Saiba quais os primeiros textos escritos em terra brasileira, desde a literatura de informação quinhentista até literatura jesuíta. Pressione TAB e depois F para ouvir o conteúdo principal desta tela. Para pular essa leitura pressione TAB e depois F. Para pausar a leitura pressione D (primeira tecla à esquerda do F), para continuar pressione G (primeira tecla à direita do F). Para ir ao menu principal pressione a tecla J e depois F. Pressione F para ouvir essa instrução novamente.

Título do artigo: Literatura Colonial brasileira – os primeiros textos escritos em nossa terra

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1. A literatura de informação quinhentista (1500-1601)

Com a expansão ultramarina, as terras recém-descobertas ganharam o olhar dos inúmeros viajantes que sobre elas escreviam. Cumprindo com a missão de relatarem com detalhes como eram as novas terras, os viajantes davam informações sobre a fauna, a flora, recursos minerais, geografia e sobre os seus habitantes e costumes. Tais relatórios, chamados de “crônicas de viagem”, por seu caráter mais objetivo, de linguagem referencial e denotativa, são considerados mais como documentos históricos do que como literatura. As produções propriamente literárias só vão aparecer no século XVII, em pleno efervescer do Barroco. No entanto, as cartas dos viajantes são os primeiros registros escritos das colônias, sendo agrupadas, por seu intuito informativo-descritivo, sob o título de “literatura de informação”.

Entre os principais escritos da época está a “carta a El-Rei Dom Manuel”, de Pero Vaz de Caminha, considerada a “certidão de nascimento do Brasil”: vamos ler um fragmento, para em seguida observarmos seu propósito, linguagem e temática.

“E neste dia, a hora de véspera, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente d’um grande monte, mui alto e redondo, e d’outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e a terra a terra de Vera Cruz.

E dali houvemos vista d’homens, que andavam pela praia, de 7 ou 8, segundos os navios pequenos disseram, por chegarem primeiro.(...) A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados, de bons rostos e narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como tem em mostrar o rosto.

O capitão, quando eles vieram, estavam assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestidos, com um colar d’ouro mui grande ao pescoço. (...)Um deles, porém, pôs olho no colar do capitão e começou d’acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata.

E uma daquelas moças era toda tinta, de fundo a cima, daquela tintura, a qual, certo, era tão bem feita e tão redonda a sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais, feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela.

Nela até agora não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem nenhuma cousa de metal, nem de ferro; nem olho vimos. A terra, porém, em si, é de muito bons ares, assim frios e temperados como os d’Antre Doiro e Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem. Mas o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.”

Carta ao Rei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil

A Carta de Caminha também marca o início de uma longa tradição nativista, ufanista, por ser a pioneira em exaltar as virtudes da nova terra e dos índios, pintando a colônia como um verdadeiro paraíso.

Carta de Pero Vaz de CaminhaSubscrita pelo autor em 1º de maio de 1500, na Baía de Porto Seguro, a carta de Caminha tem 27 páginas e mais uma de rosto e foi descoberta na Torre do Tombo (arquivo nacional português) em 1773. Seu grande valor histórico deve-se ao fato de ser ela o mais rico e confiável relato da primeira semana após o descobrimento. Sua peculiaridade em relação a outras crônicas é que Caminha soube revesti-la de características da literatura de viagem quinhentista. A linguagem clássica é simplificada pela necessidade de objetividade e clareza, as observações buscam precisão e realismo, construindo uma crítica equilibrada, o espírito humanista se faz presente na curiosidade das descobertas e na constante capacidade de maravilhar-se com elas.

A carta de Caminha é considerada mais reveladora e bem escrita que a de Américo Vespúcio, autor que, pela fama alcançada por seu relato, deu nome ao “novo” Continente.

Além da “carta a El-rei Dom Manuel”, outros textos informativos lograram destaque:

  • “Tratado da terra do Brasil e Historia da Província de Santa Cruz a que vulgarmente foi chamada de Brasil”, de Pero Magalhães Gândavo;
  • “Tratado descritivo do Brasil”, de Gabriel Soares de Sousa;
  • “Diálogos das grandezas do Brasil”, escrito em 1618 por Ambrósio Fernandes Brandão.

Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias

I
Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não geram escravos,
Que estimem a vida Sem guerra e lidar.
- Ouvi-me, Guerreiros.
- Ouvi meu cantar.

II
Valente na guerra
Quem há, como eu sou?
Quem vibra o tacape
Com mais valentia?
Quem golpes daria Fatais, como eu dou?
- Guerreiros, ouvi-me;
- Quem há, como eu sou?

III
Quem guia nos ares
A frecha imprumada,
Ferindo uma presa,
Com tanta certeza,
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
- Guerreiros, ouvi-me,
- Ouvi meu cantar.

IV
Quem tantos imigos
Em guerras preou?
Quem canta seus feitos
Com mais energia?
Quem golpes daria
Fatais, como eu dou?
- Guerreiros, ouvi-me:
- Quem há, como eu sou?

Gonçalves Dias

2. Literatura jesuítica

Os jesuítas, agentes da Contrarreforma, foram os responsáveis pela educação durante o período colonial. Justificados por um ideal missionário, foram os principais agentes da destribalização dos índios e da sua absorção pelo mundo “civilizado”, incutindo neles os valores de uma educação europeia.

De intenção pedagógica e moralizante, os textos desta época têm caráter mais didático que artístico. Nessa linha, inclui-se o Padre Manoel da Nóbrega, com o seu “Dialogo sobre a Conversão dos Gentios”, e o Frei Vicente Salvador, com a sua “História do Brasil”. Merece destaque, contudo, o Padre José de Anchieta, única figura, em todo o século XVI, que ultrapassou as fronteiras do meramente informativo para alcançar o plano artístico-literário.

Os jesuítas vieram para o Brasil com o objetivo de expandir a fé católica entre os índios. Seus textos foram escritos com a intenção de catequizar os índios, além de reforçar, nos colonos, a moral cristã. Aqui eles tinham o monopólio da educação e ensinavam tanto aos índios como aos filhos de colonos. Escreveram poesia de devoção, teatro de caráter pedagógico, com cenas baseadas em trechos bíblicos, e cartas informando aos superiores, na Europa, sobre o seu trabalho no Brasil.

  • Diálogo sobre a conversão dos Gentios (1557), do Padre Manuel da Nóbrega.
  • História do Brasil (1627), do frei franciscano Vicente do Salvador, que relata nossa história até o século XVII.
  • Teatro, cartas e poesias de José de Anchieta (1524-1597). Seus poemas seguem a tradição medieval do teocentrismo, assim como os outros encenados à beira-mar por jesuítas, colonos e índios. Escreveu, também, a primeira gramática do tupi-guarani, verdadeira cartilha para o ensino da língua dos nativos (Arte da Gramática da Língua, a mais usada na costa do Brasil).

O teatro de Anchieta: Anchieta foi o introdutor do teatro no Brasil. Suas peças eram inspiradas na tradição do teatro medieval europeu, tendo como principal modelo os autos de Gil Vicente.

A poesia de Anchieta: Também de inspiração medieval, a poesia mística de Anchieta traduziu a visão teocêntrica do mundo, por meio de uma estrutura poética também medieval, composta pela medida velha (redondilhas maiores e menores).

Organização: Sérgio Rodrigues