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Gay caricato nas novelas brasileiras avaliza seu estigma

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A injúria é um enunciado performativo: ela tem por função produzir efeitos e principalmente instituir, ou perpetuar, o corte entre os “normais” e os “estigmatizados”, fazendo esse corte entrar na cabeça dos indivíduos. A injúria me diz o que sou na medida em que me faz ser o que sou (Didier Eribon).

O termo “bicha”, pederasta (sic) “passivo”1, seria uma adaptação aportuguesada do francês biche - corça, feminino do veado (Green, cit. in Silva, 2010). No Brasil, atribui-se ao homossexual o estatuto de meio-homem, conhecido como bicha (literalmente verme) ou viado (o “e” sendo substituído por “i”) - termos dirigidos ao indivíduo sexualmente “passivo”. Os sujeitos que não conseguem corresponder ao ideal masculino são tratados depreciativamente na cultura brasileira, em oposição à imagem do machão e do pai, considerados verdadeiros homens (Parker, cit. in Silva 2008). Enfim, “uma figura do homem manqué2(Costa, cit. in Silva, 1999).

Os homens que vivenciam uma sexualidade não-heterocentradas são estigmatizados como anormais e, quando suspeitos de serem “passivos”, são tratados como mulheres (Welzer-Lang, 2004). Essa postura também é comumente adotada pelos homossexuais que, em razão dessa sua “passividade”, se dizem mulheres, mas não pensam em hipótese alguma perder seu pênis. Diferente do transexual que realmente se sente mulher, e cujo órgão sexual se reduz a um incômodo apêndice do qual deseja se livrar no mais breve dos tempos.

Há uma hierarquia, em especial nas culturas machistas, estabelecida entre o “copulado” e o copulador, o primeiro sofre uma maior reprovação social por transgredir a ordem “natural”, organizada na dualidade: feminino (dominado) e masculino (dominante), de modo que se considera gay de verdade apenas aquele que se deixa penetrar e não o que penetra (Pollack, cit. in Welzer-Lang, 2004). A norma heterossexual se aplica a ambos os sexos e por isso não é considerada parte do condicionamento feminino. Assim, um gay é supostamente efeminado, uma lésbica supostamente masculinizada (Myron & Bunch, cit. in Katz, 1996).
O gay caricato ou com “visibilidade do estigma”, a que se refere Goffman (1988), é aquele sujeito que apresenta os sinais corporais os quais evidenciam o status moral, a exemplo dos trejeitos que denunciam sua conduta homoerótica “passiva”. É esse tipo caricato que, invariavelmente, está presente na maioria das telenovelas brasileiras. A primeira vista parece uma abertura, um pacto de coerência com o cotidiano - se é uma realidade no contexto social, por que não mostrar? -, uma tolerância à homossexualidade a ponto de transformar a figura do gay caricato um personagem quase que indispensável nos folhetins. Assim, fixa nesse imaginário de que “o desenho de um homem afeminado ´representa` os homossexuais masculinos, todos os homossexuais, ainda que se saiba que isso não corresponde à realidade”(Eribon, 2008, p.91).

Mas os autores dessas novelas teriam de fato a intenção social de favorecer os gays - julga-se que uma sua fatia de 10% da população é homossexual, decerto esse dado é hipotético porque nem todo homossexual assume a sua homossexualidade e, por vezes, desconhece, recalca. Porém, no caso de muitos casados a latência escapa de modo enviesado (ver casal transando; a própria mulher praticando sexo com outro; apalpa companheiros em jogo de futebol etc.) ou simbólico (viciado em filme pornô) -, para atenuar o preconceito sexual, ou apenas incluem o gay caricato em suas obras pensando nos picos de audiência - uma vez que desperta a atenção, provoca polêmica ou porque, geralmente, os personagens gays caricatos são engraçados, cabendo-lhes muito bem a função de bobos da corte -, sem nenhuma preocupação com a dor psíquica infligida pela discriminação aos atores sociais homossexuais?

