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Portugal

"Que o mar com fim será grego ou romano. O mar sem fim é português." - Fernando Pessoa - Mensagem, 1928

Numa ode patriótica composta entre os anos 20 e 30, de demorada elaboração, intitulado " Mensagem", o poeta Fernando Pessoa imaginou a Europa como um corpo de mulher. Estendida, tinha ela um dos seus cotovelos, o direito, fincado na Inglaterra e o outro, o esquerdo, recuado, na Península italiana, cabendo a Portugal ser o rosto nesta hipotética figuração. Pode não ter sido o rosto, mas a posição geográfica de Portugal, pequena faixa de terra voltada para a imensidão do Oceano à sua frente, condicionou seu destino por quase cinco séculos. Afinal, pergunta-se, para onde mais poderiam ir os portugueses senão para frente, para o que os árabes sempre chamaram de "mar tenebroso"? Na sua retaguarda encontravam o castelhano, sempre disposto a engoli-los. Mais ao sul, outros rivais, os mouros a quem haviam expulsado das terras lusas na época da pequena reconquista e com quem, deste então, mantinham uma interminável rixa, um odium theologicum, resultado de terem eles símbolos divergentes - a Cruz contra o Crescente.

Nada mais lhes restou aos seus marinheiros, aos seus navegantes, do que reprimir os seus medos e seus terrores sobre "o monstrengo que está no fim do mar" e enfrentar o incomensurável oceano aberto que se estendia infinito e misterioso a sua frente, a seguir por caminhos que ninguém ousara, a encontrar roteiros que ninguém havia encontrado, a ir atrás das Ilhas-Afortunadas, a buscar o paraíso em algum outro lugar.

As navegações

"As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares dantes nunca navegados
Passaram ainda além da Trapobana
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana
E entre remota gente edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram;"
Camões - Os Lusíadas, Canto I, 1572

Primeiros contatos entre portugueses e índios

Os primeiros 50 ou 60 anos do século 15, a expansão lusitana pelos mares oscilou entre duas tendências. Uma delas era capitaneada pela corrente guerreira - a "Cruzada" -, interessada em combater os muçulmanos do Magreb, na Argélia e no Marrocos, assaltando-lhes as cidades costeiras - como ocorreu com a conquista de Ceuta em 1415 e no desastrado ataque a Tânger em 1437.

"A destruir o povo Sarraceno", disse Camões "muitos com tenção santa eram partidos." O Infante D. Henrique, morto em 1460, sonhava, por exemplo, em encontrar Preste João, a lendária figura do imperador cristão que vivia no coração da África - na Etiópia, mais precisamente - para aliá-lo num ataque conjunto contra os mouros.

Esta política de conquista e de choque de espadas correspondia aos anseios belicosos da nobreza portuguesa, estimulada pelas fantasias literárias do cavaleiro andante, vendo na ocupação dos territórios uma ampliação da esfera de influência da cristandade e uma possibilidade de cobrar tributos e praticar saques e envolver-se em feitos para "ensopar as esporas em sangue mouro". Como disse Friederici sobre essas operações militares: "Rapina e ganância - e não o espírito das Cruzadas - deram o primeiro impulso ao movimento ultramarino dos portugueses e continuaram a dominá-lo".

Ao mesmo tempo, paralelamente, crescia a corrente comercial pacífica, apoiada pela burguesia, sendo a expressão dos seus impulsos mercantis que apenas pretendiam uma "política de alargamento marítimo e comercial". Não lhes interessava a conquista de territórios mas sim a instalação de feitorias(*), especialmente nas costas africanas, com quem pudessem traficar com marfim, ouro e escravos, dando em troca. panos e trigo. Diogo Gomes aponta as datas de 1445-6 como o momento em que a política pacífica conseguiu sobrepujar o espírito de cruzada. Mesmo assim ela não foi absoluta, pois ainda em 1448 o Infante D. Henrique e o rei, se entusiasmavam por conquistar o Marrocos.

Como assegurou Vitorino Magalhães Godinho, "Não existe ...um diretriz única de expansão. Na convergência da expansão comercial da burguesia e de expansão guerreira para a nobreza reside plausivelmente a causa dos descobrimentos e das conquistas"

Neste período a área de interesse lusitano abarcava o nordeste do litoral africano e o conjunto de arquipélagos formados pelas ilhas Canárias, do Cabo Verde, Açores e Madeira.

