Triste Fim de Policarpo Quaresma

[Lima Barreto]

1. Enredo:

I Parte

Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, subsecretário do Arsenal de Guerra, residia no bairro de São Januário, na cidade do Rio de Janeiro, há cerca de trinta anos. Muito conhecido entre a vizinhança, principalmente por seus hábitos metódicos e por seu extremado nacionalismo, sentia-se realizado em sua função burocrática no exército, escolhida quando, ao apresentar-se para o serviço militar, fora recusado pela junta de saúde. Sua pontualidade era tal que a vizinhança podia marcar o tempo por seus movimentos diários. E seu nacionalismo era tão extremado que em sua mesa, em sua biblioteca e em seu jardim havia lugar exclusivamente para comidas, livros e flores genuinamente nacionais. Na música só apreciava a modinha, a seu ver a mais autêntica e completa expressão musical da alma brasileira.

Foi devido exatamente às suas preferências musicais que começaram a ser notados sinais de na vida do metódico subsecretário do Arsenal, sinais logo detectados pela vizinhança. Ocorria que, depois de quase trinta anos de estudos e de silencioso devotamento à causa de pátria, Quaresma começara a sentir dentro de si uma força que impelia a colocar em prática suas ideias, a colaborar para que o Brasil se tornasse rapidamente uma nação até mesmo superior à Inglaterra, que na época se encontrava no apogeu de seu poder. A primeira decisão tomada foi a de aprender a tocar violão. Para tanto contratou como seu professor Ricardo Coração dos Outros, famoso violinista e cantador de modinhas, que passou então a frequentar assiduamente a casa, para desgosto de Adelaide, a irmã de Quaresma, que com ele residia, e para surpresa e espanto da vizinhança. Com a colaboração do general Albernaz, um vizinho que tinha cinco filhas para casar, e de Cavalcanti, um dentista, noivo de Ismênia, uma delas Quaresma descobre também um velho poeta popular que lhe fornece dados relativos a cultura do povo. Em seu entusiasmo, porém, o subsecretário não se satisfaz com isso e se dedica ao estudo das manifestações culturais indígenas chegando a assustar Olga, sua afilhada, e o compadre, o rico imigrante italiano Vicente Coleone, ao saudá-los à moda tupinambá quando, certa ocasião, estes vão visitá-lo. E um dia deixa intrigado Ricardo Coração dos Outros ao qualificar a inúbia e o maracá como instrumentos musicais muitos superiores ao violão.

Assim, ninguém de surpreende quando, no dia do há tanto tempo esperado noivado de Ismênia uma notícia se espalha rapidamente Quaresma ficara louco e se encontrava internado. Tudo começara, segundo os presentes à festa, com requerimento que o subsecretário enviara à Câmara de Deputados solicitando a doação do tupi como língua oficial do país. O fato provocara risos, tornara-se o assunto do dia em todos os jornais e atraíra sobre o métodico Quaresma a ira dos colegas de repartição. A situação tornara-se, porém completamente insustentável quando o subsecretário, por distração traduzira para o tupi um requerimento que fora parar no Ministério da Guerra. O incidente gerava sua suspensão - que apenas não se transformara em demissão por intervenção de Vicente Coleoni - e o levara a tomar a decisão de interna-se no hospício, localizado na Praia das Saudades. Ali, Quaresma recebia periodicamente a visita de Ricardo Coração dos Outros, de Vicente Coleone e da filha.

Em uma destas visitas, na companhia do pai. Olga percebe que o padrinho está bem melhor e aproveita a ocasião para informá-lo, sem muito entusiasmo, de que em breve casaria. Ao retornarem à casa de Quaresma, encontram Ricardo Coração dos Outros, em conversa com Adelaide, que lhes dá notícias do desconsolo de Ismênia, cujo noivo viajara há meses e nunca mais mandara notícias.

II Parte

Depois de seis meses de internamento Quaresma deixa o hospício aparentando ter-se recuperado, apesar de demonstrar tristeza e abatimento. Certo dia, Olga, vendo-o assim, pergunta-lhe se comprar um sítio não seria uma boa solução para ele.

Quaresma mostra-se tão entusiasmado com a ideia que a afilhada quase se arrepende de ter falado no assunto. Passando imediatamente à ação, vende sua casa em São Januário, compra o 'Sossego', um sítio localizado no município de Curuzu, a duas horas de trem do Rio de Janeiro e, começa a fazer planos de produzir grandes quantidades de feijão, milho, frutas, verduras, etc. No 'Sossego', em companhia de Adelaide e de Anastácio, um antigo escravo que se esforça para ensiná-lo a capinar.