Do contrário do que, geralmente, se pensa os bobos da corte não eram nada bobos, possuíam várias habilidades: versejavam, faziam malabarismos e mímica. Eram, em especial, gente com talento, sabedoria e sensibilidade para divertir os outros (Falbel, 2005). De diversas maneiras, na vida real, os gays caricatos, geralmente despudorados e criativos, servem de um misto de bobos da corte e de sacos de pancada para esta sociedade. Judas da heterossexualidade que são achincalhados, perseguidos, surrados e até mortos. Estima-se que no Brasil, em 2004, a cada 28 h um LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgênero) foi assassinado, este país é campeão mundial de extermínio de homossexual. Isso parece confirmar a observação de Badinter (1992) de que os homossexuais, na medida em que se tornam “visíveis” e reivindicadores, mais se defrontam com novas formas de hostilidade.

A presença do gay caricato nas novelas, se por um lado contribui, indiretamente, para os conservadores se acostumem com esse estranho (outsider), devido à sua constante exposição no vídeo, por outro lado, reforça que ser homossexual é ser, notadamente, caricato. Segundo Bourdieu (1997, p.23), “a televisão tem uma espécie de monopólio de fato sobre a formação das cabeças de uma parcela muito importante da população”. Assim, todo sujeito que tenha a sua sexualidade sob suspeita, mas que não apresenta trejeitos, logo é tido como gay enrustido ou incubado3, portanto, passa a ser alvo da violência subjetiva frontal ou sutil de que, independente dos seus motivos para escondê-la ou camuflá-la, tem que explicitá-la, ou seja, assumir uma caricatura porque é assim que é mostrado e assimilado o gay nas telenovelas.

A imagem estigmatizada do homossexual nas telenovelas e nas exibições das Paradas gay, associada à extravagância e ao espalhafato, terminam por cristalizar a moldura do gay caricato. Em virtude disso, o gay discreto é dito como covarde, medroso, com preconceito sexual internalizado, portanto, deve ser execrado em praça pública para que confesse o crime: a sua homossexualidade. Se a televisão vulgariza o gay afetado e nas avenidas no dia do Orgulho gay se reinventa na expansão de toda sua afetação, então, fica implícito que nenhum homossexual terá mais motivos para se esconder, pois, supostamente, todos os anteparos das sombras, dúvidas e penumbras da condição homossexual foram detonados. Assim, se instala a patrulha da indiscrição cujo imperativo, indiscriminadamente, o obriga a “sair do armário”4 (come out of the closet), não se admite mais que o gay, independente da sua vontade ou necessidade de discrição, se mantenha fechado (closet), isso não é mais tolerado. Tem que apresentar um atestado público da sua homossexualidade, em especial, a visibilidade do estigma. Uma espécie de carimbo (agora subjetivo), a exemplo do triângulo rosa que os homossexuais nos campos de concentração nazistas eram obrigados a usar para se diferenciarem dos heterossexuais.

Na opinião de Bauman (2005, pp.64-5), “as vítimas em potencial não são temidas e odiadas por serem diferente - mas porque não são suficientemente diferentes, misturando-se facilmente na multidão. A violência é necessária para torná-las espetacularmente, inequivocamente, gritantemente diferentes”. Devido à intolerância para com o indefinido ou duvidoso, é preciso definir para discriminar, e forçar para que o estigma se visibilize, tipo: se vocês são homossexuais têm que mostrar por meio do seu corpo essa condição. Assim, nos sentimos menos ameaçados, pois identificamos as diferenças nítidas entre nós (heterossexuais) e vocês (homossexuais), portanto, não correremos o risco de nós misturarmos, e, como sempre, faremos “justiça”, os deixaremos às margens da sociedade, seus apropriados lugares.
Na realidade, o homossexual coloca a masculinidade em questão e como insustentável (Trevisan, cit. in Silva, 2010). Sem dúvida, “a homossexualidade é sempre perturbadora. Incomoda e inquieta. Suscita a rejeição e o ódio”(Eribon, 2008, p.146). Logo, é preciso insultá-lo para exorcizar o medo da própria homossexualidade. Quando alguém o xinga de “viado”, lança a injúria, o faz saber que tem domínio sobre ele, que o homossexual está sob seu poder, e esse poder é, primeiramente, de ferir, de marcar sua consciência lhe fazendo se envergonhar de si mesmo, e isso tornar-se um elemento constitutivo da sua personalidade (Eribon, 2008).