Vistas de hoje, aqueles pequenos arquipélagos no Atlântico, serviram de laboratório para as futuras colonizações e como trampolim de onde as expedições navais saltavam para o desbravamento da costa africana meridional, até Vasco da Gama chegar a Índia em 1498 e, em seguida, para Pedro Álvares Cabral atravessar o Atlântico Sul em direção ao Brasil em 1500, compondo ambas as viagens um dos maiores feitos das navegações em todos os tempos.

(*) a feitoria era um posto comercial fortificado, que dispunha de uma guarnição sob comando de um fidalgo. Quem a administrava era um feitor que fazia os contatos com os sobras, os chefes africanos, ou os comerciantes da região. Dispunham de armazém que serviam como depósitos de mercadorias.
O Infante
Em seu trono entre os brilhos das esferas Com seu manto de noite e solidão Tem aos pés o mar novo e as mortas eras - Um único imperador que tem, deveras, O globo mundo em sua mão. Fernando Pessoa - "Mensagem",

Atribui-se comumente ao Infante D. Henrique (1394-1460), filho de D. João I, ser o grande cérebro - a "cabeça do grifo" na imagem que Fernando Pessoa fez dele - que durante mais de 40 anos estimulou a política marítima do reino de Portugal. Apologistas como os cronistas Azurara e Diogo Gomes indicam-no o principal responsável pelas "conhecenças do mar" que ajudou a acumular, apontando-o como o dínamo dos descobrimentos. Não só isso, retirado, desde 1443, para o Promontório de Sagres, no Algarve, ao sul de Portugal, ele teria patrocinado uma escola de navegantes, a Academia de Sagres na Tercena-nabal. Lá, bem longe da Corte, na Vila do Infante, ele acolhera marinheiros e outros "sabedores do mar", bem como grandes cartógrafos e geógrafos de todas as procedências e nações, que auxiliaram com seu conhecimento a expansão de Portugal nos séculos 15 e 16. Entre eles Jaime de Maiorca (Jehuda Cresques), filho do judeu Cresques, de Maiorca, o que elaborara o célebre Atlas Catalão de 1375. O Infante foi um comissário informal da Cristandade Ocidental para abrir caminho para desbravar a África e a Índia.

A política do segredo: no entanto as comprovações disso são escassas. Bem pouco material documental assegura a existência da escola. A maioria das referências são indiretas. O historiador Jaime Cortesão creditou ser natural esta ausência de provas (*). Era proposital. O Infante, e todos depois dele, temia que seus mapas e pesquisas pudessem cair em mãos inimigas, receando a "espionagem naval" financiada por outras potências marítimas. Portugal inteiro, não apenas seus governantes, adotou, desde cedo, a política do segredo. Isto explica também as pouquíssimas narrativas das descobertas feitas por cronistas lusos, como registrou Sérgio Buarque de Holanda no seu clássico "Visões do Paraíso".

O que de concreto se sabe é que o Infante, como grão-senhor da poderosa Ordem de Cristo (**), recebeu em 8 de janeiro de 1454, do papa Nicolau V, o monopólio da exploração comercial das atividades praticadas na costa africana até a Índia. Isto tornou-o, objetivamente, um grande interessado em estimular o desbravamento dos mares. Daí denominar-se as primeiras décadas do século 15 como a era dos descobrimentos Henriquinos.

Vitorino Magalhães Godinho (A economia dos descobrimento Henriquinos, Lisboa, 1962) alinha os seguintes tópicos sobre os interesses do Infante:
· A curiosidade geográfica que o movia, sendo esta no entanto pré-científica
· O espírito de guerra contra os infiéis, afinal ele era o supremo da Ordem de Cristo cuja missão era dar combate ao Islã.
· Anseio de converter as almas e de catequizar os gentios
· Preocupação comercial pelo ouro e demais mercadorias ( escravos, açúcar)
· Ambição de honra e o engrandecimento da sua casa senhorial, a dinastia dos Avis


(*) Revista Lusitânia, nov. de 1924
(**) A Ordem de Cristo era uma versão lusa da Ordem dos Templários que ao invés de se indispor com a monarquia como ocorreu com os templário franceses com Felipe o belo, foi por ela instrumentada e mobilizada para a conquista dos mares.

