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Título do artigo:

Romanceiro da Incofidência

97

por:

[Cecília Meireles]

I- INTRODUÇÃO

Romanceiro da Inconfidência, publicado em 1953, é um longo poema narrativo, que procura na História da pátria sua matéria inspiradora. Nessa obra, CM procura evocar os tempos de ouro e da Inconfidência Mineira [1789]. De todas as publicações da autora, o Romanceiro da Inconfidência é a única que mostra o rompimento do círculo do próprio "eu", criando uma poesia menos pessoal, mais identificada com o mundo exterior que propriamente com o universo íntimo e secreto da artista. Mesmo assim, em alguns momentos percebe-se claramente certas projeções subjetivas, que rompem com a mera retratação de cena ou de fatos verídicos.

Antes de analisarmos a obra, devemos chamar a atenção para a forma do romanceiro, que é uma composição estíquica [sucessão de versos não sujeitos à estrofação regular], de extensão indeterminada, surgida por volta do século XIV, em versos assonantados [mesmo que toantes, nos quais há correspondência sonora da última vogal tônica e das que lhe seguem], geralmente de sete silabas [redondilho maior], de cinco silabas [redondilho menor], ou de dez silabas [romance heroico em verso heroico]. No Romanceiro da Inconfidência, temos 85 romances, além das "falas" do narrador e dos Cenários. Chamamos romance cada uma das partes do romanceiro. É bom lembrar que essa forma poética medieval deu origem ao romance de prosa, por causa de seu caráter normalmente narrativo.

Vejamos a seguir essa espécie épica que foi tão pouco praticada em Língua Portuguesa:



CENÁRIO


PASSEI por essas plácidas colinas [A]

e vi das nuvens, silencioso, o gado [B]

pascer nas solidões esmeraldinas. [A]



Largos rios de corpo sossegado [B]

dormiam sobre a tarde, imensamente, [C]

- e eram sonhos sem fim, de cada lado. [B]



Entre nuvens, colinas e torrente, [C]

uma angústia de amor estremecia [D]

a deserta amplidão na minha frente. [C]



Que vento, que cavalo, que bravia [D]

saudade me arrastava a esse deserto [E]

me obrigava a adorar o que sofria? [D]



Passei por entre as grotas negras, perto [E]

dos arroios fanados, do cascalho [F]

cujo ouro já foi todo descoberto. [E]

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Notas:

1. Marcamos no trecho acima o emprego das rimas [correspondência sonora entre as palavras finais] nos versos, nas quais percebemos a identidade de som existente entre a última vogal tônica e as vogais que lhe seguem [verso assonantados ou toantes].

2. Esse trecho do "CENÁRIO" mostra o emprego de estrofação fixa, em tercetos [estrofes de três versos] e emprego de rimas cruzadas, já que são intercaladas por um verso com outra terminação, formando um esquema rimático: aba - bcb - cdc - ded - efe.

3. Cabe lembrar ainda o emprego de versos graves, já que a acentuação tônica [sílaba mais forte] recai sobre palavras paroxítonas.



Sem dúvida, CM consegue em sua obra uma belíssima combinação de dados históricos e elementos inventivos, que dão ao texto ritmo e variações bem interessantes. No caso dos versos empregados, encontramos redondilhos, decassílabos e até mesmo versos tetrassílabos.

Romanceiro da Inconfidência é uma reconstituição da atmosfera da tragédia histórica vivida pelos inconfidentes e a reconstrução dos dramas individuais dos membros da Inconfidência, "numa obra representa uma originalíssima fusão de elementos líricos e de elementos épicos - e, através de cuja diversidade formal, da sábia e discreta conjugação de vários metros, se parece prestar um desvelado preito de homenagem à própria poesia do século XVIII".

CM procura obedecer certas regras e formas exigidas pelo romanceiro. Mantém o emprego de métrica regular em cada "romance".

Mantém, ainda, uma divisão estrutural quase rígida em cinco partes, que acompanham não apenas a divisão histórica dos fatos, mas também uma espécie de marcação que pode ser considerada de natureza teatral. Ao reinventar o passado, retomando a história dos inconfidentes, CM termina por recompor um dos mais belos e dolorosos momentos de nossa História. A busca dessa alma coletiva, marcada pelo sofrimento e pela dor, acaba aproximando o Romanceiro da Inconfidência da tragédia, daí o emprego de um crescendo emocional, quase sempre pressentido por indivíduos alheios aos fatos, ou que destes não participam diretamente, e que culminará no clímax inevitável: a morte de Tiradentes. A tensão emocional após o clímax fica por conta do sofrimento individual dos outros inconfidentes [a morte de Cláudio Manuel da Costa e o degredo de vários deles, por exemplo]. Há momentos de grande emoção durante todo o poema, que acabam por fazer com que o narrador intro-se no texto, movido exclusivamente pela paixão. Até mesmo o emprego do monólogo, do dialogo e da variação espácio-temporal conduzem à sensação de uma perspectiva dramática.