Em oposição ao gay bandeiroso, efeminado, com “visibilidade do estigma” está a Barbie. Para Gontijo (2009), num país considerado grande propagador do machismo, ser barbie significa se igualar a todos os homens, os músculos e a moda clubber ou ser mais homem que os homens. As barbies e a “cultura GLS” buscam criar uma “nova ordem homossocial” que supere o machismo, mas que sobrepuje também o modelo do homossexual efeminado. Porém, entre o homossexual amaneirado, que faz o papel de folle (“louca”) e tante (“tia”) para entrar no mundo caricatural que a sociedade criara para a homossexualidade, e o hipermacho por meio da mímica do velho ideal masculino, não há qualquer diferença (Badinter, 1992).

A pressão para que o gay apresente visibilidade não tem nenhuma relação com a aceitação da homossexualidade. O gay caricato só aparentemente é mais tolerado porque atenua a angústia da dúvida, demarca um abismo imaginário entre heterossexual e homossexual, mas nunca é verdadeiramente aceito. É o gay não caricato, sem visibilidade ou discreto, que se torna o maior e mais inquietante agente instaurador da dúvida, em vista disso, é instigado a se revelar, na urgência em que essa revelação possa ser efetivada. Ainda mais quando a televisão prefere, ao invés de uma expressão de decência do homoerotismo, escancarar personagens gays caricatos, com se tivesse aberto as portas dos “armários” numa escala tão ampla e intensa a tal ponto que, ao invés de se constatar que nos dias de hoje ocorre uma maior visibilidade e discussão sobre a homossexualidade, acredita-se que esteja havendo, a exemplo de uma epidemia, proliferação da homossexualidade.

O sujeito que não dá nenhuma bandeira, isto é, que não apresenta visibilidade do estigma, que é delicado ou discreto, que não veste a couraça ou caricatura de machão, será alvo da discriminação. Assim, para não levantar suspeita sobre sua homossexualidade, e passar incólume ao olhar perverso da discriminação, em razão disso, muitos gays recorrem ao uso da fachada. Para Goffman (1985, p. 29), “fachada é o equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou inconsciente empregado pelo indivíduo durante sua representação”. Em outras palavras esse ator social se protege da discriminação sexual, a exemplo da barbie, travestido de homem heterossexual másculo.

Entre os homens, o feminino se torna o pólo antagônico central, o inimigo interior que deve ser combatido, e assim desenvolvem discursos com a intenção de subordinar a mulher e desvalorizar a esfera do feminino (Ramirez, 1995; Welzer-Lang, 2004). Paradoxalmente, a masculinidade se constrói e se afirma publicamente por ser contra a homossexualidade sempre desenhada como efeminada, isso engendra um potencial de violência prestes a se liberar, sobretudo, quando os sujeitos masculinos estão em grupo (Eribon, 2008).

Para o senso, necessariamente, o homossexual apresenta visibilidade do estigma, trejeitos efeminados. Até porque a homossexualidade é classificada em nossas sociedades do lado feminino (Bourdieu, 1998). Ou seja, uma vez que um homem tenha desejo e prática sexual com outro homem, é remetido à condição de mulher. Segundo Eribon (2008, p.101), no fim do século XIX, o “desvio” sexual é percebido como uma inversão de gênero, “o homem homossexual é alguém que renuncia à sua masculinidade, da mesma forma que a lésbica renuncia à sua feminilidade”. Embora isso possa, por vezes, ocorrer especialmente em relação aos gays “passivos” e lésbicas masculinizadas, certamente, a exemplo da barbie, mas não pode ser generalizado como regra.