Quaresma passa o tempo a trabalhar, limpando o pomar e as imediações da residência. Apesar do isolamento do sítio, ali também chega a política e Quaresma recebe um dia a visita do Tenente Antonino Dutra, escrivão da coletoria, que vem pedir-lhe uma ajuda para a festa da padroeira e sondá-lo a respeito de sua posição quanto às lutas políticas do município. Quaresma mostra-se disposto a dar ajuda para a festa mas deixa claro que não pretende envolver-se na política local, o que faz com que o escrivão fique surpreso e insatisfeito.

Enquanto isto, no Rio, em seu quarto de pensão, Ricardo Coração dos Outros reflete, amargurado, sobre o fato de que outro tocador de violão e cantador de modinhas, um negro, passara aos poucos a ocupar seu lugar fazendo com que o povo esquecesse o antigo menestrel. Mas uma carta o anima: o general Albernaz finalmente conseguira marcar o casamento de uma das filhas, Quinota, e o convidava para a festa. Na ocasião, Ricardo Coração dos Outros revive seus dias de glória, o general aproveita para falar das batalhas das quais nunca participara e Ismênia chora ao recordar-se do noivo que nunca mais aparecera.

Uma semana depois Olga também casa, apesar de já estar desiludida do noivo, o doutor Armando Borges, que inicialmente aparentara ser uma personalidade séria e dedicada à ciência mas logo se revelara um carreirista sem muitos escrúpulos.

Quaresma decidira não ir à festa do casamento da afilhada, pois a época da semeadura aproximava-se e ele não queria perder tempo. Contudo, enviara o peru e o leitão tradicionais. Em Curuzu, a chegada de Ricardo Coração dos Outros, que decidira visitar o 'Sossego', movimenta a vila e o cantor vive novo período de glória em meio à sociedade local. Dias depois, Olga e o marido também aparecem no sitio. Certa manhã, Quaresma e todos os demais são tomados de surpresa: O Município, um semanário local ligado ao partido situacionista, publica um editorial atacando violentamente os intrusos, além de uns versos que ironizavam o antigo subsecretário do Arsenal. O espanto aumenta quando Ricardo Coração dos Outros relata o que ouvira, dias antes, na vila: todos acreditam que Quaresma viera ali para fazer política e o escrivão Antonino Dutra jurara desmascará-lo. Quaresma fica impressionado mas a presença dos amigos faz com que aos poucos o episódio seja esquecido. Durante os dias em que permanecem no 'Sossego', Olga se choca, em seus passeios pela região, com a miséria da população e o doutor Armando Borges chega à conclusão de que seria necessário adubar a terra para que ela produzisse, o que é violentamente negado por Quaresma, que em seu nacionalismo exacerbado defende a tese de que as terras do Brasil são as mais férteis do mundo.

Depois de quase um ano lutando contra as ervas daninhas, as formigas, as pestes e toda a sorte de contratempos, Quaresma, finalmente, consegue produzir aipim, abacates, abóboras e outros alimentos. Mas ao vendê-los percebe que seu lucro é quase nulo, já que a ação dos atravessadores faz com que o preço paga ao produtor seja ínfimo e o cobrado do comprador seja alto. Isto o leva a pensar na necessidade de modernizar a agricultura, de comprar implementos e talvez até de usar adubos, como o aconselhara o marido da afilhada. Quaresma se dá conta também de que as condições em que viviam as populações do interior e que tanto haviam chocado Olga eram o resultado de uma política consciente dos grupos que detinham o poder há séculos, os quais não possuíam qualquer interesse em realizar reformas, pois as mesmas só serviriam para atrapalhar e até destruir seus esquemas de dominação política e social. Disso tem pessoalmente a prova quando percebe a rede de intrigas que os grupos políticos de Curuzu armam a seu redor por ter-se mantido equidistante dos mesmos. Na perspectiva destes grupos, ele é um intruso que com suas ideias ameaça a tranquilidade do município, sendo necessário afastá-lo a qualquer custo.

