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Homofobia: a linha tênue que separa hetero de homossexual

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por:

“A Força Aérea me condecorou por matar dois homens
no Vietnã e me expulsou por amar um”
(LEONARDO MATLOVICH,
soldado da Força Aérea Americana).

O francês Guy Hocquengheim (apud MOTT, 1993, p.77) disse: “O buraco do meu cu é revolucionário”. A força transgressora dessa afirmativa talvez esteja no fato de que desloca uma característica política, revolução, para outro lugar: um órgão de descarga, cuja função apenas fisiológica, para o senso comum, inscreve a conduta do ser macho. E essa questão, de maneira subjacente ou explícita, perpassa a construção da identidade masculina. A não erotização anal e a vigilância contra a delicadeza são, desde tenra idade, incutidas no menino, como obrigatoriedade para se reconhecer macho, isso porque, neste imaginário são consideradas como marcas da masculinidade preservada.

A Homofobia é conceituada como preconceito contra os homossexuais, ódio aos homossexuais, muitas vezes levando à violência física (MICHAELIS, 1998). Porém, a homofobia só passou a existir a partir do conceito de homossexualidade, criado em 1869, pelo médico húngaro, Karoly Maria Benkert1. A homofobia é um fenômeno de dimensão quase universal que se perpetua ao longo dos séculos. Assim, autorreconhecer-se homossexual sugere ser dramático e revolucionário tanto quanto a sua vivência homoerótica sob o espectro da atuação homofóbica. No Brasil, por exemplo, onde se realiza a maior passeata gay do planeta, é também o país campeão mundial em assassinatos de homossexuais (MOTT e CERQUEIRA apud CARRARA; VIANNA, 2004).

Segundo Deleuze (2004), os interesses somente serão revolucionários quando desejo e máquina não se torna única e se voltam contra os chamados dados naturais da sociedade capitalista, e a transgressão é a função sustentada pelos homossexuais nas mais variadas inversões de papéis (TOURAINE, 2007). Mas não se constitui em uma tarefa muito fácil renunciar a representação de si com promessas grandiosas que, durante anos, lhe serviram de modelo (NOLASCO, 1986). A constituição de si mesmo a partir de uma identidade desqualificada, recusada em relação à família e à inserção social, por vezes, pode ocasionar melancolia no luto interminável pelo “objeto heterossexual” (BUTLER e ERIBON apud PAIVA, 2007 - grifo do autor).

O homossexual coloca a masculinidade em questão e como insustentável, assim, instaura dúvida que abre espaço para a diferença e se constitui em signo de contradição para a normalidade, um desejo enquanto devir como afirmação de uma identidade itinerante (TREVISAN, 2002). Contudo, o homossexual que se expressa com gestuais mais femininos também sofre discriminação na própria comunidade gay (FISCHER, 2008).

Para Lipovetsky (2005), a cultura do feeling e da emancipação individual é estendida a todas as categorias de idade e de sexo. Mas essa mudança suscita contradição, a exemplo da prática “passiva”2 que está fortemente associada à “visibilidade do estigma”3(efeminado), e o homossexual é alojado no território do marginal, do desvio, do estrangeiro (PAIVA, 2007). Esse diferente, forasteiro ou estrangeiro, representa ameaça (WOODWARD, 2005), não é um “estranho” ou recém-chegado, mas um eterno nômade errante e sem esperança de chegar, situado entre a ordem e o caos, dentro e fora (BAUMAN, 1999). Portanto, “os gays não podem assumir a posição de sujeito falante no interior do sistema linguístico da heterossexualidade compulsória” (BUTLER, 2003. p.168). Uma vez que, precisa-se de um verdadeiro sexo, bem definido, sem ambiguidade que remeta às incertezas ou conste em complicações sociais (FOUCAULT, 1985, 1990).

A nova ideologia depois da substituição do rótulo homossexual por gay propaga que os gays, antes de tudo, são homens, e que a preferência homoerótica não reduz sua masculinidade (GAGNON, 2006). Afinal, “o gay é para o hetero não o que uma cópia é para o original, mas, em vez disso, o que uma cópia é para uma cópia” (BUTLER, 2003, p.57). No entanto, a masculinidade atrelada à virgindade anal parece ser tabu na maior parte do mundo, e mais acentuado nos países de cultura machista. Em razão disso, a retirada da homossexualidade da categoria das doenças pela Associação Psiquiátrica Americana, em 19804, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1983, e pelos Conselhos Federais brasileiros de Medicina e de Psicologia, em 1985 (NETO et al., 2010), quase não teve efeito prático, não foi apropriada pela academia, e em pleno século XXI, caracterizado pela inclusão e pela diversidade, mantém-se a homofobia ou o ranço homofóbico.