O preconceito sexual (homofobia) protege a frágil heterossexualidade de muitos homens, é um mecanismo de defesa, uma estratégia para evitar o reconhecimento de uma parte inaceitável de si. Assim, dirigir a própria agressividade contra os homossexuais, exteriorizar o conflito, é um modo de torná-lo suportável (Badinter, 1992). É uma forma de controle social que se exerce sobre os homens, desde os primeiros passos da sua educação básica. Para ser valorizado, o homem precisa ser viril, mostrar-se superior, forte, competitivo, do contrário, será tratado como fraco e mulher, e assinalado aos homossexuais (Welzer-Lang, 2004).
Conforme Pino (2007), a heteronormatividade é reproduzida no ambiente de trabalho. Assim, o indivíduo efeminado ou com visibilidade do estigma, não só é estigmatizado e discriminado pelos heterossexuais, mas também pelos próprios homossexuais. Nesse sentido, em grande parte, a heterossexualidade se define por aquilo que rejeita, da mesma maneira que, de modo mais geral, a sociedade se define por aquilo que exclui (Foucault, 1995).

Apesar da iniciação da grande maioria dos homens se dá por meio do mesmo sexo, os homens homossexuais, mais do que as mulheres homossexuais, são habitualmente vitimizados como alvo de mais violência moral ou física. Os crimes cometidos contra gays são mais severos do que aqueles que são cometidos contra lésbicas (Fernandes, 2011). A discrição da homossexualidade, mais do que a visibilidade do estigma, provoca e desestabiliza a sociedade falocrática e “compulsoriamente heterossexual”(Rich, 1980/2010). É preciso caricaturar o homossexual, torná-lo diferente, estranho (outsider), para suportá-lo na convivência ou entorno. Despossuído dos direitos de cidadão que sua sexualidade legitima, seu existir não faz muita ou nenhuma diferença porque não é um dos nossos (insider). Em razão disso não causa nenhuma comoção quando na “invisibilidade” do teatro subterrâneo em que o homoerotismo, geralmente, fortuito e clandestino se manifesta, sobretudo no Brasil, não é raro os “passivos”, com os quais os “ativos” contracenam, deixarem de existir porque as cortinas da complacência social ao crime de ódio quase sempre se fecham (Silva, 2015).

Que vantagem de se assumir publicamente bicha pode ter num país onde a discriminação sexual não é crime, uma vez que esse rótulo “coloca numa posição de inferioridade”(Eribon, 2008, p.73), das mais desprezíveis: verme? Para Eribon (2008, p.73), “quando o homossexual diz que é homossexual, o heterossexual é obrigado a se pensar como heterossexual, embora até ali não tivesse que se fazer perguntas sobre a sua identidade e sobre a ordem social pela qual ela está instituída”. Afinal, ele estava num estado de privilégio absoluto, em vista disso, indigna-se quando é ameaçado de perdê-lo, e pede aos gays “descrição”, para que ele volte à paz de suas certezas e ao conforto de sua normalidade repousa do seu silêncio (Eribon, 2008). Porém, na cultura machista se instiga o “barulho”, o espalhafato, a visibilidade gay, porque é aí que o heterossexual inseguro da sua masculinidade se acalma no vislumbre do extremo oposto desta diferenciação altamente da polarizada: heterossexual (homem/másculo/normal) x homossexual (homem/efeminado/“anormal”) vulgarmente conhecido, por meio da visibilidade do estigma, como bicha “louca”, bandeirosa, pintosa, fechosa etc.

