Narrado em 3ª pessoa, o narrador mergulha no universo infantil de uma criança especial. Ivan Angelo parece incorporar toda aquela investigação psíquica clariceana. Como Ana de Clarice Lispector, Ana LúciPressione TAB e depois F para ouvir o conteúdo principal desta tela. Para pular essa leitura pressione TAB e depois F. Para pausar a leitura pressione D (primeira tecla à esquerda do F), para continuar pressione G (primeira tecla à direita do F). Para ir ao menu principal pressione a tecla J e depois F. Pressione F para ouvir essa instrução novamente.

Título do artigo: Para Gostar de Ler Volume 10: (Menina)

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Narrado em 3ª pessoa, o narrador mergulha no universo infantil de uma criança especial. Ivan Angelo parece incorporar toda aquela investigação psíquica clariceana. Como Ana de Clarice Lispector, Ana Lúcia aqui apresenta, em princípio, as mesmas inquietações comocontar até um número, por exemplo dez, ou doze e ver o que acontece ou gritar de olhos fechadose, abrindo-os, esperar que tudo houvessedesaparecido. E era isso para Ana Lúcia um processo de aprendizagem intenso em que ela saía sempre umpouco mais velha.

As inquietações de Ana são de clara natureza existencial: bom mesmo era fazer nada, nempensar, mas isso só às vezes conseguia, e eraimpossível gozar o momento, sempre passado. Para essa reflexão, o ponto de partida da menina foi a escola, universo transgressor da liberdade do pensar: Achavapéssimo ir à escola, a professora era horrível. É como se o universo adulto, cheio de regras, podasse o que elamais gostava; pensar sem ninguém perto porque aípodia ir avançando até se perder, brincar de santa,dormir, comer doce. Assim, Ana ia cada vez sabendomais.

A lacuna decorrente da ausência paterna revela a crise de Ana que afinava-se embaraçada de nãoconseguir dizer papai do modo de Tita ou Nina. Omitir a verdade é uma prática do universo adulto, e a mãe de Ana não revela que é separada, desquitada. A descoberta desta palavra (desquitada) soa para Ana como agressão e se dá numa aprendizagem dolorosa. Para Ana, o pai está viajando, mas não é a verdade, e os outros sabem disso: - Mentirosa! Sua mãe é desquitada. Assim de supetão, deixou Ana impotente diante da palavradesconhecida. E num lance de sadismo diante do sofrimento da outra, para invocar a causa secreta machadiana, Tita corada e brilhante de prazer na suafrente.

O prazer de ter trazido a tona uma verdade que Ana desconhecia, o prazer no desconforto de Ana. Agora a necessidade da dimensão semântica de desquitada. Em princípio, tenta solucionar sozinha, mas isso extrapola sua capacidade. Sofre com as hipóteses levantadas: Seria umacoisa como burra, feia? Flor? Flor parecia, mas nãoexplicava nada [ ...] Tita dissera como quem diz [ ...]sem-vergonha. Sim! Ana tenta defender a mãe amando-a,amou-a até sentir lágrimas, defendendo-a contraa palavra que poderia feri-la. O aprendizado precisa ir em frente: A professora feia! Quando ela perguntar se alguém tem dúvida. Por que não a professora? Talvezela fosse boa, mas veio a frustração. A timidez produziu insegurança, e Ana não sabe se senta ou chora. A situação se agrava diante do riso: Helenice e seusdentes enormes impossibilitando tudo. As meninasriem, insuportáveis. É o desmoronamento. A professora, irritada, ordenasente-se.

Em casa Ana contempla a mãe: Que bonita que amãe era, com os alfinetes na boca. Ana atua como uma analista investigando o mundo interior das pessoas:Gostava de olha-la (a mãe) calada, estudando seusgestos, enquanto recortava retalhos de pano com atesoura. Agora Ana tem pressa em perguntar para a mãe:A mãe saberia o que ela queria perguntar-lheintensamente agora quase com fome depressadepressa antes de morrer e fuzila:

- Mamãe, o que é desquitada?
[...]
- Desquitada é quando o marido vai embora e a mãe fica cuidando dos filhos.

Então veio o alívio: Desquitada, desquitada,desquitada, repetiu sem medo. Sentia-se completae nova. Agora não precisava amar a mãe com aquela força de antes. Assim, ia Ana Lúcia aprendendo, descobrindo: oque ela chama de marido é o que eu chamo de pai.Ela sabia cada vez mais.

Ivan Angelo (1936...)
Nasceu em Barbacena (MG) e já em 1954 escrevia contos. Em Belo Horizonte, integrou-se, em 1957, ao grupo da revista de arte e cultura Complemento. Pelo livro de contos Homem sofrendo no quarto recebeu o prêmio literário Cidade de Belo Horizonte, em 1959. Dois anos mais tarde publicava seu primeiro livro de contos, Duas faces. Em 1976, lançou A festa, romance pelo qual recebeu o troféu Jabuti. Além de escritor é também jornalista.