Diante de tudo isto, os olhos do ex-subsecretário do Arsenal se abrem e ele compreende quanto fora ingênuo com suas ideias a respeito da modinha, do folclore e, até mesmo, da agricultura. Os remédios necessários para os males do país eram de natureza bem mais drástica. Era preciso um governo forte, faziam-se necessárias reformas profundas e leis sábias, principalmente no setor agrícola. Então sim a terra daria frutos, a população toda viveria em melhores condições e a Pátria seria feliz.

Quaresma refletia sobre tais assuntos quando Felizardo, um de seus empregados, o informa que não viria trabalhar no dia seguinte, 7 de setembro, não por ser feriado, mas porque decidira fugir para o mato a fim de escapar a um possível recrutamento forçado. Ao ler os jornais, Quaresma, que ficara surpreso com o fato, entendo tudo. A esquadra revoltara-se e exigia que o presidente, o Marechal Floriano Peixoto, deixasse o poder. Os lhos de Quaresma brilham: um governo forte, reformas profundas, leis sábias....Era chegado o momento! Imediatamente vai até o telégrafo e passa uma mensagem:

'Marechal Floriano. Rio. Peço energia. Sigo já. Quaresma.'

Enquanto isto, a cidade do Rio de Janeiro fervia. Em meio à agitação, o general Albernaz não só falava de suas batalhas como pensava em ver aumentado seu soldo, o que lhe possibilitaria casar outra das filhas: o doutor Armando Borges, por sua parte, preparava um novo salto em sua carreira; Vicente Coleoni mantinha-se, prudentemente, afastado da política; Ismênia enlouquecia aos poucos e Olga conformava-se com um casamento infeliz. Só Ricardo Coração dos Outros, desligado das contingências terrenas e satisfeito com mais um período de fama, cantava sua última composição: Os lábios de Carola!

III Parte

Passados alguns dias, que ocupara colocando em dia seus negócios e procurando alguém para fazer companhia a Adelaide, Quaresma viaja ao Rio, contra os conselhos da irmã e sob o olhar assombrado de Anastácio, que parecia prenunciar desgraças.

Chegando à cidade, agitada pela revolta, vai ao Palácio presidencial, carregando um memorial em que expunha as medidas necessárias para reformar e modernizar a estrutura agrária do país. Floriano, que o conhecera nos tempos do Arsenal, o saúda e, um tanto a contragosto, recebe o memorial mas não lhe dá muita importância, chegando a rasgar a primeira folha para escrever um bilhete ao ministro da Guerra. A conselho do marechal, Quaresma passa a integrar o batalhão patriótico 'Cruzeiro do Sul', comandado pelo Major Inocêncio Bustamante, agora tenente-coronel, com quem já se havia encontrado na casa do General Albernaz. Deixando o Palácio, sai em direção à residência de Vicente Coleoni, cruza-se com o general, o qual, interrogado sobre o estado de Ismênia, mostra-se contrafeito, não o informando de que a mesma enlouquecera completamente. Na casa de Coleoni, Quaresma discute a situação do País com Olga e o doutor Armando Borges, ocupado então com seu último truque de carreirista: traduzir seus artigos para uma linguagem difícil, diante da qual seus colegas de profissão e o público ficavam extasiados. Ao entardecer, segundo determinara o Tenente-coronel Bustamante, dirige-se ao quartel provisório em que se instalara o batalhão, na Ponta do Caju, e ali encontra Ricardo Coração dos Outros, recrutado a força e que se recusa a servir. Quaresma intervém a favor do cantor mas Bustamante mostra-se irredutível e o incorpora ao batalhão como cabo, concedendo, porém, que possa ficar com o violão. Agora como major de fato e não apenas por ter tido certa vez seu nome incluído em uma lista de integrantes da Guarda Nacional, o ex-subsecretário do Arsenal passa a comandar a guarnição do quartel provisório do batalhão patriótico 'Cruzeiro do Sul'. Entre seus comandados estão o próprio Ricardo Coração dos Outros e o Tenente Fontes, positivista fanático e noivo de Lalá, a terceira filha do General Albernaz. Responsável pelo canhão da guarnição, o Tenente Fontes mostra-se duro e autocrático, proibindo Ricardo Coração dos Outros de fazer suas serenatas.