Os caminhos do Atlântico

IlustraçãoOs oceanos e mares são corpos vivos formados por extensões colossais de água em perpétuo movimento, escarpelados e agitados, embalados por tumultos submarinos e de superfície, tufões, correntes, vendavais, ventanias e ventos de todas as espécies. No entanto, em meio aquela gigantesca vastidão foi possível descobrir, como observou Jaime Cortesão - graças a posição geográfica de alguns grupos de ilhas, "interpostos como lugares de passagem ou estações intermediárias" - caminhos e até atalhos possíveis de serem tomados por marinheiros experientes. Colombo, por exemplo, desenvolvera uma intuição notável, faro podemos dizer, para captar a direção dos alísios, como percebia antes de todos o sentido das oscilações marinhas. Olhado a frio, o oceano é uma esfinge. Não existe para o leigo nenhum indicação, nada que seja visível da rota a ser seguida. É somente a experiência, afinada por uma prática de anos e anos de vida no mar e por uma acurada leitura da escrita estrelar, somada à destreza no uso dos instrumentos de navegação, tais como a bússola e o astrolábio, que permite identificá-la.

Caravelas e pilotos: os portugueses que enfrentavam o Mar Oceano desde o século 14 (a primeira viagem oficial oceano a dentro registrou-se em 1341, feita pelo genovês Manoel Pessanha [Pezagno] a mando do rei luso, rumo às Ilhas Canárias), tiveram a sua disposição uma maravilha da engenharia náutica que foi a caravela, "gigante dos mares que irão permitir as grandes navegações atlânticas", segundo Jean Favier.

Esta parece ter resultado da evolução do árabe, o barco de vela latina com o qual os mouros assolavam os portos atlânticos europeus, partindo de Lisboa na época em que dominavam o litoral português. Ela aprimorou-se com a técnica de calafetação à carvel, desde o século XIII aperfeiçoada pelos carpinteiros portugueses nos estaleiros da Ribeira das Naus erguidos no Rio Tejo, foi fundamental para a conquista do "mar tenebroso". Os principais pilotos lusos, como Gil Eanes, Diogo Cão, Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, e tantos outros mais, tornaram-se célebres em enfrentar os desafios das ondas, das marés, das tempestades e dos ventos, fazendo-os os melhores do mundo nos dois primeiros séculos das navegações transoceânicas.

As rotas: o Oceano Atlântico, cuja extensão é de 82.439.700 km2, possui quatro grandes caminhos ou rotas, que aproximam o Continente Europeu do Novo Mundo. A primeira delas, a chamada "rota dos vikings" fica bem ao norte. Saindo das costas da Noruega ou do Mar do Norte, passa pela Islândia, Groenlândia e chega até o Labrador no Canadá. Na volta saindo-se da Terra Nova, aproveitando a corrente do Golfo, chega-se à Irlanda ou à Inglaterra.

Mais abaixo, ao centro, encontra-se a "rota de Colombo" que, desancorando-se dos portos ibéricos - tanto o de Sevilha como o de Lisboa - passando pelo arquipélago das Canárias e, depois de longa e solitária travessia, contornando o Mar dos Sargaços, permite que se atinja as Antilhas e , navegando mais ao sul, a embocadura do Rio Orinoco na Venezuela. O retorno fazia-se mais acima, chegando-se à Europa pelos Açores.

A que liberalmente podemos chamar de "rota do Brasil", tem seu impulso dado pela corrente equatorial do Sul que sai do litoral africano, da região do Golfo da Guiné, e, apoiando-se nas Ilhas do Cabo Verde, alcança a Bahia, para dali, pela corrente do Brasil, atinge o Rio de Janeiro bem mais abaixo. Foi essa a rota comumente a usada pelos navegantes lusos para chegarem-se ao litoral brasileiro. E, por fim, há a "rota afro-sul-americana" que sai da África do Sul às partes meridionais da América do Sul, alcançando o estuário do Rio da Prata na costa Argentina. Cada uma delas apresenta suas peculiaridades, um conjunto de ventos e correntes marítimas que as caracterizam e requerem "conhecenças" náuticas específicas para evitar-se o extravio no alto mar.

