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Antologia Poética

Avaliação: 3.0 / 5 (1 voto)
[Carlos Drummond de Andrade]

Na verdade, desde Alguma poesia foi pelo prosaico, pelo irônico, pelo anti-retórico que Drummond se afirmou como poeta congenialmente moderno. O rigor da sua fala madura, lastreada na recusa e na contensão, assim como o fizera homem de esperança no momento participante de A rosa do povo, o faz agora homem de um tempo reificado até a medula pela dificuldade de transcender a crise de sentido e de valor que rói a nossa época, apanhando indiscriminadamente as velhas elites, a burguesia afluente, as massas.

[Alfredo Bosi - História concisa da literatura brasileira]

'Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?'

A obra de Carlos Drummond de Andrade representa o melhor dos múltiplos cominhos da moderna poesia brasileira, do poema-piada como Cota zero: [Stop/ A vida parou/ Ou foi o automóvel?] ao poema social e político d Mãos dadas, da lírica existencial de Confidencia do itabirano ao épico-filosófico de Amar, de textos discursivos como Os ombros suportam o mundo aos textos elípticos e condensados.

Além da criação de uma poesia de alta qualidade, Drummond conseguiu conquistar significativo público para a poética modernista: ao morrer, em 1987, aos 85 anos, apesar de seu retraimento e seu jeito avesso à publicidade, era muito conhecido, dentro e fora do Brasil, uma espécie de personificação - não-institucional, não-acadêmica - do poeta e da poesia.

Nasceu em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 1902. Em 1925, participa da A Revista, porta-voz de um grupo de jovens mineiros, estabelece contato com os modernistas do Rio e de São Paulo, principalmente com Manuel Bandeira e Mário de Andrade.

Sua atividade poética atravessará mais de 60 anos, sendo conciderado, quase por unanimidade, o mais totalizante e o mais significativo poeta do século XX no Brasil.

Seu primeiro livro é lançado em 1930, Algumas poesias, com poemas escritos durante os anos vinte.Drummond participa da segunda geração modernista, a de 1930-1945; no entanto, sua obra representa, a síntese, a unidade entre a primeira [a fase 'heróica', de 1922 a 1930] e a segunda geração. A partir de Algumas poesias [poemas típicos de ruptura das convenções, em especial das acadêmicas e parnasianas], o poeta assume novas linguagens, até a coloquial e aborda temas do cotidiano, das pequenas cidades e das metrópoles.

Encontramos em Algumas poesias micro-poemas, poemas-piadas, poemas-paródias, versos livres, estrofação heterogênea, em uma realização radicalmente pessoal, com voz própria, marcada de inquietude e investigação existencial, de densa ironia, de antilirismo intencional, como verificaremos na Antologia comentada. O segundo livro, Brejos das almas, de 1934, representa essas características intensificando a temática existencial.

Poesias de denuncia e dilaceração do mundo

Drummond escreve também uma poesia típica da segunda fase modernista, sempre com inconfundível voz pessoal. É uma poesia menos voltada para a ruptura, com mais universalidade de temas, de linguagens, e de imagens, desenvolvendo novos caminhos [filosóficos, políticos, sociais] e superando certa atitude maniqueísta de vanguarda, que negava em bloco e indiscriminadamente a herança passada. Drummond publica Sentimento do mundo [1940], José [1942], A rosa do povo [1945], Novos poemas [1948].

Nessas obras, apresenta poesia social e política do mais alto nível, de denuncias das dilacerações do mundo, de resistência diante dos totalitarismo [principalmente do nazi-fascismo]. Poesia que questiona e chama à ação, poesia publica, para se lida em voz alta, falada até em comícios, participante, altamente expressiva, com vigorosos versos livres, com intensa fabulação de imagens, sem se desfigurar em panfletos de propaganda.

