O Poço e Outras Histórias
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Resumos Literarios
Por Algosobre  conteudo@algosobre.com.br
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[Mário de Andrade]
Movimento literário: Modernismo 1a. fase
Temos aqui uma coletânea de contos extraída de diferente livros de Mário de Andrade.
Características:
estilo: linguagem coloquial, próxima da oralidade, bilinguismo, utilização de neologismos, aproximação com as estéticas de vanguarda como o Expressionismo e o Surrealismo. Sintaxe pouco ortodoxa, utilização de pontuação livre e captação do fluxo da consciência.
narração:
-Contos em primeira pessoa:
Vestida de Preto: relata o amor adolescente do narrador por sua prima Maria, em que os destaques são o beijo trocado quando crianças e o reencontro que o deixa extasiado ao vê-la vestido de preto, encostada no umbral da porta.
Peru de Natal: narra um natal com a presença de toda a família, à exceção do pai do narrador, falecido. Há uma 'luta' entre a memória e o concreto, representados, respectivamente, pela imagem do pai e pelo peru.
Frederico Paciência: versa sobre uma amizade adolescente entre dois rapazes que se aproxima do amor homossexual.
Tempo da Camisolinha: a partir de fotografias, a recordação do narrador voa no tempo e relembra seu primeiro sofrimento.
-Contos em terceira pessoa:
O Ladrão: conto de captação de atmosfera. Um ladrão indeterminado surge. É perseguido no meio da noite. Não se soube se era e quem era o ladrão, mas o episódio serviu para solidarizar os habitantes de uma rua.
Primeiro de Maio: 35 era carregador de malas na Estação da Luz. No dia 1o. de maio resolveu não trabalhar. Perambulou o dia todo e acabou carregando malas.
Atrás da Catedral de Ruão: conto de captação psicológica, traz as neuroses, ansiedades e aflições sexuais de uma francesa solteirona solitária.
Poço: focaliza as disparidades sociais, opondo o profundo contraste entre o proprietário abastado, e suas exigências mesquinhas, e o trabalhador braçal miserável e explorado.
Nélson: alguns rapazes tentam reconstruir, em uma conversa de bar, a vida de um dos freqüentadores, homem estranho e solitário.
Caso pançudo: este conto apresenta um episódio inusitado, tendo como ambiente o interior paulista, tipicamente caipira, na atitude e na linguagem. Nhô Rezende, dono de terras, tem problemas com um fazendeiro vizinho, conhecido por sua valentia, o Feliupão. Ocorre que, com frequência, uma porca do Felipão invade a propriedade de Nhô Rezende. Este avisa o vizinho para evitar as costumeiras invasões, alertando que tomará uma atitude. Após avistar a porca por mais uma vez, Nhô Rezende espanta o bicho com um tiro. A porca some. Felipão vai ao vizinho tirar satisfações e ambos trocam ameaças. Na sequência, um dos nove filhos de Nhô Rezende desaparece. Após algum tempo, a mulher de Nhô Rezende pergunta: 'Mecê vai lá ', sendo que este lá todos já sabem onde é - a fazenda do Felipão. 'Vou' é a resposta do marido. O diálogo entre os vizinhos é ríspido, cheio de ameaças. Felipão afirma nada saber do menino, ao mesmo tempo em que quer saber da porca. Nhô Rezende retruca dizendo que não tem nada a ver com o sumiço do animal. Felipão admite saber do menino: 'Mecê ache minha porca que eu acho o Martinho'. O caso vai para a polícia. O delegado ameaça, prende Felipão, a mulher de Nhô Rezende implora, mas ele é inflexível: quando achassem a porca, teriam de volta o menino. Já com tanta gente envolvida, toda a propriedade do Felipão é vasculhada: nada de Martinho. A esta altura, todos procuram o menino e a porca. Até que um dos empregados de Nhô Rezende acha o bicho, já quase morto, num lodaçal. O Felipão fica indignado: 'Ocês mataram a minha porca, pois agora é que eu não conto'. A narrativa termina de maneira tenebrosa: a cena sai da teimosia de Felipão e vai para uma gruta, fechada por uma pedra, distante 'duas léguas' da fazenda de Nhô Rezende. Lá dentro adormecido, com uns restos de pão, está Martinho. A última palavra do conto: 'Ratos'.