O Descobridor

Por se levantar a gloria/ das linhagens mui honradas
Que por obras mui louvadas de si deixaram memória
A quem lhe siga as pegadas/ Suas armas decifrando,
Algum irei lembrando/ donde a nobreza lhe vem
Por que faça quem a tem pola suster , bem obrando

De púrpura celestial sobre prata mil luzente,
a geração mui valente que delas se diz Cabral....
(João Roiz de Sá, algumas linhagens de Portugal)

Pedro Álvares Cabral

Pedro Álvares Cabral, de quem não se sabe muito, era de família nobre, da "melhor casta" como diziam então. O sobrenome adequava-se ao brasão da casa - duas cabras de prata num fundo avermelhado. Nascido no castelo de Belomonte, provavelmente em 1467 ou 8, desde pequeno intimou-se com as coisas guerreiras e os atributos do mar. Entrou bem jovem na corte de João II, como moço fidalgo, onde estudou cosmografia e artes navais, convivendo com as gentes dos oceanos que a frequentavam. Casou com D. Isabel de Castro, uma mulher rica de poderosa família, o que fez com que aumentasse seu gosto faustoso "de grandezas, possuidor de grande estado". D.Manuel nomeou-o fidalgo do conselho e depois capitão-mor da expedição para as Índias.

Provavelmente os seus modos imponentes, ajudados pela "desmedida estatura" herdada do pai Fernão Cabral, e seu aprumo no vestir, contribuíram para a sua escolha. El-Rei esperava impressionar os príncipes do Oriente com a figura soberba de Cabral. O gosto dele pelo formalismo e pelos aparatos do poder é que explicam ter ele recebido dois assustados índios na nau capitânia, ancorada no litoral brasileiro, com um colar de ouro ao pescoço, sentado majestosamente numa cadeira-trono do seu camarote, com os oficiais agachados ao seu redor, sobre um fino tapete.

Quem também o recomendou ao rei, enaltecendo-o, foi o ilustre Afonso de Albuquerque, que dele disse: "é homem que eu sei certo que terá vossa alteza contentamento de sua pessoa e de todas as coisas honradas que nele há para algumas necessidades de vosso serviço que lhe encarregardes...e que em todos os feitos em que ele puser as mãos, que vós há de merecer mercê.."( in Cartas de Afonso de Albuquerque)

A Viagem

Num domingo, dia 8 de março de 1500, Lisboa estava em festa. A Armada comandada por Pedro Alvares Cabral, desferrava-se, partiria para as Índias. Ancorada no Restelo, depois chamado de Belém, nas margens do Rio Tejo, zarpava em busca das almejadas especiarias de Calicute e de outros logradouros orientais. Compunha-se de 13 barcos, com 1200 a 1500 soldados, dotados de bom armamento e de poderosa artilharia.

As informações sobre a trajetória a seguir vinham da viagem anterior, capitaneada por Vasco da Gama, retornado à Portugal oito meses antes, com os porões carregados de pimenta, canela, gengibre, tecidos finos e outras excentricidades orientais que tanta procura tinham entre os europeus. Em verdade, tratava-se de uma expedição militar-comercial, pois as relações de troca com o Oriente envolviam medidas coercitivas e, seguidamente, violentas como os acontecimentos sofridos pela feitoria portuguesa em Calicute revelaram.

A cruzada econômica: depois de oficiada a missa, El-Rei D. Manuel, o Venturoso, entregou a Cabral a bandeira da Ordem de Cristo e um barrete benzido pelo papa especialmente para a ocasião. Além de desbravar outros caminhos, os lusos, como a maioria dos cristãos medievais, consideravam-se em guerra permanente contra o Islã. A expedição às Índias era, de certa forma, uma cruzada, uma cruzada de outro tipo, uma cruzada econômica. Pensavam, ao circunavegarem a África, atingir os mercados orientais e assim enfraquecer a economia dos infiéis, pois os portos do Levante controlados por eles atuavam como intermediários, quase que monopolistas, do valiosíssimo comércio das especiarias. Estabelecida uma rota oceânica certa e confiável para as Índias, os portugueses afastariam a mão do mouro daqueles negócios.