Com o tempo, a guerra passa aos poucos a integrar a vida da cidade e do próprio Quaresma, que tem no estudo da artilharia sua nova paixão. Às vezes, contudo, aborrecido da rotina, costumava deixar o posto entregue ao comando do tenente Fontes, quando este ali se encontrava, ou de Polidoro, o imediato, e ri até a cidade. Certo dia, andando até São Januário, visita o General Albernaz, em cuja residência estavam jantando o Almirante Caldas, o Tenente-coronel Bustamante e o Tenente Fontes. Na discussão que então tem lugar, o tenente mostra-se um idealista que pensa no futuro da nação e da sociedade como um todo, ao contrário do almirante e do general. O primeiro, cujo velho sonho era comandar uma esquadra, mostra-se pessimista com o futuro e o segundo tem como preocupação fundamental o problema de Ismênia. Pouco depois de Quaresma retornar ao quartel, ali chega Floriano, que tinha por hábito visitar à noite as guarnições. Na saída, o ex-subsecretário do Arsenal cria coragem e pergunta ao marechal se lera seu memorial. Este responde que sim mas não se mostra muito disposto a discutir as questões nele levantadas, encerrando o diálogo com a frase: 'Você, Quaresma, é um visionário...'

Por esta época já fazia quatro meses que a revolta se iniciara e a situação continuava indefinida. Na Ponta do Caju, Ricardo Coração dos Outros, apesar de promovido a sargento a pedido do Tenente Fontes, entristecia cada vez mais em virtude da proibição de tocar violão. Quaresma, por sua vez, recordava com desânimo a forma como fora tratado por Floriano, em quem depositara a esperança de que viesse a ser o grande líder capaz de reformar e reorganizar o país. E na casa do General Albernaz, Ismênia definhava a olhos vistos, apesar de terem sido tentados todos os recursos para salvá-la, inclusive médium e feiticeiros. Informando desta situação, Quaresma solicita ao doutor Armanda Borges que a trate. Mesmo não se mostrando muito entusiasmo, o médico acede ao pedido. Seus esforços, contudo, também nada resolvem e certo dia Ismênia, depois de manifestar à mãe seu desejo de ser enterrada vestida de noiva, põe o vestido há tanto tempo guardado, o véu e a grinalda e cai sobre a cama, morta.

Enquanto isto, em Curuzu, o 'Sossego' regredia rapidamente. Anastácio continuava trabalhando mas de forma totalmente desordenada e assim o sítio voltara aos poucos ao abandono em que se encontrava antes da chegada de Quaresma. Na vila, os partidos adversários haviam feito as pazes por algum tempo diante da situação criada com o surgimento de um terceiro candidato, imposto pelo governo. O desfile dos que iam votar na secção eleitoral localizada quase diante do 'Sossego' servira pelo menos para distrair um pouco Adelaide. Esta, que não tinha qualquer gosto pela roça e, inclusive, passara a comprar na venda os alimentos de que necessitava, vivia desolada, apesar da companhia de Sinhá Chica, a mulher de Felizardo, o qual continuava escondido no mato. Temendo o recrutamento forçado. Nas cartas que escrevia ao irmão,

Adelaide pedia que retornasse o quanto antes, mostrando-se inconsolável pela situação. Nas respostas, Quaresma lhe pedia calma. A última destas, porém, fora diferente. O irmão contava que participara de uma batalha feroz, tendo chegado a matar inimigos, e revelava-se desesperado tanto por seu próprio destino quanto pela natureza humana. E acrescentava que fora ferido, tendo acontecido o mesmo com Ricardo Coração dos outros.

Apesar do ferimento não ser grave, a convalescença de Quaresma foi longa, tendo a mesma servido para que ele meditasse sobre sua vida e suas desilusões. O período da inatividade chegou ao fim mais ou menos ao mesmo tempo que a revolta. As forças leais a Floriano dominaram a baía da Guanabara, os oficiais revoltosos refugiaram-se em navios portugueses e os marinheiros foram presos. Por esta época, Quaresma e Ricardo Coração dos Outros recebem alta. Este vai para a ilha das Cobras e o major é destacado para comandar a guarnição da ilha das Enxadas, assumindo a contragosto o papel de carcereiro, pois ali encontravam detidos os marinheiros abandonados por seus oficiais. Sozinho, sem ninguém para conversar, Quaresma fica profundamente deprimido ao refletir sobre o inesperado e melancólico final de uma aventura que o levara a ser o carcereiro de pobres seres humanos que estavam à mercê dos vencedores pelo crime de terem obedecido a seus superiores, que os haviam deixado à própria sorte. E certo dia, ao assistir a uma cena em que alguns dos prisioneiro eram escolhidos ao acaso e retirados da ilha para serem fuzilados, não resiste e escreve uma carta protestando violentamente contra o ato. Imediatamente é preso como traidor e levado para a ilha das Cobras para ser executado. Ali, diante da morte, mais uma vez medita sobre a inutilidade de sua vida, sobre o desastre q que o havia levado a causa republicana, sobre a própria ingenuidade ao acreditar no idealismo de homens que buscavam antes de tudo vantagens para si próprios e não a transformação e a felicidade da Pátria. Pátria, aliás, que lhe parecia agora não ser mais que um mito, um fantasma que criara no silêncio de seu gabinete. Sem amores, sem filhos, abandonado por todos, diante do vazio de sua vida e da morte próxima, Quaresma chora.

