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Guerra Fria

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História Por Algosobre Assinar feed do autor
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Toda sociedade costuma produzir uma imagem ideal a respeito de si mesma. É a partir dessa imagem que ela gosta de se enxergar, e que gostaria de ser lembrada no futuro. Nos grandes centros urbanos, a sociedade procura fazer-se notar através de obras que denotam progresso, riqueza e modernidade. No decorrer da História, muitos povos passaram à memória da humanidade através de edificações suntuosas, como as pirâmides erguidas por ordem dos faraós do Egito, e os magníficos edifícios e templos do Império Romano e da Grécia Antiga.

É claro que a perspectiva grandiosa corresponde sempre ao ponto de vista de quem está no poder.

São os poderosos que têm motivações para glorificar sua época. E são eles que possuem os meios para criar monumentos e produzir imagens. Um escravo do tempo dos faraós, por exemplo, que trabalhou duro na construção de uma tumba, provavelmente não teria um depoimento muito favorável sobre sua própria época.

A imagem ideal de uma sociedade realça sempre as suas qualidades e procura esconder ou minimizar os aspectos negativos. Essa tendência fica mais acentuada quando um país está em guerra. Nesse caso, é essencial que se produzam imagens para estreitar a união do povo e estimular o espírito de luta dos soldados e das nações. Nos períodos de guerra, representações visuais e sonoras carregadas de simbolismo, como a bandeira e o hino nacional, são fundamentais para se manter em alta o ânimo de um exército em luta.

O poder da imagem no século XX

O poder da imagem tornou-se questão estratégica durante o século XX, com o desenvolvimento de mídias de grande impacto como a fotografia, o cinema, o rádio e a televisão. Com o avanço da tecnologia, a reprodução e o alcance das comunicações passaram a abranger virtualmente todo o planeta.

Esse apelo à imagem já podia ser notado na Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918. Ele foi fundamental para a criação de um espírito nacionalista nos dois lados em luta. Um recurso muito utilizado na Primeira Guerra foi a reprodução de milhares de cartazes para estimular o alistamento e pedir contribuições em dinheiro e em horas de trabalho pelo chamado "bem da pátria".

Não por acaso, a propaganda visual tornou-se uma das partes centrais da monumental máquina de guerra de Adolf Hitler. O ministro da Propaganda, Josef Goebbels, foi peça-chave do esquema nazista durante a Segunda Guerra, entre 1939 e 1945. Nas mensagens publicitárias e filmes produzidos sob orientação dele, as imagens depreciavam de forma explícita os judeus, os comunistas e outros inimigos do nazismo.

Na verdade, o auge da utilização bélica da imagem aconteceu durante a Guerra Fria. No lugar dos mísseis, disparavam-se as armas da propaganda. Em vez de ogivas nucleares, detonavam-se mensagens persuasivas elaboradas cuidadosamente. Os objetivos eram ganhar a simpatia da opinião pública e procurar convencer o outro lado de sua superioridade militar.

A propaganda ideológica

Na Guerra Fria, os temas da propaganda ideológica eram complexos porque envolviam ideais distintos de vida, democracia e felicidade. No bloco soviético, por exemplo, esses ideais refletiam o processo político desencadeado com a Revolução de 1917.

A União Soviética surgiu em 1922, dentro dos planos da Revolução Russa liderada por Vladimir Lênin e Leon Trotsky. Os bolcheviques idealizavam uma sociedade igualitária, com direitos e deveres iguais para todos, sem a exploração do homem pelo homem. O Estado passaria a proprietário das terras, da grande indústria e dos bancos. Uma sociedade sem desigualdades e sem classes sociais.

Mas a Rússia de 1917 era um país essencialmente rural. Era necessário realizar um salto tecnológico, como forma de se criar empregos. Segundo Lênin, o sucesso do socialismo dependia do sucesso do programa de industrialização do país. Essa imagem, associando felicidade e produção industrial, perduraria por toda a existência da União Soviética.

Nos primeiros anos da revolução, a indústria do cinema soviético já aparecia como um veículo de reforço dos ideais socialistas. Foram produzidos filmes como o clássico "O Encouraçado Potemkin" e "O Fim de São Petersburgo".

