Anormal é ser Normal: A Loucura e o Contexto da Psicoterapia

“A minha arte é 'tocar' as pessoas. 'Tocar' pela palavra, gesto, afeto, expressão, olhar, movimentos, etc., nos seus pontos sensíveis, adormecidos, cristalizados,  encantados. Eu consigo ´tocar` quando fui ou estou sendo 'tocado' por essa mesma pessoa” (ABEL GUEDES apud CARDELLA, 1994, p. 56).

Atualmente, mais do que em outras épocas, se busca o psicólogo. Mas, em termos comparativo e proporcional, em relação, por exemplo, a categoria médica, a assistência psicológica ainda perde em disparada. Ao passo que o trânsito para a medicina é livre, mais acessível, sem grandes complicações, para a psicologia é enviesado, tortuoso, cheio de obstáculos. A psicologia não goza de igual ou idêntico prestígio, e isto, em grande parte, se deve ao preconceito ou visão deturpada que impede a procura imediata e espontânea do psicólogo. Na ânsia de acharem saídas fáceis para seus males psíquicos, dores psicológicas ou da alma, muitos pacientes antes de chagarem ao consultório se lançam na peregrinação de panacéias que prometem soluções mágicas. Estas vão desde livros de auto-ajuda até o misticismo nas suas múltiplas vertentes que, meio às escondidas, não deixam de tentar os préstimos de bruxos, curandeiros, etc.

Essa peleja, na maioria das vezes, resulta em perdas de tempo, dinheiro e, que por vezes, agrava ainda a situação, considerando que retarda o seu atendimento. Finalmente, quando já esgotados “optam” pela terapia, ou melhor, psicoterapia, os sintomas já estão cristalizados. E, neste estágio, os casos são muito mais difíceis de ser trabalhados e resolvidos. No geral, o social tem uma relação de ambiguidade com a psicologia, por intuir o seu teor revolucionário. Mas, a praxe da psicologia parece, infelizmente, corroborar mais com a adaptação do indivíduo do que com sua libertação. Ajustado, neste contexto é não sentir angústia, é ter uma atividade que gosta ou tentar encontrar algum prazer na que já desenvolve. Enfim, se harmonizar para não sofrer pelo desejo de mudar, no propósito individualista de que estando bem, pouco importa se o mundoestremeçaem guerra, se crianças morram de fome, etc. Assim, a vida se resume ao trabalho, à família, a alguns amigos, e a reprodução das mesmices de sempre. Isto é o que se chama de vida normal de “pacato cidadão”.

Muitos atores sociais não conseguem viver sem as muletas simbólicas, e parece que em determinadas condições precárias ou limítrofes, de fato, a fantasia, a ilusão ajudam a suportar a realidade hostil e, assim, salvaguardar sua saúde mental. A priori todo mundo quer estar, ou, de preferência, ser feliz. Seria um contra-senso não desejar ou não batalhar pela felicidade. Em virtude da(s) culpa(s) consciente(s) ou inconsciente(s), há boicotes igualmente inconscientes ou nem tanto. Primeiro, porque a felicidade é ameaçadora para o próprio indivíduo, uma vez que, em razão da neura, isto não lhe é muito familiar; segundo, porque afronta o entorno, e que pode comprometer as relações; terceiro, porque os elementos forjadores e mantenedores da felicidade são “perecíveis” e/ou não claramente identificáveis para acioná-los ao bel prazer; e por último, porque geralmente se coloca a responsabilidade desta sua subjetividade nas mãos de outrem ou de proposiçõesexternas à sua pessoa.

Há uma “ordem” social para ser feliz, como se somente fosse possível viver a vida nesse estado de espírito. Segundo Costa (2005), os indivíduos cedem à ilusão de associar aquisição de objetos materiais à felicidade, e é a insatisfação emocional crônica que o torna consumidor modelo. Não estar feliz não significa, necessariamente, estar infeliz ou mal com a vida, e nem apático. O bem estar parece ser mais seguro. A felicidade é efêmera e singular para cada indivíduo. Mas, na neurose há um “apego” a dor, ao medo de não mais gozar que é sustentado pelo ganho secundário ou simbólico do sintoma. Em outras palavras, o paciente resiste em abandonar seu “status” neurótico, por estar colado ao(s) trauma(s) ou fixado na compulsão à repetição. É um sofrimento que, reclamando ou se queixando dele, o sujeito conhece. Portanto, tem um “poder” sobre o mesmo. Por isto teme, em consequência da mudança, não saber lidar com uma nova situação ou que não consiga colocar algo no seu lugar.

Entretanto, não há crescimento sem algum tipo de sacrifício ou dor, daí o psicólogo, na sua autoridade epistêmica, tem que “preparar” o paciente para aceitar a sua assistência. E, assim, deixa claro que sua ajuda, em grande parte, vai depender do quanto o paciente se disponibilize a se ajudar. Embora um profissional competente ou mais experiente, em geral, tenha mais habilidade para dissolver as resistências. Porém, o psicólogo não é mágico, super-homem, não tem poderes sobrenaturais, não faz milagre. Do contrário, o processo psicoterápico não é de fora para dentro, e para que o paciente obtenha algum benefício exige que ele faça um investimento considerável de esforço para romper com seu(s) ciclo(s) vicioso(s), se desvencilhar das amarras psíquicas, e passar a viver com mais economia. Ou seja, sem o desperdício de energia que o faz refém da sua neura, ou porque esta perdeu a intensidade de sua contenção ou porque, de fato, tenha ocorrido a sua elaboração ou superação.

O psicólogo é apenas um técnico cuidadoso que, em especial, através da sua humanidade vai ajudar o outro a revisitar seu(s) trauma(s). Assim sendo, na volta desta “viagem” assistida o paciente retorna mais fortalecido, para se encontrar consigo. No entanto, o que pode parecer estranho é que esse encontro não tem relação direta com o social, mas com o próprio indivíduo. Uma mãe1 apelava para a filha não deixar à terapia porque sua interação em casa havia melhorado. Mas, a necessidade da moça era superar a perda de um ex-namorado, e a lidar com o ciúme exagerado do atual. A terapia não objetiva, necessariamente, a expectativa alheia. Portanto, se atender a algum desejo familiar ou social, é mais como consequência. Talvez, o medo do paciente em relação à psicoterapia esteja ligado ao fato de julgá-la como totalmente libertadora, como algo que o faça perder as suas referências. Se provocar alguma ou pequenas mudanças suscita angústia, associar o processo a uma transformação radical é colocar rédeas que o impedem de adentrar e aprofundar as suas questões.

Mas, a ajuda psicológica não é só restringida no aspecto financeiro do pagamento das seções; do tempo relativamente longo exigido pelo processo; e ao pavor do seu potencial libertário. O psicólogo também se debate na teia dos preconceitos içada em torno deste ofício. Às vezes, a discriminação à psicologia é tão forte que muita gente chega a odiá-la. Já presencie uma cena esdrúxula de uma camarada se benzer quando soube que estava diante de um grupo de psicólogos. Como uma pessoa pode odiar uma ciência? Se todas têm como propósito trazer benefício para a humanidade? Não precisar da psicologia é uma coisa, o que é muito raro de ocorrer porque as pessoas sempre trazem no seu histórico de vida pendências da estrutura familiar ou social. De fato, têm aqueles que se “viram” sozinhos, e de algum jeito aprenderam a conviver com seus(s) trauma(s), ou encontraram, por si mesmos, as suas saídas. Mas, chegar a odiar a psicologia!? É algo de muito estranho, insano, um grande sintoma.

Entre as normoses2 brasileiras, está o hábito cultural de dar satisfação, de “prestar conta” da vida privada ao entorno. As pessoas se sentem na obrigação de justificar não só para família, mas também para a sociedade (este grande Outro) os seus atos. Em cidades pequenas e de médio porte, a preocupação com o “que vão pensar ou dizer” chegar a ser um terror paranóico. Como se todo mundo fosse celebridade com uma cambada depaparazzi ao seu encalço. Esse poder depositado no outro sugere travas invisíveis para que o próprio sujeito não libere seus impulsos. Em outras palavras, uma imaturidade que outorga um poder de controle ao externo para não assumir as tendências dos seus desejos. É como se todos estivessem “amarados às correntes” da falsa moral. Portanto, aqueles que não conseguem ou não se permitem ser eles mesmos, ficam raivosos, e, assim, punem, perversamente, quem ouse vivenciar a expressão da sua singularidade.

