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Método Psicanalítico: 3 - O Método da Psicanálise

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Entre os autores modernos que se dedicam ao estudo do método psicanalítico está, entre nós, Fábio Herrmann1. O presente estudo do método psicanalítico baseia-se, numa leitura que considero cuidadosa de seus textos “O Homem Psicanalítico” e “Conceituação do Objeto Psicanalítico” e do livro “Andaimes do Real - Uma Revisão Crítica do Método da Psicanálise” (Herrmann, 1979, 1983 e 1990). Introduzo modificações e acréscimos que correm por minha conta. Uma das modificações que considero importante, e por isto destaco, é a restrição da aplicação do método psicanalítico ao homem psicanalítico — sendo este um conceito de Herrmann entre outros a que recorrerei sem indicação — como forma de distinguir a criação do objeto psicanalítico da produção de conhecimento psicanalítico. Aquele, produto da aplicação do método, este, da aplicação do conhecimento psicanalítico para ilustrá-lo, exemplificá-lo, enriquecê-lo ou ampliá-lo, por exemplo, sobre uma obra de arte.

Mas qual é o método da psicanálise?

É o método interpretativo, responderia imediatamente como já o fiz antes sem maiores explicações que agora tentarei encontrar.

Se fosse tão simples, poderia então dizer que é objeto da psicanálise todo objeto que for estudado com o método interpretativo.

Detenhamo-nos.

Não é mesmo tão simples assim, pois um vidente interpreta sonhos. Sua interpretação não será psicanalítica mesmo se usar conceitos ou conhecimentos psicanalíticos. O mesmo se dá com um xamã, um astrólogo. Some-se o fato de ser interpretativo, também, o método da filosofia. Portanto, o método interpretativo pura e simplesmente pode produzir muitos objetos, objetos de muitas ciências, disciplinas ou religiões. Como ele produz um objeto psicanalítico? Sob determinadas condições. Passarei a examinar estas condições.

Escolhamos, para reflexão introdutória, um objeto de arte ou qualquer outra forma de expressão da mente. O que acontece quando um psicanalista estuda-os aplicando-lhes conceitos psicanalíticos ou quando busca esclarecer algum conceito psicanalítico com o uso de uma obra literária? Por exemplo, um psicanalista usa um romance (Sigmund Freud, 1911; Melanie Klein, 1955; Fábio Herrmann, 1992); ou uma escultura (Freud, 1914); ou uma recordação infantil (Freud, 1910); ou ainda, o escudo de um guerreiro (Herrmann, 1988). Todos estes objetos foram examinados por psicanalistas. Mas, pode seu produto ser chamado de objeto psicanalítico? Criou-se o objeto psicanalítico? Positivamente, não!

Que objeto foi criado por estes estudos?

Um objeto da psicanálise aplicada? Expressão excessivamente vaga, pois tanto poderia ser usada para a aplicação dos conhecimentos psicanalíticos a obras literárias, quanto a outras obras de arte, quanto ao próprio ser humano, quanto, ainda, à história da humanidade ou aos fatos corriqueiros do cotidiano. Mas não se produz, assim, o objeto psicanalítico. Se não forem satisfeitas outras condições, não se cria o objeto psicanalítico mesmo se os conhecimentos psicanalíticos forem aplicados ao ser humano.

É importante que, além de podermos estabelecer um conceito claro de método psicanalítico, possamos também, como começamos a examinar, distinguir o tratamento de um objeto utilizando conhecimentos psicanalíticos do tratamento de um objeto utilizando o método psicanalítico — e seu derivado imediato, a técnica. Somente depois de feita esta distinção, é que poderemos afirmar se o objeto foi ou não tratado com o método psicanalítico. Se não foi tratado pelo método psicanalítico, seu produto não pode ser o objeto da psicanálise. Não é o objeto da psicanálise!

No caso dos exemplos citados, o objeto criado foi um obra literária.

O estudo de obras literárias e de outras obras de arte por meio da aplicação dos conhecimentos psicanalíticos pode ajudar-nos a compreender conceitos psicanalíticos e os exemplos são aqueles, entre outros. Repetindo, Freud e Schreber (Freud, 1911), Freud e Leonardo (Freud, 1910), Freud e Michelângelo (Freud, 1914); Melanie Klein e Fabian Especel (Klein, 1955); Herrmann e o escudo de Aquiles (Herrmann, 1988), Herrmann e Aksenti Ivanovitch (Herrmann, 1992). Mas em nenhum destes casos o produto foi o objeto psicanalítico, pois nem Freud psicanalisou Schreber, nem Leonardo, nem Moisés; nem Melanie Klein psicanalisou Fabian; nem Fábio Herrmann psicanalisou Aksenti Ivanovitch e muito menos poderia ter psicanalisado o escudo de Aquiles.