Uma descrição Panorâmica

A Guerra Fria foi um período em que a guerra era improvável, e a paz, impossível. Com essa frase, o pensador Raymond Aron definiu o período em que a opinião pública mundial acompanhou o conturbado relacionamento entre os Estados Unidos e a União Soviética. A divisão do mundo em dois blocos, logo após a Segunda Guerra Mundial, transformou o planeta num grande tabuleiro de xadrez, em que um jogador só podia dar um xeque-mate simbólico no outro. Com arsenais nucleares capazes de destruir a Terra em instantes, os jogadores, Estados Unidos e União Soviética, não podiam cumprir suas ameaças, por uma simples questão de sobrevivência.

A paz era impossível porque os interesses de capitalistas e de comunistas eram inconciliáveis por natureza. E a guerra era improvável porque o poder de destruição das superpotências era tão grande que um confronto generalizado seria, com certeza, o último. Hoje, podemos ver isso claramente. Mas, na época, a situação se caracterizava como o equilíbrio do terror.

Quando começou e quando terminou a Guerra Fria

Não existe um consenso sobre a data exata do início da Guerra Fria. Para alguns estudiosos, o marco simbólico foi a explosão nuclear sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945.

Outros acreditam que seu início data de fevereiro de 1947. Foi quando o presidente norte-americano Harry Truman lançou no Congresso dos Estados Unidos a Doutrina Truman, que previa uma luta sem tréguas contra a expansão comunista no mundo.

E há também estudiosos que lembram a divisão da Alemanha em dois Estados, em outubro de 1949. O surgimento da Alemanha Oriental, socialista, estimulou a criação de alianças militares dos dois lados, tornando oficial a divisão da Europa em dois blocos antagônicos. Poderia ser esse o marco inicial da Guerra Fria.

Não há consenso também sobre quando terminou a Guerra Fria. Alguns historiadores acreditam que foi em novembro de 1989, com a queda do Muro de Berlim, um dos grandes símbolos do período de tensão entre as superpotências.

Nessa mesma perspectiva, o marco final da Guerra Fria poderia ser a própria dissolução da União Soviética, em dezembro de 1991, num processo que deu origem à Comunidade dos Estados Independentes.

E outros analistas, ainda, consideram que o período terminou não em dezembro, mas em fevereiro de 1991, quando os Estados Unidos saíram da Guerra do Golfo como a maior superpotência de uma nova Ordem Mundial.

"Quando se tenta delimitar os marcos da Guerra Fria, as pessoas escolhem datas que enfatizam aquilo que lhes parece ser o mais importante. Por exemplo, aqueles que acham que a questão nuclear é o principal, dirão que a Guerra Fria começou em 1945, com Hiroshima e Nagasaki, e terminou em 72, com os acordos do Salt-1.

Para aqueles que acham que o principal foi a relação entre os blocos, os marcos serão, provavelmente, a Doutrina Truman, em 1947, e a queda do Muro de Berlim, em 1989. Mas a Guerra Fria foi muito mais do que apenas uma disputa armamentista ou geopolítica. Ela teve uma importante dimensão cultural, que colocou em movimento um jogo simbólico do Bem contra o Mal.

Ela mexeu com a imaginação das pessoas, criou e reforçou preconceitos, ódios e ansiedades. Nesse sentido mais amplo, dois marcos parecem ser mais adequados quando se trata de dar à Guerra Fria o seu conteúdo simbólico mais abrangente: o seu início foi a conquista de um novo poder, a bomba atômica, e o seu fim foi a Guerra do Golfo, quando os Estados Unidos escolheram outros símbolos do Mal para ocupar o lugar que antes pertencia ao comunismo, como o chamado fanatismo islâmico ou o narcotráfico." José Arbex Jr.

Jornalista

Socialismo e capitalismo: dois ideais de felicidade

A Guerra Fria se manifestou em todos os setores da vida e da cultura, representando a oposição entre dois ideais de felicidade: o ideal socialista e o ideal capitalista. Os socialistas idealizavam uma sociedade igualitária. O Estado era o dono dos bancos, das fábricas, do sistema de crédito e das terras, e era ele, o Estado, que deveria distribuir riquezas e garantir uma vida decente a todos os cidadãos.

