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O país da delicadeza perdida

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sobre Cultura Por Geraldo Medeiros Jr. Assinar feed do autor
geraldomedeirosjr@uol.com.br

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Vejo com uma turma de estudantes de Ciências Contábeis o documentário Chico Buarque e o país da delicadeza perdida. O vídeo foi lançado em 1990, época do ótimo disco ao vivo de Chico Buarque, gravado em Paris. Na época, exibido pela Rede Manchete, me chamaram a atenção às imagens cruéis de um país violento, com meninos nas ruas, tráfico de drogas, impunidade, exclusão social. Cenas muito fortes, combinadas com uma música boa, que tanto fizeram minha cabeça... Fiquei matutando tudo aquilo por vários dias...

Em 2003, a BMG, gravadora de Chico na época, lançou o documentário em DVD. Lá estavam todas as canções, com algumas extras e um retrato do país na visão de Chico. Para mim, tudo muito atual. A mesma indignação ao rever as imagens, o mesmo prazer ao ouvir as canções.

Ao tratar do período do Milagre Econômico em sala de aula, deixo escapar uma análise sobre o duro período da repressão, da tortura reinante no país de então. Inevitavelmente falo de Chico, das canções censuradas, do exílio, das perseguições, de Zuzu Angel. Convido os alunos para vermos o documentário, de forma a compararmos o país da delicadeza, com o outro atual.

Surpreendo-me. O vídeo não mais empolga. As imagens que para mim chocaram tanto são banalizadas, incorporadas ao cotidiano, não mais o da TV, mas o das ruas, do medo, do caos a que somos obrigados a conviver. Não dizem mais novidades, não chocam, não inovam, parecem datadas. Uma aluna diz ter apenas observado as diferenças de roupas entre uma e outra época. A música também não chama a atenção, refletem críticas de um tempo que já não é mais o nosso. Para o bem e para o mal.

Não me de decepciono, embora fique receoso de ter decepcionado. Aprendo com aqueles jovens muito mais sobre a cotidianização da barbárie, com a crueza do nosso dia a dia. Compra de votos, mesmo que em centenas de milhares de unidades monetárias, não assustam, não trazem indignação... Parecem ser todos iguais, portanto quem corrompe não parece ser o único nem o pior violão. Pode ser até absolvido, pode ser até o mais votado.

Passo a comparar agora três países distintos. O da delicadeza, com bossa nova, poesia, oportunidades, inclusão social. O da perda da delicadeza perdida, com indignação, violência, reação e indefinições. E o atual, de cotidianização da delicadeza perdida, de perda de perspectivas, de incapacidade de se indignar. O país da falta da poesia cotidiana, da ausência da canção. O país de muita esperança, mas de poucas concretizações. O país do futuro do pretérito.

Coincidentemente vimos o documentário um dia depois das eleições para presidente e governador em nosso estado. Acho que saímos todos com a sensação de uma noite frustrante. Para os estudantes, por não terem visto quase nada de novo, alguns até preferindo a aula tradicional. Para mim, por ter constatado que o tempo passou e que me choco ainda com o que não mais remove montanhas, que ainda sonho projetos, já há muito varridos no primeiro projeto de brisa. Não perdi a capacidade de me indignar, coisa que anda tão fora de moda por aqui. Para todos os presentes, pela falta de perspectivas e alternativas, ao olharmos para o futuro da Paraíba e do país, apesar de acabarmos de eleger os nossos novos velhos governantes.

Agradeço a Adam, Daniel, Danilo, Débora, Érika, Flenya, Gislaide, Gláucia, Isabel, Leonia, Meriane, Rozangela, Tallys, Tiago e Willian, pela noite de decepções, descobertas e de nostalgia por um tempo de delicadeza que se torna difícil imaginar que de fato possa ter existido.
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