Quaresma enganara-se, porém, pelo menos no que dizia respeito a Olga e Ricardo Coração dos Outros. Este, tão logo soubera da detenção, fazia tudo para conseguir a libertação, mesmo ciente de que corria grandes riscos, pois fora informado que a carta de Quaresma provocara grande indignação no Palácio presidencial, onde o massacre dos prisioneiros era visto como uma necessidade destinada a servir de exemplo e, assim, a fortalecer o regime. Contudo, seus esforços de nada resolvem.

Nem o General Albernaz, nem seu genro Genelício, nem o tenente-coronel Bustamante aceitam interceder em favor de Quaresma. Sem saber o que fazer, Ricardo Coração dos Outros vai a casa de Olga. Esta mostra-se desorientada, pois também não tinha noção do que fazer. Em determinado momento, porém, o menestrel a lembra que ela própria poderia ir ao Palácio. Surpreendendo-se inicialmente com a ideia, decide enfrentar a situação. Ao saber disto, temeroso das consequências deste ato para suas ambições de carreirista, o doutor Armando Borges fica furioso e quer impedi-la de fazer o que pretende. Olga, porém, não o atende e sai da residência determinada a falar com o presidente. No palácio, um ajudante de ordens de Floriano, depois de qualificar Quaresma de traidor e bandido, a informa de que não será recebida.

Olga não insiste e retira-se orgulhosamente, chegando à conclusão de que talvez fosse mais coerente deixar o padrinho morrer só e heroicamente do que humilhá-lo com um pedido de clemência que diminuiria sua grandeza moral diante de seus verdugos. Olhando a cidade e pensando nas profundas modificações que tudo sofrera ao longo de quatro séculos, consola-se pensando que o futuro trará mudanças. E nutrindo esta frágil esperança segue ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.

2. Personagens

Policarpo Quaresma

A história de Policarpo Quaresma, como personagem central da obra, é a história de um erro. E este erro é, fundamentalmente, a incapacidade do protagonista em detectar as estruturas de poder. Na verdade, ele percebe as consequências destas estruturas mas não chega a descobrir como as mesmas funcionam. Seu nacionalismo, seu desejo de transformar a agricultura e seu projeto de reorganizar o próprio país partem de uma adequada análise da realidade mas não levam em conta os mecanismos geradores desta realidade.

Assim, Quaresma aparece como frágil e solitário porque sua confiança nas instituições políticas não é mais do que um equívoco, pois se baseia no falso pressuposto de que os homens que as representam possuam um idealismo que vá além de seus próprios interesses imediatistas. Floriano, encarnando o próprio poder, o define com frieza e completa propriedade: 'Você, Quaresma, é um visionário...' Um visionário não porque seja louco ou porque seus projetos sejam absurdos em si, mas porque o são por não se adequarem e até serem contrários aos interesses dos grupos que detêm o poder.

Ao final, como ao longo de toda a obra, Quaresma, mais uma vez, percebe, os fatos com realismo mas não entende por que sua aventura termina em tragédia. Este conflito é a própria essência do personagem. Se ele entendesse as leis que regem o mundo permaneceria à margem dos acontecimentos - como o imigrante Coleoni - ou a eles se amoldaria, deles se aproveitando. Mas neste caso não seria Policarpo Quaresma nem personagem de Lima Barreto. Pertenceria antes à galeria do discretos canalhas que povoam a ficção de Machado de Assis, por exemplo.

Ricardo Coração dos Outros

Ricardo Coração dos Outros, o trovador suburbano, é, no conjunto da obra, um personagem complexo, possuindo uma importância somente inferior à de Policarpo Quaresma e podendo ser analisado a partir de, pelo menos, três pontos de vista bastante distintos, se bem que não exclusivamente entre si.

