O Que é Psicotécnico?

“Dialético é aquele que tem uma visão do conjunto, não-dialético é o que não tem” (Platão)

Embora a expressão Exame Psicotécnico esteja fortemente associada a concurso público e a exigência legal para habilitação de motorista, o psicotécnico é um tipo de avaliação psicológica que se realiza, de modo geral, nas indústrias e organizações. Na verdade, trata-se de um processo que pressupõe a utilização de recursos para abordar os dados psicológicos de forma sistemática, através de métodos e técnicas orientados para a resolução do problema (CUNHA, 1993), ou identificação das diferenças individuais. Esse tipo de exame se realiza por meio de entrevista, testes psicológicos, questionário, autobiografia, dinâmica de grupo, etc. No caso de inaptidão temporária, em concurso público, e mediante solicitação judiciária, se realiza a entrevista chamada de Devolutiva. Esta, no entanto não garante a reinserção do candidato no páreo seletivo, apenas atenua, dentro do possível, a frustração em relação a esse resultado.

O Teste Psicológico é um dos instrumentos mais conhecidos da psicologia e representam o único campo de atuação privativa do psicólogo (HUTZ e BANDEIRA, 2003). Ou seja, em outras palavras o teste psicológico é de uso exclusivo do psicólogo. Salvo a exceção do estagiário de psicologia que esteja sob a supervisão de um psicólogo, nenhum profissional de outra área pode lançar mão do material de teste psicológico, sob pena de sofrer punição. Um teste psicológico se define como sendo uma amostra objetiva e padronizada de um comportamento, cuja função implica em mensurar diferenças entre indivíduos e suas reações, em situações diversas (CFP, 2000). E também como um procedimento sistemático para observar o comportamento e descrevê-lo com a ajuda de escalas numéricas ou categorias fixas (CRONBACH apud PASQUALI, 2001). Em qualquer área do contexto psicológico, o teste sempre consistirá em um instrumento auxiliar do psicólogo e que, para gerenciá-lo, requer do mesmo treinamento e conhecimentos específicos.

A entrevista é utilizada nas mais diversas profissões, e consiste em mais um outro instrumento indispensável nas diversas áreas de atuação do psicólogo. No processo seletivo, a Entrevista Psicológica tem como função básica oferecer subsídio ao examinador (psicólogo), a respeito do examinado ou testado (candidato). Ou seja, como afirma Gil (1999) a entrevista é “uma forma de diálogo assimétrico, em que uma das partes busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação”(p.117).  E “o que nos guia numa entrevista, do mesmo modo que em um tratamento, não é a fenomenologia reconhecível, mas o ignorado, a surpresa” (GOLDER, 2000, p. 45). Mais do que delinear um plano de ação, a entrevista, em si mesma, se constitui numa modalidade avaliativa. Entretanto, apesar de sua relevância, não se pode desconhecer a subjetividade de interpretação do entrevistador, na qual estão inclusos seus valores, estereótipos, preconceitos, etc. Segundo Augras (1994), “assumir a própria subjetividade não é substituir as suas problemáticas aos conflitos do paciente. É reconhecê-la para delimitá-la, transformando-a em ferramenta para a compreensão do outro”(p.14). Assim, para neutralizar prováveis interferências, o psicólogo planeja e sistematiza essa peça de trabalho, do mesmo modo com o qual procura objetivar os indicadores do perfil profissiográfico.

A entrevista psicológica funciona como uma situação onde se observa parte da vida do candidato ou paciente, porém, nesse contexto não consegue emergir a totalidade do repertório de sua personalidade. A entrevista não pode substituir e nem excluir outros modalidades de investigação mais extensa e profunda, a exemplo da psicoterapia ou do tratamento psicanalítico que demanda tempo, e favorece a emergência de certos núcleos da personalidade. Esse tipo de assistência, também não pode prescindir da entrevista. Geralmente, a entrevista é alvo de crítica por apresentar lacunas, dissociações e contradições que levam alguns pesquisadores a considerá-la um instrumento pouco confiável. Porém, como salienta Bleger (1980), essas dissociações e contradições fazem parte dos indivíduos que, ao refleti-las, a entrevista oferece condições para que as mesmas sejam elaboradas. Este questionamento psicológico pode ser também um processo grupal, ou seja, com um ou mais entrevistadores e/ou entrevistados. No entanto, este é sempre em função da sua dinâmica, um fenômeno de grupo, mesmo que seja com a participação de um entrevistado e de um entrevistador. Enfim, desde que bem estruturada e corretamente conduzida a entrevista psicológica respalda o psicólogo no fechamento das suas considerações.