Romanceiro da Inconfidência pode ser dividido em cinco partes, entrecortadas por caracterizações de cenário e intervenções do narrador para suas "falas".



PRIMEIRA PARTE



Focaliza o ambiente e os antecedentes que conduzem à Inconfidência [do Romance I ao XIX].



SEGUNDA PARTE



Focaliza a trama e a frustração da Inconfidência Mineira. Revela "a marcha da conspiração, seu malogro e o prenuncio das desgraças" que se abaterão sobre os inconfidentes [do Romance XX ao XLVII].



TERCEIRA PARTE


Focaliza a morte de Cláudio Manuel da Costa e de Tiradentes. Nessa parte, evoca-se o sacrifício de Tiradentes [do Romance XLVIII ao LXIV].



QUARTA PARTE


Focaliza o infortúnio de Tomás Antônio Gonzaga e de Alvarenga Peixoto. Uma passagem evocativa retoma o cenário em que viveu o poeta Tomás A. Gonzaga [do Romance LXV ao LXXIX].



QUINTA PARTE


Focaliza a presença de D. Maria I, vinte anos depois de ter lavrado a sentença que decretou a morte de Tiradentes e o degredo dos demais inconfidentes. Dona Maria, já louca, contempla a terra em que ocorreu o drama da Inconfidência [do Romance LXXXII ao LXXXV].

O longo poema encerra-se com a "FALA AOS INCONFIDENTES MORTOS", em versos tetrassílabos:



"Treva da noite, Parada noite,

lanosa capa suspensa em bruma

nos ombros curvos não, não se avistam

dos altos montes os fundos leitos...

aglomerados... Mas, no horizonte

Agora, tudo do que é memória

jaz em silencio: da eternidade,

amor, inveja, referve o embate

ódio, inocência, de antigas horas,

no imenso tempo de antigos fatos,

se estão lavando... de homens antigos.

Grosso cascalho

da humana vida... E aqui ficamos

Negros orgulhos, todos contritos,

ingênua audácia, a ouvir na névoa

e fingimentos o desconforme,

e covardias submerso curso

[e covardias!] dessa torrente

vão dando voltas do purgatório...

no imenso tempo, Quais os que tombam,

- a água implacável em crime exaustos,

do tempo imenso, quais os que sobem,

rodando soltos, purificados?

com sua rude

miséria exposta...



II- ESTILO DE ÉPOCA



CM está inserida na segunda fase do Modernismo brasileira, ou seja, na segunda geração moderna, que compreende o período entre 1930 e 1945. A segunda fase de nossa poesia moderna é marcada por grande variedade temática e formal. Cecília pode ser colocada, pelo menos inicialmente, na poesia espiritualista de influência católica. Tal tendência, que se agrupou em torno da revista Festa [1927], do RJ, mostra clara influência do lirismo católico francês e do Simbolismo, apesar de dar feição moderna a essas tendências religiosas. Daí podermos considerar CM como uma poeta neo-simbolista. Sem dúvida, as marcas dessa influência fazem-se sentir na tendência introspectiva, intimista e na musicalidade que marca a maior parte das obras da autora.

Uma das marcas mais importantes dessa geração da poesia de 30 foi a oscilação entre o fechamento e a abertura do "eu" à sociedade e à natureza. Nasceu daí uma poesia marcada pela tendência universalizante, física e tendendo para o hermetismo. A herança simbolista e pós-simbolista faz-se sentir através dessa tendência universalizante e espiritualista. Mas, sem dúvida, CM ultrapassa as marcas coletivas de sua geração para deixar seu nome gravado como uma das maiores de seu tempo.



III- ESTILO INDIVIDUAL



A poesia de CM é impregnada de um lirismo profundo e essencial, dando mostras de se, ainda, antipitoresca a antiprosaica. De certo modo, seus versos parecem contrariar as tendências coloquiais, irônicas, cotidianas e prosaicas dos modernistas de 22. sua poesia está voltada ao mundo físico, subjetivo e existencial, que à realidade circundante do mundo.