O cavaleiro-mercantil: disse ter sido Pedro Alvares Cabral um cavaleiro-mercantil, afeito à era da Revolução Comercial que se avizinhava, que sabia combinar a busca pelos feitos de honra com as afeições aos dinheiros e aos ganhos. Não mais um cruzado, de elmo, lança e escudo, marchando para libertar o Santo Sepulcro, mas um capitão-do-comércio, emproando uma nau com canhões, atrás de lucros, debilitando o Crescente, inimigo da Cruz, atacando-o pela retaguarda. Outros tempos, outras armas. O palco da luta não seria mais só a costa norte do Mediterrâneo, o litoral do Marrocos, a Argélia, o Egito e a Palestina, mas as águas quentes do Oriente, os portos da terra dos marajás.

Gente ilustre: além do comandante-mór Pedro Alvares Cabral, fidalguíssimo, estavam a bordo Bartolomeu Dias que primeiro cruzara o cabo da Boa Esperança no sul da África, o "Capitão do Fim" como o chamou Fernando Pessoa; Nicolau Coelho que acompanhara a expedição de Vasco da Gama à Índia dois anos antes; Duarte Pacheco, descobridor de terras na África e na América, e o franciscano D. Henrique, futuro inquisidor, que trazia consigo mais sete outros frades e seria quem oficiaria a 1ª Missa no Brasil. O substituo oficial de Cabral, seu vice-comandante, era um fidalgo espanhol, refugiado na corte de D.Manoel, chamado Sancho de Tovar.

O mar longo: a viagem de Cabral, segundo os registros, foi sem grandes sobressaltos. Perdeu-se apenas uma embarcação. No dia 14 de março a esquadra passou pela Grã- Canária e, no dia 22, pelas ilhas do Cabo Verde. Dali rumou para o oeste, enfrentando o "mar longo", navegando nele por um mês. Após percorrer 660 léguas, uns 3600 quilômetros, "topamos alguns sinais de terra, sendo da dita ilha", registrou o escrivão Caminha, viram abundantes plantas e algas, "que os mareantes chamam botelho" vindas da costa brasileira.

Era uma quarta-feira, 22 de abril de 1500, quando batizaram de Monte Pascoal a primeira elevação que avistaram do mar, por ser o oitavo dia da Páscoa cristã, e a terra, segundo Caminha, de "a terra da Vera Cruz". O relato mostra que não houve surpresa por parte da tripulação ou dos comandantes com o "achamento". Indicam isso sim que eles tinha certeza que encontrariam terra em algum ponto na atravessia do mar longo (que pode-se entender como o mar que separa a costa africana da brasileira).

A franja de litoral que lhes coube desembarcar estava, como verificou-se posteriormente, dentro dos limites estabelecidos aos lusos pelo Tratado de Tordesilhas, que a partir das 370 léguas das ilhas de Cabo Verde, dividiu o mundo a ser desbravado entre os dois reinos Iberos, acertado pelo Papa Alexandre VI em 1494.

Na praia: na reunião feita a bordo do navio capitania, ancorada na boca do Rio Frade, no estado da Bahia de hoje, decidiu-se enviar para a praia a Nicolau Coelho, um veterano que seguira Vasco da Gama. Na sua companhia foi um tradutor, um judeu de nome Gaspar da Gama, por dominar alguma coisa de árabe e outros idiomas exóticos, pois os chegados pensavam ser costa indiana.

Mal o batel encalhou na praia foi recebido pacificamente por 18 homens, que como descreveu-os o escrivão Pero Vaz de Caminha, eram " pardos, maneira de avermelhados, nus, sem nenhuma cobertura,....muito rígidos, armados de arco e flechas". Imediatamente, recorrendo a sinais, trocaram presentes. Os lusos deram-lhes "um barrete vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto", recebendo um cocar de penas muitos coloridas e cumpridas.

Dois mundos: Espantaram-se os navegantes com os pequenos ossos que os nativos traziam atravessados nos lábios - "os bicos de ossos nos beiços" - e por sua inocência e ausência de pudor. Eram Adão antes de provar o fruto proibido. Naquele curto instante, nos estreitos limites da praia baiana, à sombra das palmeiras, dois mundos separados por séculos, por milênios, se encontraram. Duas eras encararam-se frente a frente: o ser pré-histórico da Idade da Pedra viu-se, sem o saber, perante o seu futuro conquistador, o ser da Idade do Ferro, ali armado de mosquete e espada. O homem cor de cobre, o tupi, cederia nos séculos vindouros tudo aquilo que o cercava ao lusitano, o brancarrão barbudo desembarcado, vindo da distante Europa.

