. O choque de teorias alternativas, que deveria provocar novas teorias organizadoras, de ordem superior — como seria lícito esperar da esfera teórica —, redunda em opiniões contrastantes que, quando suportadas por um grupo forte, sob a liderança de um mestre, originam escolas em conflito." (Herrmann, 1989.) Isto, a meu ver, pela falta de uma unificação metodológica que delimite claramente qual o campo do método e qual o campo da teoria.

Caio na armadilha do exemplo prático, com um exemplo médico. Uma gastrectomia pode ser feita com a técnica de Bilroth I ou Bilroth II e qualquer escolha feita não tirará da escolha a característica de ser um ato médico, pois continuará a ser a aplicação do método médico ao objeto — no caso, a vertente cirúrgica do método da medicina. O uso de uma ou outra técnica e sua teoria justificadora, desde que seja aplicado o método da medicina, continua gerando um objeto da medicina. Em psicanálise também não haverá exclusão de uma ou outra prática se resultante da aplicação do método da psicanálise para a criação de seu objeto, não custa repetir: o objeto da psicanálise é a transferência considerada segundo dimensões puramente sincrônicas vivida pelo homem em condição de análise, transferência e condição de análise geradas pela aplicação do método intepretativo e seu corolário o método psicanalítico é o método interpretativo quando aplicado sincrônicamente à transferência do homem em condição de análise.

O objeto da psicanálise estará, sempre, em condições de receber a aplicação de qualquer técnica psicanalítica, pois “técnica são os princípios de bem fazer psicanálise, de como encaminhá-la em adequação ao método. Vai daí que suas proposições tenham caráter normativo, expressem-se por devemos. Por isto, conselhos técnicos colidem às vezes entre si, podendo gerar práticas melhores ou piores.” (Herrmann, 1991.)

Disto se exclui, sim, qualquer outra transferência. Qualquer relação transferencial que não tenha sido criada pelo método da psicanálise. Assim, as relações de amizade, de parentesco, de coleguismo, de competição etc., envolvem indiscutivelmente elementos transferenciais, mas não o tipo de transferência que, interpretada, poderá criar o objeto psicanalítico. O mesmo se dá com a consciência em condição de análise, pois “Esta condição da consciência não é privativa da situação analítica. Seria, com efeito, um estrato sempre possível e presente do ser consciente, o estar em trânsito entre a consciência de objeto e a inapreensível consciência das condições próprias da consciência; a psicanálise apenas fatora tal condição e põe-na em evidência.” (Herrmann, 1979.) Tão-somente a consciência em condição de análise presta-se a ser fatorada e posta em evidência para e pela psicanálise.

Vários autores, das mais diversas orientações teóricas, confirmam a adequação do conceito de objeto psicanalítico que tento propor aqui. Mesmo buscando o objeto psicanalítico através da clínica, quando chegam a ele, e o descrevem para o leitor, muitas vezes a título de exemplo, o que descrevem é a situação transferencial gerada pelo seu trabalho, a aplicação do método psicanalítico. Muitos, quando não podem apreender qual o elemento transferencial em jogo, afirmam não ter alcançado o objeto psicanalítico. Nos termos da minha proposta, eu diria que não se criou o objeto psicanalítico. Vejamos alguns exemplos.

Rezze (Rezze, 1990) faz o relato clínico de sessões suas com dois pacientes. Na sessão de um deles não consegue o que dizer senão fazer uma pergunta que não atinge o paciente ou que ele não conseguiu perceber como o paciente foi atingido. Na sessão do segundo paciente, consegue dizer algo que a toca mesmo que “o analista ainda não saiba o que é”, pois ele diz a ela que “ela está dizendo uma das coisas mais importantes de sua vida”. No primeiro caso,    Rezze afirma que o paciente não se alterou e este era o seu padrão; o analista diz que não consegue encontrar o objeto psicanalítico. Eu, concordando plenamente com ele, apenas diria que o que ele disse ao paciente não criou o objeto psicanalítico, não que ele não o tivesse encontrado, pois não havia o que encontrar se não fora antes criado, pois este fora o padrão da análise. Quanto à outra paciente, o que ele disse criou o objeto psicanalítico, ainda que ele não saiba porque3, pois “A cliente muda sua atitude emocional, aparenta curiosidade sobre o que está ocorrendo.” De novo, concordando, faço ressalva semelhante. Não somente ele encontrou o objeto psicanalítico; este pôde ser criado e, tendo sido criado por sua fala, pode ser encontrado. Ele diz: “O importante é que o analista ainda não sabe o que é. Sabe apenas que é alguma coisa.” Sabe muito mais, diria eu, pois sabe que, com sua aproximação, o objeto psicanalítico pôde criar-se.