Com claro enigma, [1951], seguido de fazendeiro do ar, [1959], outra face de Drummond prevalece: uma poesia de grande elaboração formal, fundindo o clássico e o moderno, com grande vigor de construção, muitas vezes hermética, de acentuada preocupação filosófica e mesmo /*
Nessas obras o poeta questiona o sentido e a ausência de sentido da existência, a crise do indivíduo e da linguagem e da poesia. Uma poética de fundo desencantado, que não se faz cúmplice de aparências, que arranca todas as mascaras do real para olhar cara a cara os vazios, sem medo de perder as ilusões.

O crítico Alfredo Bosi escreve, em sua já citada História concisa da literatura brasileira: a partir de Claro enigma [1948-51], o desencanto que sobreveio à fugaz experiência da poesia política tem ditado para o poeta dois modos principais de comprar o poema:

a] escavar a real mediante a um processo de interrogações e negações que acaba revelando o vazio {à espreita do homem no coração da matéria e da história. O mundo define-se como [um vácuo atormentado/ um sistema de erros] [...]

b] fazer as coisas e as palavras - nome das coisas - boiar nesse vácuo se bordas a que a interrogação reduz os reinos do saber.

Essa poética de escavação, que predomina agora e que dissemina-se por toda a sua obra, pareça o avesso do desejo de totalização harmônica da vida, desejo sempre de transpor a cisão entre a palavra e a coisa, para alem do mistério e da precariedade do destino humano.

Com Lição de coisas, em 1962, já é outra face a predominante: Drummond retoma temas sociais e subjetivos, retoma os versos livres, e abre um campo de reiterada experimentação com as palavras. Na apresentação do livro Drummond escreve: O poeta abandona quase completamente a forma fixa que cultivou durante certo período, votando ao verso que tem apenas a medida e o impulso determinados pela coisa poética a exprimir. Pratica, mais do que antes, a violação e a desintegração da palavra, sem entretanto aderir a qualquer receita poética vigente.

A multiplicidade de ritmos de sua poesia não tem paralelo entre os modernistas: a densidade emocional, semântica e imagística a torna uma espécie de síntese da moderna poesia brasileira, matriz de muitos outros poetas.

Antologia comentada

Explicação

Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres,
folha de taioba, pouco imorta: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desespero da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada
[...]
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?

Sob o título provisório de Reunião, Drummond publicou em 1969, um volume contendo dez livros de poesia: Alguma poesia [1930], Brejos da alma [1934], Sentimento do mundo [1940], José [1942], A rosa do povo [1945], Novos poemas [1948], Claro enigma [1951], Fazendeiro do ar [1954], A vida passada a limpo [1959], Lição de coisas [1962].

Ao organizar a sua Antologia poética, em 1962, Drummond optou por apresentá-la em certos núcleos temáticos, que seriam, segundo suas próprias palavras, certas características, preocupações ou tendência que a condicionam ou definem em conjunto. A Antologia lhe pareceu assim mais vertebrada e, por outro lado, espelho mais fiel.

Para fazermos esta travessia de iniciação de sua obra, optamos por seguir a arquitetação proposta por lei: além disso, incluímos ao livro a que pertence cada poema, para que se possa identificá-lo nos momentos da criação de Drummond.

Um eu todo retorcido

Poema de sete faces
[Alguma poesia]

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai Carlos! ser gauche na vida.

As casas aspiram os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
Não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu chamaste Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
Mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido feito o diabo.

As sete faces correspondem a sete estrofes, com de fosse um retrato em sete partes. Poema tipicamente modernista, de ruptura com as convenções. Descontínuo, inesperado, coloquial. Escritos com versos livres e com estrofes heterogêneas. Irônico: neste poema de descoberta do eu e do mundo Drummond se coloca como gauche - um desajeitado - mas cujo o coração transborda, mais vasto que o mundo, com humor desencantado, sarcástico. Com uma secura que representa a emoção. Antilírica. Observe o tom de confidência da ultima estrofe, onde o poeta assume a emoção, embora a atribua ao conhaque e a lua...