A decantada liberalidade brasileira se contradiz com essa permanente vigilância panóptica, focada especialmente nas questões da sexualidade e da sanidade. A sexualidade sempre será um tabu na medida em que se tenha curiosidade de como e com quem o outro a manifesta. Ninguém liga que um cidadão esteja passando por carências materiais ou dificuldades existências, que não tenha emprego, etc. Entretanto, como diz Caetano Veloso (s/d), todo mundo quer saber com quem ele se deita por debaixo dos lençóis (adaptação nossa). Não há preocupação com a sua pessoa, esta que se “lixe”, mas com o seu gozo, e se está dentro da legalidade. Nesta cultura, em detrimento de qualquer valor, a relevância maior está na metade inferior do corpo, em especial entre as pernas, e que instiga à caça rumo à revelação ou execração pública. Este vigiar e punir que Michel Foucault denomina, também respinga no consultório. O homem, em particular, procura esconder que faz terapia, não seria uma “coisa de macho”, e sobre ele podem se levantar suspeitas, o que obviamente é um absurdo, sobre suas masculinidade, sanidade ou estabilidade emocional.

Um jovem engenheiro fazia terapia porque, apaixonado, foi largado pela namorada. Com repetitiva ironia ele dizia que os cafajestes se dão bem com as mulheres, porque bagunçam o “coreto” (são abusivos, traem, etc.), mas é o tipo que elas mais gostam. Associou que, não tendo esta “invejável” conduta, só no início era que seus relacionamentos iam bem, porque o sexo era intenso e consistia numa excitante novidade. As parceiras adoravam. Com seu ego inflado, ele se sentia dono da situação. Todavia, bastava se apaixonar, para que elas logo perdessem o interesse pela relação. Na realidade, em termos da sexualidade, este rapaz continuava o mesmo: ativo, viril, desinibido. Mas, quando começava a se vincular afetivamente, ficava muito solicito, regredia de “garanhão”, todo poderoso, para bebê (ele era filho único) pegajoso, desprotegido carente de colo. As moças ficavam perplexas com esta virada extrema de comportamento que exigia delas dedicação maternal, e as “obrigavam” a troca de papel, de protegidas, que ele as habituavam, para o de protetoras. Na verdade, toda a sua performance era para chegar a este fim. Ele enveredou um novo relacionamento, desta vez com uma evangélica. Ganhou um jantar de um amigo também empresário, no meio do mesmo recebeu, por engano, uma ligação de um homem com voz efeminada. Não tendo do que temer ou esconder falou para a namorada. Esta, de imediato, passou a questionar se ele não seria gay por que estava fazendo terapia. Acabou o namoro. Ele insistiu na conquista, hoje estão casados, com filhos, e felizes.

Segundo Pereira (s/d), a palavra norma vem do latim normalis, quer dizer “aquilo que não se inclina nem para direita nem para a esquerda”, ou seja, que é “perpendicular”, que “se mantém num justo meio termo”(grifos do autor). Neste imaginário, a clínica psicologia está fortemente associada aos distúrbios da sexualidade e a loucura. No entender de Foucault (1995, p.25), “a loucura não diz tanto respeito à verdade e ao mundo quanto ao homem e à verdade de si mesmo que ele acredita distinguir”. Nos dias de hoje, ainda chega ao consultório o indivíduo se justificando de que não é louco. Por vezes, sinto o impulso de dizer-lhe que se acalme, porque ali, certamente, tem apenas um louco, o terapeuta, que, graças a sua loucura tem a condição potencial de ajudá-lo. E dizer-lhe também que não há nenhum privilégio em ser normal, que se paga um preço muito alto por isto. E mais ainda, de que ser normal é a prova cabal de que o sujeito está morto.

Logo, “é normal, no sentido mais usual da palavra, o que se encontra na maior parte dos casos de uma espécie determinada ou o que constitui a média ou o módulo de uma característica mensurável”(CANGUILHEM, 1990, p.95). Assim sendo, o “anormal é uma relação: ele só existe na e pela relação com o normal”(PEREIRA, s/d, p.22). De tão bem adaptado o homem normal é favorável à sociedade que está posta, e por isto mesmo não tem a menor necessidade de alterá-la. Ele é basicamente fisiológico, apenas come, dorme, toma “cachaça”, prática sexo e faz cocô. Para Safra (1998, p.106), “a genialidade é também decorrente de um processo de desalojamento de si mesmo”. Somente os loucos, a exemplo dos artistas, dos visionários, dos grandes homens, criam, transformam. Em síntese, “a insanidade demonstra como está presente na vida dos homens e tudo o que estes a ela devem, pois é ela, a Loucura, e ninguém mais, que move o mundo” (ERASMO, 2003, p.135).

De tão condicionado a se enquadrar, o paciente não se dá conta de que a sociedade, na sua maior parte, é um grande hospício. A diferença é que os loucos de fora (ditos normais) dirigem seu pragmatismo e individualismo e, por vezes, a sua doença, exclusivamente para seus fins. Ao passo que os trancafiados (ditos loucos) não têm o controle desta intenção, se negam a isso, ou, ainda, se cansaram da dissimulação. Em certos casos, na visão de Jaeger (apud DELEUZE, 2006, p.252), “é a utilização de conceitos políticos que provoca um estado de crise no doente, como se ela trouxesse à luz o nó de contradição nas quais o louco se amarrou.[...] Não há lugar do campo social, nem mesmo o hospício, em que não se escreva a história do movimento operário”. Derrida (2005, p.55) acredita que “a sabedoria do poeta [...] realiza a sua liberdade nesta paixão: traduzir em autonomia a obediência à lei da palavra. Sem o que, se a paixão se tornar sujeição, aparece a loucura. O louco é vítima da rebelião das palavras”.

Seria, por demais, estranho e enlouquecer viver nestas sociedades sem apresentar nenhum sintoma físico ou psicológico mínimo de afetação. Numa sociedade de indivíduos, segundo Bauman (2007, p.26), “cada um deve ser um indivíduo. A esse respeito, pelo menos, os membros dessa sociedade são tudo menos indivíduos diferentes ou únicos”. Na ótica de Pereira (s/d, p.102), “numa sociedade que tem horror ao diferente, que reprime a diversidade do real à uniformidade da ordem racional-científica, que funciona pelo princípio da equivalência abstrata entre seres que não têm denominador comum, a loucura é um ameaça sempre presente”. O autor salienta ainda que, o louco é excluído porque insiste no seu direito à singularidade e, por conseguinte, à interioridade. Para ser diferente, sem o risco da exclusão, o sujeito tem de apresentar sinal de pertença a alguma tribo reconhecida ou institucionalizada. Assim, qualquer comportamento por mais bizarro ou ridículo que seja uma vez normatizado, seus signos podem ser ostentados sem o risco da rejeição.

Faz parte das estratégias de sobrevivência psicológica forjar algum tipo de loucura, ou se agarrar às rotas de fuga tóxicas - não necessariamente ilícitas. O cidadão sempre se debate com algum tipo de vício ou dependência. Não tem quem escape, são muitas as exigências, contradições e esquizofrenizações para que o indivíduo não seja sugado por algum modus operandi histérico, compulsivo, paranóico. A cultura ocidental, como diz Safra (1989), fragmenta o ser humano, tanto descorporifica o sujeito do seu sentido de realidade e de tempo, quanto o desconecta de suas origens. Isso produz uma vivência de abandono, que não é decorrente da ausência de um objeto, mas sim da perda de si mesmo. Em virtude disto, é praticamente uma utopia falar em sanidade nas sociedades atuais, o esforço do cidadão é mais com a finalidade de domesticar a loucura para que a mesma, nesses cenários ricos de estímulos infames, não o precipite em condutas horripilantes. Afinal, como diz Derrida (2005, p.145), “a loucura tanto é a alienação como a inalienação”.

Há várias rotas de fuga, umas mais saudáveis - loucuras criativas, transformadoras -, e outras comprometedoras - que são válidas pela aprendizagem -, mas todas são os meios através das quais se cavam “saídas” da realidade, para se aliviar ou tolerar o cotidiano. Uma vez que, se ficar de menos no real corre o risco de se perder, ou se o “abraçar” em demasia pode ser por ele “engolido”, “estrangulado”, “assassinado”. As paixões por carnaval e futebol, a exacerbação do sexo, do consumo, da bebida, etc., tem um pouco disto, ou seja, deste tóxico. Há um desespero flamejante pelo quantitativo dessas vivências, ao invés de serem deglutidas, digeridas, deliciadas. Enfim, comemoradas. Não seria a angústia subjacente à consciência da morte que a folia, o histerismo coletivo, mesmo como escape, não conseguem aplacar? Nos carnavais, “dentro” ou “fora” de época, por exemplo, muita gente já sai de casa “abastecida”, e com a intenção de morrer ou matar. Com a invenção do banho de espuma, rostos até então jovens e belos, estão agora literalmente “passados”, de olheiras, sem vida. É o próprio quadro do horror. Parecendo mais vítimas em rescaldo de catástrofe, do que foliões. Enfim, não conseguem esconder dos sensores das câmeras ou dos olhos argutos, seu vazio, solidão, mal-estar, etc.