A discriminação ao homossexual de tão banalizada se incorporou de tal modo no meio social que soa estranho questioná-la. É pertinente saber os porquês de uma conduta sexual gerar tanto medo e desvalorização do sujeito com esse signo. No entender de Silva (2005), signo é um sinal, uma marca, um traço que está no lugar de outra coisa, porém não carrega sempre apenas traços daquilo que substitui, mas também o que ele não é, ou seja, precisamente a diferença. Embora bissexual e homossexual se permitam à prática sexual “passiva”, no entanto, é sobre o homossexual com “visibilidade do estigma” que “[...] pesa o estigma da virilidade perdida” (TREVISAN, 2002, p. 468), Em vista disso, é “colocado em patamar inferior ao feminino da mulher” (SEFFNER, 2003, p.126), ou remetido à condição de animal depreciado, por meio da qual o entorno se autoriza insultá-lo de bicha, viado, etc., no Brasil, e, paneleiro, rôto, etc., em Portugal.

De certo, o fim das discriminações legais é bem menor do que as reais, sobretudo no processo de seleção para emprego e no local de trabalho, e os homossexuais jovens mais do que os outros experimentam depressões e tentativas de suicídio (BOZON, 2004). Na ótica de Guattari (1993), toda singularização é um devir diferencial que se recusa à subjetivação capitalística. Portanto, cabe ao indivíduo vivenciar a singularidade da própria sexualidade.

Embora a discriminação traga grande sofrimento para suas vítimas, o tema homofobia ainda encontra resistência no meio acadêmico, esse medo mórbido em relação à homossexualidade ainda está muito presente na maior parte do dito mundo pós-moderno. O incômodo ou mal-estar homofóbico se manifesta por meio da rejeição, da perseguição e do ódio. Em sociedades que se intitulam democráticas, parece um contra senso que cidadãos ainda sejam vítimas, por causa da sua condição sexual divergente, da violência simbólica, da violência física extrema ou até de morte. À ciência não cabe alimentar preconceito travando o campo de conhecimento. Do contrário, sua função é expandir as possibilidades para que as sociedades, a partir das suas descobertas, vislumbrem atitudes menos norteada pelos tabus religiosos, sexuais e culturais, e mais orientadas pelos saberes que passaram pelo rigor do seu crivo científico.

Finalmente, de alguma maneira, o sujeito homofóbico também sofre porque não sabe lidar com esse sentimento, julga que qualquer interação social com homossexual pode pôr em risco sua reputação ou a sua insegura conduta heterossexual. Sem compreender as razões que motiva sua homofobia, não somente a encara como natural, mas também se autorizar, de modo perverso, abertamente ou em surdina, a banir do entorno o homossexual, com “visibilidade do estigma” (efeminado), estímulo desse seu medo mórbido. Por sua vez, os próprios homossexuais, de modo enviesado, também absorvem a discriminação e, de alguma forma, disseminam a intolerância nos seus grupos de pares, sobretudo contra os homossexuais mais afetados. Isto é, os aspectos subjetivos e simbólicos fomentadores da homofobia no contexto da heterossexualidade também estão nas dobras do universo homoerótico, no qual os atores sociais com essa mesma conduta sexual divergente repassam a discriminação, digamos que, de “segunda ordem”.

NOTAS:

  1. Há controvérsias sobre a profissão, sobrenome e nacionalidade de Benkert, para Green (2000) ele era um escritor vienense, e para Mott (2003) era o jornalista e advogado Kertbeny, que usava o pseudônimo de Dr. Benkert.
  2. Para Schafer (apud GRANÃ, 1996), a depender do ângulo de percepção, comportamento passivo ou ativo é semelhante a decidir se um copo com água até a metade está meio cheio ou meio vazio. Por esse motivo é preferível o uso desse termo entre aspas.
  3. Expressão de Goffman (1988) para significar as atitudes que identificam a natureza da preferência sexual.
  4. Bozon (2004) se refere ao ano de 1974.

Referências

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