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Os Sertões

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[Euclides da Cunha]

I- O Autor:

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu a 20 de janeiro de 1866 e morreu envolvido num grande escândalo familiar, assassinado em duelo pelo amante da esposa, a 15 de agosto de 1909. Formou-se engenheiro militar em 1892, exerceu a função de engenheiro civil. Foi membro da ABL, do Instituto Histórico e catedrático em Lógica pelo Colégio Dom Pedro II. Viajou muito e escreveu Os Sertões pela experiência própria de ter testemunhado a Guerra de Canudos como correspondente jornalístico do Estado de São Paulo.

Positivista, por alguns autores é considerado um naturalista, mas seu estilo pessoal e inconformismo caracterizam-no como um pré-modernista. A passagem a seguir provém de Os Sertões, sendo cada uma de uma parte da obra.

'Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e não o atrai; repulsa-o com folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; e desdobra-se lhe na frente léguas e léguas, imutável no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante...' Os Sertões - A Terra

'Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos...' Os Sertões - O Homem

'E volvendo de improviso às trincheiras, volvendo em corridas para os pontos abrigados, agachados em todos os anteparos [...] os triunfadores, aqueles triunfadores memorados pela História, compreenderam que naquele andar acabaria por devorá-los, um a um, o último reduto combatido. Não lhes bastavam seis mil Mannlichers e seis mil sabres; e o golpear de doze mil braços [...] ; e os degolamentos, e a fome, e a sede; e dez meses de combates, e cem dias de canhoneiro contínuo; e o esmagamento das ruínas; e o quadro indefinível dos templos derrocados; e por fim, na ciscalhagem das imagens rotas, dos altares abatidos, dos santos em pedaços - sob a impassibilidade dos céus tranquilos e claros - a queda de um ideal ardente, a extinção absoluta de uma crença consoladora e forte...' Os Sertões - A Luta

II- Obra:

O imenso cenário sertanejo é o destaque inicial da obra: 'o planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas'. Aos poucos, essa paisagem é particularizada, apontando os destinos entrecruzados de homens terras, ares, água, árvores e bichos.

A seguir, o autor aborda o clima sertanejo, que é indefinível porque 'nenhum pioneiro da ciência suportou ainda as agruras daquele rincão [...], em prazo suficiente para o definir'. Durante o dia prevalecem altas temperaturas, torrando tudo, e, à noite, ela cai abruptamente, enregelando a terra. A secura atmosférica no sertão é tanta que atua como uma estufa, secando tudo.

A seca faz parte da vida do habitante dessa região, o sertanejo, que, sem temê-la, munido de fé, esperança e serenidade, enfrenta-a. A caatinga, celeiro da seca, agride o viajante com seus espinhos e folhas urticantes, mas, quando não há mais nada, é de lá que o homem extrai os mandacarus para iludir seu gado, e também os mangarás das bromélias selvagens para alimentar os filhos. Chega um ponto que não resiste mais e parte em retirada, mas tão logo o flagelo acaba, lá está ele de volta, morto de saudades do sertão.

Homem permanente fatigado, o sertanejo 'reflete a preguiça invencível, a atonia muscular perene, em tudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na cadência langorosa das modinhas, na tendência constante à imobilidade e à quietude'. Todavia, basta um incidente qualquer para que ele se transfigure, adquirindo, subitamente, a característica de um 'titã dominador': 'a cabeça firma-se-lhe, alta, sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte'. Apesar disso, é crédulo, místico, deixando-se levar por superstições absurdas. Sua religião traz em si, caracteres das três raças que o formaram: o branco, o índio e o negro; como ele, sua religião é mestiça.

Após ocupar-se do clima e do sertanejo, o autor se volta para a figura de Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido por todos como Antonio Conselheiro. Este cearense de Quixeramobim, personagem principal do episódio de Canudos, era de família de negociantes com algumas posses. Foi um jovem tímido, sempre às voltas com os negócios do pai. Quando este morre, toma para si a tarefa abnegada de cuidar das três irmãs solteiras. Uma desilusão amorosa parece ser a responsável pela virada que dá na vida. Conta-se que sua mulher o trocou por um policial.

