Método Psicanalítico: 1 - O Método e o Objeto

Desde Platão, o método para alcançar o conhecimento foi uma preocupação da filosofia. Descartes concebeu três métodos: o dedutivo, o indutivo e o anagógico. Este último ficou perdido no emaranhado da teoria do conhecimento desde que, tendo sido adotado pela religião, passou a ser chamado de revelação. Quando Santo Agostinho resolve o problema da eternidade de Deus, deixa de ser agnóstico e relata seu encontro com Deus como uma apreensão de sua existência somente depois de ter tido uma compreensão que abrangia um conhecimento que se dera como um todo, de trás para diante, somente depois que tivera o total conhecimento, ou seja a revelação. Desta forma, tal maneira de alcançar o conhecimento quase passou a ser apenas uma forma que se restringia à conversão religiosa. Entretanto, não é uma forma incomum de se alcançar o conhecimento científico e filosófico, pois muitas inteligências não alcançam o conhecimento por acumulação sucessiva, mas somente depois que conseguem apreender a totalidade dos elementos ligados a determinado saber, exatamente, de trás para diante e como que de repente.

Podem ser arroladas como exemplos simplistas desta forma de alcançar o conhecimento — o método anagógico —: a queda da maçã de Newton, a heureca de Arquimedes e um relato feito por Ernst Cassirer segundo o qual estava empurrando o carrinho de bebê com sua neta, quando concebeu repentinamente toda a organização da Filosofia das Formas Simbólicas, abandonou o carrinho e foi correndo ao seu gabinete começar a escrever; depois disto levou 8 anos para completar seus três volumes de 1921 a 1929 (Cassirer, 1921-1929).

Os outros dois métodos, o dedutivo e o indutivo, são muito mais difundidos e dispensam maiores comentários. São todos, entretanto, métodos para alcançar o conhecimento em geral.

Seria função da filosofia, e de cada uma das ciências que se foi desmembrando dela, passar a indagar qual é o método que cada ciência passou a utilizar e, depois, fazer nova indagação: qual é o objeto de cada uma dessas ciências.

O método de cada ciência é de grande importância na sua consolidação, pois é ele que leva o indivíduo a passar da observação ingênua para a observação científica e foi isto que não escapou à observação de Karl Marx quando proferiu sua já famosa expressão: “Se as coisas fossem como parecem ser, não haveria a necessidade da ciência.”. E, para que elas transpareçam como são é necessário que sejam estudadas metodicamente.

Por isto mesmo é que é aqui que começam as grandes dificuldades, pois como as ciências foram se destacando da filosofia guiadas por motivações diversas, várias eram as formas de definirem seu objeto e seu método.

Aparentemente, ao inverso do que deveria ter sido, destacavam-se pelo objeto ao qual iriam dedicar-se. O primeiro passo foi a definição de qual era o objeto da ciência: o mundo físico, competia à física; a maneira de os objetos se alterarem ao serem colocados uns em contatos com os outros e as leis que regiam estas transformações, competiam à química e assim por diante.

A dificuldade de se definir um objeto mostrou como esta escolha foi uma clara inversão de procedimentos, como toda a filosofia e a ciência tem claro hoje em dia.
Passou-se, então, a definir o objeto de uma ciência como aquele objeto que era estudado por seu método. Simples. Se uso o método da física para estudar, por exemplo, um copo, este será objeto da física. Se sobre o mesmo copo, aplico o método da química, este será objeto da química.

Quais são, entretanto, os métodos da química e da física?

Começa nova dificuldade.

De pronto o método é definido com o conjunto de técnicas usadas por uma ciência.

Não nos dávamos conta que, definindo o método desta forma, estávamos definindo-o pela técnica, instrumento de uma ciência da qual o método deve ser destacado, pois precede-a sendo-lhe superior. Técnicas de pesagem, usamos tanto na química quanto na física, outro exemplo simples.

No que diz respeito à psicanálise, clara fica a confusão quando se tomam normas técnicas por método. Fazemos assim com questões como a frequência semanal e a duração de sessões; oportunidade adequada para uma interpretação: somente quanto o paciente estiver a ponto de perceber (Freud); ou, no momento em que o analista perceber, deve comunicar ao paciente, pois ele pode não ter oportunidade de voltar a falar ao paciente (Bion); ou ainda, nada de interpretações, somente o assinalamento do significante e, quando fizermos esse assinalamento, procedemos imediatamente ao corte (Lacan). Regras de como o paciente deve comunicar-se com o analista — associação livre —, ou de como o analista deve usar sua atenção — flutuante. Regras, portanto, regras técnicas, não o método psicanalítico.
O Método é definido, ainda, pela etmologia da palavra — recurso usado por Herrmann nos Andaimes do Real (1979) —, caminho para um fim, o que destrinça, mas não esclarece, não define no sentido de mostrar um meio definitivo para encontrarmos o caminho de cada ciência.

