“O ritual é a casca da verdadeira fé... Assim os mestres se preocupam com a profundidade e não com a superfície”(LAO-TSE).

Na revista ALFA de novembro do ano passado saiu uma entrevista com o Padre Marcelo Rossi na qual, por meio das suas falas, revela um perfil de personalidade competitiva, egocentrada e emoldurada pela falsa modéstia. Isso causa espanto porque a necessidade de poder e de querer aparecer grandioso não combina com a espiritualidade dos ditos homens de Deus e daqueles que assim se propagam. Rossi (2011, p.94) afirma: “[...] nosso povo precisa de igreja grande - são lugares onde você sente a presença divina”. Essa afirmativa é muito estranha vinda de um padre. Sentir a presença divina independe de espaço físico grande ou pequeno, sofisticado ou humilde. Se o sujeito não tem Deus no coração pouco importa a grandeza, a beleza e a riqueza do templo que, nesse caso, não passa de um mero projeto arquitetônico.

Como ressalta Eliade (1992, p.18 - grifo do autor), “uma pedra sagrada nem por isso é menos uma pedra [...] nada a distingue de todas as demais pedras. Para aqueles a cujos olhos uma pedra se revela sagrada, sua realidade imediata transmuda-se numa realidade sobrenatural”. Há espaços e momentos nos quais é quase palpável a aura divina, numa praia deserta, nas montanhas e também na privada, sim, na privada. É natural que se agradeça a Deus pela ótima condição de urinar e evacuar. Tanta gente sofre até para eliminar um pouco daquilo que já não lhe serve mais ao corpo. Não tem como deixar de reconhecer a dádiva de estar com o organismo saudável. Outro momento é o de poder caminhar. A sensação de liberdade de se locomover, de ir para onde se deseja, sem impedimento físico ou ajuda, é maravilhosa. Quantos não podem andar ou o fazem com dificuldade, outros até rastejam ou andam com apoio de peça ortopédica? Porém, só nos damos conta do quanto tudo isso é valoroso quando não se tem mais ou se encontra impedido da motricidade, bem como da satisfação e do prazer que emanam dos aparelhos sensoriais e perceptivos.

O padre Rossi (2011, p. 96) aproveita o ensejo para vociferar: “... o Eros se vinga”. Que o mundo seja responsavelmente tomado pelas batalhas eróticas, que deliciosa vingança! Quem não goza da sexualidade é mais susceptível a cair nas armadilhas dos efeitos colaterais, aí não tem sermão que dê jeito. Se tivéssemos um Eros mais atuante, certamente multidões não precisariam se utilizar dos padres como bengala ou muleta. Lamentável, nos dias de hoje, é a presença maciça de Eros dissociado do Amor. Entretanto, não tem nenhuma relação com vingança, mas com medo, que assim sendo descamba numa prática vulgar e promíscua da sexualidade. De fato Eros se vinga, infelizmente, em inocentes, quando é interditado ou mal canalizado. Por vezes, a surda e reinante pedofilia nos surpreende, em particular, a homoerótica sob os tetos sagrados, cujos gemidos da violência, de algum modo, terminaram ecoados na mídia. Prova disso é que “nos Estados Unidos, cerca de 5% de todos os padres abusam de meninos, isto equivale a 2 mil padres de 40 mil [...]” (MURARO; DUARTE, 2006, p.176).

Cumpre ao evangelizador ir onde os fieis estão precisando do seu apoio moral ou espiritual. O padre “Marcelo é popular em Portugal [...] e em outros países lusófonos, como Angola. Ele descarta, de qualquer modo, uma viagem para se promover no continente africano” (VILARDAGA, 2011, p. 97). Para justificar sua falta de interesse em dá sua benção aos irmãos do outro lado do Atlântico, Rossi (2011, p.97) recorre a argumentos dos mais estapafúrdios: “Todos os meus amigos que foram para lá morreram de febre amarela”. Não seria por que a população é miserável e não compensaria o investimento? Por que ariscaria se as coisas por aqui vão indo de vento em polpa? Onde está a fé desse padre que não legitima sua imunidade? Será que Deus lhe daria as costas em missão tão nobre? Para Ferry (2007, p.34), “não é preciso religião para ser honesto ou caridoso”, uma vez que isso também não é inerente a quem usa batina, segue fanaticamente os princípios bíblicos ou é “barata” de igreja.