Envergonhado, o infeliz foge da cidade, escondendo-se no sertão.Passa a vagar de vila em vila. De cabelo e barba longos, vive de esmolas, agregando pessoas para junto de si. Como os profetas, passa a carregar um cajado e a usar túnica larga de brim azul, sandálias e chapéu de abas largas. Assim, acaba se tornando 'o evangelizador monstruoso, mas autômato'. Sempre acompanhado de um grande séquito, ajuda os necessitados, repara ou constrói igrejas nos vilarejos carentes; para ele, os adeptos são 'seus irmãos' e estes, por sua vez, chamam-no de 'meu pai'.

Tinha horror às mulheres, vendo na sua beleza a face tentadora de Satã, falava-lhes de costas; agia assim até com as velhas beatas.

O autor passa a descrever o estilo do pregador. Sem muitos gestos, a oratória de Antonio Conselheiro era 'bárbara e arrepiante'; cheia de frases de efeito e citações, muitas vezes desconexas, de conselhos dogmáticos, confusos e de profecias esquisitas. Seus olhos, negros e vivos, tinham um brilho ofuscante que ninguém ousava contemplar. 'A multidão sucumbida abaixava [...] as vistas, fascinada, sob o estranho hipnotismo daquela insânia formidável'.

Tendo como lema: 'bem-aventurados os que sofrem', pregava apenas práticas religiosas tradicionais do sertão: jejuns prolongados, provações, martírios e procissões de penitência, através de longas e extenuantes caminhadas. Mesmo assim, o Conselheiro não era bem visto pela igreja que o considerava louco. Esta já solicitara ao governo do império a internação do beato, em um asilo para doentes mentais, mas como não havia vaga, nada foi feito. O Conselheiro, espécie de grande homem pelo avesso, seguia 'sem tropeços na missão 'pervertedora', avultando na imaginação' e crença popular. Outra característica em destaque é a de que o beato era extremamente conservador e contra o regime republicano. Para ele, a nova república - o anticristo, a ordem de satanás - separara a igreja do Estado, instituindo, entre outras coisas, o casamento civil que lhe tirava a primazia de celebrar casamentos.

Conforme o relato, o primeiro confronto de seus seguidores com a polícia se deu quando incitou os habitantes de um pequeno vilarejo a não pagar impostos instituídos pelo novo regime. Após o choque violento, resultando em mortos de ambos os lados, o Conselheiro, que percorrera o sertão numa romaria ininterrupta de vinte anos, decidiu parar, escolhendo uma fazenda abandonada, onde, longe do governo, pudesse praticar, com seu povo, sua religião. Nascia Canudos, fundada imediatamente por milhares de taperas de pau-a-pique, ao redor da praça central, onde começaram a construir uma grande igreja, faceando uma outra, de tamanho menor, pertencente à antiga fazenda. Com as duas igrejas na praça central, Canudos logo tomou ares de arraial. Com o passar do tempo, a vila, que estava aberta a todos, passou a ter uma população constituída dos mais diversos tipos: do matuto crédulo, vaqueiro iludido ao jagunço errante, forte e destemido.

Todos eram bem vindos, pois neles estava à força do arraial. Essa gente despojava-se de tudo, aceitando, cegamente, o que vinha do beato, senhor e lei naquele deserto. O uso de cachaça, por exemplo, era rigorosamente punido. O estupro, não. 'Não é para admirar que se esboçasse logo, em Canudos, a promiscuidade [...]. Porque o dominador, se não estimulava, tolerava o amor livre'. Para os crentes que ali paravam, Canudos era o cosmos, um ponto de passagem transitório 'na romaria miraculosa para os céus'.

Em Juazeiro, correu um boato que os jagunços do conselheiro iriam atacar a cidade por causa do atraso na entrega da madeira para a igreja nova do arraial. Para tranquilizar a população, que já se pusera em alvoroço, o governador decide enviar a Canudos, em missão punitiva, 104 homens, chefiados pelo tenente Pires Ferreira.