Para os capitalistas, o raciocínio era inverso. A felicidade individual era o principal. O Estado justo era aquele que garantia a cada indivíduo as condições de procurar livremente o seu lucro e construir uma vida feliz. A solução dos problemas sociais vinha depois, estava em segundo plano.

É por isso que a implantação de um dos dois sistemas, em termos mundiais, só seria viável mediante o desaparecimento do outro. Nenhum país poderia ser, ao mesmo tempo, capitalista e comunista. Esta constatação deu origem ao maior instrumento ideológico da Guerra Fria: a propaganda.

A Corrida Armamentista

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O Minuteman foi o primeiro míssel balístico desenvolvido pelos EUA
O filme "O Planeta dos Macacos", que mostra as dificuldades do ser humano na Terra no ano de 3.978, é um exemplo da preocupação do cinema norte-americano em abordar o tema da devastação nuclear, tão comum no período da Guerra Fria. Diversos filmes tratam do assunto, como "Síndrome da China" e "The Day After", na tentativa de fazer um alerta sobre os perigos da guerra nuclear. O surgimento da bomba atômica teve sérias implicações históricas, políticas e culturais. Durante o período da Guerra Fria, o pesadelo da chamada "hecatombe nuclear" rondou a vida dos habitantes do planeta. Acreditava-se que o ataque de um dos lados, num momento qualquer, desencadearia uma guerra que poria fim à vida humana na Terra.

Nós vamos ver de que modo a bomba atômica surgiu e se transformou num dos elementos principais do jogo de poder entre Estados Unidos e União Soviética. Um jogo macabro conhecido como "o equilíbrio do terror".

Einstein e a bomba atômica

O início da corrida armamentista nuclear foi marcado por um apelo de Albert Einstein ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, numa carta enviada em 1939. O físico alemão mostrava-se preocupado com a possibilidade de Hitler ter acesso à tecnologia nuclear antes dos americanos. Roosevelt decidiu ampliar os investimentos em pesquisas e determinou, em 1942, o início do Projeto Manhattan, voltado ao desenvolvimento da bomba atômica. Três anos depois, em julho de 45, a equipe de Robert Oppenheimer fez o primeiro teste bem sucedido de explosão nuclear no deserto de Alamogordo, no estado americano do Novo México.

Na mesma ocasião, realizou-se na Alemanha a Conferência de Potsdam. O presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, negociou com Josef Stalin, da União Soviética, e Winston Churchill, da Grã-Bretanha, a nova divisão do mundo após a Segunda Guerra. Informado do sucesso dos testes no Novo México, Truman endureceu sua posição na conferência e tentou limitar a influência soviética na Europa.

Para muitos historiadores, o marco inicial da Guerra Fria foi o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Nessa perspectiva, a destruição das duas cidades nada teve a ver com o Japão, já militarmente derrotado, e sim com a divisão geopolítica do mundo. O propósito dos Estados Unidos, para esses historiadores, foi de intimidar Moscou e conter o avanço do comunismo.

Em fevereiro de 47, Truman fez no Congresso americano um discurso que mais tarde ficaria conhecido como "Doutrina Truman". O presidente prometia acabar com a chamada "ameaça comunista" em qualquer parte do mundo onde ela surgisse. Era apenas o início de uma longa temporada de tensões internacionais que caracterizariam a Guerra Fria. A Europa se divide

Em abril de 1949, diversos países ocidentais, sob a liderança dos Estados Unidos, criaram a OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte. A aliança consagrava, no aspecto militar, a divisão da Europa em dois blocos antagônicos. Os primeiros países a integrar a OTAN foram Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Canadá, Bélgica, Dinamarca, Islândia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega e Portugal. Em 52, entraram a Grécia e a Turquia. Em 55, a Alemanha, e em 82, a Espanha.

A situação esquentaria ainda mais em agosto de 49, quando a União Soviética faria seu primeiro teste nuclear bem sucedido.

O antagonismo na Europa ficou mais evidenciado com a divisão da Alemanha em dois países, ainda em 49. A área ocupada pelo Exército soviético tornou-se a República Democrática da Alemanha e passou a integrar o bloco socialista. Sua capital era a parte oriental da cidade de Berlim, também dividida em duas.