Será que os sujeitos, mesmo sofrendo as dores da alma não tenham o legítimo propósito de mudar? Isto é ambivalente, e nem tanto lógico, é um não querer e um desejar ao mesmo tempo. A eterna briga entre Eros e Tânatos. Hoje bem menos do que no passado, as pessoas buscam o padre - orientador espiritual que diz o que é certo ou errado das condutas, e redime os pecadores impondo cotas de orações -, sem o menor constrangimento. Ou seja, tudo que tem aura de divino, é valorizado, e geralmente exerce um fascínio sobre as pessoas. A necessidade de contar com uma força superior, que as protejam do demasiado humano, é tão forte que elas se apegam, egoisticamente, a qualquer daimon.

Mas, recorrer ao psicólogo, um profissional supostamente preparado, que estuda e pesquisa o comportamento humano, que fez ou faz terapia e laboratório humano, mexe com os brios. Em parte porque o processo exige do sujeito, eem consequência da conotação pejorativa da representação social da psicologia. O sujeito da clínica psicológica é multiplamente desafiado, pelo seu estado psicológico, e pelas barreiras que tem de transpor por causa dos preconceitos, para ter acesso à assistência psicológica. Além do mais, para o senso comum, a psicologia tem o descrédito por não receitar, e tentar resolver só na “conversa” (algumas abordagens em concomitância trabalham o corporal), e os planos de saúde não cobrem, indiscriminadamente, o tempo relativamente longo do tratamento.

Neste contexto cultural, o pedido de ajuda psicológica coloca em risco a imagem do paciente. Isto é, como se não bastasse à dificuldade que motiva a sua consulta, o indivíduo tem de enfrentar a provável perda de status de pessoa “normal”, ou, nas melhores das hipóteses, de ser visto de modo enviesada. Por vezes, mesmo diante da descriminação, das opiniões distorcidas, de maneira a contrariá-las, a necessidade termina por se render à resistência. Para Jodelet (2005, p.373), “a descrição do doente mental, e a explicação da doença mental mobilizam uma posição normativa”. A doença mental ainda é um tabu social. Assim sendo, carece de estudos e discussões que contribuam para sua desmistificação. Enquanto a psicologia não desmistificar a loucura, a procura do psicólogo será sempre emperrada por estes ranços. Na compreensão de Pereira (s/d, p.48), “se há um discurso da razão sobre a loucura, não há discurso da loucura sobre a razão”.

Um paciente com sintoma físico, sem a menor cerimônia, de imediato ativa o socorro médico, porque o mesmo está inscrito na normalidade. É como se a doença física não envolvesse a sua personalidade ou não tivesse nenhuma relação com suas atitudes e comportamentos. Assim, o sujeito está isento de qualquer responsabilidade ou cobrança, ele não tem culpa de ter adoecido. A doença veio de dentro, é um fator genético, hereditário, ou de fora, foi adquirida no contato ou contágio social, neste contexto preconceituoso desde que não seja AIDS, é normal. Logo, a doença física tem conotação coletiva, qualquer cidadão está vulnerável, democraticamente em alguns momentos da sua vida pode adoecer. Em vista disto, o paciente não tem o seu status abalado. O paciente físico não é deixado sozinho, tem o acolhimento das pessoas em geral, com as quais pode contar e compartilhar a sua dor. Em síntese, a doença somente é aceita na condição de fenômeno físico, mas, dificilmente por razões psicológicas.

Todavia, quando se trata dos males da alma, da psique, o paciente não somente sofre pela doença ou pelo mal estar psicológico, mas também em razão da conotação social de colocá-lo como responsável. Na concepção popular ele é muito sensível ou fraco, uma decepção para a sociedade “casca grossa” dos “fortes”. Os imbecis perversos gozam em perturbar o louco, em fazer chacota, parecem possuídos pelo desejo sádico de vê-lo se destruindo ou destruído. Não há compaixão, respeito, mas uma raiva “irracional” pelo doente. Este que perde a sua condição humana, e se torna um zumbi das gozações para estes doentes normais darem evasão as suas monstruosidades. O olhar impiedoso do social o condena por ter se “permitido” adoecer, e o pune com a estigmatização e exclusão do convívio social. Ou seja, a doença psicológica ou mental faz valer a crença de que as mesmas são exclusivas e privativas do paciente. Como se na esfera do psicológico todos fossem ilhas isoladas. O indivíduo doente está só, tem vergonha disto, e familiares, parentes e amigos tendem a deixá-lo entregue a própria sorte.

Segundo Safra (1998), os psicólogos e psiquiatras estão acostumados a entender o fenômeno de loucura como frutos de uma perturbação de origem pulsional, mas essa é apenas uma possibilidade. Contudo, “a questão não é tão simples; existem vários outros níveis de entendimentos do fenômeno da loucura, por exemplo, a desorganização psíquica não nasce da subjetividade do indivíduo, mas sim do desencontro com o outro, com a cultura e com o campo social” (SAFRA, 1998, p.105). Um cidadão me perguntou se seria interessante para o amigo, visitá-lo no hospital psiquiátrico. Se fosse um outro tipo de instituição, certamente ele não teria dúvida da sua visita. Pelos menos, esse paciente não tinha sido esquecido como ocorre com a maioria dos que adoece da “cabeça”. Castoriadis (1999, p.111) diz que “a realidade da qual - louco - não quer saber nada é a realidade social, as relações de filiação, as relações aos objetos de desejo”. Parece que a loucura passa pelo descrédito, e quebra da confiança nas relações, mas isto não quer dizer que o “doente” não as queiram mais. Do contrário, espera-se que a sua fé nos afetos e valorização das relações sejam restauradas.

Quase todos os indivíduos conscientes ou não, trazem consigo sequelas de traumas, resíduos das frustrações, dos lutos maus elaborados, dos quais tenta, de diversas maneiras, se libertarem. Mas, nem sempre, são assertivos nas estratégias para revolvê-los ou nos dispositivos para recalcá-los ou reprimi-los. Assim, diante de novas perdas chegam a um limiar de tolerância que os obrigam a se deparar com esta realidade interna, até então, escamoteada. Por causa disto, nada mais natural, porém corajoso, uma vez que, nem sempre o narcisismo e o social admitem reconhecer a necessidade da assistência psicológica. E isto não o torna menor ou superior a ninguém. Afinal, o ser humano e vulnerável mesmo, sempre dependente do outro, primeiro para se humanizar quando bebê através da mãe; depois para se manter legitimado na sua conduta. Assim, ao invés de ser criticado por esta sua atitude devia é mais ser enaltecido, por almejar a melhoria da sua saúde psíquica. A qualidade de vida está sempre associada a determinantes físicos tais como exercícios, alimentação saudável ou balanceada, etc., mas nunca aos aspectos psíquicos. Ou seja, nesta concepção o homem é só corpo, como se somente a este segmento devesse devotar cuidados.

O aprofundamento do auto-conhecimento somente é possível através do outro, no seu caráter confessional. Uma vez que é básico do homem, em virtude da sua composição animal, de ser regido pelo princípio do prazer que Freud tão bem pontuou. Assim, o olhar do indivíduo sobre si mesmo, na maioria das vezes é turvo, parcial, comprometido, ele enxerga somente o que pode, suporta ou permite. Para Maturana (2006), o ser humano tem um domínio de plasticidade muito maior do que acredita, e para entrar nas mudanças ou não, depende da emoção. O psicólogo, na suposta neutralidade adentra e explora o campo psicológico do paciente, uma vez que, sozinho, seus mecanismos de defesa são mais difíceis de serem desmontados. Por mais que o indivíduo deseje ficar de frente com a sua verdade terá sempre mais dificuldade, ou não consegue de modo mais vertical se “auto-visibilizar”, por conta do tal princípio. Em outras palavras, o neurótico não consegue enxergar o que está “em baixo do seu nariz”. O trabalho do psicólogo não é somente apontar para este obvio, mas também de suscitar conteúdos relacionados ou co-relacionados que irá ajudá-lo na compreensão e aceitação, como consequentes ao seu crescimento.

O processo terapêutico mobiliza sentimentos dolorosos que estão vivos e/ou que foram “esquecidos”. No entanto, o conhecimento e a sensibilidade do profissional devem funcionar como suporte para que o cliente entre em contato com sua dor. Esta que ele procura negar ou arremessar para o fundo do seu “porão” psíquico. Por meio de sua técnica o terapeuta faz uma “ponte” (instiga o paciente a falar do seu sintoma), para que o desbloqueio dê passagem ao fluxo energético ou psíquico, até então, estagnado. No seu cômputo geral, a psicoterapia é quase sempre positiva. Através dela se adquire hábito de conectar-se ao seu eu, de avaliar os seus limites e potencialidades. Bem como em assumir as responsabilidades das suas ações, sem ficar acusando o(s) outro(s) com as suas lamurias. Por meio da terapia o indivíduo pode compreender suas táticas autopunitivas, e a desenvolver o sentimento de complacência pela sua pessoa. E através desse “mergulho” em si mesmo descobre que, em grande parte, é agente ativo do seu próprio destino. Em razão disto, capaz de promover mudanças em si, e no seu mundo circundante.