No que se refere ao uso dos testes psicológicos, sua escolha no exame psicotécnico ocorre de acordo com a descrição das tarefas do cargo em questão, formando, assim, um conjunto de testes: objetivos (inteligência, aptidão, etc.), de personalidade (projetivos), que compõem a chamada Bateria de Testes Psicológicos. Esta, por sua vez, tem como finalidade captar uma série de condutas, em decorrência dos variados estímulos a que o testando é submetido. Os testes psicológicos têm que apresentar confiabilidade, ou seja, grau de precisão; e validade que é a capacidade de atingir os seus objetivos (CFP, 2000). Os testes não devem ser considerados pelo psicólogo como o foco principal do psicotécnico em detrimento da pessoa do candidato, porque, como já visto acima, isoladamente, ele não favorece a compreensão da “totalidade” de sua personalidade, etc. Os testes são instrumentos científicos que, na sua construção, passam por experimentos e comprovações empíricas. Mas, para que essa condição seja contemplada, se faz necessário obedecer a outros critérios, a exemplos da padronização (nos procedimentos), da isonomia (tratamento idêntico para todos) e do controle das variáveis intervenientes na sua aplicação.

Após a coleta dos dados e das informações, se faz a apuração e análise dos resultados que terá a sua tradução num documento denominado Parecer Psicológico que, de forma sucinta, constará das condições internas e manifestas do examinado, e que será encaminhado ao solicitante. O sigilo profissional determina que, visando preservar o examinado de exposição desnecessária, o psicólogo não deve escrever neste documento tudo que sabe a seu respeito, mas apenas as características que são inerentes aos propósitos seletivos. O sigilo e a segurança dos resultados dos testes devem seguir a seguinte norma: ser arquivados de modo seguro, de forma que ninguém possa ter acesso a um dado sem a autorização do profissional responsável. Uma vez que, o código de ética determina como “dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organizações, a que tenha acesso no exercício profissional”(Art. 9o , 2005: 13).

Em virtude da mutabilidade humana não se considera o psicotécnico uma avaliação de caráter definitivo. Assim sendo, um Parecer ou Laudo Psicológico constará das nomenclaturas: Apto, Apto Temporário ou Inapto Temporário. No entender de Augras (1994), “nos protocolos dos testes, não se manifestam resultados absolutamente válidos e intemporais, mas que os mesmos constituem a expressão de um evento, a situação única e momentânea do encontro de duas subjetividades que influem uma na outra”(p.14).

Ao iniciar o processo seletivo, se faz o rapport ou “quebra gelo”, que implica nas apresentações do examinador (psicólogo) e dos examinados ou testados (candidatos), com a intenção de que se estabeleça um clima ótimo de descontração. Entendo que este momento oportuniza o profissional a trabalhar as representações que os candidatos têm do exame psicotécnico, medo, fantasias, ideias distorcidas e pré-concebidas. Assim como, de deixar claro que esse processo, de qualquer maneira e independente dos resultados, o que nem sempre é fácil de ser aceito por parte dos candidatos porque precisam do emprego, irá beneficiá-los. Haja vista que não há interesse de colocar uma pessoa numa ocupação em que ela se sinta constrangida ou que a precipite ao fracasso. E, por último, de que o psicotécnico não pretende identificar insanidade psíquica ou patologia, mas, traços que estejam, no caso de empresa, compatíveis com a função. Como salienta Ocampo e outros (1995), o seu objetivo é conseguir uma descrição e a compreensão da maneira mais profunda e completa possível da personalidade do candidato, e sua conclusão será posteriormente transmitida por escrito através do laudo.

Finalmente, mesmo que se leve em consideração os aspectos da subjetividade envolvida nessa atividade, não é difícil de vislumbrar que, a partir da conduta ética, do conhecimento e do domínio das técnicas e dos instrumentos psicológicos, o examinador seja capaz de não cometer injustiça.

Observação:
Teste psicológico é de uso exclusivo de psicólogo e estudante de psicologia sob a orientação de um profissional da citada área. Qualquer “dica” ou treino para concurso, CNH, etc., consiste numa atividade ilegal, portanto sujeita à punição pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP).

Livro do Autor Valdeci Golançalves

REFERENCIAL
AUGRAS, M. (1994). O Ser da compreensão: fenomenologia da situação de psicodiagnóstico. 4 ed. Petrópolis-RJ: Vozes.
BLEGER, José. (1980). Temas de psicologia: entrevista e grupos.  São Paulo: Martins Fontes,
Código de Ética Profissional do Psicólogo. (2005). CFP, Brasília-DF.
Conselho Federal de Psicologia. (2000).Manual para Avaliação Psicológica. Brasília-DF.
CUNHA, J. A et al. (1993). Psicodiagnóstico – R. 4. ed. Porto Alegre: Artes Médicas.
GIL, Antonio Carlos. (1999). Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas.
GOLDER, Eva-Marie. (2000). Clínica da primeira entrevista.  Rio de Janeiro: Zahar.
HUTZ, C. S & BANDEIRA, D. R. (2003). Avaliação psicológica no Brasil: situação e desafios para o futuro. In Yamamoto, O. H & Gouveia, V. V. (Orgs.). Construindo a psicologia brasileira: desafios da ciência e prática psicológica. São Paulo: Casa do Psicólogo.
OCAMPO, M. L. Siquier et al. (1995). O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas. Trad. M. Felzenszwalb, São Paulo: Martins Fontes.
PASQUALI, L. (Org.) (2001). Técnicas de exame psicológico – TEP. Manual. Vol. I: Fundamentos das técnicas psicológicas. São Paulo: Casa do Psicólogo / CFP.


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