Seu mundo é, portanto, interior, cuja sondagem só foi possível através de uma linguagem essencial, e hermética, carregada ainda de resíduos de estéticas anteriores ao próprio Modernismo. Mas esse vínculo com o passado em nada minimiza a qualidade de sua poética. Outro ponto alto é a musicalidade, doce herança simbolista que não foi esquecida em nenhuma de suas obras.

Sua modernidade, portanto, está na tradução do novo-antigo, já que o mundo interior não sofre tanto com a ação do tempo, empregando para tanto formas consagradas, metros regulares, ritmos e acentos quase clássicos, mas deixando sempre um gosto de simplicidade, um jeito de coisa doce ou meio-amarga.

De certo modo, Romanceiro da Inconfidência é uma obra de exceção, um longo poema épico [narrativo] de sintaxe lusitana. Essa obra parece, pelo menos à primeira vista, romper com a tendência de interiorização que marcou toda sua produção literária. É uma obra menos pessoal, mais ligada ao desejo de exaltar nossos heróis da Inconfidência e demonstrar sua admiração pelos mártires de um movimento que buscava a liberdade. Não é mais a tradução apenas do "eu", mas a releitura da realidade histórica da pátria através da poesia. Mas, se o leitor acredita que a autora perdeu o intimismo residual de toda sua poesia anterior, vai descobrir que ela encontrou na fonte de inspiração histórica uma projeção subjetiva, evitando a mera retratação de cenas verídicas. CM leu, com os olhos do coração e da mente, os episódios dramáticos que precederam e sucederam ao fato histórico de 1789. Nessa evocação dos tempos do ciclo de ouro e da Inconfidência, CM encontrou a fonte de uma nova força poética e criou uma obra magnífica, seja em seu esplendor formal, usando e abusando das variações métricas [preferência pelos metros breves] e estruturais, seja em sua magnitude pictural, em cuja plasticidade está presente o pincel do artista da palavra.



IV- PROBLEMÁTICA E PRINCIPAIS TEMAS



O tema central de Romanceiro da Inconfidência é, como o próprio título indica, a Inconfidência ou Conjuração Mineira, episodio histórico ocorrido em 1789, que culminou com a morte de Joaquim José da Silva Xavier [o Tiradentes] e com o degredo de outros tantos revoltosos. Dentro dessa centralização temática, teríamos a morte de Tiradentes como o núcleo. Entretanto, outros temas giram em torno dele. o aproveitamento histórico do episodio serviu para autora trazer à tona outros assuntos, tais como a traição, a covardia, a ambição desmedida [gerada principalmente pela febre do ouro], a inveja, o medo, a coragem, a ousadia, a loucura, a corrupção, e, por que não, o amor.

A traição e a covardia ficam por conta daqueles que, movidos por interesse econômico [Joaquim Silvério dos Reis] ou por medo das ações do governador de Minas, delataram os inconfidentes. Muitos desses delatores sequer viram ou ouviram alguma coisa que pudesse servir de prova contra os acusados.

A ambição está presente nas atitudes do próprio Joaquim Silvério dos Reis ou do Conde de Valadares, que se vendem por dinheiro, esquecendo por completo qualquer amizade.

A ousadia fica por conta do herói do poema, Tiradentes, que ousava sair pelos campos ou pelos quartéis pregando a liberdade e falando contra a ambição da Coroa Portuguesa que estava sempre a exigir mais dinheiro para seus gastos e deleites. Também, não podemos nos esquecer dos inconfidentes e dos heróis anônimos.

A loucura está presente de forma teatral na figura da própria rainha D. Maria I, que se via condenada ao inferno; ou em Bárbara Heliodora que, marcada pela dor do degredo do marido, Alvarenga Peixoto, e pela morte de sua filha Ifigênia, acaba endoidecida e termina por morrer.

A corrupção segue sua trilha entre governadores, magistrados, fiscais, e outros tantos funcionários da Coroa.

O amor não fica apenas nos versos dos poetas árcades Tomás A. Gonzaga ou Cláudio M. da Costa ao recordarem em suas liras as pastoras Marília, Nise ou Anarda, mas também na paixão do ouvidor Tomás A. Gonzaga por Maria Joaquina, e o sofrimento desta pela partida do noivo.

O próprio Arcadismo servirá de tema em vários momentos da presente obra, trazendo de volta as figuras das pastoras, das ovelhinhas, dos prados amenos, dos regatos mansos e da vida bucólica que se oporá, dentro do poema, ao clima de insurreição e violência que passará a dominar a ação narrativa.

