Relações Harmônicas Interespecíficas

As relações harmônicas interespecíficas são quatro: mutualismo, protocooperação, comensalismo e inquilinismo.

 MUTUALISMO.

O mutualismo caracteriza-se como uma relação entre dois indivíduos de espécies diferentes que vivem obrigatoriamente juntos, ajudando-se mutuamente.  No mutualismo as duas espécies tiram proveito da relação, de tal forma que, quando separadas, são incapazes de viver individualmente.

 Exemplos.

Liquens – os liquens são associações mutualísticas entre uma alga microscópica e um fungo. Na relação a alga funciona como um organismo autótrofo, capaz de produzir, via fotossíntese, o alimento necessário para nutrir o conjunto alga - fungo.  O fungo na condição de organismo heterótrofo participa da relação fornecendo à alga a água e os sais minerais necessários para sua nutrição e para ocorrência do processo fotossintético.  As algas aparecem entremeadas nos micélios dos fungos, numa perfeita e harmoniosa relação física.  Dada simplicidade da sua forma de vida, os liquens são essencialmente importantes para a ocorrência do processo de sucessão ecológica, onde ocupam a posição de pioneiros, ou seja, os primeiros organismos que participam da ocupação de espaços estéreis (sucessão primária).  Os liquens reproduzem-se por meio de estruturas especiais denominadas sorédios, que armazenam as gonídias, células reprodutivas da alga, e as hifas, células reprodutivas do fungo. 

Cupim e protozoário – os cupins são insetos sociais, ou seja, estão organizados numa grande sociedade que é o cupinzeiro ou termiteiro.  É de domínio popular que o principal alimento dos cupins é a celulose, presente nas madeiras e papéis.  A celulose é um carboidrato da categoria dos polissacarídeos, ou seja, carboidratos de moléculas muito grandes, formada pela associação de cerca de quatro mil moléculas de monossacarídeos, como a glicose (a-glicose) e a celobiose (b- celobiose).  Entretanto, mesmo tendo como alimento a celulose, a exemplo dos grandes mamíferos herbívoros, como o boi, carneiro, etc., os cupins não dispõem da celulase, a enzima necessária para a degradação da celulose em pedaços menores. O cupim possui assim, uma dependência de outro ser capaz de realizar a degradação da celulose por ele.  Este organismo é o Triconympha.  O triconinfa é um protozoário mastigóforo, dotado de múltiplos flagelos, que habita o intestino dos cupins adultos como mutualista.  Ele quebra a celulose, para facilitar a digestão do cupim, tirando, em contrapartida, um “naco” para alimentar-se.  O cupim não nasce com o triconinfa.  Durante a fase larval, os cupins alimentam-se de colegas mortos.  Para facilitar o “berçário” (local onde a fêmea deposita os ovos) fica próximo ao “necrotério” (local onde os soldados recolhem os mortos) tornando-se, portanto o local onde as jovens larvas fazem suas primeiras refeições, aproveitando assim para contrair o Triconinfa. 

Bactéria Rhizobium e Plantas Leguminosae – as bactérias rhizobium são organismos privilegiados se considerarmos o aproveitamento do nitrogênio diretamente de sua fonte principal, a atmosfera.  Além da Rhizobium pouquíssimos organismos conseguem realizar a captação do nitrogênio transformando-o em substâncias nitrogenadas.  As Leguminosas, assim como outros organismos superiores (dentre estes o próprio homem), necessitam de nitrogênio, mas não conseguem captá-lo e transformá-lo a partir da forma atmosférica (N2).  Desta necessidade das leguminosas (que, inclusive, introduzem o nitrogênio na cadeia alimentar para os outros organismos sob a forma de compostos nitrogenados) surge a relação mutualística.  As leguminosas recebem o nitrogênio fixado pelas bactérias.  Em compensação, a planta sintetiza substâncias com grande poder de associação ao oxigênio, de suma importância para as bactérias, visto que estas são anaeróbicas obrigatórias, ou seja, não vivem em presença de oxigênio.  Nos solos pobres em nitrogênio observa-se um grande crescimento de nódulos com as bactérias.  Ao partirmos os nódulos, percebemos uma substância avermelhada, a hemoglobina (a mesma que participa da composição do sangue).  É esta a substância capaz de retirar o oxigênio circulante do meio, evitando a morte das bactérias. 

Micorrizas  - as micorrizas são associações entre um fungo e plantas angiospermas.  Os fungos ficam associados ao córtex da raiz melhorando a absorção de sais minerais e ajudando na decomposição de substâncias orgânicas.  Há benefício para ambos uma vez que os fungos não conseguem sobreviver sem a associação e as plantas ficam com seu desenvolvimento comprometido. 