Assim, assumi-se bicha é se colocar nesse lugar caricato, marginal, marcado pela folia e atribuível promiscuidade sexual, isso “autoriza” a sociedade exercer seu preconceito, num contra ponto, certamente hipócrita, que tem o heterossexual na conta de reprodutor, fiel e que faz jus ao ideal de família cristã. Ao se assumir publicamente bicha, na tentativa de que esse rótulo vulgarizado pelo próprio sujeito da discriminação esvazie toda sua carga de negatividade e desprezo, seria uma desconstrução assertiva? Há indícios de que, na verdade, confirma mais ainda a discriminação sobre algo que já se reconhece imprestável, nojento, tal qual explicita o termo bicha (verme).

Certamente não existe uma pureza heterossexual e nem homossexual 100%. O próprio Freud (1905/1989, p.137) questionava que: “o interesse sexual exclusivo que os homens sentem pelas mulheres é também um problema que exige esclarecimento...”. Assim sendo, o que levam os indivíduos se colocam em pólos tão distintos, quando na realidade a bissexualidade é uma característica inata do ser humano? Além da Heterossexualidade compulsória, como diz Deleuze (2004), é preciso pensar em termos incertos, improváveis, nenhuma bicha jamais poderá dizer com certeza “eu sou bicha”. Tudo levar a crer que alguma mudança para uma maior tolerância à homossexualidade se dará, não na tentativa de saturar um termo fortemente carrego de preconceito desde a sua etiologia, para que enfraqueça seu poder de envergonhar, de ferir, mas de apontar que a discriminação advém de uma fragilidade. Enfim, de uma forma de psicopatologia individual num processo psicossociológico de subalternização para garantir a heteronormatividade manifestada pela angústia de que possa desaparecer a fronteira e a hierarquia da ordem heterossexual (Herek, 1984, 2004; Blumenfeld, 2004; Prado & Machado, 2008; Borrillo, 2010).

Finalmente, para Deleuze (cit. in Silva, 2010), os interesses somente serão revolucionários, quando desejo e máquina não se tornarem únicos, e se voltarem contra os chamados dados naturais da sociedade capitalista. Com base nesse autor, pode se pensar que assumir-se homossexualidade, no âmbito privado e, em especial, publicamente por meio da visibilidade do estigma, não é uma atitude anárquica desnudar o próprio desejo proibido perante o “olhar público”, contrariando a todas as orientações e expectativas social, cultural e outras, com todos os riscos que isto implica? (Silva, 2010). Haja vista que “um homem e uma mulher ´de verdade` são heterossexuais”(Myron & Bunch, cit. in Katz, 1996, p.154), o indivíduo homossexual pode negar essa condição ou passar incólume com a fachada de heterossexual.

Notas:

  1. Schafer (cit. in Granã, 1996) chama a atenção para o que consiste, essencialmente, num dado inconteste, a depender do ângulo de perceção, essas condutas se confundem, pois, falar em comportamento passivo ou ativo é semelhante a decidir se um copo com água até a metade está meio cheio ou meio vazio. Em razão disso, daqui em diante, quando possível, os termos ativo e passivo serão aspados.
  2. Do francês, o que saiu errado ou não conforme o esperado, incompleto (tradução nossa).
  3. “Homossexual não assumido é o indivíduo que, na linguagem popular, é chamado de enrustido ou incubado. Acomoda-se numa dualidade existencial em que a ocultação e a clandestinidade de suas práticas homoeróticas são preocupações obsessivas” (Lima, 1983, pp. 14-15).
  4. Para Barbero (cit. in Silva, 2015), “é uma expressão utilizada no meio GLS que significa se mostrar, abrir sua orientação sexual ao conhecimento público, parcial ou totalmente”. Esta expressão “sair do armário” de Harvey Milk, em 1977, foi o terceiro americano assumido a ocupar um cargo público, é eleito city-county supervisor em São Francisco - onde o bairro do Castro se tornara no primeiro bairro marcadamente LGBTs. Milk ficou conhecido porque, em 1978, prevendo de que seria assassinado por ser homossexual, deixou gravada: “Se uma bala entrar no meu cérebro, deixem que esta bala destrua cada porta de armário” (Almeida; Sant, cit. in Silva, 2015).

Referências

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