Descrevendo os nativos, disse deles Américo Vespúcio numa das suas Cartas:

"Não tem lei, nem fé nenhuma. E vivem segundo a natureza. Não conhecem a imortalidade da Alma, não têm, entre ele bens próprios, porque tudo é comum: não têm limites de Reinos, e de Províncias; não têm Rei; não obedecem a ninguém. Cada um é senhor de si; nem favor , nem graça a qual não lhes é necessária, porque não reina entre eles a cobiça: moram em comum em casas feitas à moda de cabanas muito grandes, e para gente que não têm ferro, nem outro metal qualquer, se pode dizer que suas cabanas, ou casas maravilhosas, porque eu vi casas que são longas 220 passos, e largas 30, e habilmente fabricadas, e numa destas casas estavam 500, ou 600 almas. Dormem em redes estendidas de algodão, estendidas noa r sem outra cobertura; comem sentado no solo...raízes de árvores, raízes de ervas, e frutas muito boas, inúmeros peixes...São gente muito prolífera; não têm heranças, porque não têm bens próprios..." - (Carta a Lourenço de Medici, 1502)

Porto Seguro: reembarcados, levantaram âncora e navegaram mais acima, para um lugar mais protegido, o Porto Seguro, onde foi rezada a 1ª Missa no Domingo do dia 26 de abril de 1500. A terra recém achada foi considerada como uma dádiva divina colocada ao alcance de D. Manuel. A cerimônia religiosa, oficiada por D. Henrique de Coimbra, consagrou-a como espaço a ser convertido e integrado à Cristandade. Depois de mais alguns encontros onde estiveram presentes mais de 400 indígenas, curiosos perante a chegada daquela gente estranha, a expedição fez-se novamente ao mar no dia 2 de maio de 1500, retomando a viagem para a Índia. Não ficaram mais de dez dias na Terra dos Papagaios, como foi popularmente chamada. Além de dois degredados que aqui foram deixados aos prantos, dois grumetes fugiram de bordo e nunca mais foram vistos. Eram, esses anônimos, os primeiros brasileiros.

A carta de Caminha

A carta do escrivão Pero Vaz de Caminha, iniciada em 26 de abril e concluída no dia 1º de maio de 1500, foi enviada imediatamente para o rei por intermédio de Gaspar de Lemos, anunciando a boa nova da descoberta de terras. Ela tornou-se "a certidão de nascimento" do Brasil, como a chamou Capistrano de Abreu. O documento, no entanto, só se tornou publico em 1790, sendo a carta publicada a primeira vez no Brasil em 1817, pelo geógrafo Manoel Ayres do Casal, no primeiro volume da Corographia.

É uma narrativa detalhada e minuciosa do que se passou na viagem e dedica inúmeras páginas, das 26 originais, a descrever os nativos e as terras encontradas, onde, segundo ele, maravilhado com a exuberância tropical, "Esta terra, senhor" escreveu "em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar dar-se-há nela tudo".

Foi baseado nas informações de Caminha que D. Manoel enviou mensagem comunicando a descoberta ao Reis Católicos da Espanha, Fernando e Isabel, remetida em agosto de 1501. Minimizando a viagem ao Brasil, enfatizou o contanto com Calicute e com a Índia. Sobre o Brasil disse aos reis seus vizinhos, quase que somente: "o dito meu capitão...nas oitavas da páscoa seguinte chegou a uma terra que novamente descobriu, a qual pôs o nome de Vera Cruz, na qual achou gentes desnudas como na primeira inocência, mansas e pacíficas: a qual parece que Nosso Senhor milagrosamente quis que achássemos por serem muito úteis, porque é muito conveniente e necessária para a navegação para a Índia, porque ali reparou seus navios e tomou água.." (Carta del Rey D. Manuel de Portugal a los Reyes Católicos, dandoles cuenta de todo lo sucedido en el viagem de Pedro Alvares Cabral por la costa de Africa hasta el Mar Rojo)