Animais (insetos, aves e mamíferos) e Plantas Angiospermas – muitas angiospermas dependem essencialmente de animais para realizar processos como a polinização e a dispersão de sementes.  Para isso algumas plantas desenvolveram atributos especiais como: presença de pétalas coloridas ou manchas coloridas nas pétalas; presença de nectários (produzindo o néctar – substância adocicada que serve de alimento para alguns polinizadores); glândulas odoríferas; etc. Todas estas adaptações favorecem a atração dos animais polinizadores.  Chamamos de Entomofilia (insetos), Ornitofilia (pássaros) e Quiropterofilia (morcegos) as formas de polinização através de animais. 

Os animais atuam também na dispersão das sementes.  A evolução das angiospermas, no sentido de produzir frutos com a finalidade de proteger e auxiliar a dispersão das sementes, reproduz a relação mutualística existente entre animais e plantas, uma vez que os animais alimentam-se dos frutos e distribuem as sementes através das fezes.  Chamamos de Zooscoria o processo de disseminação das sementes através de animais. 

PROTOCOOPERAÇÃO

A Protocooperação é uma relação harmônica bastante semelhante ao mutualismo, pois os dois envolvidos beneficiam-se.  A diferença para o mutualismo está na questão da obrigatoriedade.  No mutualismo a relação tem que existir sob pena dos envolvidos não conseguirem sobreviver.  Na protocooperação, a não ocorrência da relação não impedirá a sobrevivência dos envolvidos. 

Exemplos. 

Bernardo-eremita e Anemôna-do-mar - o Bernardo-eremita é um crustáceo do gênero Pagurus cuja principal característica é a de possuir a região abdominal frágil, em razão do exoesqueleto não possuir a mesma resistência do cefalotórax.  Este crustáceo ao atingir a fase adulta (ainda em processo de crescimento, portanto realizando as mudas) procura uma concha de molusco gastrópode (caramujo) abandonada, e instala-se dentro desta.  De certa forma o crustáceo permanece protegido.  Entretanto, alguns predadores, ainda assim conseguem retirar o Pagurus de dentro da concha.  É aí que entra a Anêmona-do-mar, um cnidário.  Como todos os cnidários (ou celenterados), a anêmona-do-mar é dotada de estruturas que liberam substâncias urticantes com a finalidade de defender-se.  A associação beneficia tanto a anêmona quanto o Bernardo: o Bernardo consegue proteção quando uma anêmona se instala sobre sua concha (emprestada), pois nenhum predador chega perto.  Já a anêmona beneficia-se porque seu “cardápio” alimentar melhora bastante quando de “carona” na concha do Bernardo.  A anêmona normalmente faz a captação de seus alimentos (partículas) através de seus inúmeros tentáculos, esperando que estes passem por perto.  Na carona do Bernardo há um significativo aumento no campo de alimentação para a anêmona. 

Crocodilo e Pássaro-palito – Às margens do rio Nilo, na África, os ecólogos perceberam a existência de um singular exemplo de protocooperação entre os perigosos crocodilos e o sublime pássaro-palito.  Durante a sesta os gigantescos crocodilos abrem sua boca permitindo que um pequeno pássaro (o pássaro-palito) fique recolhendo restos alimentares e pequenos vermes dentre suas poderosas e fortes presas.  A relação era tipicamente considerada como um exemplo de comensalismo, pois para alguns apenas o pássaro se beneficiava.  Entretanto, a retirada de vermes parasitas faz do crocodilo um beneficiado na relação, o que passa a caracterizar a protocooperação. 

Boi e anum – É comum a cena nas pastagens: bois pastando e sobre estes, pássaros negros, como se estivessem pastando sobre o boi.  Os bois e vacas são comumente atacados por parasitas externos (ectoparasitas), pequenos artrópodes conhecidos vulgarmente por carrapatos.  E o anum preto (Crotophaga ani) tem como refeição predileta estes pequenos parasitas.  A relação é benéfica para ambos (o boi se livra do parasita e o anum se alimenta).

 COMENSALISMO

É a relação que se caracteriza por trazer benefícios para uma das partes e ser neutra para a outra parte.  Alguns autores generalizam como comensalismo qualquer relação onde ocorra este fenômeno (uma parte é neutra e a outra se beneficia).  Entretanto já é quase uma unanimidade que o comensalismo refira-se apenas às relações que envolvam alimentos.

 Exemplos. 

Tubarão e Peixe Rêmora – O tubarão é reconhecidamente o maior predador dos mares, ou seja, o indivíduo que normalmente ocupa o ápice da cadeia alimentar no talassociclo.  Já o peixe-rêmora é pequeno e incapaz de realizar a façanha do predatismo.  O peixe-rêmora vive então associado ao grande tubarão, preso em seu ventre através de uma ventosa (semelhante a um disco adesivo).  Enquanto o tubarão encontra uma presa, estraçalhando-a e devorando-a, a rêmora aguarda pacientemente, limitando-se a comer apenas o que o grande condríctio não quis.  Após a refeição, o peixe-rêmora busca associar-se novamente a outro tubarão faminto.  Para a rêmora a relação é benéfica, já para o tubarão é totalmente neutra. 