Com base nos postulados winnicottianos, Safra (1998) diz que sempre a realidade é compartilhada, e construída pelo olhar do outro. Ou seja, “o homem tem necessidade de outros, desde o início da vida. Tem a necessidade de poder encontrar elementos e proporções do seu ser, em sua cultura, em seu campo social, nos diversos acontecimentos humanos” (SAFRA, 1998, p.105). O homem é dependente do olhar dos seus semelhantes, seja da parceira, da família, do superior hierárquico, dos amigos ou da sociedade em geral. O olhar é o “alimento” para a auto-estima tanto quanto a comida é indispensável para a sustentação do corpo. As interações humanas apesarde difíceis e problemáticas são interessantes e fundamentais para a construção deste sentimento de humanidade. O ser humano só pode acontecer no mundo preexistente, assim, para que o indivíduo confirme a si mesmo é reconhecer a própria existência que recebe pela confirmação dos outros (CARDELLA, 1994; ARENDT apud SAFRA, 1998). Em razão disto, afirmativa do tipo: “Eu não dependo de ninguém”, parece sem propósito. Afinal, mesmo que autônomos vivemos dentro de determinadas co-dependências.

Diferente da consciência despertada pelas drogas que, passado o efeito o sujeito esquece, ou fica muito difícil de resgatá-la. A consciência in natura, por meio terapêutico, é crescente, e o indivíduo a terá sempre ao alcance da memória. Sob o efeito do álcool, por exemplo, tem a sensação de que é forte o suficiente para examinar quadro-a-quadroas imagens dos “filmes” da sua própria vida,que se descortinam na sua tela mental. Quanto mais ingere o tal líquido mais se credita capaz de fazer uma ampla e profunda retrospectiva das suas vivências. No caso, com tendência as mais dramáticas ou negativas. Isto parece confirmar que as experiências ruins grudam, são mais marcantes e nada fáceis de serem deletadas. Nesta fuga da realidade, essencialmente paradoxal e perigosa, tem um desejo oculto de entrar em contato com o seu universo subjetivo. É como se fosse uma maratona na qual o sujeito foge da própria sombra e ao mesmo tempo quer vê-la bem mais delineada. Nessa ânsia de querer se ver mais, em paralelo a um copo que não pára, acaba por ser surpreendido pela anestesia que apaga de vez todas essas imagens projetadas.

Neste momento, resta apenas o efeito físico do mal estar alcoólico. Não tem mais como rever as imagens que, provavelmente, eram importantes para a compreensão da sua vida de modo geral, e sobretudo do(s) seu(s) trauma(s). Ao recobrar a lucidez da consciência, as lembranças que restam são de fragmentos vagos, mas, certamente é nítido o arrependimento pelos seus atos que agora são comentados pelos amigos, etc. Na contra mão do senso comum, diria que bêbado só diz a verdade, não obstante, sem poder de validade porque, uma vez que não foram ditas de maneira consciente, ele não assume a responsabilidade pelas mesmas. Além do que, muito desses conteúdos são inconscientes (desconhecidos até para o próprio sujeito) ou subconscientes (que estavam bem guardados).

Voltando ao processo terapêutico, o curioso é que o mesmo se inicia bem antes do indivíduo tomar a decisão de fazer terapia, e escolher o terapeuta. Por este motivo, antes de chegar ao consultório o paciente já tem refletido e selecionado o material que será colocado, na primeira seção, para o psicólogo. Assim, como o processo começa antes de ter sido formalmente iniciado, da mesma maneira ele não cessa quando pára, e em particular quando se recebe alta. Pois o paciente continua tendo insights, ou seja, se percebendo, se descobrindo, e se compreendendo melhor. Ele agora “caminha com as próprias pernas”. E este, semsombra de dúvida, deve o objetivo das psicoterapias. Do contrário, o paciente ficará a mercê da muleta psicológica do profissional, por tempo indeterminado. Este é um outro medo justificado como impeditivo à ajuda psicológica. Ainda que, essa dependência se dá mais em decorrência da falta de competência do terapeuta do que pela necessidade do paciente de tê-lo como anteparo na intermediação ou confronto com a sua realidade.

Embora, atualmente os convênios e planos de saúde permitam a assistência psicológica a uma significativaparcela da população, a psicoterapia não deixou de ser meio que exclusivista. Infelizmente, limitado a um determinado número de seções, o que consiste numa falta de consideração pela diferença. Querem que as “feridas” psicológicas sejam tratadas com a mesma metodologia das feridas físicas ou orgânicas. Os problemas psicológicos não surgem de repente, geralmente são consolidados aos longos de meses e anos. Daí, não podem ser resolvidos de uma hora para outra, como num passe de mágica. Os bloqueios vão sendo dissolvidos aos poucos, isto porque o indivíduo precisa de alguma couraça para sobreviver, mesmo com algum desperdício de energia, ela é criação do seu modo de defesa. Do contrário, ou seja, se for retirado bruscamente ou de uma vez, ele fica sem “chão”, sem suporte, e pode pirar. Fazendo uma analogia com uma cebola, em relação à retirada das várias camadas. Se esta atividade for lenta fortalece as condições de se adaptar a cada etapa do processo, mas se não for respeitado o tempo do paciente, quando chegar ao núcleo, este aparecerá em “carne viva”. Assim, desprotegido, e com um nível elevado de sensibilidade fica muito complicado de o paciente lidar com os estímulos negativos ou hostis do seu ambiente.

Alguns teóricos profetizam a cura como viável. No entanto, a modéstia ou genial despretensão de Freud, o pai da psicanálise, se dava por satisfeito em tornar seus pacientes capazes de conviver melhor com suas neuroses. Em outras palavras, ele se contentava em restituir aos analisados as rédeas das suas próprias neuroses. Nesta realidade, a ajuda somente é solicitada quando se rompe este “equilíbrio neurótico”. Ou seja, quando o indivíduo não consegue mais se auto-administrar como, até então, vinha fazendo. A maioria dos pacientes pára o processo geralmente com a desculpa de falta de tempo ou dinheiro, após a eliminação dos sintomas que motivou a consulta. Ou seja, antes do momento que adentraria as camadas da “cura”, que se daria um aprofundamento mais estrutural. O que leva a crer que as pessoas estão “mais a fim” de paliativos do que de mudanças substanciais. Isto parece comprovar a “tese” da sociedade neurótica.

Entretanto, mesmo que a psicoterapia não objetive a “cura”. Porém, considero que ela não se reduz a um bálsamo psíquico. Mas, como não foi além da sintomatologia, poderá reincidir, e, assim, o paciente fica tentado a acusar o terapeuta de não tê-lo ajudado, ou de que este “trem” psicoterapia não funciona. Certamente, se não houvesse estas “névoas” de ignorância, discriminação, etc., que ofuscam a psicologia, as pessoas não teriam tanta necessidade médica. Muitas dos incômodos apresentados como orgânico tem fundo emocional, ou, de fato, são psicossomáticos. Hoje, os médicos estão mais conscientes para identificar as causas psicológicas e encaminhar o paciente para o psicólogo. Mas, uma vez que não houve uma intervenção na perspectiva preventiva, profilática, em vista disto, uma quantidade considerável de tempo e de investimento pessoal devem ser indispensáveis.

No mal estar ou na doença psicológica o paciente identificado pela família nem sempre é, de fato, o elemento mais comprometido do grupo familiar. Na verdade, todos os outros membros, de alguma forma, também estão afetados ou afetaram o sujeito em questão. Eleger ou tornar visível um membro como doente, é uma tentativa da família escamoteara própria patologia. Durkheim foi o primeiro autor a chamar à atenção do suicídio como um fenômeno que diz respeito não somente ao indivíduo, mas também aos grupos sociais nos quais está inserido. Contudo, não somente nas ocorrências suicidas, mas também em qualquer tipo de problema psicológico o entorno está enredado. Mas, a psicologia individualiza, tende a recortar o sujeito do social, e a lhe atribuir todo(s) infortúnio(s) a uma determinada atitude sua de “esponja”. Como se o social não fosse toxicamente contagiante, ou não tivesse motivo algum para enlouquecer ou suicidar o indivíduo. Consiste numa contradição o fato de que, um momento histórico tão tumultuado, violento, de quebra e inversão de valores, no qual os novos paradigmas ainda estão em plena construção, ou adquiriram a condição de oscilantes, seja exatamente a era do culto ao corpo. Em suma, do permissivo hedonismo capitalista do imperativo do gozo (LIPOVETSKY, 2005), em que a vida humana passou a não ter valor ou garantia alguma, mas o prazer sensorial e a aparência são glamourizados.