Como Antonio Conselheiro tinha homens - espiões - em todos os lugares, ficaram sabendo da expedição e resolveram preparar-lhe uma cilada, antes de chegar ao arraial. Isso ocorreu no povoado de Uauá, onde os soldados tinham parado.
Disfarçados de penitentes, em uma imensa procissão de flagelados, carregando à frente uma cruz e o estandarte do Divino, os homens do batalhão do beato, armados de paus, facões, foices, pedras e velhas espingardas, foram em cima dos soldados, numa luta corpo-a-corpo feroz. Depois de algumas horas de combate sangrento, os jagunços puseram os soldados para correr, mesmo tendo mais perdas do que o inimigo.

Com o fracasso da primeira expedição, uma segunda foi organizada, desta vez com mais de 500 homens, chefiados pelo major Febrônio de Brito. Antes de seguir caminho para Canudos, ficaram baseados em Monte Santo, durante quinze dias. Conhecida pela via sacra ao topo do monte, o vilarejo, ao sul de Canudos, transformou-se. Para os habitantes, acostumados a receber apenas romeiros em penitência, com o batalhão de Febrônio, a pacata cidade tomou ares de festa.

Como da primeira vez, os aliados do Conselheiro levaram notícias da expedição aos homens do arraial, que resolveram surpreendê-los em emboscada, quando estivessem nos morros próximos de Canudos. Assim fizeram e, em apenas dois dias, venceram a batalha, afugentando os adversários cansados e despreparados para enfrentar o sertão. Essa derrota foi motivo para fantasiarem o real e o beato se torna questão nacional. Dizia-se que, sob disfarce do fanatismo religioso, Canudos representava, na verdade, uma reação monarquista, com adeptos em todo o país e, quiçá, no exterior.

A terceira expedição foi preparada. Desta vez, era mais poderosa, com quatro canhões e 1300 homens, comandados por Moreira César. Esse comandante era famoso pela autoconfiança, coragem e também pelo temperamento impulsivo e instável. Traços que podem ter a ver com sua doença: epilepsia. Durante a campanha, sofre ataque epilético e comete dois erros estratégicos. No primeiro, ignora a caminhada, longa e extenuante, feita pelos soldados, que famintos e sedentos, são obrigados a atacar arraial. No segundo, imprudentemente, ordena estes mesmos soldados a lutarem corpo-a-corpo com os adversários, complicando a movimentação da tropa, perdida na rede de ruas labirínticas do arraial, inviabilizando a ação da artilharia que, se atirasse, poderia ferir os amigos.

A situação dos soldados se complicava gradativamente. De repente, saindo de sua posição e dizendo que daria brio àquela gente, Moreira César rumou, corajosa e inconsequentemente, para linha de fogo na direção do arraial, mas foi logo ferido, morrendo à noite. Na hierarquia, o próximo comandante seria o coronel Pedro Nunes Tamarindo que, desde o começo, discordara da atuação de Moreira César.

Vendo aquela tropa toda desarticulada, deseja fugir, derrotado. Quando um soldado chama-o para assumir sua posição diz: 'é tempo de murici, cada um cuide de si'. Entretanto, mais tarde, é baleado na fuga. Os soldados, por sua vez, largando tudo, até o cadáver de Moreira César, saem em debandada. Os conselheiristas ficam com todo armamento abandonado e decapitam alguns soldados mortos, colocando as cabeças na estrada.

O fracasso dessa expedição e a morte do corajoso Moreira César deram à imprensa motivos para criar histórias sobre os monarquistas e contra a grande ameaça à pátria - o arraial. Esses fatos demandavam outra expedição. De um bom número de estados do Brasil, foram recrutados mais de 5.000 homens. Para chefiá-los, convocaram o general Artur Oscar de Andrade Guimarães. Além disso, as tropas seriam divididas em colunas. Duas ficariam baseadas em Monte Santo, enquanto a outra, comandada pelo general Cláudio Savaget sairia de Aracaju. A primeira trazia consigo um imenso e pesado canhão, apelidado de 'matadeira' pelos sertanejos.