Leão e a Hiena – os leões são grandes felinos e ferozes caçadores típicos das savanas africanas.  Eles vivem em bandos e passam a maior parte do dia dormindo (cerca de 20 horas, segundo alguns etologistas).  Entretanto são caçadores situando-se, a exemplo dos tubarões, no ápice da cadeia alimentar.  As hienas são pequenas canídeas que também se agrupam em bandos, mas que vivem a espreita dos clãs dos leões.  Quando os leões estão caçando, as hienas escondem-se esperando que todo o grupo de felinos se alimente.  As hienas aguardam apenas o momento em que os leões abandonam as carcaças das presas para só assim se alimentarem. 

Urubu e o Homem1 - O urubu ou abutre (nomes vulgares que variam de acordo com a localização, mas que na verdade representam aves com o mesmo estilo de vida) é um comensal do homem.  O homem é o ser da natureza que mais desperdiça alimentos.  Grande parte dos resíduos sólida das grandes cidades é formado por materiais orgânicos que com um tratamento a baixos custos retornariam à natureza de forma mais racional.  O urubu é uma grande ave que se vale exatamente deste desperdício do homem em relação aos restos de alimentos 

INQUILINISMO

O inquilinismo, segundo alguns autores, é considerado um tipo especial de comensalismo (este termo, como explicado anteriormente, refere-se a todas as relações que envolvem um participante que se beneficia e outro que é neutro) onde o objeto central é a proteção e moradia e não o alimento como no caso anterior. 

Exemplos. 

Pepino-do-mar e o Peixe-agulha ou Fieraster – O pepino-do-mar é um equinodermo holoturóide (Classe Holothuroideae) que tem um recurso muito interessante quando está sendo alvo de um predador: ele faz a evisceração, ou seja, para fingir-se de morto junto ao seu predador, o pepino despeja suas vísceras para fora.  O predador abandona-o2, ou se satisfaz com as vísceras, dando tempo para o lento pepino “sair de fininho” abandonando as vísceras regeneráveis.  Neste ínterim, enquanto o pepino permanece sem vísceras o fieraster, que é um peixe muito delgado e pouco resistente à ação de pequenos predadores, esconde-se na sua cavidade abdominal, ocultando-se de seus predadores naturais.  Para o pepino a relação é neutra já que a presença do fieraster não lhe traz prejuízos. 

Epifitismo – O epifitismo é um tipo de inquilinismo, que envolve duas plantas.  Os exemplos mais típicos de epifitismo são os que se referem às orchidaceae e bromeliaceae e as árvores3.  Nas florestas tropicais, onde a vegetação apresenta-se densa e a luz dificilmente atinge a superfície do solo, o epifitismo surge como uma chance de sobrevivência das plantas de pequeno porte que se estabelecem sobre as grandes árvores em busca da essencial luminosidade para os processos fotossintéticos.  As orchidaceae4 caracterizadas pela estonteante beleza de suas flores possuem raízes com atributos especiais que permitem a captação da água e dos sais minerais diretamente do ar.  As raízes do tipo Véu ou Velame funcionam como verdadeiros filtros absorventes, captando umidade. 

OBSERVAÇÕES. 

1. Forésia é denominação das relações de transporte que uma espécie faz com outra, ou seja, quando um animal conduz outro ou uma planta sem tirar proveito ou prejuízos deste transporte. 
Ex.: O carrapicho que é conduzido pela pelagem de um animal, facilitando seu processo de dispersão.

2. Epizoísmo – quando um animal vive na superfície de outro sem prejudicá-lo ou trazer-lhe benefícios. Ex.: as cracas (artrópodes crustáceos) constroem seus esqueletos externos (semelhantes a conchas calcárias) sobre as conchas de ostras ou sobre a superfície ventral de baleias.


1 - Neste exemplo citamos o urubu como comensal, mas se considerarmos o benefício que estas aves trazem para a população humana no sentido de eliminar matéria orgânica em decomposição, meio ideal para o desenvolvimento de fungos, bactérias e outros agentes patogênicos deveríamos enquadrá-lo como exemplo de protocooperação.
2 - A maioria dos predadores não se alimenta da presa já morta.  Por um instinto a presa só é deglutida se for morta na hora.  Na ranicultura, os criadores alimentam as rãs em galpões que permitem fazer com que a ração fique “saltando” para parecer que está viva.
3 - Muitos botânicos no passado imaginavam que as orquídeas e bromélias eram parasitas
4 -Em nossas observações temos notado que, na região dos Cerrados e Caatinga, algumas Cactaceae, especialmente o gênero Ripsalis tem apresentado o comportamento de epífitas. Na mata dos cocais Turneraceae (na zona urbana ou periurbana) e Araceae tem sido encontradas frequentemente como epífitas de Babaçu (Orbignia spp.).

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