Não é incomum uma avaliação pouco realista dos parentes em relação à sintomatologia dos seus entes. Uma família de nível cultural elevado conceituava a psicologia como ciência da inutilidade. A figura materna desse grupo, por coincidência a pessoa mais crítica do clã, me propôs atender sua filha. No fim de coincidentes nove meses (do seu nascimento simbólico), esta mãe elegeu uma lista de dificuldades para que sua filha, que estava indo bem na terapia, parasse o processo. Ao passo que permanecia “entretida” em apontar esse ou aquele comportamento indesejado da filha, ela deixava de se perceber descompensada. Seria angustiante por demais enxergar-se coadjuvante desta sintomatologia. Ela tinha dificuldade de ficar só, por isto invadia a privacidade da filha, adentrava seu quarto a qualquer hora, e a acordava quando sentia vontade de “conversar”. A tratava como bebê, com uma linguagem tatibitate. Com a “cura” da filha, em quem esta mulher despejaria as suas frustrações?! Certamente sua angústia se acentuaria e a levaria, provavelmente, a procurar ajuda psicológica e/ou psiquiátrica. Esta mãe continuou sem conseguir entender que, para ela, a psicologia só podia ser a “ciência da inutilidade”.

Uma paciente mórbida apresentou a filha com uma queixa de obesidade, quando esta nem de longe era a preocupação da adolescente. A mesma tinha uma questão mais séria e vital que precisava ser trabalhada com urgência, que eram as suas sucessivas e disfarçadas tentativas de suicídio. Esta mãe, em razão dos conflitos do seu casamento, procurava manter os filhos em terapia, era uma das raras genitoras que investia sem “pena” no bem estar e saúde psicológica dos seus rebentos. Uma outra mãe disse que veio a clínica porque a filha, de quinze anos de idade, pediu, mas que elas se davam muito bem. Tentou passar a imagem de que eram amigas. Mas, a postura corporal contradizia, uma vez que ambas sentaram em pontos extremos, quando podiam ficar juntas, além de manterem-se de braços cruzados. Na tentativa de falar com esta mãe, do escritório da sua empresa, a secretária insinuou que seria improvável, porque até para o primeiro encontro ela só foi por conta do seu incentivo. Pois estava com muito medo, além de ter ido escondida do marido. Uma nova saída por esse método, junto a sua falta de interesse pelos problemas da filha, certamente seria um sacrifício sobre-humano para que ela se motivasse a realizar.

A sua pedagogia não obrigava a filha a nada. Ela só fazia o que desejava fazer. Se não gostava de matemática não tinha que estudar matemática, etc. Falei para ambas que este princípio por elas defendido não era realista. Por vezes, a pessoa tem que tomar um medicamento amargo para recuperar a saúde, a não ser que prefira permanecer doente. E que a maturidade consistia em adiar prazeres ou suportar desprazeres por um objetivo a curto, médio ou a longo prazo. Elas me olharam como se eu estivesse falando javanês. Esta jovem catarinense, de descendência alemã, alta e esguia, tinha formas corporais de mulher adulta, quadris largos, seios proporcionalmente fartos, mas com rosto de bebê, e sempre cabisbaixo. O desprezo pelo seu corpo dispensava qualquer outro cuidado que não fosse puramente higiênico. A paciente disse que havia feito teatro na escola, e que pensava fazer novamente. Tentei imaginar de como seria para esta jovem dá vida a um personagem com seu próprio corpo tão desvitalizado.

Provavelmente, esta mãe não “sabia”, e ficou sem saber quem era a sua filha, porque durante os dois meses que durou a “terapia”, apesar dos convites, não se deu ao extraordinário trabalho de voltar para falar comigo. A garota leu alguns clássicos da literatura nacional e estrangeira, mas somente fixara as mensagens negativas. Catava argumentos para justificar que não valia a pena viver. Na sua visão, era uma grande perda de tempo continuar vivendo porque, de qualquer jeito, iria morrer. Mas, ela já estava “morta”, se assustava e passava mal com as “batidas” do próprio coração. Vivia numa terrível solidão, e se reconhecia como “a pobre menina rica”.Tinha séria dificuldade de aceitar seu pai, porque na infância ele a negligenciara. Ruminava o desejo de se vingar, de fazê-lo sofrer, ou, mais especificamente, de vê-lo morto. Era preocupante vê uma menina em pleno desabrochar da idade já tão funestamente desiludida, bem como não deixava de ser assustador o ódio e a frieza por trás de um rostinho angelical. Algumas vezes tive a sensação de estar diante de uma possível Richthofen. Ela não confiava nas amigas, as achava falsas, e muito mais problemáticas.

Uma tia marcou o atendimento para o seu reticente sobrinho, um jovem adulto, do qual “pintara” um quadro bem darck. Quando finalmente ele apareceu ao lado da mãe, era passível de questionar se tratava da mesma pessoa. Realmente precisava de terapia, no entanto estava mais para acuado, com medo de “cortar o cordão umbilical”, do que para um sujeito meio psicótico. Sua mãe tentou abortá-lo (ele nem desconfiava), e se dizia culpada. Mesmo convicta de que desejava a independência e a felicidade do filho, continuava, de maneira inconsciente, repetindo a tentativa de aborto. Só que agora em relação a sua vida social e profissional, com atitudes ambíguas que o confundia. Ele a tratava de modo um tanto informal demais, e não perdia a oportunidade de lhe fazer cobranças, mostrar as suas contradições, e duvidar das suas palavras. Ou seja, numa postura característica de menino mimado. Mas, a mãe, por sua vez, não parecia se incomodar. Entretanto, quando se entreolhavam passava toda uma cumplicidade e sedução, como se compartilhassem de algo secreto que só a eles cabiam.

Uma outra mãe trouxe a filha adolescente dizendo que esta era insuportável, mentirosa, complicada de se conviver, uma vez que somente as duas moravam juntas. A quarta seção foi suficiente para mostrar (através de desenhos) que a garota apenas tinha um pouco de mágoa do seu pai, do tempo em que morou com ele noutro Estado. Porque, muito exigente, o genitor nunca lhe fazia elogio quando tirava dez numa prova, mas ralhava sempre que suas notas fossem ligeiramente abaixo. Este passado não parecia interferir na sua fase atual. Era a mãe que a sufocava com sua profunda carência afetiva. Uma workaholic que estava ainda mais desesperada porque o namorado tinha ido passar uma temporada de estudo fora do país. Esta garota grandalhona, tranquila, que ria das neuras da sua mãe e a achava infantilizada, na verdade se protegia da mesma para não adoecer. Comuniquei que ela não precisava de terapia, a mãe aceitou ser atendida ao invés da filha, mas logo veio com o argumento de que teria de adiar por motivo de trabalho. Deixou um bilhete na recepção dizendo que depois retomaria. Como de alguma forma estava previsto, ela nunca mais “deu as caras”.

Atualmente as pessoas não têm a menor disposição para lidar com as inquietações e angústias do outro, mesmo que este outro seja um seu próximo. Assim, tudo toma proporções super-dimensiondas. Uma filha me contatou, dizia que a mãe estava num quadro assombroso de paranóia. De fato, a senhora estava paranóica, mas na proporção direta em que se percebia cercada de “abutres”. Com um profundo sentimento de pesarela contou que o filho sacava toda sua renda mensal, e lhe dava apenas uma parte, e me perguntou se isto era correto. Ela ficou surpresa, com base em algumas intervenções, de como uma pessoa é capaz de se auto-enganar tanto. Dizia-se impressionada com o que a mente pode fazer. Culta, quando jovem ocupara cargos importantes no governo no Sudoeste do país, e morou algum tempo no exterior. Estava descuidada, mas não alienada, e muito menos morta. Seus olhos brilharam quando falou da vontade de voltar a viajar com uma amiga e, em particular, de ter um parceiro. Descreveu com viço juvenil um moço musculoso que prestava serviço na sua casa. Considerava que era possível, caso quisesse “alguma coisa” com ele. Mas, ficava em dúvida entre o seu interesse por grana ou tara, ao mesmo tempo se convencia de que existe patologia para tudo.

Chamei a sua atenção para excitação em relação à viagem e ao rapaz, ela disse que pensou que seria, por isto, recriminada. Pontuei com base nesta observação o quanto ela estava viva e desejava viver. Ela sorriu bastante, parecia ter se aliviado de um “peso”. Comentou com naturalidade que uma das suas filhas era lésbica, e ela própria tivera experiência com mulheres, mas que seus herdeiros desconheciam. Na seção seguinte, estava mais leve, e se sentindo mais forte para enfrentar as situações, pois compreendera que o medo paranóico de que seus filhos morressem, era na verdade seu desejo inconsciente de deixar de ser por eles explorada. Um das filhas que a trazia para as seções insistiu para que eu confirmasse que sua mãe estava louca. Finalmente, me comunicam que a paciente não podia continuar porque estava sem condição psicológica em virtude da perda de um parente. E não adiantou ressaltar que, exatamente, por isto ela deveria vir. Detalhe: seus filhos não tinham empregos fixos. Então, era possível que os mesmos estivessem mal intencionados, e precisando de um cúmplice para as suas tramóias.