Entretanto, se a aplicação do conhecimento psicanalítico feita por estes autores a seus objetos pôde trazer contribuição incomensurável para a compreensão psicanalítica da paranóia, da identificação, da loucura e da crença, bem como da função defensiva da representação, não pôde criar o objeto psicanalítico. O artista é geralmente mais ágil na apreensão de nuanças afetivas que tardamos em perceber; por isto, a obra literária ajuda-nos a compreender aspectos do espírito humano, mas não produzirá o objeto psicanalítico.

Trata-se, repito a pergunta, de psicanálise aplicada?

Como vimos, a expressão psicanálise aplicada é muito vaga e pode ser usada para a aplicação dos conhecimentos da psicanálise a várias situações. Podemos usá-la para referir-nos ao uso dos conhecimentos psicanalíticos para conhecer o homem e ainda assim não estaremos gerando o objeto psicanalítico, pois mais condições são exigidas para a geração deste objeto. Somente podemos gerar o objeto psicanalítico quando aplicamos o método psicanalítico ao homem. Mesmo assim, uma condição adicional deve ser cumprida, a de o homem encontrar-se em condição de análise.

Muitas impropriedades são cometidas por aqueles que abraçam uma ciência em formação. Nos primórdios pessoais de nossos conhecimentos psicanalíticos ou nos primórdios da construção do saber psicanalítico, foi frequente que tenhamos incomodado a todos que nos cercavam com nossas desagradáveis e inadequadas interpretações, espalhadas a torto e a direito, sem que aqueles que as recebiam estivessem em condição de análise — psicanálise silvestre como Freud (1910) mostrou tão claramente, sem dúvida. É interessante uma das afirmações de Freud, neste texto, para o prosseguimento de nossa argumentação, mais adiante: “De vez, no entanto, que a psicanálise não pode abster-se de dar essa informação, prescreve que isto não se poderá fazer antes de que duas condições tenham sido satisfeitas. Primeiro, que o paciente deve, através de preparação, ter alcançado ele próprio a proximidade daquilo que ele reprimiu e, segundo, deve ter formado uma ligação suficiente (transferência) com o médico para que seu relacionamento emocional com este torne uma nova fuga impossível."2

Para distinguirmos as várias formas ou aplicações de nossa disciplina, penso ser justa a proposta de Fábio Herrmann (Herrmann, 1979) de reservar “a inicial maiúscula (Psicanálise) para designar a disciplina e aquilo que a ela se refere em âmbito de totalidade, como seu método; grafando com minúscula (psicanálise), quando o termo se refere à terapia analítica ou a outras formas particulares de exercício psicanalítico.” Ou chamar os passeios do divã exatamente de “Divã a Passeio” (Herrmann, 1992). Ou ainda, como sugeriu o tema do número mais recente de uma publicação brasileira sobre psicanálise, Jornal de Psicanálise (1997): "Psicanálise sem divã".

A primeira proposta de Fábio Herrmann parece-me a melhor, apesar de manter juntas a “terapia psicanalítica ou outras formas particulares de exercício psicanalítico”; por esta razão, vou continuar escrevendo sempre com minúsculas, pois eu gostaria de ter uma forma para grafar o método, outra para a terapia psicanalítica e outra, ainda, para formas particulares de exercício psicanalítico. Poderia ser Ysicanálise, como Freud sugeria em seus manuscritos, mas acho que seria complicar demais. As outras são interessantes, mas devem ser reservadas às situações em que foram usadas.

Somente gostaria de registrar que, quando digo que não é psicanálise, estou me referindo exatamente à situação em que o objeto tratado não é o objeto psicanalítico criado pela aplicação do método psicanalítico. A forma correta de dizer seria: não se criou o objeto psicanalítico e, se não se criou o objeto psicanalítico, o ato científico que se deu não foi psicanalítico. Pode até ter sido um ato psicanaliticamente psicoterápico.

1 - Na época da conclusão deste texto não tinha tido ainda contacto com o importante texto “Prática do Método Psicanalítico.” (Le Guen, 1982) e não haveria tempo de introduzir modificações que esse texto pudesse sugerir-me.
2 - Grifo meu.

 

 icon O Método Psicanalítico por Mário Lúcio Alves Baptista (109 KB)

 

Referências


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