Comunismo chinês: a Guerra Fria na Ásia

O ano de 1949 foi conturbado também no continente asiático. Em outubro, o Partido Comunista Chinês, liderado por Mao Tse-tung, tomou o poder e proclamou o nascimento de mais um país socialista, a República Popular da China. Um gigante continental com uma população, na época, de mais de 500 milhões de habitantes.

Os americanos, com a Doutrina Truman, não estavam alheios ao avanço da esquerda na Ásia e reforçaram a presença militar na bacia do Pacífico, procurando preservar sua influência no sudeste asiático. Dessa forma, a revolução chinesa levou para a Ásia as fronteiras da Guerra Fria. Havia o receio de que o Japão, pela proximidade com a União Soviética e a China, fosse engolido pelo bloco socialista.

Uma das primeiras conseqüências dos acontecimentos na China foi a invasão da Coréia do Sul pelos vizinhos norte-coreanos, de governo pró-soviético. Eles queriam reunificar o país sob a bandeira do socialismo. A ofensiva, em junho de 1950, desencadeou uma ação enérgica dos Estados Unidos, que aprovaram na ONU uma ajuda multinacional à Coréia do Sul. Era tudo o que os americanos queriam. Em algumas semanas, sua indústria bélica produzia uma quantidade expressiva de armamentos para uso na Guerra da Coréia.

Além disso, Washington estimulou a participação do Japão no chamado "esforço de guerra". A indústria japonesa passou a produzir o material de apoio aos soldados no front, como roupas, remédios e alimentos sintéticos. Com isso, o Japão tentou resolver o problema do desemprego por meio de compromissos econômicos com o bloco capitalista. No final do conflito, em 53, a rígida divisão entre capitalistas e socialistas na bacia do Pacífico estava cristalizada. Essa batalha estratégica pelo controle do sudeste asiático teria desdobramentos dramáticos nos anos 60, com o envolvimento direto dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

A corrida espacial

Yuri Gagarin, antes do lançamento ao espaço
Yuri Gagarin, antes do lançamento ao espaço
Ninguém sabe, exatamente, quando o homem teve pela primeira vez o desejo de voar. Sabemos que é uma ambição muito antiga. A mitologia, a arte e a literatura de todas as épocas e culturas estão repletas de imagens de homens-pássaros e do anseio humano de alcançar os céus.

A corrida espacial nos remete ao desenvolvimento tecnológico do século XX, particularmente do período da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética disputavam quem obteria primeiro maior domínio e conhecimento do espaço. É claro que essa disputa tinha um significado científico e militar. Mas não era só isso. Talvez mais importante do que o aspecto da estratégia, havia também uma profunda questão psicológica e cultural envolvida. Para entender por quê, é preciso fazer uma pequena viagem no tempo.

De Ícaro a Isaac Newton

Uma das figuras mais célebres da mitologia é Ícaro, filho do arquiteto Dédalo de Creta. Para que Ícaro fugisse da ilha onde estava aprisionado, seu pai construiu-lhe asas de cera. Ícaro conseguiu escapar, mas sua ambição o levou a um vôo tão alto que o Sol acabou por derreter a cera. Ícaro caiu no mar e morreu. Num tempo bem mais recente e real, o homem tentou construir máquinas de voar. O gênio renascentista Leonardo Da Vinci, no início do século XVI, desenhou esquemas de aparelhos muito parecidos com os atuais helicópteros. O artista estudou a anatomia dos pássaros e seus movimentos de vôo. Apesar de avançadas, as concepções de Da Vinci não saíram do papel porque faltava-lhe o conhecimento das leis fundamentais da aerodinâmica, que seriam formuladas muito posteriormente.

Na mesma época, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico causou um grande escândalo ao propor um modelo do sistema solar em que o centro seria o Sol e não a Terra, como pregava a Igreja Católica.

No século XVII, a investigação do espaço tornou-se mais fácil com o telescópio aperfeiçoado por Galileu. Em algumas semanas, o fundador da ciência experimental moderna foi capaz de fazer um mapa da face visível da Lua. Galileu teve sérios problemas com a Santa Inquisição por sustentar que os planetas se moviam e, principalmente, por apoiar a teoria heliocêntrica de Copérnico. Para a Igreja, as estrelas e os planetas estavam todos fixos na abóbada celeste, e a Terra era o centro do Universo.