Uma jovem senhora morava no exterior, numa das visitas ao Brasil conheceu um sujeito psicólogo, amigo da sua irmã, pelo qual se apaixonou, e ficou encantada, em especial, porque ele fazia poesias. Seu casamento estava arruinado, no ano seguinte ela se separou, e veio morar com esta irmã. Por conta da sua separação os outros irmãos a desprezaram. Os filhos adolescentes se negaram a acompanhá-la. O namorado, que também vinha de um casamento desfeito, começou a se revelar mulherengo, não podia ver um “rabo” de saia que ficava “hipnotizado”, dava em cima das mulheres na sua frente, e recebia telefonemas suspeitos das suas exs namoradas no meio da noite. Ela contava com um valor resultante da partilha dos bens, para comprar um apartamento. E a sua irmã queria que ela o empregasse na reforma e compra de móveis para sua casa. Diante da sua recusa, seus pertences começaram a desaparecer, e a irmã a maltratá-la. Em virtude do tempo que estava fora do país, se sentia estrangeira na própria terra natal, e ficou muito dependente do namorado, bem como se irritava bastante com sua falta de pontualidade. Os filhos, para puni-la, mantinham um mínimo de contato, o que lhe causava muito sofrimento. Aumentaram os atritos com a irmã, esta me procurou alegando que a paciente estava louca, também, como no caso anterior, insistia para que eu confirmasse.

Diante da minha negativa ela passou a criar histórias sobre a conduta moral da paciente para o ex-cunhado e os seus sobrinhos, bem como a jogar os próprios filhos, contra a tia. E ainda a acusava de estar perturbando a saúde do seu marido idoso. No seu desespero e solidão a paciente tenta suicídio ingerindo comprimidos. Neste caso, mais para chamar a atenção. Numa das seções anteriores ao ocorrido ela disse que não se mataria porque não tinha um revolver, ou não se jogaria de um prédio porque não conhecia ninguém que a deixasse entrar. O ex-namorado lhe deu assistência, e guardou o seu cartão bancário durante o tempo que ela esteve hospitalizada. Depois, ela descobre que, bem antes de ter “atentado contra a vida”, a irmã tinha contatado uma clínica psiquiátrica, e que estava tudo acertado para interná-la. Ela suspeitava que a irmã quisesse torná-la incapaz para responsabilizar-se como sua tutora, e, assim, por a mão no seu dinheiro. Esta hipótese, apesar de não ter dados confirmativos, não parecia descartada. Atualmente, ela mora num outro país europeu, está num novo e tumultuado relacionamento, mas caminhando. Uma ou duas vezes ao ano vê os filhos, e se comunicam com frequência.

Todos estes exemplos parecem ir um pouco além do que afirma Roudinesco (2003, p.21) de que “a família autoritária de outrora, triunfal ou melancólica, sucedeu a família mutilada de hoje, feita de feridas íntimas, de violências silenciosas, de lembranças recalcadas”. Embora sob o mesmo teto, as pessoas não se conhecem, guardam segredos a “sete chaves”, e, por vezes, tem explícitos ou subjacentes desejos obscuros sobre seus membros. A família não está em paz. As violências que explodem no “seio” das sociedades, em muito tem a ver com a soma dos conflitos, das ameaças, das violências nem sempre silenciosas que são geradas no âmbito privado do doméstico. Lasch (1991) questiona se a família é um santuário, o refúgio num mundo sem coração ou uma instituição sitiada? Mas, a família também está sem coração. Resta saber, se ela está sem coração porque é sitiada ou está sitiada por não tem coração? Certamente tem um pouco das duas premissas, a despeito de que se a família tivesse seus valores constituídos tomando-se por base uma maior autenticidade, teria resistido mais aos ataques devastadores desse assédio.

A violência explícita ou simbólica está em todo lugar, até mesmo dentro da família, então como é possível uma convivência urbana pacífica? De modo geral, é lamentável que os pais não sejam confidentes dos seus filhos, que ignorem ou façam questão que assim o seja, de não saber em que um filho é capaz ou não de uma atitude anti-social, ou de colocar a própria vida em risco. A “colcha de retalho” dos casos aqui tecidos demonstra o quanto à família está borderline ou, como diz Roudinesco (2003), “em desordem”. Os dois últimos casos deixam perceber que os parentes, em questões que envolvem herança e dinheiro, tornam-se perigosos, perdem os escrúpulos, e se transformam em verdadeiros carrascos dos seus membros indefesos quando estes lhes renderão algum ganho. Diria que, em relação ao idoso, algumas famílias não só o marginaliza, mas o mata, não apenas no campo do simbólico, mais também na realidade prática, de modo não tão sutil, mas quase sempre sem prova(s).

A linha que separa o normal do patológico é cada vez mais tênue e confusa. A banalização da violência e a exposição das aberrações a que os cidadãos estão sendo submetidos os tornam insensíveis, em razão da sua alta frequência. Assim, já não os indignam mais, ou não conseguem diferenciar os estímulos com mais sensatez, e terminam normalizando aberrações. Contraditoriamente este homem dito pós-moderno, ainda se segura a preconceitos morais cretinos da Idade da pedra. Por exemplo, um site lusitano intitulado “Arrastão: em defesa da família, Portugal resiste” diz: Não foi só no Brasil, em Espanha, foi dada a guarda da primeira criança a um casal gay que se candidatou para adotar. Felizmente, por cá ainda há valores. Nenhum miúdo (criança) é entregue aos casais transviados. Em seguida vários comentários neste feitio: “Entregar crianças a casais gays é um erro completo, uma criança para crescer necessita da presença feminina e masculina. Podemos ser muito liberais, mas existem verdades incontornáveis” (2006 p.1-2). Ainda se dizem muito liberais! Que primeiro mundo é este?

As sociedades são criações humanas que asseguram a sobrevivência dos seus grupos, mas não significa dizer que tenham atingido um nível ótimo de organização que sirva de modelo. Todos os estilos de sociedades, na sua esmagadora maioria, até então, construídos, trazem dificuldades específicas nas suas estruturas. Este mundo global, anormal e aquecido, muitas vezes parece um lugar sem lei. A luta pela sobrevivência, a ganância material ou financeira, a falta de consistência e coerência moral nos remetem, constantemente, a situações de barbárie. Às vezes, se tem mais a impressão de que, ao invés de evolução, houve uma involução, como se este homem contemporâneo ainda não tivesse incorporado os fundamentos básicos de verdadeira civilidade para conviver em sociedade. Escravo da perspectiva do ter, cada vez mais se torna meio que andróides.

O homem em geral se transformou numa máquina de guerra pronta para atacar, indiscriminadamente, em função dos seus interesses. Vitrines, corpos, efêmero, líquido, consumo, gozo, etc., emolduram este sujeito cibernético, ou seja, tudo que caracteriza o superficial, inconsistente, virtual e sem alma. Parece não haver dúvida, hoje é mais estressante sobreviver por dois motivos: pela banalização da morte e falta de segurança elementar de ir e vir. Todos assustados com medo de todos. Neste contexto, seria anormal ser normal na desrazão destas patologias cotidianas, porém normalizada. Para Safra (1989), a organização psicótica é um movimento defensivo frente a um vivencia de loucura, utilizada pelo indivíduo perante as angústias impensadas que tenta evitar viver o desalojamento de si no mundo e de si mesmo. São experiências que lhe atravessa, e que o leva à dispersão de si. Em virtude disto, a loucura é uma defesa, uma proteção neste universo de insanidades.

As sociedades não são parâmetros ou modelo de saúde mental, até porque elas se pautam mais em fachadas, e não, necessariamente, em verdades. A base da maioria delas, nas suas mais diversas intensidades, é neurótica mesmo, e, muitas vezes,  manifesta ou em estado de latência predisposições para as psicoses. Segundo Safra (1998), não tem sintomas significa saúde, mas não necessariamente vida. “E que viver em um mundo só com pessoas sem neurose seria um tédio. Horrível! Um inferno!” (SAFRA, 1998, p.106). Assim sendo, o neurótico é o protótipo do sujeito social. Ele atende as mais altas expectativas das demandas sociais sem se questionar, mesmo que em detrimento da sua qualidade de vida. Seu lema é produzir, e muito, se superar, crescer e se adaptar ao que estar posto, na moda, para competir e cultuar os valores vigentes. Por isto, é o neurótico que movimenta a roda viva que garante a produção capitalista.