De maneira geral, o grande tema deste livro é a lição histórica que a inconfidência empresta aos nossos jovens, de separar os que ficarão gravados para sempre nas paginas da História [e da Literatura] como heróis e símbolos da liberdade e os que deixarão suas pegadas como covardes, ambiciosos e mesquinhos.



FALA INICIAL



Não posso mover meus passos Batem patas de cavalos.

por esse atroz labirinto Suam soldados imóveis,

de esquecimento e cegueira Na frente dos oratórios,

em que amores e ódios vãos; que vale mais a oração?

- pois sinto bater os sinos, Vale a voz do Brigadeiro

percebo o roçar das rezas, sobre o povo e sobre a tropa,

vejo o arrepio da morte, louvando a augusta Rainha

à voz da condenação; - já louca e fora do trono -

- avisto a negra masmorra na sua proclamação.

e a sombra do carcereiro

que transita sobre angústias Ó meio-dia confuso,

com chaves no coração; ó vinte-e-um de abril sinistro,

- descubro as altas madeiras que intrigas de ouro e de sonho

do excessivo cadafalso houve em tua formação?

e, por muros e janelas,

o pasmo da multidão.



Comentários: Nessa primeira parte, o narrador torna-se presente para retomar de forma evocativa o preparativo para o enforcamento de Tiradentes a 21 de abril de 1789, e a reconstituição do clima e do cenário de Ouro Preto. Observem que o caráter épico e nacionalista do poema não é apagado pela presença do lirismo. Alias, como veremos em todo o livro, o épico e o lírico convivem harmoniosamente.



ROMANCE XIV OU

DA CHICA DA SILVA



Que andor se atavia

naquela varanda?

É a Chica da Silva:

é a Chica-que-manda!



Cara cor da noite,

olhos cor de estrela.

Vem gente de longe

Para conhecê-la.



Comentários: Esse "romance", constituído por quadras em versos redondilhos menores, recria a figura da escrava Chica da Silva, que viveu em Diamantina e foi senhora de seu dono, João Fernandes. Chica da Silva ficou conhecida na História como a negra que teve não só todas as riquezas de seu tempo, mas também todo o poder. João Fernandes, para agradá-la, chegou mesmo ao absurdo de mandar construir um navio e colocou-o no seco apenas para que Chica pudesse entender como andam os barcos na água.



ROMANCE LX OU

DO CAMINHO DA FORCA



Os militares, o clero, --------------------

os meirinhos, os fidalgos [Águas, montanhas, florestas,

que o conheciam das ruas, negros nas minhas, exaustos...

das igrejas e do teatro, - bem podíeis ser, caminhos,

das lojas dos mercadores de diamante ladrilhados... ]

e até da sala do Paço; Tudo leva na memória:

e as donas mais as donzelas em campos longos e vagos

que nunca o tinham mirado, tristes mulheres que ocultam

os meninos e os ciganos, seus filhos desamparados...

as mulatas e os escravos, Longe, longe, longe, longe,

os cirurgiões e algebristas, no mais profundo passado...

leprosos e encarangados, - pois agora é quase um morto,

e aqueles que foram doentes que caminha sem cansaço,

e que ele havia curado que por seu pé sobe à forca,

- agora estão vendo ao longe, diante daquele aparato...

de longe escutando o passo

dos Alferes que vai à forca, Pois agora é quase um morto,

levando ao peito o braço, partindo em quatro pedaços,

levando no pensamento e - para que Deus o aviste -

caras, palavras e fatos; levantado em postes altos.

as promessas, as mentiras,

línguas vis, amigos falsos [Caminha a Bandeira

coronéis, contrabandistas, de Misericórdia.

ermitões e potentados, Caminho, piedosa,

estalagens, vozes, sombras, mais alta que a tropa.

adeuses, rios, cavalos... Da forca se avista

-------------------- a Santa Bandeira

Tudo leva nos seus olhos, da Misericórdia.]

nos seus olhos espantados,

o Alferes que vai passando

para o imenso cadafalso,

onde morrerá sozinho

por todos os condenados.



Comentários: Esse "romance" reconstitui a caminhada de Tiradentes para a forca e representa o clímax do Romanceiro. O narrador mostra todo seu repudio ao comportamento das pessoas que fugiram no momento de ajudar o herói a escapar da morte. Desapareceram os amigos, os poderosos, qualquer pessoa que podia de alguma forma empenhar-se para minimizar sua pena. O narrador procura mostrar que Tiradentes pagou com a vida em nome de todos os outros inconfidentes, pois todos os demais, homens ricos, poderosos ou membros da igreja, foram exilados.