Realmente, o padre Rossi em nada se aproxima de madre Tereza de Calcutá, ao acrescentar: “Morro de medo de ir para África. Tenho um perfil mais urbano. Sou paulistano da gema” (ROSSI, 2011, p.97). Para quem é tomado pela ideologia do evangelizar não importa o lugar e sim a oportunidade. Padre com “perfil mais urbano”! Que ridículo! Salientar-se “paulistano da gema”! Que coisa mais esnobe, barrista, besta! Cadê o altruísmo para pensar primeiro nos carentes, nos humildes e necessitados? Que atitude mais anticristã se preocupar apenas com a própria pele! Esse padre, na sua infinita comodidade, não larga nem que temporariamente sua zona de conforto e, ainda, se atreve em falar do amor ágape! Porém, no vácuo da sua omissão, outras igrejas vão até nos confins do mundo, pastores evangélicos não perdem a chance de fincar suas bandeiras nos lugares mais longínquos e inóspitos, para arrebanhar mais “ovelhas”.

Segundo Vilardaga (2011, p.97), “ele (Marcelo Rossi) acha que falta consistência para muitos líderes evangélicos”, e nesse sentido destaca: “Eu tenho três faculdades, e eles, em três meses, formam um pastor”. De certo, um semestre de aula comparado a uma média de quinze anos de estudo, faz muita diferença. Mas seria antiético e, obviamente, muito perigoso se fossem salvadores de vidas e não pescadores de almas. Sendo assim, a falta de graduação ou diploma não chega a ser um crime. O essencial é a fé, o envolvimento, a entrega ao ofício, a vontade genuína para evangelizar. Também não mudaria em nada caso o padre Rossi tivesse concluído mais sete cursos superiores, pois seu espírito ainda está muito preso ao aspecto terreno. Buda (apud GELB, 2005) aconselhava moderação e desapego ao mundo do materialismo. O quantitativo, por si só, não transforma. A fé remove montanhas, profetiza a Bíblia, e não somente quilos de dinamites e batalhões de empilhadeiras.

O padre “Marcelo Rossi inaugura o gigantesco santuário onde será enterrado e diz que templo pequeno é coisa de padre de esquerda. Seu próximo milagre: parar os evangélicos” (VILARDAGA, 2011, p. 94). Por que desejar parar uma missão idêntica a sua que é intermediar a interação do cidadão com Deus? Não é a salvação que importa? Então, qualquer caminho é louvável. De novo se ver um padre centrado na ostentação e desprovido de humildade. Um dito popular nos convoca à autenticidade: “gaiola bonita não dá comida a canário”. Parece difícil que ele consiga parar os evangélicos e também fisgar mais “... gente sem fé e cristãos erráticos que só vão à igreja em dia de casamento ou missa de sétimo dia” (VILARDAGA, 2011, p.97), tendo apenas como estímulo a suntuosidade faraônica da sua futura morada, ou seja, celebra missas no próprio túmulo.

O exibicionismo do padre parece não ter limite, se vangloria de que “não existe no mundo um santuário desse tamanho sem colunas, e quero que ele se torne um cartão-postal” (ROSSI, 2011, p. 97). Na construção desse monumento, a preocupação de se mostrar superior, bem como a tendência de supervalorizar a aparência deixa subjacente o seguinte simbolismo: aquilo que não tem colunas de sustentação, por essa natureza não conta com uma estrutura básica bem sólida, portanto, a qualquer momento pode vir ao chão. Depois, concentração de multidões não significa necessariamente poder, às vezes esse potencial está disseminado nos mais diversos territórios. Quando se focaliza apenas uma estrela não se tem noção da imensidão de um céu estrelado. Quase todo templo evangélico, nos lugares mais improváveis e humildes, começam do nada e, de repente, pequenos casebres transformadas em igrejas, pululam em formidáveis catedrais.

O padre Marcelo Rossi, a priori, não tem, em termos de seguidores, do que se queixar, pois celebra missa na televisão, e junto ao padre Fábio de Melo se destacam como os dois padres, atualmente, mais midiáticos. Vendem CDs, DVD, livros, o primeiro sempre está em cartaz no cinema e, o segundo, em maratona de shows pelo país. Assim, não tem como deixar de compará-los. O suave padre Fábio de Melo, sem arrogância, sabe o que diz, e faz isso de modo coerente e com bastante propriedade que deixa transparecer um ser humano bonito. Nunca se teve notícia do algum deslumbre seu, crise de estrelismo e nem pretensão de ser santo. Enfim, o padre Fábio é uma figura admirável que cativa os fiéis, os acolhe, chama para perto. Poderia se dizer que esse sacerdote vivencia o verdadeiro papel de mensageiro da Palavra.