Conclusões

O "achamento" do Brasil pela frota de Pedro Alvares Cabril não teve efeitos imediatos, nem para os lusos nem para os nativos. Somente meio século depois, com a instalação de um governo-geral na Bahia em 1549, é que pode dizer-se que seu descobrimento começou a gerar proveitos. A razão disso é que a Coroa Manuelina estava mais interessada no comércio com as Índias, devotando suas energias para a instalação de uma atividade regular com Calicute e outras feitorias, bem como não terem encontrado os portugueses nenhum metal precioso no território recém conhecido. Assim, o Brasil foi considerado em seus princípios apenas como uma paradouro, eventualmente a recorrer-se, na "carreira para as Índias"

Tanto é que a frota de Cabral, partiu uns dias depois ao da missa. Quanto ao descobrimento ter sido causal ou não, como colocou em duvida o escritor brasileiro Joaquim Norberto, parece-nos hoje uma discussão ociosa, bem como aquelas outras afirmações de ter sido o litoral brasileiro desbravado antes por outros navegadores, tais como Jean Cousin, Martim Behaim ou Vicente Pinzón. "Paz do esquecimento" recomendou Oliveira Martins "a todas as quimeras!"
Quadro da Expansão Marítima Lusitana

Ano

O Feito e o Fato

1415

Expedição portuguesa liderada pelo rei D. João I, conquista a cidade de Ceuta no norte da África, em 21 de agosto de 1415

1420/3

Os navegantes João Gonçalves Zarco e Tristão Teixeira descobrem a ilha da Madeira

1424

D.Fernando de Castro comanda expedição contra as ilhas Canárias

1425

Colonização da ilha da Madeira

1432

Gonçalo Velho viaja para a ilha dos Açores

1434

Gil Eanes passa o Cabo Bojador abrindo a rota para o sul da África

1437

Fracassa conquista do Marrocos. Portugueses derrotados na batalha de Tânger

1441

Nuno Tristão descobre o Cabo Branco

1443

O Infante D. Henrique recebe o Promontório de Sagres como Vila de Sagres, tornando o local, a partir de 1450, centro impulsionador das expedições navais lusitanas. D. Henrique morre ali em 1460.

1444

Dinis Dias descobre o Cabo Verde

1445

Gomes Pires, Laçarote e outros chegam ao Senegal

1456

Descoberta das ilhas do Cabo Verde

1484

Diogo Cão navega até a embocadura do Rio Zaire no Congo. Colombo oferece ao rei português os planos da viagem para chegar à Índia navegando pelo ocidente. Foi rejeitado.

1488

Bartolomeu Dias descortina o cabo das Tormentas, na África do Sul, rebatizado pelo rei João II de Cabo da Boa Esperança, abertura para os mares da Índia

1498

Vasco da Gama chega ao porto de Calicute na Índia

1500

Pedro Álvares Cabral desembarca no litoral do Brasil



Os Barcos

Barca - embarcação de 25 t., coberta só em parte com uma tripulação pequena de 10 ou 14 homens , tendo um mastro grande com vela quadrada e outra menor que podia rizar quando fosse preciso

Barinel - era maior e mais cumprido do que a barca e embora tivesse velas podia ser movido também a remos, como uma galé. Devido a isso tinha a necessidade de uma tripulação bem maior do que a da barca.

Caravelas - divididas em "redondas" ou armadas, eram embarcações de 50 toneladas, medindo de 20 a 30 metros de cumprimento por 6 a 8 de largura, com castelo na popa e três mastros apetrechados com velas "redondas" e latinas o que as permitia andar com vento lateral. Era consideradas as melhores para navegar. Nas que faziam viagens transoceânicas foram colocadas velas quadradas com 4 mastros, sendo que o do fraquete levava uma vela quadrada e as demais velas latinas. Seu peso saltou para 150-200 toneladas

Galeão - era um pequeno navio de guerra

Galera - barco a remo e velas, geralmente com um só mastro, utilizado em toda a Antiguidade para a navegação de curta distância. Por ter que transportar remadores, de 180 a 300 homens, sua capacidade de carga era reduzida. Navegava em mares fechados, como o Mediterrâneo, ou perto do litoral. Embarcação inútil nas viagens transoceânicas.

Nau - ou navio de carga e de passageiros, tinham castelos na proa e na ré e velas com Cruz-de-Cristo vermelhas pintadas. Pesavam ao redor de 400 t., mas algumas chegavam a 800 e até a mil t., consideradas excelentes para enfrentar o alto-mar e capazes de transportar grandes carregamentos.


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