Uma província: esta

Confidência do italiano
[Sentimento do mundo]

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Pó isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação

À vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que hora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval:
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visita:
este orgulho, esta cabeça baixa...

tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário publico.
Itabira é apenas uma fotografia na parede
Mas como dói!

Cidadezinha qualquer
[Alguma poesia]

Casas entre bananeiras
Mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Estes dois poemas são referencias para toda a obra de Drummond. O primeiro, um auto-retrato, e o segundo, um Flash de uma cidadezinha qualquer, ambas constituem reelaborações poética de sua cidade natal, Itabira. Enquanto em Confidência do itabirano há expressivas antíteses, de ironia amarga e sutil [pó exemplo, hábito de sofrer / que tanto me diverte / doce herança itabirana], em Cidadezinha qualquer os versos no infinitivo, as repetições e uma prosopopeia [Devagar... as janelas olham] expressam o tédio à monotonia da vida do interior, que no entanto deixa tanta saudade, como mostram os versos finais, antológicos, de Confidência do itabirano.

A família que me dei

Infância
[Alguma poesia]
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé
Comprida história que não acabava mais.

No meio dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longe da senzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficara em casa cosendo
Olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que a minha história
era mais bonita que a de Robinson Crosoé.

Outro antológico poema 'itabirano'. Observe que o prosaico, o cotidiano - montar a cavalo, ir para o campo, fazer criança dormir, tomar o café da preta velha, ler histórias - são transformados em elementos poéticos intensamente expressivos, com uma simplicidade essencial, raramente atingida na poesia brasileira. Novamente, versos livres, estrofes heterogêneas, linguagem coloquial.



Cantar de amigos

Mário de Andrade desce aos infernos
[fragmento]
[A Rosa do povo]

I
Daqui a vinte anos farei teu poema
e te cantarei com tal suspiro
que as flores pasmarão, e as abelhas,
confundidas, esvairão seu mel.

Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziquezagueante, rouco,
feito da impureza do minuto
e de vozes em febre, que golpeiam
esta viola desatinada
no chão, no chão.

Escrito para a morte de Mario de Andrade, este fragmento já revela a tensão do texto, a intensidade emocional do poema. Tendo como tema o desconcerto diante da morte [observe as imagens da natureza caótica, a repetição no chão, no chão que dá maior ênfase ao destino, ao desespero], Drummond anuncia um poema futuro no entanto realizado no aqui/agora da perplexidade, da emoção.

Amar-Amaro

Mãos dadas
[Sentimento do mundo]

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre ele, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Este é um dos mais fundamentais poemas políticos de todo o modernismo. Texto engajado, comprometido, participante, e, ao mesmo tempo, de grande força poética. Ritmo intenso, imagens intensas. Observe o tom da fala, da oralidade, a linguagem coloquial muito expressiva, acentuada pela pulsão livre dos versos. Na construção do poema, observe a enumeração de negações - que recusam as variadas de escapismo romântico, de fuga a realidade. A repetição de palavras, em especial a palavra presente, carrega ainda mais o texto de alta tensão poética.

Canção antiga, é um dos textos de ritmo mais fluente e mais musical de toda a obra de Drummond, fundado em versos redondilhos maiores [sete sílabas]. As imagens são de muita simplicidade iluminada. Neste poema, a desejada unidade harmônica da vida - para além das negações, das rupturas, das cisões, das precariedades - está anunciada: há uma rara e difícil positividade das ideias e das metáforas. Observe a interação entre os versos redondilhos, as estrofes regulares [quatro de quatro versos, uma de três versos] e o coloquial intensamente expressivo.

Canção amiga
[Novos poemas]

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que falem como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Os ombros suportam o mundo
[Sentimento do mundo]

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem a porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És toda a certeza, já não sabe sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa velha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pensa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertam ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
Preferiam [os delicados] morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é um ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Outro poema político e existencial de grande intensidade, representante do poema social de Drummond, aquela em que o coração é menor, muito menor que o mundo. Questionador da relação conflituosa do indivíduo e do mundo, numa perspectiva anti-romantica, anti-lírica convencional, chamando à vida que a por fazer. Texto que exemplifica como a linguagem coloquial e as imagens diretas podem ser altamente expressivas, no conhecimento da necessidade de perceber que a vida é uma ordem, sem mistificação, sem ilusões vãs, com sobriedade, clareza e desencanto irônico, amargo, embora não resignado.