Túmulo, túmulo, túmulo: O início dá a perspectiva da narrativa: 'Belazarte me contou:' . Ou seja, um suposto narrador em terceira pessoa abre o conto com esta afirmativa e passa a palavra ao Belazarte, que se torna o narrador em primeira pessoa. Após esta primeira fase, é Belazarte quem comanda a história. E a história que vai ser contada tem como justificativa inicial uma característica do protagonista: ele diz que, 'como todo brasileiro' é perdulário. Se ganha algum dinheiro extra, gasta. Assim, como o momento financeiro lhe era favorável, Belazarte resolveu ter um criado. E o criado foi contratado de maneira inusitada: tendo percebido, no percurso do bonde, que o mesmo sujeito tinha ido e voltado na condução, Belazarte aproximou-se, puxou assunto, ofereceu emprego e o sujeito, um 'negrinho' de nome Ellis aceitou. Com o tempo, Ellis, apesar de não apresentar serviço de primeira qualidade, virou empregado de confiança. Criou-se um elo afetivo entre Balazarte e Ellis. O criado só saiu da casa de Balazarte para casar, prometendo aparecer sempre que o patrão precisasse. Belazarte foi padrinho do casamento. Passado alguns meses, Ellis tem dificuldades na nova vida: os empregos são raros, trabalha aqui e ali, como pedreiro, fica doente, com problemas respiratórios. Belazarte ajuda, ora com dinheiro, ora com oferecimento de serviços. Dora, mulher de Ellis, engravida. Nasce um menino, Belazarte é convidado para padrinho e, antes mesmo do batizado, Dora adoece e morre. Quando Ellis comunica o acontecido a Belazarte, este reflete: 'parecia mais incapacidade de sofrer que tristeza verdadeira'. O menino também não sobrevive. Quando morre, Ellis nem pode tratar do enterro, pois já estava bastante doente - tuberculose. Belazarte toma conta de tudo, da própria vida de Ellis, que a esta altura já não mais sai da cama. Algumas semanas após, Ellis também morre, tendo a seu lado Belazarte, por quem chamara nos últimos momentos.
I. ESTUDO DA LINGUAGEM E ESTILO
Mário de Andrade foi um pesquisador da linguagem, um laboratorista da língua. Não lhe bastava escrever textos, sua preocupação era elaborar textos. Para aprontar a obra em questão, Mário de Andrade dedicou muitos anos: como afirmou ele mesmo, de 1927 a 1942!
Ele próprio traçou um plano de trabalho, assinalando os contos que já estavam prontos, os que deveriam ser modificados e até os que não comporiam a obra.
A força expressiva do autor revela-se não só pelo emprego da palavra, que recebe forte carga conotativa, mas também pela pontuação subjetiva, pelo emprego de vocábulos vazios que adquirem novos significados, como se pode ver no emprego de etc no conto O Peru de Natal:
'Morreu meu pai, sentimos muito, etc.'
'Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc.'
Suas personagens são fortemente coloridas e impregnam os contos com forte odor de valores humanos contestados ou vilmente aceitos, dada a impossibilidade de reação diante do inexorável.
O espaço e o tempo das narrativas harmonizam-se como o todo da fábula, conferindo o máximo de verossimilhança e coerência entre a expressão literária e a realidade palpável do receptor.
II. ANÁLISE DAS IDÉIAS
Todo teto, compreendido como certa organização de signos lingüísticos, é portador de uma mensagem.
Cada texto é produto daquilo que o emissor idealizou como objetivo de seu processo de comunicação. O texto sempre tem uma finalidade: dialoga com outros textos, à medida que expressa a cosmovisão do autor, e com o receptor, à medida que lhe fornece novas leituras da realidade concebida pelo emissor.
Um leitor atento e preparado desencrava as idéias que o texto veicula. É nesse ponto que descobre o ponto-de-vista do narrador.
A história, a seqüência de fatos, os episódios funcionam como simples pretexto, veículo para que o escritor transporte sua mensagem. Não é a fábula um fim, mas um meio.
Nos contos narrados em primeira pessoa, o autor faz a personagem principal abrir para o mundo o que lhe marca a alma. Aponta uma cicatriz indelével, deixada não só pela relação erótico-amorosa com a primeira namorada [Vestida de Preto] e pela relação familiar e social com a mãe, o pai, os parentes e os amigos [Tempo da Camisolinha, O Peru de Natal e Frederico Paciência], mas também pela relação com todo um mundo desconhecido e perigoso, que, implacável, vai corroendo a pureza da existência, até torná-la sombria.
III. COMENTÁRIO CRÍTICO E VALORATIVO
Os contos que compõem a obra estudada pelo trabalho artesanal da palavra. Mário de Andrade ocupou muitos anos no afã de elaborar seus textos. Escreveu, reescreveu, suprimiu partes, incluiu outras.