Como personificação do artista nacional na visão de Policarpo Quaresma, Ricardo Coração dos Outros representa a cultura popular, isto é, as formas de expressão dos grupos sociais inferiores, já que os grupos dirigentes, por definição e sempre na visão de Policarpo Quaresma, possuem formas de expressão artísticas alienígenas, não nacionais. Como tal, desconsiderada momentaneamente a idealização de que é objeto por parte do nacionalismo do protagonista, ele pode ser considerado como símbolo da rígida estratificação cultural - produto da estratificação econômica e social - da sociedade brasileira.

Por outro lado, em termos estritamente sociais, Ricardo Coração dos Outros tipifica amplos segmentos da sociedade carioca da época: os moradores dos subúrbios, segundo diz o narrador/comentarista, também divididos, por sua vez, em estratos. No contexto desta sociedade, o trovador suburbano utiliza sua habilidade de músico como instrumento de ascensão social, deixando claros tanto sua pretensão de alcançar com sua arte também os bairros ricos quanto um mal disfarçado racismo.

Finalmente, Ricardo Coração dos Outros pode ser tomado ainda como protótipo do artista, mergulhado em seu trabalho criador, afastado das contingências mundanas e das preocupações práticas e dedicado a ser o coração dos outros, isto é, o porta-voz dos sentimentos e emoções dos demais.

Olga

Na ficção brasileira Olga surge como primeiro personagem feminino a dissecar logicamente e a verbalizar claramente sua posição no mundo a partir de uma perspectiva crítica coerente. Esta análise não chega a adquirir grande profundidade mas é suficientemente ampla para englobar tanto sua função social especifica como mulher quanto a própria realidade política.

No primeiro caso, rebela-se contra o oportunismo do marido, preocupado exclusivamente com sua própria carreira. No segundo, a partir da crise desencadeada pelo trágico destino do padrinho, revolta-se contra as instituições, que determinam o caminho dos indivíduos dentro delas. E é somente ao juntar os dois planos, o pessoal e o social, que Olga, abandonando o conformismo a que se entregara por entender que não havia alternativas para ela, manifesta corajosamente sua rebeldia. Contudo, também realista como o marido, apenas que com interesses diversos, não tira todas as consequências de sua atitude e entrega ao processo histórico-social o papel de desencadeador das necessárias e inevitáveis mudanças. Na verdade, apesar de pertencer a uma geração de mulheres que começam a não aceitar mais um papel submisso e secundário - como o de Maricota, a esposa de Albernaz, ou de Adelaide - é preciso acentuar que Olga, como filha de um abastado imigrante, tem todas as condições econômicas e sociais para comandar seu próprio destino e de fugir ao trágico final de Ismênia.

Floriano

Apesar de aparecer apenas incidentalmente, o personagem do marechal e presidente Floriano Peixoto adquire importância não apenas por ser transportado do mundo real da história para a ficção mas principalmente por representar o poder. Alvo de violentas críticas nas intervenções do autor/narrador, que nestas ocasiões o identifica como o próprio Floriano do mundo real da história e não como personagem de ficção, o marechal é visto como um feroz tiranete doméstico, intelectualmente limitado e politicamente despreparado.

Esta imagem, contudo, contradiz sua ação como personagem de ficção em si, pois nesta condição mostra compreender muito bem o poder que possui, os atos que pratica e o papel que desempenha. Afinal, é ele que, ao tomar conhecimento dos projetos do major, o define com uma precisão inapelável: 'Você, Quaresma, é um visionário...' Da mesma forma que é ele que o condena, segundo a fria e brutal lógica do poder, de acordo com a qual não havia outra saída. Porque, de fato, Quaresma nada entendera.

3. Estrutura narrativa

Composto de três partes, cada uma dividida em cinco capítulos, Triste fim de Policarpo Quaresma narra a história do Major quaresma, um nacionalista bem intencionado mas ingênuo que pretende reformar o país, principalmente o setor agrícola. Ao longo da narração, organizada segundo o esquema de um narrador onisciente em terceira pessoa, este às vezes assume a posição de autor/comentarista, apontando e selecionando ideias e fato relevantes, principalmente quando se trata de fornecer elementos que possibilitem ema análise política do período histórico no contexto do qual se desenrola a história do protagonista. A ação tem por palco o Rio de Janeiro e suas imediações nos anos imediatamente seguintes à proclamação da República, mais especificamente durante o governo do mal. Floriano Peixoto, que aparece na obra como personagem.

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