Junqueira de Mattos (Junqueira de Mattos, 1994), por seu turno, apresenta material clínico em que o objeto psicanalítico é, do meu ponto de vista, exatamente aquele que descrevo aqui, a transferência de um homem em condição de análise pela aplicação sincrônica do método psicanalítico. Levando em consideração as diferenças de estilo e de escola, diria que é quase exatamente como ele mesmo exemplifica o objeto psicanalítico. Vejamos a primeira interpretação: “Bem, parece que você tem muitas dúvidas a respeito de sociedades, de parcerias... e olhe que, ultimamente, você arrumou um novo sócio... fizemos aqui uma parceria... e você sente que arrumou um professor para decifrar, traduzir a nova língua que você não entende... a linguagem de seu inconsciente... porém, parece estar cheio de dúvidas sobre que tipo de sócio você arrumou aqui na análise... parece que você me vê como uma pessoa competente profissionalmente, mas você desconfia que eu esteja mais interessado em seu dinheiro e, como este grande pulgão, estou mais interessado em sugar os seus recursos do que talvez em lhe ensinar, ou em traduzir, de forma que você possa entender este inglês, esta língua estranha, que habita dentro de você...” Claramente e sem dúvida, o objeto foco da intervenção do analista fora a transferência em recente processo de criação pela adequada aplicação sincrônica do método psicanalítico veiculado pelas interpretações psicanalíticas deste tipo. Vejamos, também, como conceitua o objeto psicanalítico: “Finalmente, ao falarmos de objeto psicanalítico, penso estamos falando, em sentido amplo, com todo o polimorfismo com que ele se oferece, de um vínculo que liga analista-analisando, e este é a emoção, a experiência emocional ou, em última instância, o desejo, ou, mais primitivamente ainda, as pré-concepções que os estruturam.” (Junqueira de Mattos, 1994) (grifo meu).

Em nenhuma das duas situações exemplificadas acima há o recurso aos elementos diacrônicos fato que, como já apontei em trabalho anterior (Baptista, 1991), vem se tornando cada vez mais raro em trabalhos publicados. Dito de outra maneira, já há muitos anos têm sido raros os recursos às descrições da vida infantil na busca de esclarecimento da angústia ou conformação caracterológica do momento presente do paciente — têm sido raras as construções em psicanálise, a não ser, e mesmo assim raramente, como ilustração depois de uma interpretação transferencial.

Rocha Barros (Rocha Barros, 1990), por seu turno, depois de comentar desconforto semelhante ao meu com o uso impreciso de termos psicanalíticos, — embora, de sua feita, com maior especificidade no que diz respeito ao uso que Bion faz de objeto psicanalítico, — relata o caso de outra paciente e, a certa altura, afirma: “Interpreto que ela talvez esteja irritada por sentir que gostaria de protestar contra o cancelamento das sessões que ocorreu neste momento particularmente difícil para ela, mas não se sente capaz de fazê-lo por me ver fragilizado e ainda doente.”

Cria-se o objeto psicanalítico, pois “Após breve silêncio, a paciente diz que acabara de lembrar-se de um sonho que ocorreu durante o fim de semana.” E abre-se o campo para a ação psicanalítica, para a interpretação, sempre, da transferência criada pela aplicação do método psicanalítico.
O sonho é um pouco longo, mas parece-me valer a pena citá-lo.

“O sonho era composto de duas situações. Na primeira delas, Marta deitada em sua cama, numa cabina de um transatlântico, mostrava-me sua filha, ainda bebê, e eu indicava que estava bem. Na cabina, também estava presente sua filha mais velha olhando-nos muito aflita, mas quieta. Marta dizia que todos estavam muito aterrorizados, menos eu. Marta acrescenta que ela estava aterrorizada, mas não podia mostrar isto para não deixar as filhas em pânico. O navio estava balançando muito devido a uma tempestade. Nesta altura, a situação do sonho muda.”