Pelo exposto, fica evidente a necessidade da psicologia, que poderia, pelo menos, manter a “temperatura” sendo o esteio das sociedades. A despeito de que, não consigo vê que a psicologia tenha crescido, seja em relação ao aprimoramento da ciência ou em relação à demanda de usuário. Ela continua a eterna “jovem”, desde oitenta e três, quando terminei o curso. Ainda quando cursava o segundo grau, sentado junto a uma colega na frente do Liceu fazíamos conjecturas sobre nossas carreiras. Ela priorizava a segurança financeira, e estava obstinada a fazer concursos públicos; diferente da minha subjetividade sonhadora, não me deixava seduzir por outra profissão que não fosse à de psicólogo. Queria conhecer o ser humano, hoje compreendo que era também me conhecer, porque sou humano. Estava convencido de que a psicologia seria a profissão do futuro. Assim, vislumbrava que, pela proporção de desencontro, conflito, desencantos que vinham acontecendo, o consultório seria um oásis para as dores psicológicas de mais de meio mundo de gente. Naquela época jamais podia imaginar que a normalidade é relativa, e que as patologias se normalizam, o que era tido como estranho ou inquietante antes, agora é das mais cotidianas banalidades.

Mas, a psicologia não deu um salto quantitativo e, muito menos, quantitativo. Boa parte das pesquisas desta especialidade acadêmica não tem relevância. E as que trazem alguma significância, geralmente, não chegam ao grande público, circulam ao redor dos próprios “umbigos” psis ou são engavetadas. A psicologia ainda é tida como supérflua, e continua sendo pensada como um apêndice. É uma ciência em relação a qual a sociedade, apesar de todas as suas mazelas psicológicas, se julga passar muito bem obrigado sem ela, e não como uma área do conhecimento com seu papel bem definido na contribuição social. Penso que, na verdade, a psicologia sempre será uma ameaça para a sociedade, uma vez que a mesma, pelo menos em tese, pode atenuar levas de alienados. A psicologia, ainda, não foi levada a sério como devia. O fato de ter profissionais bem sucedidos, com “nome”, bem instalados e isolados nas suas clínicas ou consultórios não diz muito da realidade desta categoria. Mas, de uma elite profissional para uma clientela tal qual elitista e específica. Se a psicologia for considerada com um produto de luxo, nesta perspectiva estaria tudo nos conformes. Contudo, se desejarmos uma psicologia socializada, a fim de que todas as classes sociais tenham acesso aos seus serviços, então, tem muito no que se pensar, repensar, se juntar e fazer.

A assistência psicológica tem que ser um bem disponibilizado a todo cidadão. O ser humano não é apenas seu corpo, queira quer não ele tem psique. Hoje se fala mais em psicologia, mas, no entanto, ela é pouco efetivada, salvo algumas exceções, no PSF (Programa de Saúde da Família), por exemplo, não tem psicólogo no seu quadro. Talvez, um outro aspecto que contribua para a lentidão da psicologia, seja o fato de que é uma profissão eminentemente feminina, composta na sua maior parte da classe média ou burguesa que busca a psicologia mais como um modo de ajuste para sua vida pessoal. Sendo a maioria destas mulheres casada com engenheiro, médico, etc., assim, o consultório ou a clínica não funciona como meio de subsistência, mas como uma espécie de hobby. Ou seja, não precisam da profissão para sobreviver. A priori não parece ter nenhum mal nisto, mas esta situação, de alguma forma, acomoda a psicologia restritamente a uma classe social ao passo que o resto da população está privado. Considero que as pessoas precisam tanto quanto, ou até mais de psicólogo do que de médico, mas esse acesso não é garantido ou facilitado.

 A psicologia não pode restringir o homem às necessidades psicológicas e emocionais, dissociando-o dos demais segmentos sociais aos quais está interligado. É preciso compreendê-lo na sua diversidade e complexidade, do contrário, a psicologia corre o risco de se resumir a uma atividade reprodutiva. Os psicólogos, de modo geral, têm dificuldade de criticar a sua prática; seu narcisismo e vulnerabilidade os remetem ao refúgio das supostas certezas teóricas como dogmas religiosos. Há um tom meio que de fanatismo pelos postulados de alguns baluartes da psicologia, etc. Mas, o ser humano é muito complexo e interligado a uma série de variáveis que abordagem nenhuma, por si só, consegue dar conta de todas as suas questões. A não ser que seu teórico seja um deus. Uma vez que não é, a ideia da abordagem eclética sugere fazer mais sentido.

Existe uma tendência de alguns psicólogos em sobrecarregar o indivíduo como totalmente condutor do seu destino. Desconhecem a força, a pressão e as exigências do social. Apenas teoricamente é que todos têm as mesmas chances de mobilidade social, na prática pré-determinadas condições se fazem necessárias para as conquistas. Assim, parece meio que irresponsável a sentença: “Se você quer você pode”. Querer não é poder, é desejar, e este não tem um relação direta com conseguir, mas tentar. Na competitividade atual, em que no Brasil é mais forte, não necessariamente o talento, mas a rede de influência de QI (quem indique), eis mais um motivo para não se deleitar no ideário de um sistema dadivoso e justo. O indivíduo, por vezes, se culpa quando não consegue atingir certos patamares, como se estas questões estivessem, obrigatoriamente, a cargo da sua competência. Não podemos relegar as influências das manobras sociais, e acreditar na ilusória igualdade de direito às oportunidades, quando muitos sabem que o “funil” social é perverso.

Infelizmente, o homem teorizado ou problematizado pela psicologia é do século passado. A sociologia, a filosofia, etc., certamente, bem mais antenadas, já conseguem rastrear o perfil desse homem pós-moderno. A psicologia não se renovou ou não se adaptou as exigências deste novo e pirado tempo, os freudianos, os lacanianos e outros, continuam, feitos papagaios, repetindo as mesmas “ladainhas” dos seus mestres, sem retirar nem por uma vírgula. E parece se encontrar num “beco sem saída”: Se por um lado atualizar seus postulados é descaracterizar as abordagens; por outro lado, mantê-los na integra é desconhecer que, se o mundo não evoluiu, pelo menos mudou. Em termos de informática seu crescimento é inegável, apesar de que, menos do que se esperava. E nem mesmo as ciências médicas tiveram excepcional avanço, prova disto é que certas doenças e flagelos arcaicos, ainda, não foram totalmente erradicados. Vez por outra retornam para “dá o ar de suas graças”.

Fazer referência à evolução do homem é complicado, porque não se tem parâmetros para, neste sentido, avaliá-lo, e ele está atrelado ao lado animal. Quando é instinto demais se iguala a um monstro, se os perdem vira máquina. Educação, cultura e boa condição socioeconômica também não têm se mostrado uma eficaz saída, caso fosse o dito primeiro mundo seria um paraíso. Teria o homem melhorado a sua qualidade de ser humano, se tornado mais ético e mais civilizado? Se houve uma evolução da qualidade humana, esta se mostra superficial, tal qual à tecnologia, a informática e outras. Ninguém morre por não ter celular, carro, computador, etc., de última geração. A não ser que seja de inveja. Em que falar e ver com uma pessoa do outro lado do oceano ou do planeta em tempo real; fotografar e filmar com celular, etc., muda substancialmente a real condição da vida humana?

Toda esta parafernália, se por um lado facilita a vida; por outro lado, complica porque acelera o ritmo de vida; aumenta a vigilância e o controle panóptico,além das pessoas ficarem mais vulneráveis a roubo, assalto, etc. Quanto mais imaturo, vazio ou idiota é o sujeito mais ele valoriza esses mimos, e se sente o máximo em fazer uso e ostentar a sua posse. A internet é a porta virtual pela qual se tem a certeza de escapar, mas, sem sair da realidade medíocre. É um imaginário onde todos se encontram pela segurança da certeza de que não estão nesse “lugar”. Tudo isto parece um passa tempo para dissimular a solidão. Os sujeitos se comunicam bastante, mas não dizem nada, apenas se iludem de que estão com este outro das falas. A internet é o espaço do vazio e da exposição, que contempla o homem pós-moderno, no exercício da sua fragmentação. A grande vantagem é que nesta esquizofrenização coletiva o sujeito não se sente marginal, do contrário assume ares de modernidade, e o seu fortalecimento de pertencer a uma tribo, mesmo que virtual. Mas, enfim, a grosso modo o mundo continua tão primitivo quanto ao ato invasivo de tomar injeção.