Na mesma época, o astrônomo alemão Johannes Kepler calculava a órbita elíptica dos planetas. Alguns anos depois, ainda no século XVII, o físico inglês Isaac Newton viria a formular as leis da atração da gravitacional e do movimento dos corpos celestes.

A conquista do espaço e a literatura

À medida que o desenvolvimento da ciência tornava mais viável o sonho de voar, crescia o interesse da literatura pelo assunto. Nos séculos XVIII e XIX, grandes escritores tentaram captar a força dos sentimentos quase mágicos provocados pela chamada "conquista do espaço". Em 1865, o romancista francês Jules Verne, um dos pioneiros da ficção científica, lançou o livro "Da Terra à Lua". Conta a história de um homem enviado ao espaço dentro de uma cápsula, impulsionada por uma espécie de canhão gigante.

Em 1898, o escritor e historiador Inglês H.G. Wells publicou o livro "A Guerra dos Mundos", abordando a possibilidade de vida em outros planetas. A obra seria a inspiração de Orson Welles em seu célebre programa de rádio de 1938. O programa, que provocou pânico nos Estados Unidos, simulava o ataque de Nova York por invasores marcianos.

Santos-Dumont

Quando o assunto é a conquista do espaço, a primeira coisa que normalmente nos vem à cabeça são os grandes foguetes. Mas antes deles houve um longo processo de invenções e descobertas, desde os primitivos mísseis usados pelos chineses contra o exército de Kubilai Khan, no século XIII, até as máquinas voadoras mais pesadas que o ar.

Nesse sentido, a história da conquista espacial daria um grande salto em 1901, ano em que o engenheiro brasileiro Alberto Santos-Dumont fez um pequeno vôo em torno da Torre Eiffel, em Paris. A façanha foi a bordo de um balão de hidrogênio equipado com um pequeno motor a gasolina. A experiência, que deu fama a Santos-Dumont, coroou um longo trabalho para tornar dirigíveis os aparelhos mais leves que o ar.

Mas o grande êxito do inventor brasileiro seria obtido em outubro de 1906, com o histórico vôo do 14-Bis. Pela primeira vez, um aparelho mais pesado que o ar foi capaz de levantar vôo por meios mecânicos próprios. Começava ali uma nova fase na história da humanidade.

O que Santos-Dumont não calculou foi o potencial destrutivo de seu invento, quando utilizado como arma de guerra.

Para desgosto do Pai da Aviação, já na Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, era evidente o significado bélico da conquista do ar. Naquela época, a falta de instrumentos precisos de balística para determinar a trajetória das bombas contribuiu para a devastação de centros urbanos e para a morte de um número assombroso de civis. A humanidade estava ingressando na era da alta tecnologia de destruição.

Dos monomotores aos bombardeiros

Depois da Primeira Guerra, a indústria da aeronáutica experimentou um extraordinário crescimento. Dos pequenos monomotores a hélice de 1914, a indústria militar passou à fabricação de bombardeiros de grande porte.

Na Segunda Guerra Mundial, os aviões tinham capacidade de transportar um número expressivo de pára-quedistas, de interceptar aeroplanos e de lançar detonadores de minas submarinas inimigas. Além disso, os alemães já contavam com o primeiro avião a jato, criado em 1928. O modelo deu origem ao jato de combate He-280, utilizado na Segunda Guerra a partir de 1941.

O grande salto qualitativo na conquista do espaço, no entanto, seria representado pelo sinistro foguete V-2, concebido no fim dos anos 30 pelo físico alemão Werner Von Braun. A "arma da vingança", como ficou conhecido o V-2, era movida a combustível líquido e possuía um alcance de 322 quilômetros. A simples existência do armamento deixava a Europa em pânico. Mais de 4 mil foguetes V-2 foram lançados contra Londres, entre setembro de 1944 e março de 1945. A pesquisa necessária à fabricação do V-2 viria a ser utilizada no desenvolvimento da tecnologia espacial soviética e americana durante a Guerra Fria.