Devemos dispor de um conceito de método que não seja somente uma forma de reunir o conjunto hipotético de suas partes técnicas nem somente a origem etmológica da palavra, embora, utilizando-se deste recurso no local citado, Herrmann nos remeta a uma forma interessante de discriminar método de processo e de técnica.

Paralelamente a estas questões que se vêm propondo à filosofia, outra, muito próxima, também vem se impondo e recebendo soluções, qual seja a já apontada dificuldade de se definir o objeto.

O que é objeto?

Se é o objeto do mundo dado, ao qual a ciência devia dedicar sua observação, progressivamente a filosofia foi-se defrontando com outro problema. Como um cajado, objeto dado do mundo, era o apoio para um trôpego, o símbolo de poder de um rei, o símbolo de poder de um xamã, um objeto de arte que pousava ornamentando um canto isolado de uma sala? Propunha-se uma questão: era o mesmo objeto? Eram objetos diferentes?
A filosofia crítica propôs-se a separar coisa-em-si de objeto e, a princípio, começou-se a distinguir forma de conteúdo, depois essência de substância como forma de resolver esta questão.

Entretanto, assim como Karl Marx demonstrou serem uma coisa só a forma e o conteúdo, Ernst Cassirer, na filosofia, e Albert Einstein, na física, demonstraram ser uma só coisa a essência e a substância. O objeto vai, então, perdendo a consistência conceitual que adquirira com a filosofia crítica, segundo a qual, todo conhecimento estava determinado pelos dados apriorísticos de tempo e espaço e, por seu ramo empirista, provinha da experiência. O objeto passa a necessitar de uma nova conceituação.

É neste momento que confluem a pouca especificidade do conceito de método e do conceito de objeto e, nesta confluência,  acabam por alcançar maior especificidade. Na nova filosofia fenomenológica de Hurssel (1929), Cassirer (1921-1929), Merleau-Ponty (1945), com a ajuda da linguística moderna de Ferdinand de Saussure (1906-7, 1909-1911)1 e tantos outros, o objeto é concebido como criação da consciência no momento imediato de sua percepção. Assim, o símbolo de poder do rei é um objeto, o apoio de um trôpego é outro, o símbolo do poder de um xamã outro ainda e mais um outro, é o objeto estético. Aquilo que chamamos cajado é o suporte expressivo, ou o referente, sobre o qual a consciência cria 4 objetos dependendo da forma segundo a qual está organizada.

De que ajuda pode ser esta mudança de conceitos na filosofia de utilidade para a ciência? Pode facilitar-nos a tarefa de afirmar que o objeto de uma ciência é aquele criado pela aplicação do método da ciência. Assim, um mesmo suporte expressivo pode ser: ora o objeto de uma ciência, ora de outra, se lhe aplicarmos o método desta ou daquela outra. Mas, o mesmo suporte expressivo pode também ser objeto da arte se nossa consciência, ao percebê-lo, está esteticamente organizada. Ainda pode ser um objeto mágico se nossa organizamos para apreendê-lo como objeto mítico.

Assim, aquele nosso copo é objeto da física, quando estudado pelo método da física; é objeto da química quando estudado pelo método da química; é objeto estético quando utilizado para ornamentar um painel e visto com os olhos da estética; é objeto do mito quando usado para percorrer letras, formando frases ditadas por espíritos que já habitaram entre nós, ou ainda, é um objeto também mítico quando, com pequena quantidade de vinho, é alçado acima da cabeça de um sacerdote em oferenda a um Deus tornando-se, então, consagrado. Repito, são objetos diferentes segundo a forma de a consciência organizar-se para conceber cada qual. Parece que voltamos ao ponto inicial, entretanto, tentarei, quando tratar do objeto e do método da psicanálise, especificar melhor quais mudanças foram proporcionadas pela confluência referida acima.

O mesmo se dá com o objeto da psicanálise.

É objeto da psicanálise aquele objeto estudado, ou criado, pela aplicação do método da psicanálise.

As ciências têm ainda a necessidade de distinguir entre seu objeto, aquele estudado pela aplicação de seu método, dos objetos aos quais aplicamos seu conhecimento, os objetos aos quais aplicamos não o método da ciência, mas o conhecimento propiciado pela aplicação do método.

Podemos aplicar os conhecimentos psicanalíticos a uma obra de arte para melhor compreendermos suas formas expressivas sem que estejamos aplicando seu método, embora estejamos aplicando, legitimamente, seus conhecimentos. Não estaremos criando o objeto psicanalítico, pois este somente se cria pela aplicação do método psicanalítico, mas estaremos usando os conhecimentos oriundos da aplicação do método psicanalítico formando um corpo teórico consistente. Assim como, quando diluímos acido sulfúrico lentamente em água, não estamos criando nenhum objeto da física, nem da química, mas aplicando os conhecimentos da físico-química.

Este é o percurso que tentarei fazer, neste texto, quanto ao método psicanalítico e o objeto da psicanálise.

 

icon O Método Psicanalítico por Mário Lúcio Alves Baptista (109 KB)


Referências

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