Uma outra questão diz respeito ao foto de que o senso comum confunde a vida pessoal do psicólogo com a profissional. A representação social do psicólogo é algo próximo a um cyborg. Tem que tolerar, compreender e aceitar tudo, tanto na sua atuação técnica quanto na vida particular. Ouvi de uma advogada o seguinte comentário: “Não gosto de falar na frente de psicólogo, porque se a gente levanta ou baixa o braço, ele está sempre interpretando”. Para esta mentalidade, o psicólogo vive analisando todo mundo o tempo inteiro nos seus gestos mínimos e banais. Então, o psicólogo não teria sua própria vida para conduzir, organizar, etc.? Por que estaria sempre indiscriminadamente voltado para os outros? O mais terrível é que esta imagem robótica do psicólogo, construída pelo social, é incrementada por alguns psicólogos, em nome do que se estabeleceu como “controle emocional”. Este que, muitas vezes, na realidade está mais para “frieza emocional”, retocada por “falinha mansa”, para compor o figurino de “bonzinho” que torna seu “cartão de visita” mais apresentável.

O cidadão no psicólogo foi abduzido pelo técnico, se exige dele que tenha uma postura profissional vinte quatro horas. Não tem o direito de arrotar, de gritar, de chorar pela perda de um amor ou de um ente querido, etc. Ou seja, psicólogo não é gente, é psicólogo. Nesta perspectiva, ser psicólogo é vestir-se de uma armadura, e se privar dos humores comuns a todos mortais. Há sempre o impacto ao se deparar com o psicólogo onde se revela o humano. Logo vem à cobrança: Mais você não é psicólogo?! Deixa implícita uma suspeita de incompetência que, por ser desta área, não devia sofrer ou teria a obrigação de entender (em termos de aceitar). Mas, como o psicólogo pode ajudar o outro a se encontrar ou se reencontrar, aceitar suas emoções, limitações, etc., se ele está enclausurado nos próprios desejos, e encouraçado nas suas emoções? Seu trabalho então seria uma placeboterapia? As emoções são experiências vitais para os indivíduos, seja como fomento para a inteligência, criatividade, ou, simplesmente, pelo prazer de vivenciá-las. O social também exige que o psicológico ostente símbolos de poder sócio-econômico (clínica ou consultório bem montado e, de preferência, bem localizado), e de “normalidade” ou enquadramento (ser casado, ter filho/s).

Na escolha de um profissional, é providencial não somente obter referências sobre sua capacidade técnica, mas também da sua conduta ética e moral. Para o cliente ou paciente relevante é a qualidade da assistência, a vida íntima do terapeuta - bem como de todo pessoa -, somente a ele diz respeito, e a recíproca deve ser verdadeira. Essa história de que o mercado seleciona, de que somente os competentes se estabelecem, em psicologia, não funciona. O público leigo não tem como reconhecer um bom profissional, e isto, o deixa muito susceptível a não fazer uma boa escolha. É hipocrisia não admitir que, assim como em outras profissões, nem sempre os profissionais psis (felizmente uma minoria) têm a ética como fator preponderante. O markting pessoal (em público é vetado pelo código de ética), mas, por vezes, alguns atributos sociais ou a sedução acabam fazendo frente à competência. Enfim, também se deve levar em consideração que muito destes impasses tem a ver com o fato de que a psicologia é pouco divulgada.

O público, em geral, desconhece ou não sabe exatamente o que um psicólogo faz. Isto, em boa parte, facilita a deturpação, até porque a televisão e o cinema raramente passam uma imagem realista, séria e ética dos psicólogos, psicanalistas e psiquiatras. Se a assistência psicológica, com vistas à “cura”, é quase “anoréxica”, no que diz respeito à prevenção praticamente inexiste. Até porque as sociedades estão cada vez mais oscilantes entre a precariedade da saúde mental e da insanidade. Porém, as ciências psicológicasestão às margens da saúde coletiva. Sem contar os hospitais, as clínicas médicas estão sempre lotadas, o que é sintomático, ou melhor, psicossomático, ou mesmo psicológico. A procura do psicólogo ainda é muito pouco em relação à necessidade da demanda social. Isto acarreta uma perda potencial e real para população, e para os profissionais que não conseguem se fazer mais visíveis e mais atuantes na sua função social.

O que traz ou provoca transformação implicar em algum esforço e sacrifício, o social quer o caminho mais fácil, em parte até se compreende porque a luta para sobreviver exaure quase todas as forças. A sociedade se pauta mais pelo que pode ostentar, e não pelo que de fato é a sua natureza, se contenta com e na camada mais superficial do seu verniz. A futilidade e a vulgaridade, seja na literatura, na internet, no cinema, etc., tende a fazer sucesso. Nas sociedades dos descasos e carências, o “pão” e o “circo” políticos, não conseguem ser um escoadouro para tantas frustrações, etc. Quase não tem espaço para as reflexões e elaboração das subjetividades, e sim para os gozos simples e vulgar. A representação social, embora seja a soma do pensar dos indivíduos, porém a força do social atua nos seus atores de modo mais dominante do que se possa acreditar. Estes, na sua individualidade parecem, por vezes, indefesos perante a contundência impositiva das vontades sociais.

A maioria dos conflitos se dá em torno das questões que ele não consegue harmonizar com as instituições família, empresa, etc. O indivíduo esbarra no social, este que não tem concessão onde não encontra alguma representação de poder. É muito orientado pelas polaridades do isso ou aquilo, pela lógica do que lhe convém ao seu pragmatismo e imediatismo, mesmo que para isto deixe explícitas a sua hipocrisia, incoerência e insensatez. O cidadão é muito sensível à rejeição do social, muitas vezes se anula ou se agride para não sentir o mal estar de ser colocado às margens. A exclusão social parece um das mais terríveis formas de anulação do homem. Mesmo que o indivíduo possa ter ou provocar alguma mobilidade, o social é sempre mais forte do que a pessoa do indivíduo. A sociedade é “maravilhosa” para os possuidores, e assim, cabe aos despossuidores o cuidado de não serem massacrados nos seus direitos básicos.

Nos sistemas sociais fortemente orientadas pelo dinheiro, o ser humano não é prioridade, o ter se sobre sai em detrimento do ser, e isto é um grande mal, uma enorme patologia. É somente reconhecendo a sua patologia que as sociedades poderão forjar nichos de saúde mental. A eterna insatisfação que tem como linha condutora o ter, é o “saco sem fundo” que nunca é possível de ser preenchido. Para, Baudrillard (apud COSTA, 2005), “a moral do gozo substituiu a coerção do trabalho e da produção pela ´obrigação de ser feliz`, que é sempre acompanhada da experiência de insaciabilidade emocional” (p.139 - grifo do autor). Ou seja, “a sociedade de consumo consegue tornar permanente a insatisfação” (BAUMAN, 2007, p.106). Porém, “nem é abundante para ricos, nem pobres, pois o objetivo é regular a escassez de bens materiais ou simbólicos” (COSTA, 2005, p.139 - grifo do autor).

Nestas sociedades dialéticas, contraditórias e paradoxais, forjam-se, por meio da racionalidade e dos meios de produção, a ilusão de ajustamento, normalidade e sanidade mental, porque dão lucro. A esquizofrenia rompe com o capitalismo, este que não consegue inseri-lo no sistema de produção. Diria que o capitalismo adoece para produzir, e produz para adoecer. Assim, nenhuma mudança será substancial em qualquer sociedade se o potencial humano não for verdadeiramente valorizado. Mas como conciliar dois aspectos antagônicos, seria possível humanizar o capitalismo?  Parece que não, mas se não podemos transformá-lo, pelo menos devemos tentar tornar as sociedades, de fato, mais justas, e, como consequência disto, menos desumanas.

Segundo Foucault (1995, p.21), “enquanto o homem racional e sábio só percebe do saber algumas figuras fragmentárias - e por isso mesmo mais inquietantes -, o Louco o carrega inteiro em uma esfera intacta: essa bola de cristal, que para todos está vazia, a seus olhos está cheia de um saber invisível”. Infelizmente, ainda estamos na pré-escola para soletrar as palavras desse saber, mas o primeiro passo para entendê-lo é desistirmos desta ilusão de que somos normais, e reconhecermos a loucura que há em cada um de nós. Assim, será possível decorrer algumas páginas da cartografia da loucura, tomando-se por base à própria loucura como marcador de texto na perspectiva dessa leitura.

Finalmente, é preciso que os psicólogos se empenhem quanto classe para garantir seu lugar, até porque há sempre alguma área que quer ou tenta invadir este território. Acho que o futuro desta ciência não está garantido. Mesmo com alguma competência psi não consegue se impor em equipe multidisciplinar.Temo que a psicologia se torne um objeto perdido. Assim, que os homens e as mulheres que fazem à psicologia deixem suas neuras de lado, para assumir quanto categoria uma postura mais atuante na sociedade. Esta ciência não é apenas bela e interessante, é necessária.

NOTAS

1. Por motivos éticos, para evitar possíveis associações, os dados pessoais dos pacientes foram alterados ou não correspondem exatamente aos seus perfis.

2. Segundo Weil (2003, p.22), “a normose pode ser definida como o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou pela maioria em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte”.

Livro do Autor Valdeci Golançalves

Referencial

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