A Espionagem

Um dos temas mais freqüentes nas telas de cinema a partir da década de 60 é a espionagem. Cineastas americanos e europeus produziram aventuras, dramas e comédias com espiões dos mais diversos tipos. Quando o assunto é espionagem, a primeira coisa que geralmente nos vem à cabeça é a figura do superespião James Bond. "Moscou Contra 007" é o segundo filme da série baseada nos livros de Ian Fleming, ele mesmo um ex-agente britânico em Moscou, nos anos 50.

Os filmes de James Bond, feitos na Inglaterra, estão diretamente ligados ao período de tensão entre as superpotências, e dão uma idéia da importância do cinema no cenário da Guerra Fria. Mostram as aventuras de um sedutor espião ocidental em luta contra vilões aparentemente a serviço da União Soviética. Por mais que se fale em agentes americanos e soviéticos, curiosamente o espião mais célebre do cinema é britânico e está a serviço de Sua Majestade.

É verdade que, no mundo real, os serviços secretos europeus estiveram bem ativos durante o período da Guerra Fria. Mas as duas grandes forças da comunidade de informações eram mesmo a CIA e a KGB. E é sobre o mundo real da espionagem que vamos falar hoje. Um mundo desprovido de conceitos como moral e ética, em que para cada espião infiltrado num país estrangeiro existia um batalhão de funcionários públicos anônimos, encarregados de coletar dados na imprensa e tabular informações fornecidas por embaixadas e consulados. Uma rotina que fazia parte de uma história ainda muito mal contada.

Espionagem, ofício antigo

Foi durante a Guerra Fria que a espionagem adquiriu a importância que tem hoje. Mas não é uma atividade recente na história da humanidade. Entre os hititas, povo indo-europeu que há mais de 3 mil anos habitava a região onde hoje é a Turquia, já circulavam informes sobre os inimigos, escritos em pedaços de argila. O primeiro tratado conhecido sobre espionagem é do ano 510 antes de Cristo. Chama-se "Princípios da Guerra", e foi elaborado pelo estrategista chinês Sun-tzu. Mas foram necessários dois milênios até que os Estados investissem em agências de espionagem e informação.

Até o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, os poucos serviços secretos operavam de forma precária e amadorística. Na época, não havia uma agência desse tipo nos Estados Unidos. Na França e na Grã-Bretanha, os serviços secretos estavam paralisados por escândalos políticos. Na Rússia, as atividades de espionagem da era czarista desmoronavam sob os efeitos da guerra e da revolução comunista. E, entre os alemães, o serviço razoavelmente eficiente era desprezado pelos generais prussianos, mais interessados no poderio militar.

Alguns historiadores acreditam que, se as potências da época contassem com uma rede eficiente de informações, a Primeira Guerra poderia ter sido evitada. Ninguém esperava pelos desdobramentos dos conflitos nos Bálcãs, que culminaram numa guerra global até certo ponto involuntária.

Já na Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, o dirigente soviético Josef Stalin teria menosprezado uma importante informação de um de seus espiões, que fornecia exatamente o dia e a hora em que Adolf Hitler iniciaria a invasão da União Soviética. Stalin já havia condenado à morte seus mais respeitados estrategistas, entre 1938 e 1939. Assim, a ofensiva nazista, em junho de 41, apanhou os soviéticos de surpresa e sem seus melhores quadros militares.

Da mesma forma, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, não teria dado crédito às informações sobre um provável ataque do exército japonês à base americana de Pearl Harbor, no Havaí, em dezembro de 41.

Século XX: nova força à espionagem

Esses episódios, que poderiam ter sido evitados através de um sistema de informações, foram decisivos para os investimentos em serviços de espionagem. A formação de dois grandes blocos econômicos depois da Segunda Guerra, liderados por Estados Unidos e União Soviética, também foi um fator importante para o desenvolvimento da chamada comunidade de informações. Pela primeira vez na história, o planeta havia se tornado uma arena gigante, onde duas superpotências desafiavam-se mutuamente. Nesse novo cenário, os inimigos desenvolviam tecnologias de destruição cada vez mais poderosas, destrutivas, rápidas e eficazes.

