Uma parte desconhecida e não investigada do cérebro ligada à vida emocional foi denominada de "canal de jingle". É um gravador/reprodutor mental. Todo mundo tem.

Ele pode ser sintonizado logo abaixo da consciência e logo que você saiba de sua existência, pode ser localizado para ouvir internamente uma mensagem e é muito difícil mudá-la voluntariamente. Quando ela se manifesta sem que você sintonize dificilmente poderá desligá-la e pode acabar sendo um vexame. Simples cantinela.

Algumas pessoas têm pedaços de músicas, outras algumas frases ou fragmentos de poemas. As frases geralmente rimam ou mostram uma cadência monótona. Também pode ocorrer como imagem isolada ou fragmentos de um filme sem áudio. Mas uma coisa é óbvia: a sua repetição constante, sistemática e persecutória. Para muitos a experiência pode ser divertida.  Outros a acham chata, irritante e intrometida principalmente quando estamos desanimados.

Quando esse tipo de "JINGLE" se torna dominante e recorrente, as pessoas ouvintes são tomadas por sensações de estranheza, repugnância, temor e depressão que se intromete sem se anunciar durante o trabalho e/ou lazer, cujos temas mais comuns são a sujeira, contaminação, verificação do perigo e a dúvida. Dois comportamentos integram este tipo de "jingle": uma OBSESSÃO (pensamento ou imagem recorrente) e sua COMPULSÃO (ato ritual para neutralizar o pensamento). É o Transtorno Obsessivo Compulsivo (T.O.C.), também denominado de distúrbio compulsivo-obsessivo (D.O.C.).

Quando pensamentos de sujeira dominam o canal, a pessoa lavará suas mãos por uma hora; esfregará o quarto do bebê do chão até o teto três vezes por dia ou abrirá portas apenas com os pés para evitar ter as mãos contaminadas pelos germes da maçaneta.

Rituais de limpar e lavar pode tomar amplas faixas de tempo do dia. Uma jovem de 14 anos levantava-se às quatro da manhã a fim de banhar e se limpar escrupulosamente. Depois ia fazer a cama para que tudo ficasse exatamente arrumado antes que fosse para a escola às sete. Howard Hughes era um magnata brilhante. No final de sua vida tornou-se um recluso social por causa de sua obsessão aos germes, como foi bem representado no filme "O Aviador" com o ator Leonardo Di Caprio.

Os verificadores descobrem-se levantando muitas vezes toda noite para ter a certeza de que o gás na cozinha está fechado. Outra mulher sempre espiava para dentro do vaso sanitário para certificar-se de que não havia nenhum bebê em perigo de ser arrastado pela descarga. Um dentista - bem sucedido e saudável em outros aspectos - sempre tinha que acionar a descarga do vaso em múltipos de três (3, 6, 9...)

Há duas abordagens viáveis para o T.O.C.: uma biológica e a outra psicoterapêutica.

Os psiquiatras biológicos afirmam que o TOC é uma doença cerebral porque muito de vez em quando desenvolve-se logo depois de um trauma cerebral; há maior incidência em pessoas com o mesmo histórico familiar; e o fator evolutivo de se preocupar e de verificar condições seguras estar mais dominante naquela pessoa.

Isso significa que a preocupação com germes e doenças e a verificação com a arrumação e segurança física trazemos em nosso DNA desde tempos pré-históricos.

Em mais de uma dúzia de estudos controlados, o Anafranil (clomipramine) foi a droga inicialmente utilizada com relativo sucesso no TOC. É um potente medicamento psiquiátrico antidepressivo que tem sido usado em milhares de casos em pacientes com TOC porque inibe a serotonina. As obsessões diminuem possibilitando resistir mais às compulsões. Como toda droga, não é perfeita. Quase a metade dos pacientes estudados não pode tomá-la pelos seus efeitos colaterais como a sonolência, constipação e perda de interesse sexual. Os que se beneficiaram do uso dela raramente se curam e quando abandonam a droga têm uma reincidência completa. Mas o medicamento é decididamente melhor que nada.

Os psicoterapeutas afirmam que há algo de magnético nos pensamentos e imagens horríveis (a popularidade de filmes de terror testemunha isso). Os terapeutas do comportamento argumentam que as pessoas que não são boas em descartar os pensamentos desagradáveis são os mais tendentes ao TOC. Uma vez que um pensamento terrível começa - se não pode descartá-lo - ele o perturba. Quanto mais perturbado fica, mais difícil é descartar o pensamento. Um círculo vicioso se estabelece.

Então um mecanismo fora dos meios comuns – o ritual - alivia a ansiedade. Assim, se horríveis pensamentos sobre germes o atormentam, você pode lavar as mãos minuciosamente; se está obcecado com assaltantes, pode checar as fechaduras das portas e janelas da casa.

Na abordagem psicoterapêutica uma combinação de algumas sessões de Terapia Cognitiva com a Terapia de Exposição Controlada (progressiva e/ou torrencial) impedirá a pessoa de realizar o ritual. Inicialmente se tornará relutante, entretanto se continuar a refrear o ritual e o dano esperado não acontece, a ansiedade diminui e o ritual perde seu valor.

De metade a dois terços dos pacientes melhoram com alívio duradouro, embora os pensamentos obsessivos ainda espreitem no canal do "jingle". A nítida minoria que não melhora é a que combina o TOC com depressão ou delírio e aquela que oculta ou realiza seu ritual em segredo. Tal como o fármaco, a psicoterapia sozinha resolve alguns casos, mas não todos.

A combinação das duas abordagens é a que consegue maiores e melhores resultados.