Enfim, o produto resultou uma obra com evidentes marcas de um labor persistente de aperfeiçoamento.
Cada conto é uma jóia, uma obra-prima que transforma o livro impresso numa espécie de 'caixa de surpresas' que o leitor vai descobrindo a cada leitura atenta.
Passo a passo, período a período, o receptor perspicaz vai deparando com efeitos de linguagem surpreendentes.
Um bom exemplo carregado de metáfora é o da caneta-tinteiro de Joaquim Prestes, caída no poço: símbolo de autoridade e supremacia que se enlameia e se desprestigia pôr se tornar inútil. Mas há, ainda, outras canetas e lapiseiras, e uma é de ouro: autoridade e prestígio não se perdem assim. Há reservas!
IV. RESUMO DO ENREDO
VESTIDA DE PRETO
Juca, narrador-personagem de cunho autobiográfico, ama Maria de um amor ingênuo, intemerato, casto. Têm ambos a tenra idade de cinco anos. Para Juca, a maior felicidade é tê-la por perto, nas brincadeiras na casa da Tia Velha, um casarão sem jardim, porém com muitos quartos. Como a família é grande, há muitas crianças peraltas. Tia Velha, para evitar distúrbios em casa, induz as crianças a brincar 'de casinha' - ou de 'família',, como prefere o narrador. Para o garoto Juca nada há de melhor: Maria é a mãe-de-família.
Juca insiste em que não há maldade em suas brincadeiras. Não que ele a desconheça: o amor é que é puro. Nisto, entretanto, há toda uma descoberta prazerosa.
Certa feita, num dos quartos da casa da Tia Velha, Juca e Maria brincam de 'família'.
Há por lá um travesseiro, testemunha muda dos instintos de Juca [e de Maria]. Ela vai brincar de dormir. Pega o travesseiro, deita-se e chama Juca, pois 'já é tarde'.
Ocorre aí o primeiro beijo roubado, depositado na nuca de Maria. A Tia Velha surpreende-os e Juca vê seu sonho despedaçar-se. Maria passa a evitá-lo até a idade adulta. Insulta-o, quando pode, à vista de gente.
Juca torna-se estudante mal resolvido, toma bombas na escola, é mau aluno. Gosta só de Português e Desenho, relaxa no resto.
Repentinamente toma gosto pelo estudo e se dedica a qualquer modalidade de saber, mesmo sem orientação. Quer saber tudo.
Maria, depois de 'namorar Deus e todo mundo', casa-se com um ricaço, diplomata, e parte com ele para a Europa. Juca sente que lá ela se degrada. Maria retorna ao Brasil, já separada do marido diplomata, e Juca vai visitá-la certa ocasião. Vê uma mulher linda, vestida de preto, a sorrir-lhe. Ele lhe dirige apenas um cumprimento e sente como se a imagem dela se dissipasse. O narrador encerra o conto com estas palavras: 'Mas dentro de mim, Maria...bom: acho que vou falar banalidade.'
O LADRÃO
Um bairro proletário inteiro, certa noite, e já passava da meia-noite, põe-se, aos poucos, a perseguir um suposto ladrão, não identificado e nem visto por ninguém: todos atenderam a um simples grito - 'Pega!'
Janelas vão-se abrindo, luzes se acendendo, gente saindo às pressas para caçar o tal ladrão. Há corajosos, valentes, faladores, covardes, moços, velhos, mulheres...
A tônica do texto é a solidariedade que aparentemente não cobra: é o socorro mútuo dos desamparados.
A partir da correria pelas ruas do bairro, vai-se desenvolvendo a peripécia: surgem tipos, revelam-se caracteres. Há falso moralismo e real moralidade. O pretexto da perseguição abre as portas para marcar as relações sociais no bairro.
O grau de solidariedade [no infortúnio] vai-se acentuando. A 'autoridade', representada no guarda fardado e com apito, dissolve-se no caldo das relações sociais. O polícia não é nada além do que mais um na multidão sem rosto.
A liderança é levemente insinuada em tom de disputa interiorizada nos indivíduos.Porém, a solidariedade persiste: todos perseguem o nada.
O conto ressalta a importância feminina no bairro:
'Na janela do cortiço, depois de mandar pra cama o homem que aparecera atrás dela, uma preta satisfeita de gorda assuntava.'
'A italiana de uma das casas operárias defronte vira tudo, nem se resguardava: veio no camisolão, abriu com energia passagem pelos homens, agarrou a menina nos braços, escudando-a com os ombros contra tiros possíveis...'
'A mocetona gesticulava, com o