"A paciente está, então, no quarto de sua mãe acompanhada da filha mais velha com a mesma idade e olhar que tinha na situação anterior. Marta comenta que parecia que sua mãe estava morrendo."

“Marta, espontaneamente, diz que não sabe porque voltou a pensar na morte da mãe. Atribui o fato a um retorno de ressentimento contra a mãe provocado por estar preocupada com questões financeiras. Diz que, concomitantemente ao ressentimento, pensou que ela devia sua análise e a de sua filha que aparece no sonho, à herança que recebera da mãe.”

Interrompo aqui. É um belo exemplo da criação do objeto psicanalítico depois de uma interpretação bem feita do homem em condição de análise que recebe o método psicanalítico sincronicamente aplicado.

Melo Franco Filho afirma: “Nela,” (O acontecer na situação analítica.) “o analisando costuma apresentar, invariavelmente, um conjunto de fenômenos centrados na figura do analista, os quais preenchem um papel extremamente importante no processo. Freud, ao observar esses fenômenos, atribuiu-os a fatores de repetição e falsa conexão e criou uma teoria para explicá-los, a que deu o nome de ‘transferência’. Respondendo então à questão proposta acima, coloco que o que os analistas tentam interpretar é, basicamente, a chamada ‘transferência.’” (Melo Franco Filho, 1983.)

Ainda Melo Franco Filho, logo a seguir, citando Zusman: “O aqui e agora são as coordenadas têmporo-espaciais ao longo das quais se move o fenômeno transferencial. O momento temporal define-se pelo agora e o momento espacial, pelo aqui. À intercessão dessas duas coordenadas de tempo e espaço (aqui-e-agora) cabe a designação de presente.” (Zusman, 1974.) Ou seja, à intercessão dessas duas coordenadas de tempo e espaço (aqui-e-agora) cabe a designação de aplicação sincrônica do método psicanalítico ao homem em condição de análise.

Devo agora, a título de resumo, indicar quais os ganhos da psicanálise quando passamos a usar com cuidado e a exatidão aqui buscada, seus conceitos teóricos e entre eles, principalmente, o conceito de método. Quando pudermos ter, todos os psicanalistas, uma convergência quanto ao conceito de método psicanalítico e, em decorrência disto, estivermos todos aplicando o mesmo método, estaremos todos praticando psicanálise e poderemos, só a partir daí, comparar nossas teorias, nossa técnica e até nosso estilo. Todos estes são caudatários do método, único instrumento unificador de uma ciência. Estaremos assim e só então, qualificando-nos para sermos admitidos no seio das ciências. Teremos ainda um critério justo e não preconceituoso para distinguir que práticas são puramente psicoterapêuticas e que práticas são psicanalíticas pela aplicação do método de cada disciplina e não pelos seus resultados médicos, sociais, morais ou filosóficos.

1 - Em verdade, Freud deu-se conta dos fenômenos transferenciais desde que entrou em contato com o caso Anna O., pois, a pseudociese da paciente não lhe escapou e foi, sem dúvida, um dos fatores que pôs em movimento a argúcia investigadora de Freud na direção do que hoje conhecemos como transferência.
2 - Por indiferente, neste parágrafo, quero referir-me tão somente à igualdade metodológica. Pois, como veremos, as diferenças técnicas podem levar a diferentes resultados, mas, se usadas com o mesmo método criarão objetos da mesma disciplina, ou da mesma ciência, mesmo que objetos de corpos teóricos diversos.
3 - Podemos e temos o direito de suspeitar que dizer a uma paciente que ela “está dizendo a coisa mais importante de sua vida” provavelmente gerará muito mais que curiosidade, podemos supor que lança a flecha de um vínculo em que a curiosidade será apenas um dos elementos e, como a frase é dita por um analista a uma pessoa em condição de análise, estão aí criadas as condições para a criação da transferência e do objeto psicanalítico.

  

 icon O Método Psicanalítico por Mário Lúcio Alves Baptista (109 KB)

 

Referências


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