Como as tropas anteriores, a primeira coluna foi surpreendida em uma emboscada no Morro da Favela, atrapalhando-se e logo se desarticulando. O exército disparava para o arraial, enquanto, entrincheirados nos morros, os rebeldes insurgentes revidavam, deixando um saldo de mortos e feridos dos dois lados. A primeira coluna foi salva, graças à chegada de Savaget com seu segundo batalhão. Após um dia exaustivo de luta feroz e sangrenta, ao anoitecer, os soldados largavam as armas, para então ouvir, no silêncio desolador das noites sertanejas, as longínquas e agourentas rezas e cânticos dos inimigos. Os praças passaram um mês entre os jagunços do beato, o desânimo e a fome, morrendo, na maioria das vezes, em busca do que comer. Entre mortos e feridos, aproximadamente 900 estavam fora de combate. Os feridos foram escoltados por 'praças de infantaria até o extremo sul da zona perigosa, Juá'. Sem recursos e combalidos, enfrentavam a longa caminhada sob o sol inclemente da caatinga.

Outra intervenção do governo reuniu 3.000 homens em Monte Santo sob o comando do Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado de Bittencourt. Para ele, cansaço, sede e fome, enfrentados pelos praças no trajeto causticante de Monte Santo a Canudos, foram a causa do fracasso das missões anteriores. A questão não era quantidade de homens e, sim, de mulas para transportar alimento e água para os soldados, entrincheirados próximos do arraial. Na sua opinião, 'mil burros mansos valiam, na emergência, por dez mil heróis'. A partir das primeiras levas de bestas, enviadas por ele ao campo de guerra, as tropas começaram a vencer.

A igreja matriz foi bombardeada e destruída, ocorrendo assim o cerco, os incêndios e a destruição de Canudos, tomada no dia 5 de outubro de 1897, quando seus quatro últimos defensores, resistindo sem se render, morreram diante de milhares de soldados enfurecidos. Destruíram 5.200 casas, 'cuidadosamente contadas', e com elas milhares de pessoas foram mortas. Dentre elas, os jagunços: João Abade, Pajeú, Pedrão, homens de confiança do Conselheiro, e os acólitos religiosos do beato: José Beatinho, Paulo José da Rosa, Timotinho, o sineiro, que caiu junto com a torre da igreja.

Deu-se então o massacre dos prisioneiros, na sua maioria mulheres, velhos, pessoas enfermas, moribundas e crianças. As mulheres não perigosas e as crianças foram poupadas da 'degola', que deveria ocorrer após um viva à República. Mas, sabendo da morte próxima, os prisioneiros davam vivas ao Conselheiro. Este não resistiu a uma grave disenteria, e aos problemas resultantes de um ferimento de granada, falece no dia 22 de setembro.

Segundo o autor, na campanha de Canudos, pairava um dualismo incoerente, em que 'a selvageria impiedosa amparava-se à piedade pelos companheiros mortos'. A campanha não cumpria as leis, vingava-se. A 'degola', punição infinitamente mais prática, segundo a ideologia local, foi feita aleatoriamente, porque contavam com a impunidade. O sertão é o esconderijo. 'Quem lhe rompe as trilhas, ao divisar à beira da estrada a cruz sobre a cova do assassinado, não indaga do crime. Tira o chapéu, e passa'. Canudos, cercado de montanhas, 'era uns parênteses; era um hiato. Era um vácuo. Não existia. Transposto aquele cordão de serras, ninguém mais pecava'.

O cadáver do Conselheiro é exumado e fotografado para que 'o país se convencesse bem de que estava afinal extinto aquele' terrível mal. Num gesto rotineiro, decapitaram-no e enviaram o crânio hediondo a Salvador, para 'que a ciência dissesse a última palavra'.
 

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