Uma, duas argolinhas

Quadrilha
[Alguma poesia]

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para a tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Poema-piada, em versos livres, tipicamente modernista e drummondiano: carregado de anti-lirismo, de ironia seca e amarga, sobre os desconcertos do amor, sobre a cadeia de desencontros e a permanente falta de correspondência das relações amorosas, mas com humor, que se acentua na figura de Lili, a que não amava e que se casa... Como se o casamento nada tivesse a ver com as histórias de amor.

Amar
[Claro enigma]

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar trás a praia
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amar sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma eterna ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Poema filosófico do alto nível, observe os ritmos, ao mesmo tempo tensos e fluentes, a complexa rede de metáforas enumeradas. O texto funde o lírico da temática amorosa e o episódio da reflexão coletiva, universal, sobre a necessidade de amar. A linguagem funde o coloquial - amar e malamar - e o culto - e amar o inóspito.
Atravessado de indagações e de respostas, este é um dos mais significativos poemas de amor de toda a língua portuguesa.

Poesia contemplada

Procura da poesia
[fragmentos]
[A rosa do povo]

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Não faças poesias com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão inofensivo à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me revele seus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das maquinas nem o segredo das casas.
Não é a música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
[...]
penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.

Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
Ermas de melodia e conceito,
Elas se refugiam na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

Outro poema fundamental na obra de Drummond e no Modernismo brasileiro. poema, linguagem. Poesia que fala de poesia. A concepção é universal na poética moderna: a poesia se faz com palavras, a poesia está na linguagem. O fazer poético é penetração no reino das palavras, descoberta de suas faces secretas, que se escondem sob a face neutra, aparente, usual.

Na praça de convites

Os materiais da vida
[A vida passada a limpo]

Drls? Faço o meu amor em vidrotil
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em clavilux
camabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
à noite asfáltica
plks

Poema de experimentação verbal, de experiências com palavras: criação de neologismo, disposições visuais significantes, jogos sonoros fragmentários, descontinuidade radical dos versos. Observe a intensa ironia drummondiana, parodiando os termos e os slogans da sociedade de consumo altamente urbana e industrial.

Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo

No meio do caminho
[Alguma poesia]

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minha retina tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Provavelmente este é o mais polemico poema da história do Modernismo, por sua concepção e sua estrutura revolucionárias: os versos se repetem, circulares, em torno da pedra [a frase vai até a pedra e volta, sem ultrapassá-la]. Por essa organização sintática, pelo radical coloquialismo da linguagem, pelos inumeráveis leituras fóricas que possibilita, este poema tornou-se um símbolo da poesia de Drummond e do Modernismo brasileiro, No meio do caminho, de poesia antipoética, de lírica antilírica, ilustra a travessia do poeta e de todos nós entre o individual e o social, o coração e a pedra no meio do caminho, o mundo.

A máquina do mundo
[claro enigma]

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco: e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vida dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a maquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
[...]
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhado colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
segui vagaroso, de mãos pensas.

Poema épico-filosófico de dimensão universal. Escrito em tercetos/estrofes de três versos [como a Divina comédia, de Dante] e em versos decassílabos camonianos, sem rima. O texto representa o tema da máquina do mundo, do episódio de Ilha dos amores [Os Lusíadas], em que Vênus, em homenagem às conquistas portuguesas, revela a Vasco da Gama a máquina do cosmos, a estrutura do universo, síntese da concepção da natureza. Numa postura moderna, radicalmente anti-épica, anti-heróica, o narrador-personagem se recusa a contemplá-la e continua o caminho, de mãos pensas...


 

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