Estar provado que é possível enganar o mundo, os muitos ditadores e cambada de políticos, destacadamente brasileiros, que digam, e ainda são aplaudidos e reeleitos. Mas lá no fundo esses sem caráter sabem que, embora queiram muito, não conseguem calar uma voz interior que insiste em mostrar para eles mesmos a farsa. Mas, para Deus, não há dúvida, não tem como convencer que não se trata de cínicos e hipócritas. O padre Rossi (2011, p.97) diz: “Sou corintiano, não me santifica não”. Penso que a santificação está onde se encontra o amor, na confraternização ética, na decência, e não apenas no rótulo, na determinação ou legitimação do papa ou de alguma outra autoridade máxima de uma religião qualquer. A santificação não é uma fonte inesgotável, mas um sopro divino que converte a verdade espontânea de um coração puro em ações milagrosas, assim Deus se faz presente, mas não é previsível. Isso porque, santo nenhum obra milagre o tempo todo e no mesmo lugar, não tem cota, mas conspiração, e o criador do universo, com base na sua lógica que jamais seremos capazes de entender, ativa esses mistérios.

Na ótica de Bohm (2005, 151-2), “se construirmos um ídolo, ele assumirá o lugar de uma força maior do que ele mesmo ou de alguma energia espiritual”. No Nordeste, onde a popularidade do padre Rossi atinge índices de padre Cícero, as pessoas se aproximam e o chamam de santo (VILARDAGA, 2011). Em oposição ao sempre bem vestido padre Fábio (não há nada de contraditório nessa sua elegância, porque também assim são suas atitudes), o ansioso e desengonçado padre Marcelo Rossi, de 1,95 m, diz: “Só faltam arrancarem minha batina, mas sempre digo: meu Deus, para, eu não sou santo” (ROSSI, 2011, p.97). Claro que esses coitados não vão parar, a ignorância, a carência de ídolo e a manipulação não deixam. Feito celebridade, embora sugira que isso seja incômodo, o padre Rossi adora, é o termômetro do seu ibope. Afinal seu santuário deixa implícita essa intenção de quanto mais e maior, melhor. Então que venham os fiéis/fãs, que transformem em souvenirs os pedaços da sua batina, faz parte do show. Mas, antes de sua “passagem” nunca terão desnuda sua real vocação, e mesmo que fosse revelada os crentes não a perceberiam porque estão hipnotizados ou “cegos” pela atmosfera do santificado.

Finalmente, o padre Rossi (2011, p. 96) confessa: “[...] Quantas críticas escutei - diziam que eu era muito superficial ou vazio”. Diria que, além disso, é muito materialista e megalomaníaco, seu poder de seduzir multidões ou ter caído na graça da mídia - quando a ela interessa, faz do mais ordinário dos mortais um “iluminado” - é, no mínimo, financeiramente mega lucrativo. O desejo subliminar de alguém ser santo ou viver em prol de que isso se torne realidade é um algo de muito insano. Os loucos nunca se reconhecem loucos, e os santos nunca sabem ou tem clareza da sua santidade, de que foram tocados pelo olhar divino, porque eles são extremamente humilhes e desapegados a tudo que significa matéria. Afinal, a “humildade é uma virtude religiosa antiga por excelência” (PONDÉ, 2010, p.128). Se tivesse que escolher um desses padres para “santo”, certamente o padre Fábio de Melo teria meu voto, porque passa verdade, humanidade e integridade, ou seja, apresenta o melhor perfil para o posto. Essa história de santo lembra a piada dos doidos, um deles diz: Você sabia que eu sou Jesus Cristo? O outro responde: Claro, porque sou Deus? Assim, se o padre Marcelo Rossi for aclamado santo, eu me declaro Jesus Cristo.

Referências

BOHM, David. Diálogo: comunicação e redes de convivência. São Paulo: Palas Athena, 2005.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FERRY, Luc. O homem-Deus, ou, O sentido da vida. Rio de Janeiro: DIFEL, 2007.
GELB, J. Michael. Da Vinci decodificado: descobrindo os segredos espirituais dos sete princípios de Leonardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
MURARO, R. M.; DUARTE, A. O que as mulheres não dizem aos homens. Rio de Janeiro: Record, 2006.
PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um mundo melhor: ensaios do afeto. São Paulo: Leya, 2010.
ROSSI, Marcelo. “Não sou santo”. Entrevista concedida a VILARGA, Vicente. Revista ALFA, São Paulo, Ed. Abril, nov. 2011.