Sem dúvida, forças tão formidáveis exigiam um balanço permanente e atualizado de ambos os lados. Cada superpotência precisava estar sempre por dentro das conquistas tecnológicas do adversário. Assim, chegamos ao ponto que nos interessa: o desenvolvimento das técnicas de espionagem no período da Guerra Fria.

Espionagem e revolução

Na União Soviética, as relações internacionais no início da Guerra Fria estimularam a modernização do serviço secreto, criado em 1917 durante o processo revolucionário. Na época, chamava-se Cheka, iniciais de "Comitê Contra Atos de Sabotagem e Contra-Revolução". Como Cheka, o serviço combateu as atividades internas contrárias à revolução comunista. Era o período de guerra civil, que se prolongou até 1921. Em 1922, ano da criação da União Soviética, passou a se chamar GPU, iniciais de "Administração Política do Estado". A GPU tornou-se a polícia política de um Estado já consolidado, e investiu contra os inimigos clandestinos do novo regime.

Nos anos 30, o serviço passou a atuar diretamente sob as ordens de Stalin e acabou rebatizado como NKVD, "Comissariado do Povo para Assuntos Internos". Foi um período de intensa perseguição aos adversários políticos do líder soviético, dentro do próprio partido comunista. Muitos deles foram torturados e executados.

O caso mais célebre é o do ex-chefe do Exército Vermelho, Leon Trotsky. Exilado no México, ele foi assassinado em 1940 por Ramon Mercader, um ativista espanhol supostamente instruído pelo NKVD. O atentado contra Trotsky foi uma das poucas ações internacionais atribuídas ao serviço secreto soviético, na época. Até o final da Segunda Guerra, as principais funções do NKVD relacionavam-se ao controle e à repressão dentro do próprio país. Anos 50: surge a KGB

Com a divisão do mundo em blocos e o início da Guerra Fria, o sistema de informações soviético foi gradativamente ampliando sua presença em outros países. O ano de 1954 foi decisivo nesse processo. Logo após a morte de Stalin, em 53, o chefe da NKVD, Laurenti Beria, tentou tomar o poder. Acabou executado por ordem da cúpula do Partido Comunista, que reformulou toda a estrutura do serviço secreto. A KGB surgia, nesse cenário, com a missão de conciliar a manutenção do controle interno com uma ação mais efetiva fora do território soviético.

A situação era tensa na Europa. Forças da OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte, criada em 1949, movimentavam-se nas bases militares instaladas nas fronteiras com a Europa Oriental. No bloco socialista, havia sinais de insatisfação popular na Alemanha Oriental, Hungria e Polônia.

Numa tentativa de unir os países do bloco e fazer frente à OTAN, Moscou tratou de criar, em 1955, o Pacto de Varsóvia. A KGB passou a operar dentro dos aparelhos de Estado e dos serviços secretos desses países, e também na imprensa e nas associações de trabalhadores. A central soviética de informação e espionagem tornou-se uma sombra onipresente em todas as instâncias da sociedade.

Em meio a denúncias de assassinatos e de violação sistemática dos direitos humanos contra presos políticos, a KGB coordenou, em 1956, a invasão da Hungria pelos tanques do Pacto de Varsóvia. No mesmo ano, orientou a repressão de um movimento reformista na Polônia. A forte influência da KGB junto à cúpula do Pacto de Varsóvia foi decisiva para a iniciativa do governo da Alemanha Oriental de erguer o Muro de Berlim, em 1961.

"Podemos afirmar que a KGB era a própria alma do sistema soviético. é simples mostrar isso. No auge do império comunista, após a Segunda Guerra, a União Soviética era formada por 15 repúblicas que abrangiam um território de 22 milhões de km² , quase três vezes o tamanho do Brasil, e com uma população de mais de 200 milhões de habitantes. Essa população era composta por povos que falavam pelo menos 300 idiomas e professavam todas as grandes religiões conhecidas. Apesar dessa tremenda diversidade cultural, e das diferenças econômicas e históricas, só havia um partido político legalizado: o Partido Comunista. É claro que a ditadura de partido único só podia se manter às custas da mais feroz repressão. Sem a KGB, não existiria a União Soviética.



 
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