Apresentar Depressão é estar acometido de Transtorno Afetivo Bipolar (TAB)? Não. Embora a depressão faça parte do Transtorno Afetivo Bipolar, existem síndromes depressivas que não pertencem a essa enfermidade, como as denominadas Depressões Maiores Recorrentes, Distimias (depressões crônicas), Depressões Vivenciais Anormais e, ainda, Depressões associadas a outras enfermidades psiquiátricas ou a diversas doenças médicas.

O Transtorno Afetivo Bipolar foi denominado, até bem pouco tempo, de Psicose Maníaco-Depressiva (PMD). Essa terminologia foi abandonada principalmente porque esse transtorno não apresenta necessariamente sintomas psicóticos, tais como alucinações e delírios. Com a mudança de denominação essa doença deixou de ser considerada uma perturbação psicótica para ser vista como um distúrbio afetivo.

A alternância de fases depressivas e maníacas, intercaladas com períodos sem sintomas (normalidade), é a tônica dessa patologia. Podem ocorrer, no entanto, a forma circular, onde depressão e mania se seguem sem intervalos, e a forma mista, na qual sintomas depressivos e maníacos ocorrem simultaneamente.

O início do TAB geralmente se dá em torno dos 20 ou 30 anos de idade, mas pode começar mesmo após os 50 anos. Muitas vezes o diagnóstico correto só será feito depois de muitos anos. Uma pessoa que apresente uma fase depressiva e, algum tempo depois, apresente uma fase maníaca é portador do Transtorno Afetivo Bipolar mas até que a mania surgisse não era possível estabelecer um diagnóstico definitivo.

A causa propriamente dita do Transtorno Afetivo Bipolar ainda é desconhecida até o momento atual, entretanto não se pode negar a importância de fatores que influenciam ou que precipitam seu surgimento como a predisposição genética e a influência de fatores ambientais ou de natureza psicológica. Pesquisas utilizando modelos genéticos, neuroanatômicos, neuroquímicos e de neuroimagem têm trazido importantes hipóteses teóricas e conceituais para o melhor entendimento de como certos mecanismos biológicos podem afetar a manifestação clínica da doença, seu curso e sua resposta aos tratamentos.

Na fase de mania, o humor se apresenta na forma de uma alegria exagerada, contagiante, imotivada ou desproporcional a qualquer situação vivenciada pelo enfermo, podendo ser acompanhado de uma irritação agressiva. Junto a essa alegria patológica encontram-se alguns outros sintomas como o aumento da auto-estima, sentimentos de grandiosidade que podem chegar a uma manifestação delirante de grandeza considerando-se uma pessoa especial, dotada de poderes e capacidades únicas. Aumento da atividade motora apresentando grande vigor físico e uma diminuição da necessidade de sono. O paciente fala ininterruptamente e as idéias correm rapidamente, muitas vezes não concluindo o pensamento iniciado. Apresenta ainda uma elevação da percepção de estímulos externos levando-o a se distrair constantemente com pequenos ou insignificantes acontecimentos alheios à conversa em andamento. O erotismo e a prática de atividades sexuais se apresentam aumentados. Por não ter consciência de estar vivenciando uma fase de mania e em decorrência da perda da capacidade de autocrítica, torna-se uma pessoa socialmente inconveniente ou de difícil convivência. Pode ainda se envolver em atividades potencialmente perigosas, assumir comportamentos ridículos ou efetuar gastos econômicos exorbitantes sem manifestar preocupações com tais atos.

A fase depressiva também denominada de melancolia é de certa forma o oposto da fase maníaca. O humor se mostra depressivo, a auto-estima diminuida com sentimentos de inferioridade e desânimo. A sensação de cansaço é constante bem como a falta de iniciativa e de motivação. As idéias fluem com lentidão e dificuldade, a atenção é difícil de ser mantida e o interesse pelas coisas em geral é perdido junto com o prazer na realização daquilo que antes era agradável. Nessa fase pode existir insônia ou sonolência. Há diminuição do interesse sexual. Quando não tratada, a fase de melancolia pode durar meses.

Pesquisadores na atualidade estão ampliando os conceitos e os tipos da bipolaridade. Já se fala em Transtornos do Espectro Bipolar e, de acordo com abordagem mais recente, existem quatro tipos desse espectro que se caracterizam basicamente pela intensidade da alteração do humor. O "Tipo I" é a forma mais intensa, com profunda alteração do humor, por apresentar fase de mania plena e de severa intensidade, bem como depressão grave. Em geral, inicia-se entre 15 e 30 anos, mas há casos de início mais tardio. No "Tipo II" a alteração do humor não é tão intensa quanto no "Tipo I". A fase maníaca é mais branda e curta, chamada de hipomania, e as depressões, por outro lado, podem ser profundas. O "Tipo III" é semelhante ao "tipo II", porém o quadro de hipomania é desencadeado pelo uso de antidepressivos. É uma classificação usada apenas quando a fase hipomaníaca é induzida por um antidepressivo ou seja, os pacientes fazem parte do espectro bipolar, mas a hipomania só é descoberta pelo uso do antidepressivo. No "tipo IV" a oscilação de humor é mais leve e o paciente é, geralmente, uma pessoa com temperamento, dinâmico, empreendedor, extrovertido, expansivo, e que, esporadicamente, passa a ter o humor mais alegre ou turbulento do que normalmente apresenta em seu modo de agir no cotidiano. Além desses quatro tipos, há a ciclotimia, que se caracteriza por um traço de personalidade cujo humor é oscilante e desregulado, e cujas fases não chegam a ser configuradas como hipomania, mania ou depressão.

No Tratamento do Distúrbio Afetivo Bipolar, na fase de mania, pode-se usar de forma temporária os Neurolépticos. Nas fases depressivas utilizam-se antidepressivos. Deve haver cautela quanto à dose do antidepressivo a ser administrado pelo risco da chamada "virada maníaca", que consiste na passagem da depressão diretamente para a mania num curto espaço de tempo. Outros medicamentos, tais como os sais de Lítio, anticonvulsivantes do tipo carbamazepina e outros estabilizadores do humor podem ainda ser prescritos com tratamento do TAB, bem como de forma preventiva de novas ocorrências, tanto da fase de mania quanto da de depressão (melancolia). Infelizmente esse uso profilático não garante ao paciente que ele não terá recaídas, apenas diminui as chances disso acontecer, sendo que os resultados mais satisfatórios se verificam na prevenção de recidivas da fase maníaca.